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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Para ler um filme


Que tal comprar os argumentos dos seus filmes preferidos? Devidamente assinados pelos seus autores (actores, realizador) e por menos de 20 dólares? Corresponde à verdade mas não propriamente nestes termos. Ou seja, não são originais, mas sim cópias genuínas dos originais. O site não pretende enganar ninguém: está bem explícito que não se trata de "scripts" originais. De resto, o nome do site não engana: Genuine Replicas. O site garante ainda a fidelidade dos textos e das próprias assinaturas da capa (digitalizadas). Não há muitos títulos de filmes disponíveis em quantidade, mas há em qualidade e diversidade. Para entrar, carregar aqui.

Excerto do guião do filme "Taxi Driver" (1976)

Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

"Gone Baby Gone" - ficção vs. realidade


O inesgotável caso Maddie voltou à ribalta mediática por estes dias. A polícia encontrou o alegado sequestrador? Não. Deslindou o mistério? Não. A criança está morta ou viva? Nada de sabe. O que se sabe é que o caso voltou às televisões para as autoridades anunciarem que vai ser... arquivado. Certo é que este caso configurou um fenómeno inédito na forma como a comunicação social tratou da informação. O circo mediático montado à escala planetária, durante meses, para cobrir todos os pormenores deste caso, é já um "case study nas escolas de comunicação e jornalismo.

Como sabemos também, realidade e ficção (ou vice-versa) confundem-se. Veja-se o caso do filme "Gone Baby Gone" ("Vista Pela Última Vez..."), estreado no final de 2007 em Inglaterra, que despoletou polémica e sentimentos bizarros na opinião pública. Como se sabe, o filme foi realizado pelo actor Ben Aflleck e protagonizado pelo seu irmão, Casey Affleck. A estreia do filme ficou adiada vários meses por casua das óbvias semelhanças entre a história do rapto de Madeleine McCann e a ficção do filme (rapto de Amanda McCready). A Miramax (produtora do filme) adiou essa estreia para que o caso esmorecesse na opinião pública e para que, desta forma, o rótulo de oportunismo não lhe fosse atribuído. Baseado no romance de Dennis Lehane (que já tinha escrito "Mystic River", adaptado para cinema por Clint Eastwood) e adaptado para o ecrã por Affleck, o filme "Gone Baby Gone" conta a história de dois detectives privados que procuram uma menina de 4 anos, raptada no bairro mais degradado no sub-mundo de Boston. Entre a rocambolesca história da família britânica no Algarve e a do filme, muitos elementos existem em comum, sendo o principal, o facto de uma menina loura de 4 anos ser raptada do seu próprio quarto. Para além destes aspectos, o filme, sendo uma ficção, acaba por desviar-se narrativamente do percurso da história da menina McCann.
A primeira realização de Ben Affleck denota uma considerável consistência narrativa e um arrojo técnico que é de salientar, mas Affleck envereda por um caminho mais de discussão em redor da legitimidade da instituição família do que propriamente em explorar o rapto em si. O rapto acaba por ser, in extremis, um pretexto para uma reflexão profunda sobre o valor da família como instituição protectora e propiciadora de felicidade aos filhos. O personagem desempenhado por Casey Affleck tem de tomar uma decisão dramática que vai proporcionar o desenlace da história. O seu dilema moral é dilacerante e o final do filme é, sem dúvida, muito amargo e deprimente. No filme a questão principal é: que limites morais e sociais se devem respeitar em benefício da segurança de uma criança? Aflleck resolve muito satisfatoriamente esta dúvida (basta assistir aos dois últimos momentos do filme, num belíssimo plano). No mundo real, o drama moderno dos hediondos crimes pedófilos e dos raptos de crianças constituem matéria vasta para futuras obras literárias ou cinematográficas. A arte imita a vida, só que por vezes a realidade é bem mais cruel e dura do que a ficção...
O casal McCann na realidade. O casal de namorados-detectives no filme: o cinema como espelho duplo da realidade.

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

À procura do som da velocidade


Há pelo menos dois anos que quero comprar este livro espanhol: "El Sonido de la Velocidad - Cine y Música Electrónica". Trata-se de um livro que compila diversos textos de jornalistas e críticos de música espanhóis (mais um excelente prólogo do DJ Spooky, aka Paul D. Miller - pode-se descarregar o PDF no link). A abordagem do livro é sobre a relação entre o cinema e a música electrónica, desde as primeiras experiências até à actualidade. Como me interessa tanto o cinema como a música e as interligações estéticas daí resultantes, este livro é uma prioridade para mim. Acontece que não o consigo encontrar à venda em lado nenhum. Só tentando na tal livraria madrilena especializada em cinema.

Sábado, 28 de Junho de 2008

Livros que mudam uma vida - 8


"A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for." - Marquês de Sade (1740 - 1814)

Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Cossery - o escritor desprendido



Lembro-me do momento em que um amigo mais velho me deu a conhecer a obra do escritor Albert Cossery (morreu ontem aos 93 anos). Foi em meados dos anos 90. Dizia-me esse amigo que Cossery um escritor invulgar e original, capaz de escrever sobre assuntos mundanos de forma extremamente polida, que se interessava pelos "vencidos da vida" e não por heróis romanceados de forma épica. Albert Cossery fazia, na esteira da filosofia epicurista (o prazer e o hedonismo como valores primordiais para a vida), a apologia da preguiça e do ócio, vendo nestas atitudes, o espelho de uma rebuscada actividade interior, como métodos valiosos de reflexão sobre a vida e o mundo. O próprio Cossery viveu praticamente toda a vida de forma desprendida e despojada, segundo o próprio, veículos para a felicidade e para o bem-estar existencial.
Apenas li três dos seus oitos livros: "Mendigos e Altivos", "A Violência e o Escárnio" e "Conversas Com Albert Cossery". Este último título, um conjunto de entrevistas ao escritor egípcio, é particularmente interessante para compreender o pensamento e a escrita de Albert Cossery:
- "Nunca pensou que as sociedades podem progredir?"
- "Um progresso espiritual, sim, mas não no sentido religioso. Espiritual, quer dizer no espírito. É muito difícil e é por esse facto que a humanidade não avançou nem um centímetro desde há milénios. Hoje vemo-lo um pouco por todo o mundo: as pessoas odeiam-se, entram em guerra, matam-se".
- "Qual é a arte de viver?"
- "Desprender-se de tudo o que nos ensinam, de todos os valores e dogmas".
- "O que é que caracteriza a arte de viver das personagens que criou?"
- "Em primeiro lugar, a falta de ambição. O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo para mim próprio: podem apresentar-me isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe. Não é a posse de bens materiais que pode satisfazer um homem inteligente, que compreendeu o mundo em que vive".
- "O que lhe dizem os seus leitores mais frequentemente?"
- "Os meus leitores nunca me dizem: escreveu um belo romance, como acontece com muitos escritores; dizem-me: salvou-me a vida. Muitos jovens vão para o Egipto - Cairo - porque leram os meus livros. E muitos ficaram por lá".
Uma recensão breve - mas concisa - sobre a vida e obra de Albert Cossery pode ser lida no blogue Boca de Incêndio.
PS - na capa do livro "Conversas com Albert Cossery" pode ver-se, atrás do escritor, o famoso Café de Flore, famoso espaço de artistas e tertúlias de Paris, já abordado neste post.

Domingo, 22 de Junho de 2008

Díptico - 9


"Admirável Mundo Novo" e "Regresso ao Admirável Mundo Novo" - Aldous Huxley

Sábado, 21 de Junho de 2008

Um crítico musical à margem


A música não é só ouvida. É também lida. E sobretudo em livros tão bons quanto este, que pretende analisar as múltiplas ramificações da chamada música de "vanguarda". Na sua já considerável travessia jornalística por variados jornais de relevo - do "Jornal de Letras" ao "Blitz", d' "O Independente" ao "Expresso" (para já não citar publicações estrangeiras) - Rui Eduardo Paes tem-se dedicado, afanosamente - e não raras vezes enfrentando obstáculos à sua actividade - ao estudo e divulgação das chamadas "novas músicas". Eis o seu último manifesto.
De que fala este livro intitulado «Phonomaton – As Novas Músicas no Início do Séc. XXI» de Rui Eduardo Paes? Fala, na essência, sobre o mesmo que os seus três livros anteriores – todos editados pela Hugin (e com distribuição nas boas livrarias): a problemática das músicas contemporâneas de índole experimental e a significação das estéticas de ruptura face aos valores culturais instituídos. Dito de outro modo, aborda todas as expressões artísticas tidas como de vanguarda, nas suas múltiplas formas e configurações - música electroacústica, improvisada, electrónica, multimédia, erudita contemporânea, computer music, novo jazz e outras derivações estéticas radicais e alternativas face à cultura "mainstream" dominante.
Rui Eduardo Paes tem sido uma voz crítica única no panorma jornalístico nacional e, neste trabalho em particular, recorre a uma argumentação extremamente bem urdida, lúcida e com uma visão histórica dos factos simultaneamente original e pertinente. Analisa eloquentemente os fenómenos artísticos, disseca-os com auxílio de teorias não só musicais como filosóficas e literárias, citando para tal autores tão prementes para a cultura contemporânea como Virilio, Camus, Borges, Sartre, Lyotard, Deleuze, Debord, Heidegger ou Cioran. Além disso, explora a congeminação de relações entre distintas áreas do pensamento ensaístico, tentando estabelecer elos de ligação entre correntes específicas do pensamento artístico (surrealismo, dadaísmo, pós-modernidade, teoria do Caos, minimalismo, nihilismo...) com outras tantas correntes musicais e artísticas (free jazz, música concreta, electrónica, improvisação, instalações multimédia, cinema experimental, pintura conceptual...).
Rui Eduardo Paes contribui assim, com esta obra e com o conjunto dos seus livros (ver no seu site), para a clarificação histórica e evolutiva dos processos criativos mais avançados da cultura contemporânea, dando um especial destaque (com entrevistas) ao panorama nacional e seus principais intérpretes: Rafael Toral, Major Eléctrico, Miso Ensemble, Telectu, Carlos Zíngaro, Emídio Buchinho, Vitriol, René Bertholo, etc.
Não se veja em "Phonomaton" um estudo académico de musicologia; Rui é avesso a redundantes academismos formais. Não é, igualmente, um livro sobre objectos culturais fáceis e imediatos. O livro representa antes uma plataforma de análise e de reflexão múltipla sobre as músicas emergentes do século XXI (e suas correspondentes ramificações noutras artes), num âmbito quiçá distante do senso comum e da superficialidade crítica. De qualquer modo, este sensível manifesto de Rui Eduardo Paes, essencial para quem gosta de música, revela-se também intelectualmente estimulante para qualquer leitor avesso à massificadora sociedade do espectáculo - e todas as suas referências culturais adjacentes -, a mesma sociedade à qual o fulminante pensador Gilles Lipovetsky classificou de "era do vazio".

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

A angústia do guarda-redes antes do penalty


O Euro 2008 soma e segue. Ontem jogou-se o decepcionante Portugal-Suíça. No momento da conversão do penalty por Yakin, frente ao guarda-redes Ricardo, veio-me à memória um livro cujo título tudo tinha a ver com aquele momento. Refiro-me ao livro “A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty”, do escritor austríaco Peter Handke (na imagem). Livro que foi adaptado ao cinema pelo alemão Wim Wenders, filme que nunca tive a oportunidade de ver (apesar de grande admirador do cinema de Wenders). Mas o livro conheço-o bem. Li-o há mais de dez anos, numa edição de 1987 da Relógio d’Água.
Na altura recordo-me que o livro partia do universo do futebol para fazer um retrato da sociedade moderna. Ou seja, o futebol como metáfora da vida. O sucesso e o fracasso, o sofrimento e a alegria, a vitória e a derrota, a frustração e a excitação, a angústia e a ansiedade. Emoções que dominam o desporto-rei, tal como a vida. No fundo, a angustia causada pelo penalty (valha a verdade, tanto para o guarda-redes como para o futebolista rematador) não passa de uma metáfora da vida, de um espelho de duas faces. Todos nós podemos ser, a dada altura da vida, Joseph Bloch.
Peter Handke conta no seu livro - num escrita extremamente escorreita e quase visual - a história de Joseph Bloch, um canalizador que fora em tempos um conhecido guarda-redes de uma conhecida equipa de futebol. Um dia, sem nada o fazer prever, é despedido. Bloch começa então a deambular pela cidade, a frequentar hotéis decadentes e a conhecer personagens tão perdidas e solitárias quanto ele. Num dia, e sem motivo aparente, assassina uma amante ocasional e entrega-se à vida errante num mundo sem sentido. “A Angustia do Guarda-Redes Antes do Penalty” reflecte sobre um mundo onde essa mesma angústia grassa a todo o momento e se infiltra no meio de nós. Uma angústia existencial que transforma a realidade numa coisa baça e desprovida de sentido.

Sábado, 14 de Junho de 2008

Livros a mais ou leitores a menos?


Apesar da crise económica, apesar de Portugal ter baixos níveis de hábitos de leitura, a indústria livreira e o seu respectivo mercado, valem cerca de 530 milhões de euros (o último grande negócio foi a compra da editora Dom Quixote pelo grupo Leya). Para um pais com a dimensão de Portugal (dimensão geográfica, editorial ou cultural), não deixa de espantar o frenético dinamismo editorial existente. A título de exemplo, em 2007, foram publicados cerca de 40 livros por dia, ou seja, 1250 por mês e cerca de 15 mil num só ano. Há uma desproporção ente a oferta editorial e a procura de leitura, uma vez que as estatísticas levadas a cabo pela Marktest, referem que 77% dos portugueses lê menos de um livro por ano e apenas 17,9% lê dois livros por ano. Cada vez mais o livro é entendido como um produto meramente comercial, vendido como se vendem batatas ou latas de ervilha. Os bestsellers pulverizam as listas de venda e transformam-se no objectivo primordial dos grandes grupos editoriais. As estantes das livrarias enchem-se de centenas de títulos que pretendem emular o sucesso de obras como “O Segredo” e “O Código Da Vinci”.
A ideia de negocio puro e duro ergue-se no cenário livreiro português. Sobretudo desde que, no início deste ano, a Leya irrompeu como um grupo livreiro aglutinador e economicamente poderoso, ao ponto de ter exigido à organização da feira do Livro de Lisboa, um espaço só para si (daí a polémica e o atraso na abertura da Feira). Perante este cenário, não é de espantar que um dos editores portugueses mais experientes – Nelson de Matos, ex-líder da Dom Quixote que editou Cardoso Pires ou Saramago – tenha saído de cena para regressar à edição em formato intimista, criando uma pequena e independente editora, a Edições Nelson de Matos. Com tempo para ler os manuscritos e editá-los em limitadas edições de 1000 a 1500 exemplares. Sem pressões de outra ordem que não as relacionadas com o verdadeiro valor literário. Um regresso ao tempo em que Nelson de Matos podia fruir o gosto pela descoberta e pela aposta em autores menos conhecidos mas de reconhecida qualidade.

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Há 120 anos nascia um génio



"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo. Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela."

Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"

Cumprem-se hoje 120 anos do seu nascimento.

Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Dia da Raça, perdão, de Portugal


("Há, nos confins da Ibéria, um povo que nem se governa nem se deixa governar." - Júlio César)

Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Naomi Klein - a terapia do choque


Naomi Klein é uma jovem jornalista que obteve sucesso mundial com o livro "No Logo - O Poder das Marcas", uma perturbante denúncia em forma de livro, sobre o poder comercial das marcas no mundo globalizado, a retórica propagandística das agências de publicidade e seus lucros obscenos. Naomi Klein identifica no consumidor um mero portador de código de barras, cego pelo poder sugestivo das marcas e da publicidade, inerte e passivo perante a agressividade da sociedade consumista. "No Logo" era um livro pessimista sobre uma sociedade doente e envenenada com as falsas promessas das empresas económicas mundiais. Uma sociedade que expia os seus pecados através de outros pecados, numa espiral de decadência na qual os políticos têm grande parte da responsabilidade.
A jornalista e escritora lançou o seu segundo livro (ainda sem tradução portuguesa), também controverso, também denunciador: "The Shock Doctrine". Klein defende que este livro desmonta e identifica os mecanismos segundo os quais as grande potências mundiais e os grandes interesses económicos conseguem manipular a sociedade de modo a atingir os seus próprios objectivos políticos e económicos. A "doutrina do choque" é, para Naomi Klein, uma espécie de filosofia política e económica que sustenta que a melhor oportunidade para impor as ideias radicais da economia global, é no período posterior ao de um grande choque. Esse choque pode ser uma catástrofe económica (como a actual recessão económica global). Pode ser um desastre natural (como um terramoto ou o furacão Katrina). Pode ser um ataque terrorista (como os que ocorreram nos EUA e na Inglaterra). Pode ser uma guerra (como o Iraque e o Afeganistão)...
O objectivo dos grupos de grande poderio económico mundial é que estas crises, esses desastres, esses choques abrandem a sociedade. Desorientem as pessoas e as deixem numa espécie de adormecimento latente de forma a não questionarem as decisões dos políticos. Naomi Klein convidou o realizador mexicano Alfonso Cuarón, autor do muito interessante filme "Filhos do Homem" (2006) para realizar um curto documentário (6 incisivos minutos) que pretende fazer uma síntese ideológica das teses defendidas no livro "The Shock Doctrine". Começa nas técnicas de choque dos prisioneiros da CIA para acabar nas regras defastas do mercado económico ultra-liberal à escala global. Vale a pena ver para reflectir em que raio de mundo estamos.
A terapia do Choque:

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

As ideias surrealistas à venda


André Breton (na imagem) lançou petróleo para a fogueira das artes de vanguarda quando, em 1924, editou o "Manifesto do Surrealismo". Um verdadeiro manual de insurreiçãoo artística, intelectual e estética que viria a influenciar grande parte da criação artística do restante século XX. Os manuscritos deste célebre documento estavam na posse de Simone Collinet, primeira mulher do artista, e vão ser leiloados, hoje mesmo, na capital francesa. O preço de licitação situa-se entre os 200 mil e os 300 mil euros (gostava de saber qual seria a reacção de Breton, caso fosse vivo, a esta exorbitância de dinheiro por um manifesto que, claramente, repudiava os valores relacionados com o vil metal e bens materiais de consumo).
O texto do "Manifesto do Surrealismo" é um texto muito interessante e rico em princípios de intenções, mas lido hoje, é-o sobretudo para estudantes de artes e curiosos. Foi um texto extremamente efémero e datado, visto que o Surrealismo, enquanto movimento artístico oficial e organizado, durou poucos anos. No entanto, mantém importância histórica pela forma como deixou o legado e marcou o pensamento artístico do século XX e grande parte da literatura, pintura, poesia e cinema. No mesmo manifesto, Breton define Surrealismo da seguinte forma: "Automatismo psíquico pelo qual alguém se propõe a exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento".
Quem quiser ler online ou descarregar o "Manifesto do Surrealismo", basta clicar aqui.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Canibalismo - o último dos tabus


Não sou antropólogo nem sociólogo mas atrevo-me a dizer que na sociedade moderna continuam a persistir dois tabus difíceis de abordar: o incesto e o canibalismo. Só pronunciar estas duas palavras faz tremer de horror os mais sensíveis. É compreensível. Ambas práticas remontam a um passado histórico muito longínquo, tão longínquo quanto o tempo que o homem pisa o mundo. Deixemos o incesto para segundas núpcias (salvo seja!) e olhemos mais de perto o canibalismo. Por questões culturais ou de necessidade devido à fome extrema, o canibalismo não deixa ninguém indiferente, porquanto hediondo se torna a sua prática. Mas como muitos temas hediondos, este também não deixa de exercer fascínio. Um fascínio frio e racional, como é óbvio. O acto de devorar carne humana por questões religiosas (magia negra) ou culturais é um acto irracional e completamente desviante (associado a mentes psicopatas e paranóicas). Já o acto de comer por extrema necessidade com vista à própria sobrevivência devido a factores externos como a fome, alivia o peso moral do mesmo. Foi o que aconteceu em Outubro de 1972, quando teve início uma das histórias de sobrevivência mais controversas e inspiradoras: um avião que transportava uma equipa júnior de râguebi do Uruguai despenhou-se nas montanhas dos Andes. Alguns passageiros tiveram morte imediata, mas a maior parte sobreviveu. Durante oito dias, ficaram à espera de serem salvos. Mas o socorro nunca chegou e eles souberam pela rádio que as buscas tinham sido abandonadas. Rapidamente a comida e a bebida se esgotaram. Forçados a viver a temperaturas abaixo de zero durante dez semanas, os sobreviventes suportaram o inimaginável até que tomara uma decisão radical: comer a carne dos colegas mortos. O filme "Alive" ("Estamos Vivos!", 1993) retrata este episódio perturbante.
Mas o que mais choca no canibalismo é aquela vertente que conota o acto de comer carne humana como a mais elevada expressão de poder da mente de um predador sexual psicopata ou de um assassino em série. E ao longo da história, sobretudo do século XX, muitos exemplos macabros houve que se enquadram nesta tipologia. O mais recente caso é o do alemão Armin Meiwes, canibal de Rotemburgo, que violou e torturou um outro homem que conheceu na internet e que se voluntariou para o efeito. Depois de morto, fatiou o corpo e comeu diversas porções do mesmo (degustou 20 kg de carne) - relato sintetizado pode ser lido aqui. Da carne humana disse Armin: "é semelhante ao da carne de porco, um pouco mais amarga e mais forte, mas um sabor muito bom."
E o que dizer do aparentemente tranquilo fazendeiro americano Ed Gein (1906 - 1984), que serviu de inspiração para os filmes "Psycho" e "O Silêncio dos Inocentes". Hannibal - "The Cannibal" - Lecter não é apenas um mero personagem de ficção, visto que o bem real assassino Ed Gein serviu de inspiração. E o que dizer de Andrei Chikatilo, o carniceiro de Rostov (Rússia), que confessou ter morto, torturado, violado e comido o corpo de 53 mulheres e crianças entre 1978 e 1990? E o mais famoso e recente serial-killer americano: Jeffrey Dahmer, deu que falar quando foi descoberto, em princípios de 1990, e se descobriu que tinha sido autor de horríveis crimes que misturavam violação, necrofilia e canibalismo. E exemplos grotescos não faltam... No cinema, o filme mais célebre e polémico sobre canibalismo é o perturbador "Holocausto Canibal" (1980) de Ruggero Deodato (na imagem), um suposto "snuff movie" (que não é) com violência gráfica e horror sem escrúpulos.
Daí que o livro (na imagem) "Come o Teu Próximo - História do Canibalismo" (Editorial Magnólia) seja um livro corajoso mas que custa a ler pelo conteúdo explícito (e que pode custar a comprar: o empregado da livraria poderá sempre ficar a pensar: "mas este tipo interessa-se por este tema? Será que gosta de carne humana?"). É um livro duríssimo, que explora as raízes do canibalismo e as várias configurações do mesmo, oferecendo exemplos ilustrativos que vão das tribos mais isoladas e obscuras aos serial-killers mais psicóticos das sociedades modernas, percorrendo um curso temporal que vai da história antiga à actualidade. É um mergulho sem regresso aos nossos próprios medos e temores, um confronto directo com o mundo mais obscuro e demente da natureza humana.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Leonard Cohen em livro


O mais recente livro de poesia do músico Leonard Cohen, intitulado "The Book of Longing", vai ser editado em Portugal no próximo mês de Julho com o título "O Livro do Desejo", numa altura em que o cantor vai actuar ao vivo em Portugal no próximo dia 19 de Julho. O compositor Philip Glass já tinha composto músicas com base nos poemas de Cohen, no magnífico álbum intitulado, precisamente, "The Book of Longing" (2007). O seu primeiro livro, "Let Us Compare Mythologies", foi publicado em 1956. Com "The Spice Box on Earth", em 1961, Leonard Cohen torna-se internacionalmente reconhecido. Seguir-se-ão os livros "Flowers for Hitler" (1964) e "Beautiful Losers" (1966).
Em 1985 foi editado aquele que seria o primeiro livro de poemas de Leonard Cohen publicado no nosso país: "Filhos da Neve", na colecção Rei Lagarto da Assírio & Alvim, com tradução de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê. A edição deste novo volume de letras e poemas do cantor de "Marianne" só vem acalentar, por isso, a carreira musical e literária do cantor canadiano.
Uma excelente notícia, portanto.

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Ler Debord


Para quem quiser ler na íntegra o livro que influenciou a geração de Maio de 68 - "A Sociedade do Espectáculo" de Guy Debord, poderá fazê-lo lendo online ou guardá-lo e imprimi-lo para ler mais tarde. Para tal, é favor carregar aqui.

A borboleta salvou-lhe a vida


É uma das mais belas manifestações de cinema dos últimos anos e não é por acaso que conquistou o prémio de melhor realizador em Cannes 2007. Julian Schnabel, artista plástico (amigo do pintor Jean-Michel Basquiat), baseou-se no livro "O Escafandro e a Borboleta" de Jean-Dominique Bauby para realizar um filme com o mesmo título. E que filme.
Estamos em 8 de Dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral (AVC) mergulha o jornalista (editor da prestigiada revista de moda ELLE francesa) Jean-Dominique Bauby num coma profundo. Ao acordar, descobre que todas as suas funções motoras estão deterioradas. Está encerrado no seu corpo - apenas consegue controlar o movimento de um olho. E será esse órgão a sua ligação com o mundo e com a vida. Será a piscá-lo que começa por indicar "sim" ou "não" até avançar para a sinalização de letras do alfabeto, construindo palavras e frases. Será assim também que escreverá "O Escafandro e a Borboleta", cujas frases memorizou antes de ditar. Uma história que noutras mãos resvalaria para o sentimentalismo bacoco, na visão de Schnabel torna-se uma forma de expressão de desejos interiores. De emoções que brotam através da comunicação de um só olho. O trabalho de realização e de movimentos de câmara são um verdadeiro tratado. No início do filme apenas vemos o que o protagonista vê (a câmara treme, resvala, embacia quando o olho vê as coisas turvas...), na primeira pessoa. Lemos os seus pensamentos (alguns bem irónicos), sentimos na pela aquela angústia pelo corpo aprisionado. Aos poucos, a libertação vai tomando força, Bauby sente o prazer de viajar com o pensamento, a imaginação. A espaços, a formação de pintor de Schnabel faz-se ver de forma óbvia - a composição plástica das imagens e matizes de cores revelam isso mesmo. Mathieu Amalric, que interpreta o malogrado Bauby (era para ser Johnny Depp!), é um espanto de contenção emocional, visto que o vemos no decorrer do filme totalmente imóvel mas, ao mesmo tempo, imensamente expressivo. "O Escafandro e a Borboleta" é um filme profundamente humano, um hino à necessidade de sonhar (a metáfora da borboleta), à preserverança. Sem cair na fácil lamechice (até por se tratar de uma história verídica), Schnabel soube equilibrar as várias pulsões em jogo - as da morte e as da vida. Não queria dizer isto - por ser um cliché - mas aqui vai: é uma autêntica lição de vida.

O legado de Guy Debord


Ana Cristina Leonardo (semanário Expresso) escreveu no suplemento Actual uma recensão crítica ao livro "Guy Debord" (antígona), uma espécie de biografia não ortodoxa de Debord escrita pelo ensaísta Anselm Jappe. Já tinha aqui feito uma citação breve ao livro "A Sociedade do Espectáculo". Ainda não li o livro de Jappe, mas o texto da jornalista é suficientemente esclarecedor acerca da essência do que está em causa: apurar a dimensão conceptual do pensamento político e artístico de um dos mentores da Internacional Situacionaista. E mais apropriada se torna a sua aquisição quando, neste mesmo mês, se celebram 40 anos do Maio de 68 (Ana Cristina Leonardo também chama a atenção para o facto de muitos slogans do movimento terem sido repescados do livro "A Sociedade do Espectáculo" editado um ano antes).
O suicídio de Debord (1994) foi o corolário de um sentimento de não pertença a esta sociedade e a este mundo, de refutação das leis que a regem e que instigam ao estrangulamento da liberdade. A radicalidade das teses de Debord acabam por "explicar" o acto autodestrutivo. Não esqueçamos que, para além de um notável agitador de mentalidades instituídas, Debord foi também um efémero mas distinto cineasta, abrupto e radical. Para comprovar aqui.

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Reinventar a música pela imagem


A ligação da música com o videoclip (anteriormente designado teledisco) tem mais de 25 anos de história e foi impulsionado massivamente com o canal musical MTV e com esse ícone da cultura audiovisual que é "Thriller" (1983) de John Landis (com respectiva música de Michael Jackson). Já tinha dissertado sobre a grande (mas subestimada) arte de fazer videoclips, focando o exemplo paradigmático do realizador Chris Cunningham. A imagem passou a ser um elemento crucial na promoção do objecto musical. Agora queria chamar a atenção para um livro cuja especialidade é, precisamente, a abordagem a todo o universo da criação audiovisual contemporânea - com o sugestivo título "Reinventing Music Video: Next-generation Directors, Their Inspiration and Work". Entrevistas a realizadores, artistas visuais, processos de criação, equipamento técnico utilizado, análises ao trabalho criativo de cada videoclip ou realizador, entre muitos outros assuntos relacionados, fazem parte do teor deste livro. Um olhar crítico extremamente útil e exemplar sobre o efervescente mundo dos videoclips. Pode ser adquirido aqui.

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Próxima paragem: Madrid


É uma ideia que já tenho há muito tempo: ir a Madrid só para visitar esta livraria e perder-me pelos seus escaparates. A última vez que visitei a capital espanhola não tive tempo de passar por lá, mas da próxima vez não falha. Falo da livraria Ocho y Medio (8 1/2), especializada exclusivamente em livros sobre cinema, vídeo e audiovisuais. Tem um catálogo de 15 mil títulos editados um pouco por todo o mundo (pode ser consultado online) com obras teóricas, técnicas, históricas, ensaios, biografias, de tudo o que se queira imaginar. Ou seja, uma verdadeira perdição para amantes de cinema, amadores ou profissionais de audiovisuais ou meros curiosos pelas coisas da 7ª Arte. Consultar aqui.