Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

Lou Reed e a máquina do ruído


É um álbum maldito da história do rock (e se formos rigorosos, de toda a história da música). Lou Reed, uns anos após o fim dos Velvet Underground, em 1975, grava essa infâmia e embuste (para uns) ou obra genial e premonitória (para outros tantos): "Metal Machine Music".
Num aspecto todos estão de acordo: trata-se de um registo radical, concebido e gravado sem concessões, feito à base de feedback de guitarra e de manipulação de ruído branco. Reed diz que gravou o disco completamente pedrado. Acredito. Já foi considerado o pior álbum de rock de sempre e já foi incluído na lista dos discos mais inovadores de sempre. Em que ficamos?
Na verdade, o disco vale sobretudo como testemunho conceptual, mais do que estritamente musical. Deve tanto ao rock de guitarras dos Velvet como aos princípios estéticos e teóricos de La Monte Young, de John Cage ou dos concretistas Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Deve também à teoria dos "intonarumori", as célebres máquinas de produzir ruído industrial do futurista italiano Luigi Russolo.
E é um disco que influenciou artistas tão diversos como os Sonic youth, ou os Throbbing Gristle, Merzbow e todos os subgéneros do noise, do industrial e do electro-acústico. Ouvi-lo não será o mesmo que ouvir Robert Wyatt ao entardecer enquanto se bebe um Martini (que raio de associação).
Ao longo destes 30 e tal anos, não acredito que alguém, alguma vez, tenha ouvido "Metal Machine Music" do princípio ao fim sem ter tido lesões cerebrais irreversíveis. Mas quem sabe, tratar-se-ia de uma experiência limite no teste à capacidade auditiva humana. Não eram os Einstürzende Neubeutan que defendiam que "é preciso ouvir com dor"?
O disco já foi apresentado ao vivo por diversas vezes, como demonstra esta actuação do colectivo de música experimental Zeitkratzer com a própria presença de Lou Reed:

4 Sábio(s) comentário(s)::

manuel disse...

O Rock Bottom e martini é uma excelente sugestão!!!

|Fly| disse...

Sei demasiado. Ouvi esta obra do começo ao fim na juventude. Quem sabe seja o motivo este de toda a loucura subsequente. Creio que não, mas os censores precisam sempre culpar a algo, não é mesmo?

Tulipa disse...

lesões cerebrais irreversíveis?será? está tudo explicado então, ouvi demasiadas vezes :)

NanBanJin disse...

É, a meu ver, um disco bastante agradável comparado com verdadeiras "armas" a proibir ao abrigo da Convenção de Genebra (ex.: "Dementia In Exelsis — Live in L.A." dos T.G., ou [pior] o "Venereology" do Merzbow — esses sim, até suspeito que alguém terá tido a tentação de os usar em Guntanamo ou no Afeganistão...)

Aquele Abraço,
Luís Afonso, NBJ, Japão