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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Os leitores são todos velhos?


São duas revistas sobre música. Duas referências na divulgação da música pop-rock. Estas são as capas dos últimos números das revistas "Uncut" e "Mojo". Na capa, grupos que foram referências há mais de 30 anos: Sex Pistols e Crosby Stills Nash & Young. É uma tendência recorrente na imprensa musical internacional e nacional: capas com músicos ou grupos com 30 ou 40 anos e, pior ainda, que já nem sequer existem. Repare-se em Portugal o que tem acontecido com a revista Blitz, única publicação sobre música. No último ano, as capas têm sido praticamente apenas sobre grupos com décadas de existência: Doors, Joy Division, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Police, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen... Haverá uma razão para esta opção? Significará que os leitores destas revistas já não são jovens e, consequentemente, as respectivas referências musicais dizem respeito ao passado (longínquo)? Ou trata-se apenas de um fenómeno passageiro de revivalismo cultural?

Sábado, 21 de Junho de 2008

Sérgio Godinho: músico com veia anarquista


Em 1997 entrevistei para o jornal "Terras da Beira" o músico Sérgio Godinho.

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Sérgio Godinho é um músico raro: a uma generosa e vincada personalidade (humana e artística) alia também um desejo voraz em perscrutar a realidade, os sons e a vida, num processo estético que só pode desembocar na criação de canções imersas num lirismo contagiante. Discurso sóbrio e honesto, postura humilde mas desconcertante, são alguns ingredientes revelados nesta entrevista a um dos últimos grandes «escritores de canções» portugueses.

Já tens uma longa carreira cimentada à custa de muito empenho e porventura de alguns dissabores. É para ti mais fácil olhar com nostalgia para o passado do que encarar a incerteza do futuro?
Eu acho que as duas coisas se complementam naturalmente, porque nunca reneguei o passado e tudo aquilo que fiz acaba por me alimentar para o futuro. Eu não sou revivalista a não ser que projecte esse revivalismo para o futuro porque, acima de tudo, sou uma pessoa do momento presente e se as minhas canções antigas continuam a fazer sentido, eu canto-as naturalmente.

E essa noção de «sentido» das canções vem do público?
Não, para mim vem da coerência poética e musical da própria canção e de sentir que a mesma funcionou. É evidente que o «feedback» do público em relação a determinadas canções também acaba por me influenciar e me estimular num certo sentido ou noutro, até porque não sou imune à receptividade do público visto que, estar no palco, é um espectáculo de comunicação, de trocas, de estímulos.

Analisando sob o prisma do presente, que importância outorgas à chamada «canção de intervenção política» que marcou a tua geração desde os finais dos anos 60?
Penso que isso sempre existiu e é uma das componentes da canção que é importante, no sentido de olhar para a sociedade e ver o que está bem e o que está mal e falar naturalmente disso. Eu sempre integrei nas minhas canções - nalguns discos e nalgumas alturas - um certo conteúdo sócio-político que eu acho importante existir. Penso é que o termo «intervenção» é um termo redutor e que só por si não explica grande coisa. O rap é um estilo contemporâneo que também expressa uma preocupação sócio-política...

É por isso que tens colaborado com jovens músicos ligados ao rap e ao hip-hop?
Sim, de certa forma sinto-me próximo dessa linguagem: a maneira como eu largo a frase, aproveito as frases ritmicamente e o facto de partir de uma base musical - quando estou a compor uma canção - para depois encontrar palavras que tenham essa consonante rítmica constitui, para mim, algo de muito próximo ao rap; não faço rap puro, obviamente, mas há de vez em quando coisas que faço que têm a ver com o universo rap. Acontece é que eu sou um «melodista» e o rap não vive muito da melodia.

As tuas experiências artísticas no estrangeiro, com o «Living Theatre» e com a ópera rock «Hair», contribuíram de certa forma para a consolidação da tua veia estética, enquanto músico?
Sim, absolutamente. Ambas as experiências foram diferentes: o meu primeiro contacto com o «Living Theatre» foi em Paris e depois fui em digressão para o Brasil acabando por ser preso devido ao radicalismo estético e à atitude anarquista preconizada por esta companhia, e acabei por me confrontar com essas experiências radicais e alternativas. Eu sempre me senti atraído por ideias anarquistas, quer na estética quer ao nível político. No caso do «Hair», era uma comédia musical integrada numa corrente da «Broadway» e foi nesse momento decisivo que eu aprendi a estar à vontade no palco, encarando-o como se fosse a minha casa.

Essas ideias anarquistas de que falaste tornaram-se numa forma de vida?
De certo modo sim, na medida em que tenho sobretudo uma liberdade e uma independência ferozes que eu sempre conservei e que procuro prosseguir e mostrar. Seria incapaz de pertencer a um partido político tendo em conta que a ideologia anarquista recusa ideias políticas sejam de esquerda sejam de direita. A anarquia representa para mim uma forma de lucidez, de independência, é como que uma escolha de actuação perante a vida.

És um músico que dás bastante importância à palavra e à poesia. A música deve-se subalternizar relativamente à palavra?
Não, nas minhas canções uma coisa não vive sem a outra: as minhas palavras ficariam muito empobrecidas se não tivessem um suporte musical e vice-versa. Mas se tivesse que me definir, diria que sou essencialmente um músico apesar de jogar com o universo poético, com uma estilística que é poética e de ser um apaixonado pelas palavras; agora, o que eu gosto é de as ver dançar ao som da música!

E a inovação na música far-se-á pela descoberta de novos domínios da palavra?
Quando falo na palavra tenho também de falar na frase, que é a maneira como as palavras são compostas, assim como dinâmicas que a música cria para as frases. Em cada frase há uma musicalidade própria e tenho por hábito registar a maneira como as pessoas falam no quotidiano, dando atenção ao ritmo, à cadência, à melodia, podendo haver nesta matéria o véu para a descoberta de novas formas de expressão musical. Existem frases e palavras quotidianas que, deslocadas para um determinado contexto musical, se tornam insólitas e criativas, numa espécie de «ready-made».

Propunha-te um desafio: a uma palavra tu respondes com um comentário breve de uma frase.
Vamos ver.

Concerto.
É o sumo mais doce e mais rico que posso beber como músico.

Zeca Afonso.
Foi quem abriu janelas onde nem paredes havia.

Giacometti.
Salvou a música portuguesa (talvez sem saber).

Rock.
É um dos lados de mim.

Paris.
Foi o Maio de ’68 e o «Hair»: o ponto dourado das experiências no estrangeiro.

Poema.
É aquilo que se está sempre a reinventar nas formas e na lírica.

Pimba.
Mau gosto instituído: é um abastardamento de formas musicais pelo menor denominador comum.

Sucesso.
É uma coisa relativa, efémera e que não nos pode nunca ofuscar.

Inspiração.
É uma borboleta que pode ou não pousar nos nossos ombros

Sérgio Godinho.
Espero poder pousar durante muito tempo, levemente, como uma borboleta, na sensibilidade das outras pessoas.

Sábado, 14 de Junho de 2008

"Alexandra" - Sokurov espiritual


Uns posts mais abaixo abordei o díptico referente aos dois filmes de Alexandr Sokurov, “Mãe e Filho” e “Pai e Filho”. Ora, esta semana foi estreado o último filme do cineasta russo: “Alexandra” (na imagem), uma viagem à guerra da Chechénia empreendida por uma senhora idosa (a Alexandra do titulo) para visitar o neto soldado. Como é óbvio, ainda não vi o filme, mas retive as críticas elogiosas que saíram na imprensa. Vasco Baptista Marques refere no Expresso que “Sokurov encarna a unidade estética, ética e metafísica, debruçando-se sobre as relações de poder, os afectos familiares e a condição decadente do homem”. O crítico de cinema termina o seu texto com uma frase categórica: “a menos que Andrei Tarkovsky ressuscite, não veremos outro filme assim em 2008”.
Por seu lado, o crítico do Público, Luís Miguel Oliveira, começa por dizer que este filme de Sokurov poderia chamar-se “Avó e Neto” e que, apesar de ser um cineasta espiritual, o realizador russo sabe que não se pode pensar o espírito sem o corpo. E à semelhança do crítico do Expresso, Miguel Oliveira reforça: “Alexandra” é um dos filmes mais ricos, mais misteriosos, mais interpelativos, que veremos este ano”.
Na revista “Notícias Sábado” do DN, o critico João Lopes não poupa elogios artísticos a esta obra de Sokurov, e serve até para, numa coluna de opinião à parte, dissertar sobre “O Lugar dos Russos”. Nesta coluna de opinião, Lopes aproveita a estreia do filme “Alexandra” para reflectir sobre a ignorância do espectador comum face à cultura cinematográfica russa. O conteúdo da sua reflexão não traz nada de novo, mas acaba por suscitar questões pertinentes sobre o valor do excesso da informação dos media nos dias de hoje: “Será que o espectador comum identifica os nomes de Dziga Vertov, Sergei Eisesntein ou Aleksandr Dovjenko como referencias decisivas para compreender a história da Rússia (e da URSS) e também como pilares essenciais da história do cinema? A resposta é, genericamente, e infelizmente, negativa. Assim como as televisões n\ao param de escavar as memórias dos heróis do futebol, assim também grandes capítulos da vida artística das gerações passadas estão remetidos para a condição de curiosidades mais ou menos esotéricas. Vivemos num mundo em que a acumulação de informação pode produzir exactamente o contrário daquilo que proclama. Ou seja: desconhecimento e ignorância”.

Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

Serralves (continua) em Festa?

Numa era em que a informação (sobretudo aquela em suporte digital) é cada vez mais volátil e efémera, revela-se bizarro o facto do melhor jornal online do país – jornal Público – não actualizar a informação como seria desejável. Como é possível que, tendo terminado o evento “Serralves em Festa” há 5 dias, o jornal online continue, diariamente, a publicar as seguintes notícias na secção de cultura: “Serralves em Festa bateu recorde de assistência com mais de 82 mil visitantes” e “Cerca de 18 mil pessoas já passaram pelo Serralves em Festa”. Há 5 dias que estas notícias não arredam pé da secção de cultura do Público na Internet. Sabendo que o espaço de cultura publica apenas três notícias em destaque (como as restantes secções, diga-se) sobre os assuntos da cultura, espanta que não haja actualizações informativas e que ninguém, na redacção online do jornal, repare na repetição inconsequente destas notícias. Até quando?

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Tarkovski no Público

Hoje sai no Público o volume 17 da colecção "Grandes Realizadores" dos Cahiers du Cinema. Esta edição é dedicada ao realizador russo Andrei Tarkovski (ou Tarkovsky), o meu cineasta de eleição. O DVD traz o seu último filme, "O Sacrifício" (1986). Quem quiser uma edição realmente definitiva e completa sobre este filme pode sempre comprar esta magnífica edição espanhola, com 3 discos de extras (entrevistas, documentários...) e um livro de 80 páginas sobre o filme e seus intervenientes. Como habitualmente, a edição DVD do Público vem acompanhada por um livro de 100 páginas da colecção Cahiers du Cinema. Este livro é deveras imprescindível para todos os amantes de Tarkovski, pelo simples facto de ser da autoria de um grande especialista em cinema (tem livros sobre Lynch, Kubrick, Chaplin e Tati): Michel Chion. Chion é escritor, argumentista, ensaísta e compositor de música concreta (tem vários livros sobre música electrónica e concreta) e um especialista no cinema russo. No livro aborda a arte das imagens de Tarkovski mas também a sua relação com o som e a música. Imprescindível.
Entre muitos planos-sequências geniais que Andrei Tarkovski filmou ao longo da sua brilhante carreira, este plano-sequência final de "O Sacrifício" é dos mais geniais - e que deu muitas dores de cabeça ao realizador russo, pois teve de ser filmado duas vezes (repare-se nos movimentos de câmara, no cenário, na mise-en-scène, no ambiente criado...).

Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Take one

Confesso que não conhecia a revista de cinema Take. Tomei conhecimento através do blogue do crítico de cinema e cineasta Lauro António. Com a extinção da revista Premiere, é positivo que surjam novos produtos jornalísticos especializados em cinema. A Take ainda tem poucos números para se avaliar o resultado final do produto, mas parece-me que cumpre a sua função de divulgação e promoção dos assuntos actuais relacionados com a 7ª arte. Particularmente interessante é que a revista tem edição exclusiva online – pode-se ler directamente no site ou descarregar o respectivo documento em formato PDF. Curiosidade e novidade total (pelo menos para mim) é a possibilidade de folhear, literalmente, as folhas da revista com o movimento do rato!Para experimentar, basta clicar aqui.

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Obscena - virtual e física


Num mundo cada vez mais digital e informatizado, por vezes somos levados a pensar que a imprensa escrita tem tendência a acabar no seu formato de edição em papel. Ou, por outro lado, que cada vez mais o suporte de informação digital na internet é o suporte privilegiado em relação ao papel. Nem sempre é assim e, por enquanto, as duas formas de informação são válidas. Vem isto a propósito da excelente revista de artes performativas, a Obscena. Pode ser lida aqui. Começou por ser uma revista exclusivamente online (em Fevereiro de 2007). Passados alguns meses e outros tantos números, passou do formato digital para... papel de revista. Pode-se comprá-la em qualquer quiosque por 4,20€, mas também é possível descarregar em PDF alguns dos seus melhores artigos e reportagens. Apesar de ser uma aposta arriscada, parece-me antes de tudo uma excelente política de promoção e marketing. Por um lado, o formato electrónico não é desvalorizado, cativando as novas gerações habituadas aos conteúdos da internet e das formas de cibercultura; por outro, investe-se no formato papel porque, quer queiramos quer não, o formato de "revista física" é ainda o melhor formato para o exercício da leitura e como objecto gráfico e conceptual. Afinal, ainda há bons exemplos de convivialidade entre o mundo da escrita em papel e o do digital. Seja como for, vale bem a pena ler a Obscena, seja em que formato for.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

"A generala"

Melhor capa de todo o sempre?

Domingo, 20 de Abril de 2008

Filmes de terror - o prazer de sentir medo


A propósito de uma reportagem sobre o mestre dos filmes de terror - facção Zombie - George Romero - o semanário Expresso dedica várias páginas do seu suplemento de cultura "Actual" à história dos filmes de terror. Para além de uma brilhante abordagem aos sons e músicas do imaginário do terror escrita pelo João Lisboa, podemos ler uma recensão dos filmes mais marcantes escrita pelo Manuel Cintra Ferreira e uma listagem dos "melhores filmes de terror". Foram seleccionados 16 títulos de terror que, ao longo da história do cinema, foram de uma maneira ou de outra, marcantes na evolução estética do género.
Nessa lista temos tanto Polanski como Murnau; Carpenter como Spielberg; Cronenberg como Fisher. São filmes, todos eles, referêncais absolutas dentro do género de terror e consequentes subgéneros: thriller psicológico, gore, zombies, suspense, monstros... Da lista enunciada há apenas um filme que não conheço: "Kuroneko" (1968) do japonês Kaneto Shindo. Como é natural, uma lista de 16 títulos limita sempre o leque de escolhas, pelo que será por casua desta justificação que faltem filmes como "Poltergeist", "Massacre no Texas", "Hellraiser", "Psico", "Cabo do Medo" ou "A Descida" (talvez o melhor filme de terror dos últimos 10 anos).

Da lista, eis os meus dez filmes preferidos por ordem crescente:

1 - "The Shining" - Stanley Kubrick (1980)
2 - "Os Pássaros" - Alfred Hitchcock (1963)
3 - "A Semente do Diabo" - Roman Polanski (1968)
4 - "Nosferatu" - F.W. Murnau (1922)
5 - "O Exorcista" - William Friedkin (1973)
6 - "Alien, o 8º Passageiro" - Ridley Scott (1979)
7 - "A Mosca" - David Cronenberg (1986)
8 - "Halloween" - John Carpenter (1978)
9 - "A Noite do Demónio" - Jacques Tourneur (1957)
10 - "A Aldeia dos Malditos" - Wolf Rilla (1960)
Nota: na imagem: Jeff Goldblum no filme "A Mosca"

Segunda-feira, 17 de Março de 2008

A música de "Haverá Sangue"


Parece que João Lisboa (Expresso) tomou o gosto dos textos sobre bandas sonoras para filmes. E ainda bem. Há algumas semanas atrás foi a recensão sobre as melhores 25 bandas sonoras de sempre. No Expresso desta semana volta com uma crítica à sublime música do filme "Haverá Sangue", composta pelo guitarrista Jonny Greenwwod (na imagem), dos Radiohead. Lisboa inicia o texto dizendo, com toda a propriedade, que os "primeiros vinte minutos do filme são cinema em puríssimo estado de graça: apenas imagem e som/música sorvendo-nos para dentro das mesmas entranhas da terra de que Daniel Plainview tanto aparenta desejar libertar-se (...)."
Na verdade, a música do filme de Paul Thomas Anderson, funciona como uma verdadeira alavanca dramática, empurrando o espectador no mergulho para o abismo das paisagens (físicas e psicológicas) que o filme mostra. Os tais 20 primeiros minutos de filme que fala o crítico do Expresso, são antológicos na forma expedita como revela uma espécie de regresso à matéria essencial do cinema do período mudo. A música de Greenwood acentua a solidão do personagem principal Daniel Day-Lewis, da mesma forma que extravasa a dimensão meramente territorial daquelas paisagens inóspitas e austeras.

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Clássicos contados às crianças


O semanário SOL está a editar, com o apoio do Millennium BCP, uma excelente colecção de clássicos da literatura portuguesa contados às crianças. A editora associada a esta louvável iniciativa é a Edições Quasi. A coleccção é composta de 12 livros de capa dura com títulos clássicos de escritores como Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Júlio Dinis, Almeida Garrett ou Camilo Castelo Branco. Os livros são adaptados por escritores contemporâneos (Possidónio Cachapa, Rosa Lobato de Faria, José Luís Peixoto) numa linguagem acessível e directa para as crianças (sem ser infantilizada). Complementarmente, as ilustrações são de grande qualidade, potenciando a imaginação. O primeiro livro lançado, “Os Maias”, com uma excepcional adaptação de José Luís Peixoto, é a prova de que se trata de uma colecção a adquirir por pais, educadores e professores. Uma óptima oportunidade para iniciar as crianças no universo da literatura clássica portuguesa.

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Chaplin a começar em grande


Sobre a colecção “Cahiers du Cinema” (DVD e livro) que o jornal Público começou a publicar ontem, há a dizer o seguinte: estamos perante uma colecção de grande qualidade, quer pela edição do DVD do Charlie Chaplin (“O Imigrante” e 4 curtas-metragens), quer pelo livro que o acompanha. Nada menos do que um livro de quase 100 páginas, com muita informação – biografia, filmografia – e muitas fotografias do homem e do realizador. Outra coisa não seria de esperar, dada a qualidade a que nos habituou a histórica revista de cinema francesa. Até dia 1 de Agosto (!), a colecção prolongar-se-á durante 24 semanas, sempre com um realizador e um filme diferente em cada edição. Claro que faltam muitos realizadores importantes (nenhum John Ford? Nenhum Murnau? Nenhum Dreyer?), mas quem pode queixar-se quando as próximas edições vão focar-se em autores como Rossellini, Fellini, Renoir, Antonioni, Scorsese, Tarkovsky, Wilder ou Mizoguchi? Já tenho em DVD quase metade dos filmes que irão sair com o Público, mas não será por isso que vou deixar de acompanhar e completar a colecçao, uma vez que os livros são uma mais valia. Além do mais, quando se começa uma colecção, ou se vai até ao fim ou então não vale a pena. Digo eu.

Sábado, 5 de Janeiro de 2008

O que é a crítica?

O seminal crítico de cinema francês Andre Bazin tinha um livro cujo título era “O Que é o Cinema?”. Por sua vez, o realizador português Marco Martins pergunta “o que é a crítica?”
Vem esta introdução a propósito do facto do semanário Expresso comemorar 35 anos de existência. No âmbito desta efeméride, foi convidado o realizador Marco Martins (que fez o premiado “Alice”) para editar o caderno “Actual”. Marco Martins pensou então em pedir aos próprios críticos, músicos, actores e outros intervenientes da actividade cultural, para manifestarem breves reflexões sobre a crítica. Para que serve? A quem chega? Que valor tem para os criadores e o público? Em boa hora Marco Martins se lembrou desta vertente do jornalismo cultural, uma vez que o exercício critico, responsável, sério e sistemático, desempenha um importante papel na comunicação com o leitor/receptor. Afinal existe ainda crítica militante em Portugal? Existe espaço público nos media (sobretudo jornais) para a crítica de diversas artes (cinema, dança, artes plásticas, literatura, teatro)?
Nas dezenas de respostas a este desafio, os muitos agentes artísticos manifestam muitas e variadas abordagens ao universo da crítica. Quase todos se referem que é um instrumento importante para definir critérios de qualidade face a um determinado objecto artístico. Quase todos, de igual forma, se lamentam que há cada vez menos espaço público para os críticos revelarem o seu trabalho. Isto é um facto: no panorama da imprensa de dimensão nacional, tirando o Expresso e o Público (com o suplemento Ípsilon), que outros jornais se preocupam em exercer a crítica e, simultaneamente, divulgar as artes e a cultura? E mesmo no Expresso, há músicos que manifestam o seu desagrado. É o caso de Vítor Rua, metade do duo Telectu com Jorge Lima Barreto, quando refere que em 26 anos de actividade musical, nunca o Expresso fez uma entrevista com esse projecto. Da mesma forma, outro músico, Nuno Rebelo, assevera que “a crítica, tal como existe presentemente nos media, não é mais do que um mero instrumento ao serviço dos negócios da cultura, pelo que toda a arte verdadeiramente independente não é objecto de crítica”.
Actores, coreógrafos, encenadores, realizadores, músicos, artistas plásticos, escritores e jornalistas, revelam o seu conceito de crítica em meia dúzia de linhas. Uma edição singular e pertinente do “Actual” do Expresso. Para guardar e reflectir.