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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

A hora do documentário


A Fnac está a promover uma secção de documentários que importa referenciar, numa altura em que este género cinematográfico adquire cada vez mais importância artística e aceitação pública (recorde-se que a recente Palma de Ouro no último festival de Cannes foi entregue a um documentário francês – “Entre Muros”). Os festivais temáticos sobre documentários multiplicam-se - vai começar o importante “Doc’s Kingdom” em Serpa - e os realizadores, amadores e profissionais, assumem que o documentário é, objectivamente, um poderoso instrumento de intervenção sobre o real social e político (Michael Moore ou Errol Morris que o digam).
Voltando à promoção da Fnac: são apenas treze títulos em DVD, mas são treze documentários que revelam diversas e interessantes facetas do mundo actual. Destaques para o documentário “A Ponte” de Eric Steel sobre o suicídio na ponte de São Francisco; “Shakespeare Atrás das Grades” de Hank Rogerson, sobre uma experiência teatral com reclusos a cumprir pena por crimes violentos; "Diários da Bósnia" do português Joaquim sapinho, acerca da terrível memória da guerra balcânica; “Ao Encontro de Fidel”, de Oliver Stone, resultado de horas de entrevistas com o carismático líder cubano; o recente e polémico “Sicko” de Michael Moore sobre o estado do sistema de saúde americano; ou premiado “Terror em Setembro” de Kevin McDonald, que visa a abordagem ao terrível atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de 1972 (em Munique). São documentários que possibilitam olhares únicos sobre o mundo, visões sobre distintas perspectivas de sentir e reflectir a vida, a política, as artes e, em suma, o homem.

Domingo, 25 de Maio de 2008

Cannes e os prémios


Este Domingo foram atribuídos os prémios da 61ª edição do Festival de Cinema de Cannes. A desejada e sempre muito competitiva Palma de Ouro foi ganha pelo realizador francês Laurent Cantet, pelo filme "Entre Les Murs", sobre a problemática das relações entre professores e alunos num liceu francês. Apesar de não ter visto, obviamente, nenhum filme a concurso, fiquei ainda assim contente pelo facto do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan ter ganho o não menos desejado prémio de Realização com o filme "Three Monkeys".
É que Nuri Ceylan é, indiscutivelmente, um dos mais singulares e originais cineastas da actualidade, herdeiro da sensibilidade estética de um Antonioni ou de um Tarkovski. Tem apenas seis filmes no activo, dois dos quais são verdadeiras peças de relojoaria em forma de imagens e sons: "Uzak" (2002 - ganhou 17 prémios internacionais e o Grande Prémio do Júri em Cannes 2003) e "Climas" (um dos melhores filmes de 2006 - seleccionado à Palma de Ouro em Cannes desse ano). A linguagem de Nuri é minimalista, feita de silêncios e gestos, de meditações existenciais, de longos e belos planos de personagens e paisagens que se complementam. Um cinema de grande exigência formal e visual (tem um passado de fotógrafo e essa preocupação nota-se na qualidade plástica dos seus filmes).
Veja-se o magnífico trailer do filme "Three Monkeys" que acaba de vencer o prémio de realização de Cannes. Em escassos 70 fabulosos segundos de trailer, percebemos que Nuri Bilge Ceylan é um esplendoroso fazedor de imagens. Ah, e atente-se também ao som, parceiro irrefutável do seu cinema. Um filme muito aguardado, portanto.

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Ugh!

Mas afinal quel é o problema deste senhor?

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

O Woody Allen sem esperança

A fazer valer as reacções criticas ao último filme do Woody Allen - “Vicky Cristina Barcelona” - estreado no festival de Cannes, estaremos perante um dos filmes mais fracassados e desinspirados do autor de “Hanna e Suas Irmãs”. João Paulo Alcobia (enviado da Antena 3) chega mesmo a classificar o filme como o “pior” da carreira do realizador nova-iorquino. As criticas internacionais também não são muito animadoras. A ser verdade, era algo que se esperava que acontecesse, mais ano, menos ano. Quem faz filmes a um ritmo de um por ano acaba, tendencialmente, por comprometer a qualidade e a regularidade criativas. O último grande filme de Allen da última década é, sem dúvida, o espantoso “Match Point”, um retrato negríssimo da alma humana, da casualidade da vida, da imprevisibilidade do amor e dos efeitos hediondos da ambição revestida de obsessão. Quase, quase ao mesmo nível de “Match Point” está o filme “O Sonho de Cassandra” (2007), outro fresco brutal sobre as paixões humanas extremas que levam à morte, à destruição das relações, ao desabar do sonho de dar sentido à existência (“Scoop”, de 2006 é já uma comédia mediana com parcos rasgos de criatividade assinaláveis).
Os dilemas morais e existenciais, as angústias e medos interiores que perpassam por estes dois filmes da carreira de Woody Allen tomam proporções emocionais insuportáveis. Para os personagens e para os espectadores. São duas obras de um pessimismo pragmático (longe das coordenadas do humor “nonsense” a que nos habituou Allen) que olham a condição humana com uma frieza perturbante e cínica, pejada de pecados infames, sem apaziguamentos de qualquer ordem moral, sem esperança nem redenção. Woody Allen já tinha mostrado ao mundo um filme que espelhava esta visão desesperada da moral ambígua, quando realizou o sublime filme “Crimes e Escapadelas” (1989), com um Martin Landau estarrecedor. É como se autores pessimistas como Schopenhauer, Emile Cioran e Thomas Bernard contaminassem o espírito de Woody Allen a cada novo filme (à excepção deste último em Cannes, que parece ser um regresso ao registo de comédia light).
“Match Point” e “O Sonho de Cassandra” podem ser considerados um díptico e, se juntarmos o referido “Crimes e Escapadelas”, teremos a configuração de um portentoso tríptico. É a veia mais lúgubre e arrasadora de Woody Allen, que destila crimes sem sentido, mortes por “obrigação moral”, ódios mundanos e metafísicos, desnorte existencial e pitadas de um subtil humor negro. São obras que ficarão para a história do cinema como referências absolutas de um cinema de autor extremamente pessoal, que desenvolveu uma abordagem temática própria. Uma temática com preocupações filosóficas e morais que belisca (se é que não queima) o conceito que temos de natureza humana, de esperança na vida, no mundo e no homem. É o Woody Allen mais exitencialista que se possa imaginar, sem esperança de redenção nem fé no que quer que seja.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Foto do dia

Manoel de Oliveira, cineasta português, a ser homenageado no festival de Cannes. Cumprimento de outro grande cineasta, Clint Eastwood, 23 anos mais novo que Oliveira. Duas enormes personalidades do cinema para uma bela imagem que dignifica a arte de ambos, de todos, de sempre.

Domingo, 18 de Maio de 2008

Amália em filme... brevemente



É uma iniciativa inédita de marketing: no festival de cinema de Cannes foi promovido um filme português que... ainda nem começou a ser filmado. O filme pretende ser uma biografia da maior voz do fado português, Amália Rodrigues. Vai começar a ser rodado em breve, intitula-se "Amália - a Voz do Povo", terá a realização assegurada por Carlos Coelho da Silva e a produção de Manuel da Fonseca (Valentim de Carvalho e RTP). Quem irá assumir a grande responsabilidade de encarnar Amália? Uma jovem debutante no cinema chamada Sandra Barata Belo. Não se lhe conhecem dotes interpretativos ou vocais mas, pelo menos fisicamente, é muito parecida com Amália Rodrigues. Assim, os jornalistas nacionais e estrangeiros no festival de Cannes ficaram a saber, porventura com um ano de antecedência face à provável data de estreia (em Cannes 2009?), que Portugal se prepara para lançar ao mundo um filme sobre a cantora de "Povo Que Lavas No Rio". A isto se chama fazer bem o trabalho de casa.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

O dia em que fui a Cannes (ou quase)


Hoje tem início a 61ª edição do Festival de Cinema de Cannes. O mais competitivo, mediático e afamado festival de cinema do mundo. Existem os prestigiados festivais de Veneza, Berlim, Sundance, mas nenhum se compara, em importância e glamour, ao de Cannes. E não há realizador no mundo, novato ou veterano, que não gostasse de ter os seus filmes a concurso neste festival ou, claro, ganhar a Palma de Ouro. Claro que Cannes é, também um mundo inesgotável de negócio (que o diga Paulo Branco) e de comércio, mas isso faz parte da essência de qualquer festival. Claro que também há frivolidades andantes, figuras públicas e estrelas de pacotilha que se pavoneiam pela carpete vermelha. No entanto, o cerne de Cannes sempre foi e será o cinema, os filmes, os artistas. Isso é que fica para a posteridade.
Poucos serão os cinéfilos que não gostariam de poder assistir ao festival. Sentir o frémito e as emoções resultante do visionamento dos grandes filmes a concurso, partilhar os aplausos ou os apupos aos filmes, assistir às concorridas conferências de imprensa com realizadores e actores, sentir o ritmo frenético da exibição dos filmes em catadupa, as várias secções competitivas, etc.
Foi o que tentei fazer um dia, ir a Cannes - através de um concurso nacional. Foi em 1990 e o concurso, designado, "Sê um Crítico de Cinema e vai a Cannes!" (cito de memória) era dinamizado pelo Instituto Português da Juventude. A coisa funcionava de forma muito simples: qualquer jovem com menos de 25 anos podia participar; bastava ver um filme que na altura estivesse em cartaz e escrever uma crítica ao mesmo. Os autores das 20 melhores críticas nacionais eram seleccionados para irem a Lisboa verem outro filme, outra crítica e, a melhor considerada pelo júri, tinha como prémio ir ao festival de Cannes durante dois dias (ou três, já não me recordo) com todas as despesas pagas.
Fui seleccionado para os 20 participantes de Lisboa com a crítica ao filme "Presumível Inocente" (1990) de Alan J. Pakula (com Harrison Ford), um muito interessante thriller que marcou aquele ano de cinema. Lá fui a Lisboa para a competição final, sempre com Cannes em vista. Cheguei numa sexta-feira. Logo nessa noite, eu os restantes concorrentes decidimos assistir a uma sessão num sítio óbvio, a Cinemateca. Recordo-me que vimos um clássico mediano do Raoul Walsh. O grupo de concorrentes era constituído por jovens estudantes de todo o país, e a única coisa em comum entre todos era a paixão pelo cinema. No sábado seguinte, logo de manhã, eu os outros 19 participantes oriundos de todo o país, fomos visionar o filme para a crítica final que iria decidir quem iria a Cannes. Era um filme tão medíocre e comercial que já nem me lembro que objecto era aquele. As críticas foram entregues ao júri que deliberou no dia seguinte. Quem ficou em primeiro lugar foi um jovem de Lisboa que ganhara o privilégio de conhecer Cannes. Eu fiquei em 4º ou 5º lugar e tive direito a um prémio de consolação: um bilhete para assistir ao Estoril Open! Como não gosto de ténis, despachei logo o dito cujo para outra pessoa interessada. Ir ao Estoril Open em vez de ir a Cannes era consolação para quem quer que fosse?
Foi a única vez que estive perto de ir a Cannes, por intermédio de um concurso juvenil, imagine-se. Talvez um dia programe umas férias em Maio na Côte d'Azur para servir de pretexto para conhecer o festival.