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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

O videoclip da polémica

Um vídeo do duo francês de música electrónica Justice está a provocar um aceso debate em França sobre a utilização da Internet como veículo de expressão artística. O vídeo da música Stress acompanha um grupo de jovens dos subúrbios de Paris que provoca distúrbios por onde passam – roubo, assédio, destruição de um café, confrontos com a polícia, carjacking, terminando com a queima de um veículo. Há já sociólogos e analistas que defendem e condenam o conteúdo violento do videoclip, revelando influências dos filmes “O Ódio”, “Manual de Instruções para Crimes Banais” ou “Laranja Mecânica”. A mim parece-me que, a haver influências, essas são do realizador Chris Cunningham, autor de alguns dos melhores videoclips da última década (“Come to Daddy, Rubber Johnny), criador visual de grande requinte formal e estilístico. E Stresstem a marca visual de Cunningham.
Tirando as eventuais influências, eu julgo que este videoclip é, sobretudo, um bom golpe de marketing. Nada melhor do que pegar no sempre escaldante tema da violência racial e de subúrbios para motivar os holofotes da comunicação social e agitar a opinião pública. A direcção artística do videoclip está convincente e bem conseguida, mas repare-se como a sonoplastia/cacofonia sonora se sobrepõe à própria música (ouvem-se mais ruídos gerados pela violência do que a própria música). Por isso parece haver uma confusão de referências conceptuais. Por um lado é um videoclip para promover uma música, por outro parece ser um manifesto sobre a violência e as suas diversas formas de manifestação. Os Justice defendem que quiseram fazer uma paródia à forma como a comunicação social tratou o tema da violência aquando dos motins em França, há dois anos atrás. Nada mais errado. Aqui não existem quaisquer indícios de paródia, mas sim violência gráfica directa e frontal, que pretende passar por "séria" e "realista". A violência gratuita pela violência gratuita com intuito de "chocar" (quem?). Num panorama audiovisual diário apinhado de imagens de violência, este videoclip só chocará os mais sensíveis e incautos.
E que ninguém compare este objecto aos filmes citados (sobretudo "Laranja Mecânica" de Kubrick). O realizador de “Stress” é Romain Gravas – filho do realizador Costa-Gravas –, e tem recebido as mais variadas críticas. Não admira. A violência está muito bem encenada, só que muito mal contextualizada. Qual é verdadeiramente a mensagem do videoclip? Não acredito que seja no sentido de incitar a actos violentos como os que são mostrados nestas imagens. Seria demasiado ingénuo pensar isso. Parece-me é que os músicos dos Justice não pensaram convenientemente nas consequências. Ou então pensaram demasiado bem e agora sofrem (ou beneficiam, conforme a perspectiva) com as opções tomadas.

Sábado, 24 de Novembro de 2007

Chris Cunningham - o videoclip como arte



Na história recente da cultura do videoclip (antigamente desingado teledisco), há cinco ou seis grandes realizadores que deixaram marca autoral: David Fincher (agora realizador de cinema), os conhecidos Spike Jonze e Michel Gondry, Floria Sigismondi (autora do célebre "The Beautiful People" de Marilyn Manson, entre outros), Jonathan Glazer (realizou em 2004 o interessante "Birth" com Nicole Kidman) e Chris Cunningham.

Este último é, para O Homem que Sabia Demasiado, o maior de todos, ainda que a sua produção seja, porventura, menor em quantidade relativamente aos restantes realizadores. Realizou spots publicitários (Playstation, por exmeplo), videoclips para artistas pop mainstream - Madonna e Björk e para seminais projectos da electrónica experimental - Autechre, Aphex Twin, Squarepusher (da editora Warp Records). Para a cultura do audiovisual da década de 90 ficará para sempre esse impressioante documento que é "Come to Daddy" (1997) de Aphex Twin, verdadeiro compêndio simbiótico de negritude estética, cibernética alienada, música libertária e imagens em erupção catatónica. Aprendeu com o mestre: Stanley Kubrick, com quem trabalhou um ano para o projecto nunca concluído "I.A." (posteriormente realizado por Spielberg).

Em 2005, Cunningham realiza uma espécie de sequela de "Come to Daddy", onde um corpo mutante e disforme (reminiscências das mutações genéticas de David Lynch e David Cronenberg) chamada "Rubber Johnny" dança, de forma aterradora, uma polirrítimca música de... Aphex Twin. Já não é propriamente um videoclip com a estrutura convencional, é antes um formato mais ambicioso, próximo da curta-metragem de ficção. E é outro legado insusbtituível da cultura das imagens para a primeira década deste novo milénio.

Last but not least: Chris Cunningham prepara, já há algum tempo, a adaptação para cinema do célebre livro da cultura cibernética "Neuromancer" do guro tecnológico William Gibson. Aguarda-se nada menos do que uma bomba.