
Em Outubro de 2007, um artista desconhecido chamado
Guillermo Vargas, mais conhecido por
Habacuc, resolveu colocar numa exposição de arte
um cão para morrer à fome. Os protestos foram à escala planetária e motivaram, inclusive, várias petições internacionais contra a pretensa crueldade do artista. Para quem se sentiu chocado com esta ousadia artística contra um animal, deverá ler com atenção
esta notícia do Público, que dá conta de um artista alemão que quer usar um cadáver humano ou, mais apropriadamente, uma pessoa a morrer por doença terminal como objecto artístico numa galeria de arte. Ao que parece, o artista pretende mostrar que a “morte pode ser bela”. Pois.
Quando a arte põe em causa princípios éticos sobre a utilização da vida (e da morte) humana, as coisas ficam sérias e importa questionar: quais os limites da arte? Que dignidade existe na utilização de alguém morto ou prestes a morrer numa exposição? Qual a margem de oportunismo barato e de marketing comercial por detrás desta opção do artista alemão? A morte sempre foi retratada nas mais diversas formas de expressão artística – da pintura à literatura, da poesia à música, da fotografia ao cinema. Mas uma coisa é retratar a morte de forma ficcionada, outra bem diferente, é utilizar um ser humano que vai morrer a qualquer momento para ser exposto numa galeria de arte! E seguindo o princípio do artista, o que há de belo em morrer de doença terminal, com sofrimento e angústia? Que sentimentos poderiam provocar nos familiares e amigos a pessoa que se sujeitasse a tal exposição pública do seu próprio sofrimento? Sou daqueles que pensa que, paradoxalmente, a morte continua a ser dos últimos tabus da sociedade moderna (já não é o sexo, o aborto, a eutanásia ou outros temas sociais que dividem a opinião pública). Nunca me chocou ver a morte representada na arte, nem sequer me repugnam as propostas artísticas mais radicais e provocatórias (pelo contrário: atraem-me), mas desta maneira?
Apesar de haver quem pense que esta questão implica a ruptura conceptual da arte - como se de uma “Fonte” de Duchamp se tratasse – a questão é bem mais séria e profunda. A matéria artística que Gregor Schneider pretende utilizar é a própria decomposição carnal de alguém, não só captando o momento da morte em si, como também o processo de decomposição cadavérica. É arte? É aberração sem sentido? É transgressão de fronteiras estéticas? É espectáculo fútil e barato? Provocação pueril? Isto é o quê, afinal?
Nota: na imagem, uma das mais célebres representações da morte da história da pintura: "The Death of Marat", pintura de Jacques-Louis David, 1793.