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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

A herança de George Gershwin


Este ano assinalam-se (se não se assinalarem também não importa) 110 anos do nascimento do grande compositor americano George Gershwin. Morreu cedo, com apenas 39 anos de idade, mas foram 39 anos vividos de forma intensa. 39 anos suficientes para marcar a música do início do século XX com a forma, extremamente engenhosa e criativa, como fundiu as linguagens da música erudita e do jazz (juntamente com o seu irmão, o letrista Ira Gershwin). O seu contributo na composição musical para teatro (e especialmente os musicais da Broadway), foram decisivos no enriquecimento estético desta área artística. A ópera "Porgy and Bess" tornou-se um exemplo maior da sua capacidade criativa, ainda que no imaginário popular persistam os eternos acordes da obra orquestral "Rhapsody in Blue" ou "An American in Paris", adaptado em 1951 ao cinema de forma notável por Vincent Minnelli e com um admirável Gene Kelly a dançar ao ritmo sincopado de Gershwin.
À semelhança de Kurt Weill (este de origem alemã mas com nacionaldiade americana) e de Cole Porter, George Gershwin representa o melhor que a música norte-americana mostrou ao mundo no domínio da música para teatro e musical da primeira metade do século XX, abrindo novas perspectivas artísticas para o jazz vocal e para a fusão de estéticas distintas. Gershwin foi um daqueles criadores cuja influência ainda se faz sentir - e muito - em muitos compositores das novas gerações (como Danny Elfmam - ver posts sobre o músico).
E já agora, aprecie-se este magnífico filme de animação da Disney com a música da primeira parte de "Rhapsody in Blue":

Domingo, 6 de Julho de 2008

Danny Elfman attacks!

Danny Elman passou pelo Porto, há quase 10 anos, por ocasião do Fantasporto e da estreia do filme “Sleepy Hollow” (“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, 1999), desse prodigioso cineasta chamado Tim Burton. Já o disse aqui várias vezes que Danny Elfman é o meu compositor favorito para cinema dos últimos 20 anos. Não sei se é o melhor nem o mais conhecido, nem sequer o mais premiado (o músico diz que os compositores académicos não gostam do seu trabalho), mas Elfman é, seguramente, um dos mais inventivos e eclécticos criadores de bandas sonoras para filmes desde Bernard Herrmann, Nino Rota ou Ennio Morricone.
Nem toda a sua carreira é brilhante - compôs bandas sonoras banais para filmes comerciais como "Hulk", "Missão Impossível" ou "Men in Black". Mas bastava a sua colaboração com Tim Burton para ficar para a história. Aliás, é a Tim Burton que Elfman deve a sua entrada fulgurante no mundo do cinema, quando o cineasta o convidou a fazer a sublime música para o filme "As Aventuras de Pee-Wee" (1985). (Danny Elfman começou por compor para teatro musical, antes de fundar a interessante banda rock Oingo Boingo em 1978). De resto, Danny Elfman só não criou duas bandas sonoras de filmes de Burton: "Ed Wood" (2004) e "Sweeney Todd" (2007). No primeiro filme, Danny Elfman estava chateado com Tim Burton (reconciliaram-se logo a seguir); no segundo, a música original era de Stephen Sondheim. Burton e Elfman encetaram, pois, uma colaboração artística das mais esfuziantes e originais das últimas duas décadas.
São da responsabilidade de Danny Elfman as notáveis bandas sonoras dos filmes “Eduardo Mãos de Tesoura”, “Batman”, “The Big Fish”, "The Corpse Bride", “Marte Ataca!”, "Charlie e a Fábrica de Chocolate" (todos de Tim Burton), ou ainda “Dick Tracy”, e mesmo a música do genérico da série “Os Simpsons” (Elfman refere que na Índia é mais conhecido pela música dos "Simpsons" do que qualquer outra). O trabalho de Elfman é devedor da tradição musical para filmes de insignes compositores clássicos como Nino Rota, Bernard Hermann, Henry Mancini ou Max Steiner, mas acrescentado sempre um toque singular de criatividade (que pode passar por música de cabaret, jazz, ou rock), refutando as convenções da comédia musical (designadamente da Broadway) e revelando uma sensibilidade rara na criação de ambintes negros e góticos. Ver aqui filmografia completa.
Porventura a obra-prima absoluta de Danny Elfman seja o filme de animação (com produção de Burton) “The Nightmare Before Christmas” (“O Estranho Mundo de Jack”). O filme é um maravilhoso conto onde se cruzam as noites das bruxas e de Natal, num registo misto de negritude teatral do Halloween e de imaginário surrealista. O perfeito contraponto musical de Danny Elfman é feito recorrendo a canções que servem de autêntico motor narrativo, socorrendo-se a uma síntese artística que funde Prokofiev, Tchaikovski e Nino Rota. Para além destas referências, a obra alemã de Kurt Weill revela-se como o elemento musical e estilístico catalisador de toda a obra. Mais a mais, ao contrário de muitas bandas sonoras, este trabalho sobrevive perfeitamente sem o recurso das imagens. Eis algumas palavras do próprio Elfman a propósito desta banda sonora: “Foi um enorme desafio compor a banda sonora para “The Nightmare...”; passei dois anos e meio a trabalhar com o Tim Burton. Escrevemos onze canções antes de haver um guião. Desprezei a regra Disney segundo a qual todos os musicais devem ter cinco temas, de 12 em 12 minutos. Queríamos fazer algo que soasse simultaneamente fresco e antiquado, quase intemporal”.
E o que está a fazer actualmente Danny Elfman? Está a preparar a composição para um peça de teatro musical a estrear na Broadway em 2010 sobre a vida do ilusionista Harry Houdini. No que toca ao cinema, compõe neste momento a música para ao filme "Hellboy: The Golden Army" (de Guillermo del Toro). E foi o responsável pelo original soundtrack de um filme que está a dar muito que falar e que estreia em Portugal daqui a dias: "Wanted" (com Angelina Jolie e Morgan Freeman). O motivo do burburinho em relação a este filme diz respeito aos revolucionários efeitos visuais (na senda de "The Matrix") e por uma alegada redefinição do conceito de filme de acção. Já ouvi a banda sonora que Danny Elfman fez para "Wanted" e, mais uma vez, não desilude. Fraqueja apenas no tema "The Little Things", um desinspirado tema hardrock. De resto, as soluções sonoras encontradas por Elfman são plenas de criatividade e ousadia estética. Ouça-se esta tema "Revenge": a mistura explosiva de orquestrações sinfónicas com riffs de guitarra resulta num momento claramente superior da sua carreira. Um estilo que se reconhece à légua, um estilo que muitos imitam (como Tyler Bates) mas poucos igualam.

Goran Bregovic: mestre de cerimónias


Ao longo dos anos Goran Bregovic tem mantido uma relação de trabalho muito estreita com o sublime cineasta (jugoslavo, como Bregovic) Emir Kusturica, tendo composto as bandas sonoras para os filmes “O Tempo dos Ciganos” (1989), “Arizona Dream” (1993) e “Underground” (1995). A veia musical de Goran Bregovic encontra-se enraizada na cultura do seu povo, a qual perpetua a existência de rituais festivos que incluem danças, música e canto por alturas de cerimónias fúnebre e casamenteiras. Sendo uma música cuja inspiração é extraída da riquíssima tradição musical dos balcãs em geral, e dos ciganos do leste europeu, em particular, a música de Bregovic só poderia constituir um tratado de ritmos desenfreados e de sugestivas (e por vezes nostálgicas) melodias que sublevam a alma e contagiam o corpo para a dança.
O disco “Ederlezi” compila, por conseguinte, o melhor de todas as bandas sonoras compostas por este músico que já foi um guitarrista de rock. Para quem conhece o brilhantismo e a sensibilidade tragicómica dos filmes de Kusturica, saberá que a música que os acompanha é proporcional à inventividade desse realizador. É um música que enfatiza o poder das imagens em sucessivos momentos de forte encadeamento estético. Por isso este disco é um óptimo ponto de partida para conhecer a abrangência do trabalho de Bregovic, a sua versatilidade estilística, a capacidade que possui em criar suaves melodias em contraste com possantes ritmos.
Inesquecível são algumas das suas canções, como a que interpreta Cesária Évora, a par dos habituais tangos, valsas, polkas endiabradas, canções para funerais ou casamentos, músicas ciganas da Roménia à mistura com guitarras rock, e uma poderosíssima secção de sopros sempre presente (na esteria da Fanfare Ciocarlia).

O mestre do canto espiritual


O Paquistão é um país muito peculiar. Por boas e más razões. Más em virtude, por exemplo, dos costumes sociais extremamente repressores e violentos para com a condição da mulher; más por questões do reconhecido fundamentalismo religioso e político. Boas razões, por causa da tradição musical, uma das mais ricas no contexto da música étnica e da “world-music”. Tal como para as sociedades ancestrais, assentes em códigos culturais milenares e profundamente enraizados na população, a música é para os paquistaneses, um chamamento ritualista e uma demanda espiritual do homem.
Assim como o fado está para Portugal, o "Cante Jondo" para Espanha ou o Raï para a Argélia, o ancestral canto “Qawwali” é, para o Paquistão, uma forma de canto único, uma forma de celebrar intensamente a existência terrena, aliada ao mais profundo sentimento de religiosidade. Este canto devocional caracteriza-se pela forma como o cantor, após muitos anos de treino, consegue libertar a sua voz em direcção a extremos tímbricos e melódicos que fazem qualquer ocidental não iniciado pasmar de espanto. Neste domínio, Nusrat Fateh Ali Khan (1948 - 1997), constituiu o baluarte maior desta arte impressionante de expor a voz (aos deuses, dizia ele). Nusrat, com o seu físico imponente, sempre sentado, era dono de uma voz tão portentosa quanto bela, tão elegante quanto expressiva. Única, em suma. Colaborou com inúmeros músicos ocidentais (até com projectos de música electrónica, numa proveitosa ponte entre Oriente e Ocidente), foi um sucesso de vendas em países como a França ou a Espanha. Por outro lado, ajudou também o Ocidente a conhecer melhor a apaixonante tradição musical do Paquistão.
Dizia-se que, nas suas performances ao vivo, parecia entrar em autêntico transe enquanto cantava, ajudado pela matriz hipnótica dos ritmos das tablas. Para Nusrat interessava tanto o que se dizia ao cantar como a forma como cantava. Daí que o canto “Qawwali” seja uma forma de expressão vocal extremamente rica, da qual Nusrat era um mestre incontestado. Um artista maior da música de raiz tradicional do mundo, Nusrat Fateh Ali Khan, veiculou a espiritualidade através da sua intensa música.

Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Girl from Ipanema

50 anos de Bossa Nova:

Sinatra e Jobim!

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Vega à vista

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

O tamanho do preservativo


Esta é uma foto de um grupo de fãs no concerto dos Tokio Hotel. Já sabemos que grupos de adolescentes imberbes dormiram uma semana ao relento para ver o concerto na primeira fila. Sabemos, também, que a média de idades se situou nos 14/15 anos. Mas os jornalistas repararam em crianças de 8 e 10 anos de idade. Algumas acompanhadas com os pais, outras completamente soltas de supervisão adulta. Como já escrevi uma vez, há qualquer coisa de irracional nesta euforia descontrolada de crianças e jovens à volta de um fenómeno musical que, estou certo, daqui a uns anos poucos se lembrarão. E há também comportamentos cuja precocidade e ousadia desconcertam os adultos.
Parece que o vocalista do grupo alemão, Tom Kaulitz, é um sex symbol para estas teenagers que dizem que o grupo tem um "estilo musical próprio". Repare-se nesta fotografia da Rita Carmo (revista BLITZ): uma fã não tem pejo nem timidez em mostrar um cartaz manuscrito que revela, digamos, intenções bem pragmáticas. Só não percebo se escreveu "Tom I Love XXL Condoms" ou "Tom I Have XXL Condoms". Seja como for, a diferenção não é muita. Ao menos vê-se que a moça se preocupa com o tamanho. Ah, e na prevenção das doenças sexualmente transmitidas, claro.

À procura do som da velocidade


Há pelo menos dois anos que quero comprar este livro espanhol: "El Sonido de la Velocidad - Cine y Música Electrónica". Trata-se de um livro que compila diversos textos de jornalistas e críticos de música espanhóis (mais um excelente prólogo do DJ Spooky, aka Paul D. Miller - pode-se descarregar o PDF no link). A abordagem do livro é sobre a relação entre o cinema e a música electrónica, desde as primeiras experiências até à actualidade. Como me interessa tanto o cinema como a música e as interligações estéticas daí resultantes, este livro é uma prioridade para mim. Acontece que não o consigo encontrar à venda em lado nenhum. Só tentando na tal livraria madrilena especializada em cinema.

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Raymond Scott - documentário a caminho


Em Setembro próximo assinalam-se 100 anos do nascimento de Raymond Scott (1908 - 1994), um dos mestres musicais mais polivalentes do século XX. E quando me refiro a polivalente refiro-me ao facto de Scott ter sido, durante décadas (dos anos 50 aos 80): músico de jazz, orquestrador, inventor de instrumentos electrónicos (colaborou com Robert Moog), sonoplasta, engenheiro electrónico, pianista, percursor dos estúdios de música electrónica (nos anos 50!) e de música de computador (quando os computadores eram uma excentricidade cara que ocupavam o espaço de uma sala inteira). Destacou-se, igualmente, como um inovador compositor de bandas sonoras para cartoons da Looney Tunes (Bugs Bunny, Daffy Duck...), juntamente com Carl Stalling e Spike Jones.
Em suma, Raymond Scott foi uma das figuras mais originais e influentes da música da segunda metade do século passado, um visionário possuidor de uma criatividade e engenho únicos. O seu génio fez-se (faz-se, ainda) sentir numa vastíssima legião de músicos, de bandas e de campos de criação musical muito diversificados: do rock ao jazz, da electrónica experimental à electro-acústica, da pop à vanguarda, do easy-listening à composição musical para cinema e audiovisual. A música de Raymond Scott ajudou a desenvolver o imaginário de músicos tão diferentes como Hal Wilner, DJ Spooky, Henry Rollins ou David J, dos Bauhaus e Love and Rockets, que refere: "As for millions of other kids raised on Bugs and Daffy, Raymond Scott's wonderful idiosyncratic music seeped into my childhood subconscious and never left. It became the abstract soundtrack to my-dreams."
No centenário do seu nascimento, o seu filho Stan Warnow (realizador) está a ultimar um documentário sobre a vida e o imenso legado de seu pai. Chama-se "Raymond Scott: On To Something" e vai trazer, com toda a certeza, mais visibilidade a um autor e a uma obra que mercem um reconhecimento mais alargado.

Música ambientalista


Coldcut - "Timber"

Coldcut - "Natural Rhythm"

Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Dois românticos resistentes


Longe vão os tempos em que o espaço da publicidade televisiva servia, não só como veículo promocional de produtos comerciais, como também de produtos culturais: CDs, filmes em estreia no cinema e até livros. Os tempos mudaram, os métodos de promoção dos discos são outros e com o advento maciço e global da Internet, já não faz mais sentido gastar dinheiro na televisão para promover um CD ou um filme. Certo? Nem tanto. Hoje de manhã, num intervalo publicitário da televisão, vi dois anúncios que promoviam o lançamento de CDs: um "best of" (mais um) de Marco Paulo e um "best of" (mais um) de Richard Clayderman. Percebo a intenção: os admiradores inveterados de Marco Paulo são de uma geração que não têm familiaridade com a Internet e as novas formas de consumo cultural. Logo, faz sentido que a televisão seja ainda o meio de comunicação por excelência para chegar ao público-alvo pretendido. E os consumidores de Marco Paulo ainda compram os CDs na feira ou em lojas de discos (originais ou pirateados, isso é outra história).
O Richard Clayderman é um caso à parte. Não faço ideia quem possa comprar os seus discos. Clayderman representa tudo o que mais detesto num intérprete (basta ver as suas cândidas capas de disco comparáveis - em qualidade estética - às do português Eurico Cebolo): pose pirosa, olhar sedutor à macho ariano, visual pseudo-dandy, flores e castiçais em cima do piano num embrulho de romantismo saloio, e reportório de baladas comerciais (da pop ou da clássica). Se quisermos ser mais radicais, Clayderman insere-se numa tipologia cultural pimba, ainda que o seu reportório pretenda ser sério e de autores consagrados. Já vendeu mais de 60 milhões (!) de discos em todo o mundo e é tão respeitado quanto parodiado - lembremos a sátira que o Herman José fez de Richard Clayderman há uns bons anos num dos seus programas - "Richard Peyderman" - em que o intérprete tocava piano ao mesmo tempo que soltava... gases. Juro que nunca percebi como é que Richard Clayderman conseguiu criar, à volta de si, um verdadeiro fenómeno musical à escala planetária e durante tantos anos.
Os publicitários é que deverão ter mais conhecimento de como se processam estes fenómenos e quais as estratégias para os tornar cada vez mais mediáticos e populares. E sabem, com certeza, que apesar de vivermos num mundo da cultura digital onde o aparecimento e o desaparecimento de fenómenos culturais se processa a uma alta velocidade, há certos fenómenos que se enraízam fortemente no imaginário da opinião pública. Marco Paulo e Richard Clayderman (como tantos outros), fazem parte desse grupo de artistas resistentes à mudança e que, para sobreviverem no mundo em que se habituaram a ter sucesso, continuam a precisar da televisão para afirmarem a sua identidade no panorama artístico e para divulgarem os seus novos CDs.

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Joy Division: o regresso em documentário


Já tem estreia marcada para Portugal: 17 de Julho. Falo do filme "Joy Division" de Grant Gee, um documentário que promete revelações sobre o quarteto fantástico de Manchester e do malogrado Ian Curtis. Depois do sucesso de "Control" de Anton Corbijn, "Joy Division" trará, certamente, um novo olhar sobre um dos mais influentes e importantes grupos de sempre. isto porque o filme de Grant Gee se baseia em entrevistas aos músicos sobreviventes do grupo, assim como a amigos, técnicos e pessoas que conheceram e viveram de perto todo o fenómeno meteórico dos Joy Division. Uma das pessoas entrevistadas é a jornalista Hanick Honoré, amante de Ian Curtis na fase final da vida do cantor e letrista. Será particularmente interessante verificar a versão de Honoré em relação à sua ligação a Curtis, uma vez que a mulher legítima, Deborah Curtis, discordou da versão sentimental apresentada no filme de Corbijn. O filme estreou há pouco mais de um mês na Inglaterra e teve óptimas críticas. Grant Lee não é novato em documentários sobre música, visto ter realizado um sobre os Radiohead e outros sobre Scott Walker.
O documentário, com distribuição da Midas Filmes, será apresentado à imprensa no dia 27 de Junho e a estreia comercial será no dia 17 de Julho.

Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Os leitores são todos velhos?


São duas revistas sobre música. Duas referências na divulgação da música pop-rock. Estas são as capas dos últimos números das revistas "Uncut" e "Mojo". Na capa, grupos que foram referências há mais de 30 anos: Sex Pistols e Crosby Stills Nash & Young. É uma tendência recorrente na imprensa musical internacional e nacional: capas com músicos ou grupos com 30 ou 40 anos e, pior ainda, que já nem sequer existem. Repare-se em Portugal o que tem acontecido com a revista Blitz, única publicação sobre música. No último ano, as capas têm sido praticamente apenas sobre grupos com décadas de existência: Doors, Joy Division, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Police, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen... Haverá uma razão para esta opção? Significará que os leitores destas revistas já não são jovens e, consequentemente, as respectivas referências musicais dizem respeito ao passado (longínquo)? Ou trata-se apenas de um fenómeno passageiro de revivalismo cultural?

Sábado, 21 de Junho de 2008

Um crítico musical à margem


A música não é só ouvida. É também lida. E sobretudo em livros tão bons quanto este, que pretende analisar as múltiplas ramificações da chamada música de "vanguarda". Na sua já considerável travessia jornalística por variados jornais de relevo - do "Jornal de Letras" ao "Blitz", d' "O Independente" ao "Expresso" (para já não citar publicações estrangeiras) - Rui Eduardo Paes tem-se dedicado, afanosamente - e não raras vezes enfrentando obstáculos à sua actividade - ao estudo e divulgação das chamadas "novas músicas". Eis o seu último manifesto.
De que fala este livro intitulado «Phonomaton – As Novas Músicas no Início do Séc. XXI» de Rui Eduardo Paes? Fala, na essência, sobre o mesmo que os seus três livros anteriores – todos editados pela Hugin (e com distribuição nas boas livrarias): a problemática das músicas contemporâneas de índole experimental e a significação das estéticas de ruptura face aos valores culturais instituídos. Dito de outro modo, aborda todas as expressões artísticas tidas como de vanguarda, nas suas múltiplas formas e configurações - música electroacústica, improvisada, electrónica, multimédia, erudita contemporânea, computer music, novo jazz e outras derivações estéticas radicais e alternativas face à cultura "mainstream" dominante.
Rui Eduardo Paes tem sido uma voz crítica única no panorma jornalístico nacional e, neste trabalho em particular, recorre a uma argumentação extremamente bem urdida, lúcida e com uma visão histórica dos factos simultaneamente original e pertinente. Analisa eloquentemente os fenómenos artísticos, disseca-os com auxílio de teorias não só musicais como filosóficas e literárias, citando para tal autores tão prementes para a cultura contemporânea como Virilio, Camus, Borges, Sartre, Lyotard, Deleuze, Debord, Heidegger ou Cioran. Além disso, explora a congeminação de relações entre distintas áreas do pensamento ensaístico, tentando estabelecer elos de ligação entre correntes específicas do pensamento artístico (surrealismo, dadaísmo, pós-modernidade, teoria do Caos, minimalismo, nihilismo...) com outras tantas correntes musicais e artísticas (free jazz, música concreta, electrónica, improvisação, instalações multimédia, cinema experimental, pintura conceptual...).
Rui Eduardo Paes contribui assim, com esta obra e com o conjunto dos seus livros (ver no seu site), para a clarificação histórica e evolutiva dos processos criativos mais avançados da cultura contemporânea, dando um especial destaque (com entrevistas) ao panorama nacional e seus principais intérpretes: Rafael Toral, Major Eléctrico, Miso Ensemble, Telectu, Carlos Zíngaro, Emídio Buchinho, Vitriol, René Bertholo, etc.
Não se veja em "Phonomaton" um estudo académico de musicologia; Rui é avesso a redundantes academismos formais. Não é, igualmente, um livro sobre objectos culturais fáceis e imediatos. O livro representa antes uma plataforma de análise e de reflexão múltipla sobre as músicas emergentes do século XXI (e suas correspondentes ramificações noutras artes), num âmbito quiçá distante do senso comum e da superficialidade crítica. De qualquer modo, este sensível manifesto de Rui Eduardo Paes, essencial para quem gosta de música, revela-se também intelectualmente estimulante para qualquer leitor avesso à massificadora sociedade do espectáculo - e todas as suas referências culturais adjacentes -, a mesma sociedade à qual o fulminante pensador Gilles Lipovetsky classificou de "era do vazio".

Sérgio Godinho: músico com veia anarquista


Em 1997 entrevistei para o jornal "Terras da Beira" o músico Sérgio Godinho.

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Sérgio Godinho é um músico raro: a uma generosa e vincada personalidade (humana e artística) alia também um desejo voraz em perscrutar a realidade, os sons e a vida, num processo estético que só pode desembocar na criação de canções imersas num lirismo contagiante. Discurso sóbrio e honesto, postura humilde mas desconcertante, são alguns ingredientes revelados nesta entrevista a um dos últimos grandes «escritores de canções» portugueses.

Já tens uma longa carreira cimentada à custa de muito empenho e porventura de alguns dissabores. É para ti mais fácil olhar com nostalgia para o passado do que encarar a incerteza do futuro?
Eu acho que as duas coisas se complementam naturalmente, porque nunca reneguei o passado e tudo aquilo que fiz acaba por me alimentar para o futuro. Eu não sou revivalista a não ser que projecte esse revivalismo para o futuro porque, acima de tudo, sou uma pessoa do momento presente e se as minhas canções antigas continuam a fazer sentido, eu canto-as naturalmente.

E essa noção de «sentido» das canções vem do público?
Não, para mim vem da coerência poética e musical da própria canção e de sentir que a mesma funcionou. É evidente que o «feedback» do público em relação a determinadas canções também acaba por me influenciar e me estimular num certo sentido ou noutro, até porque não sou imune à receptividade do público visto que, estar no palco, é um espectáculo de comunicação, de trocas, de estímulos.

Analisando sob o prisma do presente, que importância outorgas à chamada «canção de intervenção política» que marcou a tua geração desde os finais dos anos 60?
Penso que isso sempre existiu e é uma das componentes da canção que é importante, no sentido de olhar para a sociedade e ver o que está bem e o que está mal e falar naturalmente disso. Eu sempre integrei nas minhas canções - nalguns discos e nalgumas alturas - um certo conteúdo sócio-político que eu acho importante existir. Penso é que o termo «intervenção» é um termo redutor e que só por si não explica grande coisa. O rap é um estilo contemporâneo que também expressa uma preocupação sócio-política...

É por isso que tens colaborado com jovens músicos ligados ao rap e ao hip-hop?
Sim, de certa forma sinto-me próximo dessa linguagem: a maneira como eu largo a frase, aproveito as frases ritmicamente e o facto de partir de uma base musical - quando estou a compor uma canção - para depois encontrar palavras que tenham essa consonante rítmica constitui, para mim, algo de muito próximo ao rap; não faço rap puro, obviamente, mas há de vez em quando coisas que faço que têm a ver com o universo rap. Acontece é que eu sou um «melodista» e o rap não vive muito da melodia.

As tuas experiências artísticas no estrangeiro, com o «Living Theatre» e com a ópera rock «Hair», contribuíram de certa forma para a consolidação da tua veia estética, enquanto músico?
Sim, absolutamente. Ambas as experiências foram diferentes: o meu primeiro contacto com o «Living Theatre» foi em Paris e depois fui em digressão para o Brasil acabando por ser preso devido ao radicalismo estético e à atitude anarquista preconizada por esta companhia, e acabei por me confrontar com essas experiências radicais e alternativas. Eu sempre me senti atraído por ideias anarquistas, quer na estética quer ao nível político. No caso do «Hair», era uma comédia musical integrada numa corrente da «Broadway» e foi nesse momento decisivo que eu aprendi a estar à vontade no palco, encarando-o como se fosse a minha casa.

Essas ideias anarquistas de que falaste tornaram-se numa forma de vida?
De certo modo sim, na medida em que tenho sobretudo uma liberdade e uma independência ferozes que eu sempre conservei e que procuro prosseguir e mostrar. Seria incapaz de pertencer a um partido político tendo em conta que a ideologia anarquista recusa ideias políticas sejam de esquerda sejam de direita. A anarquia representa para mim uma forma de lucidez, de independência, é como que uma escolha de actuação perante a vida.

És um músico que dás bastante importância à palavra e à poesia. A música deve-se subalternizar relativamente à palavra?
Não, nas minhas canções uma coisa não vive sem a outra: as minhas palavras ficariam muito empobrecidas se não tivessem um suporte musical e vice-versa. Mas se tivesse que me definir, diria que sou essencialmente um músico apesar de jogar com o universo poético, com uma estilística que é poética e de ser um apaixonado pelas palavras; agora, o que eu gosto é de as ver dançar ao som da música!

E a inovação na música far-se-á pela descoberta de novos domínios da palavra?
Quando falo na palavra tenho também de falar na frase, que é a maneira como as palavras são compostas, assim como dinâmicas que a música cria para as frases. Em cada frase há uma musicalidade própria e tenho por hábito registar a maneira como as pessoas falam no quotidiano, dando atenção ao ritmo, à cadência, à melodia, podendo haver nesta matéria o véu para a descoberta de novas formas de expressão musical. Existem frases e palavras quotidianas que, deslocadas para um determinado contexto musical, se tornam insólitas e criativas, numa espécie de «ready-made».

Propunha-te um desafio: a uma palavra tu respondes com um comentário breve de uma frase.
Vamos ver.

Concerto.
É o sumo mais doce e mais rico que posso beber como músico.

Zeca Afonso.
Foi quem abriu janelas onde nem paredes havia.

Giacometti.
Salvou a música portuguesa (talvez sem saber).

Rock.
É um dos lados de mim.

Paris.
Foi o Maio de ’68 e o «Hair»: o ponto dourado das experiências no estrangeiro.

Poema.
É aquilo que se está sempre a reinventar nas formas e na lírica.

Pimba.
Mau gosto instituído: é um abastardamento de formas musicais pelo menor denominador comum.

Sucesso.
É uma coisa relativa, efémera e que não nos pode nunca ofuscar.

Inspiração.
É uma borboleta que pode ou não pousar nos nossos ombros

Sérgio Godinho.
Espero poder pousar durante muito tempo, levemente, como uma borboleta, na sensibilidade das outras pessoas.

Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

O exemplo de John Williams

Não é dos meus compositores para cinema favoritos, mas é indiscutivelmente, um dos maiores: John Williams. Recebeu o incrível número de 6 Óscares ao longo da sua brilhante carreira, entre os quais, as memoráveis bandas sonoras de "Tubarão", "E.T.", "Star Wars" ou "A Lista de Schindler". Todos realizados por Steven Spielberg, pois claro (corrijo: "Star Wars" foi realizado por George Lucas). Por vezes, creio que John Williams se enreda demasiado por um clacissismo académico que tende a explorar fórmulas orquestrais repetitivas, sem grandes explosões de criatividade e de abertura estética (ao contrário de um Howard Shore, um Tyler Bates ou de um Danny Elfman). Porém, é bem verdade que algumas das mais impactantes bandas sonoras feitas, desde os anos 70 aos nossos dias, foram compostas por Williams. E como se prepara e trabalha este compositor para compor a música dos filmes? Tomemos como exemplo a música do filme "O Resgate do Soldado Ryan" (1988) de Steven Spielberg. No clip a seguir, John Williams explica como abordou o trabalho de relacionar a música com o dramatismo das imagens.

O cantor de barbas brancas

Robert Wyatt é um extraordinário songwriter inglês que fez parte dos lendários Soft Machine, banda fulgurante do rock psicadélico e progressivo dos anos 60 e 70. Um fatal acidente em 1973 confinou-o para sempre a uma cadeira de rodas (ficou paraplégico). Não foi por causa disso que deixou de fazer música, lançando-se numa irregular mas muito fértil carreira a solo. Ao longo dos anos trabalhou com Henry Cow, David Gilmour, Elvis Costello, Marc Ribot, Björk ou Carla Bley, e alguns dos seus discos são verdadeiras pérolas como "Old Rottenhat" (1985), "Dondestan" (1998), "Cuckoland" (2003). Tal como o seu mais recente trabalho, "Comicopera", editado em finais de 2007. Na altura em que saiu ouvi-o apenas uma vez e não me despertou particular interesse. Achei até estranho que tivesse sido escolhido, por muita imprensa especializada (portuguesa e estrangeira), como um dos melhores discos editados em 2007.
Passado quase um ano, voltei a ouvir "Comicopera" e percebi que na primeira audição tinha subvalorizado, enormemente, o trabalho de Wyatt. Com colaborações de Phil Manzarena (Roxy Music), Paul Weller e do grande Brian Eno, "Comicopera" contém algumas das mais inspiradas canções do músico de Bristol. Notáveis canções cantadas em várias línguas (inglês, italiano, espanhol) no seu registo vocal inconfundível (e tecnicamente impressionante - a sua tessitura vocal atinge 5 a 6 oitavas). Dividido em três partes, o cantor de longas barbas fez em "Comicopera" um magnífico trabalho de cozedura sonora, com melodias de puro encantamento (vide "Just As You Are" ou "Del Mundo") e estruturas instrumentais de grande rigor estrutural. Sem dúvida um grande disco de 2007, de 2008 e de qualquer ano.

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

O ruído

Alguma vez o ruído soou assim num filme?

"Eraserhead" (1977) - David Lynch

O coro

Alguma vez um coro soou assim num filme?

"Amadeus" (1984) - Milos Forman
Música: Mozart

A guitarra

Alguma vez uma guitarra soou assim num filme?

"Paris, Texas" - Wim Wenders (1984)
Música de Ry Cooder