No passado dia 27 passou mais um aniversário da morte de
António Oliveira Salazar, esse lúgubre timoneiro da pátria durante 40 obscuros anos da vida portuguesa. Como professor, lido com muitas crianças e jovens. E ano após ano, quase sempre por ocasião do 25 de Abril, tenho-me deparado que as novas gerações revelam mais desconhecimento e ignorância perante o Portugal salazarista e do Estado Novo (e esta constatação não advém apenas da preocupação recentemente veiculada pelo Presidente Cavaco Silva). A última vez em que pude constatar mais um flagrante exemplo de ignorância dos jovens perante o período do Estado Novo e da figura de Salazar, foi no dia 27 de Maio. Nesse dia, o Café Concerto do
TMG recebeu o músico e cantor
Pedro Abrunhosa para uma conversa numa tertúlia informal (moderada por mim). Durante uma hora e meia, os temas da conversa foram variados (de música à política) e sempre objecto de uma análise acutilante por parte de Pedro Abrunhosa.
Goste-se ou não da sua música (e eu não gosto) ou da sua imagem (e eu não gosto), a verdade é que Abrunhosa revela um discurso fluente, assertivo e pragmático - com opiniões próprias. Considera que as suas opiniões são quase sempre inconvenientes e inconformadas, fruto da sua formação política adquirida ainda muito jovem (foi no 25 de Abril, quando o cantor tinha 13 anos, que a sua consciência social e política desabrochou). Pedro Abrunhosa confessou-se desiludido com a classe política, com o estado débil da democracia e com o conformismo da sociedade portuguesa perante os problemas crescentes. Considera que os políticos deveriam ouvir o que têm para dizer os artistas (filósofos, músicos, escritores), visto que encontra na arte o último recurso para desvendar novas soluções para os problemas da sociedade. Defende ainda que o papel da arte deve ser o de subverter e o de inovar, de modo a alargar os horizontes culturais, ideológicos e estéticos da população.
E onde se encaixa o tema de Salazar neste contexto? Aqui: num determinado momento da conversa, Abrunhosa disserta sobre o panorama político, soltando as mais rudes críticas à actuação dos políticos perante uma depressiva situação social e cultural do pais. Num dado ponto do seu discurso, refere o estado lastimoso a que chegou a educação e a gritante ausência de coordenadas políticas no sector cultural. Quando os espectadores da tertúlia puderam intervir formulando perguntas ao cantor, houve uma jovem estudante (do secundário ou superior, não posso precisar) que fez a seguinte pergunta (cito de memória): "o Pedro Abrunhosa disse que a educação em Portugal está má e que isso se deve ainda à herança de Salazar; mas não concorda que Salazar era um maior defensor da educação e da cultura do que os actuais políticos?". Pedro Abrunhosa respondeu peremptoriamente que não concordava, e passou a explicar porquê, dando uma autêntica aula de história de Portugal à jovem. No fundo, explicou o óbvio a uma estudante que ignorava os factos ou fazia de conta que os desconhecia: referiu porque é que o ditador do antigo regime era um político amarrado no tempo, avesso ao progresso, retrógrado nas ideias, ultra-conservador e responsável pelo atraso cultural, educativo e social de um povo aprisionado na trilogia dos três F’s defendida por Salazar: Fátima, Futebol e Fado.
Não sei se este caso desta aluna reflecte a realidade geral dos jovens, mas a verdade é que grassa muita ignorância sobre os valores perniciosos do regime fascista e sobre as conquistas da Revolução de Abril. Culpa das escolas? Dos políticos? Dos jovens que vivem afanosamente o presente e desprezam a história do passado recente? Da contra-informação disponível na net que legitima a figura fascista do "Obreiro da Pátria"? É que basta entrar
neste site para ficar, seriamente, assustado (o desvario vai ao cúmulo de se lançar um abaixo-assinado para substituir a designação de ponte 25 de Abril por ponte Oliveira Salazar!).