Mostrar mensagens com a etiqueta Morte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Morte. Mostrar todas as mensagens

Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

David Chapman - o assassino tranquilo


A semelhança física entre estas duas imagens é assustadora. O homem da esquerda é Mark David Chapman; o homem da direita é o actor Jared Leto a interpretar Mark David Chapman no filme "Chapter 26" de J.P. Schaefer. Chapman foi o assassino de John Lennon, no fatídico dia de 8 de Dezembro de 1980, à porta de sua casa, o famoso edifício Dakota em Nova Iorque. Horas antes, Chapman esperou por Lennon à porta de sua casa para que o ex-Beatle assinasse um autógrafo no seu recente álbum "Double Fantasy", como pode ser visto nesta perturbante fotografia. Horas depois do autógrafo, David Chapmam esperou o regresso a casa de John Lennon e, sem prévio aviso, alvejou-o com 5 tiros pelas costas, perante o horror de Yoko Ono. Depois dos disparos, Chapman esperou que a polícia o viesse prender. No passeio, John Lennon agonizava e acabaria por morrer (perdeu 80% de sangue).
Chapman dizia-se obcecado com a figura de Lennon e durante toda a vida sofreu de perturbações psicológicas e neuróticas. Referiu à polícia que a inspiração para o seu crime foi a leitura compulsiva do livro "Catcher in the Rye" do escritor J.D. Salinger, no qual se narra a história de um adolescente revoltado contra os hipócritas e falhados da sociedade. David Chapman identificava-se com essa personagem, vendo em Lennon uma figura pública que encarnava essa hipocrisia. David Chapman foi sentenciado a pena perpétua, sempre em reclusão solitária devido às ameaças de morte de outros reclusos admiradores dos Beatles. Pediu várias vezes liberdade condicional, mas foi sempre negada. Actualmente com apenas 53 anos, é possível ainda que Chapman seja posto em liberdade, para desespero de Yoko Ono, Paul McCartney e fãs de John Lennon de todo o mundo.
Quanto ao filme "Chapter 26" (relacionado com o livro de Salinger) que retrata os últimos dias de David Chapman, culminando no assassinato de Lennon, foi arrasado pela crítica (vai estrear em Portugal dia 31 de Julho). Facto relevante no filme é a interpretação do actor Jared Leto - também conhecido como cantor da banda rock 30 Seconds to Mars. Leto seguiu o exemplo de Robert De Niro no filme "Touro Enraivecido" de Scorsese, ao engordar perto de 30 quilos para entregar maior realismo à personagem de Chapman. A semelhança física é notável, mas as sequelas desta exigente prova foram dolorosas para o actor, que passou mais de um ano a recuperar (com dificuldade) a sua silhueta física normal.
Interessante é que um ano antes foi realizado um outro filme sobre a morte de John Lennon centrada na figura de David Chapman - "The Killing of John Lennon" Ainda não vi nem um nem outro, por isso não posso emitir juízos de valor precipitados, mas quase arriscaria a dizer que estes dois filmes não serão os últimos sobre o assassinato de John Lennon.

Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Cossery - o escritor desprendido



Lembro-me do momento em que um amigo mais velho me deu a conhecer a obra do escritor Albert Cossery (morreu ontem aos 93 anos). Foi em meados dos anos 90. Dizia-me esse amigo que Cossery um escritor invulgar e original, capaz de escrever sobre assuntos mundanos de forma extremamente polida, que se interessava pelos "vencidos da vida" e não por heróis romanceados de forma épica. Albert Cossery fazia, na esteira da filosofia epicurista (o prazer e o hedonismo como valores primordiais para a vida), a apologia da preguiça e do ócio, vendo nestas atitudes, o espelho de uma rebuscada actividade interior, como métodos valiosos de reflexão sobre a vida e o mundo. O próprio Cossery viveu praticamente toda a vida de forma desprendida e despojada, segundo o próprio, veículos para a felicidade e para o bem-estar existencial.
Apenas li três dos seus oitos livros: "Mendigos e Altivos", "A Violência e o Escárnio" e "Conversas Com Albert Cossery". Este último título, um conjunto de entrevistas ao escritor egípcio, é particularmente interessante para compreender o pensamento e a escrita de Albert Cossery:
- "Nunca pensou que as sociedades podem progredir?"
- "Um progresso espiritual, sim, mas não no sentido religioso. Espiritual, quer dizer no espírito. É muito difícil e é por esse facto que a humanidade não avançou nem um centímetro desde há milénios. Hoje vemo-lo um pouco por todo o mundo: as pessoas odeiam-se, entram em guerra, matam-se".
- "Qual é a arte de viver?"
- "Desprender-se de tudo o que nos ensinam, de todos os valores e dogmas".
- "O que é que caracteriza a arte de viver das personagens que criou?"
- "Em primeiro lugar, a falta de ambição. O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo para mim próprio: podem apresentar-me isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe. Não é a posse de bens materiais que pode satisfazer um homem inteligente, que compreendeu o mundo em que vive".
- "O que lhe dizem os seus leitores mais frequentemente?"
- "Os meus leitores nunca me dizem: escreveu um belo romance, como acontece com muitos escritores; dizem-me: salvou-me a vida. Muitos jovens vão para o Egipto - Cairo - porque leram os meus livros. E muitos ficaram por lá".
Uma recensão breve - mas concisa - sobre a vida e obra de Albert Cossery pode ser lida no blogue Boca de Incêndio.
PS - na capa do livro "Conversas com Albert Cossery" pode ver-se, atrás do escritor, o famoso Café de Flore, famoso espaço de artistas e tertúlias de Paris, já abordado neste post.

George Carlin - the king of comedy

É verdade que não era muito conhecido em Portugal. Mas os amantes do humor (os que escrevem e lêem) e da arte da stand-up comedy (de Nuno Markl a Ricardo Araújo Pereira) sabiam bem quem era George Carlin. Carlin morreu ontem vítima de problemas cardíacos e era, há várias décadas, um dos mais corrosivos e inteligentes humoristas norte-americanos, tendo influenciado autores tão diversos como Woody Allen, Jon Stewart ou Jerry Seinfeld. Era, como alguém disse, o verdadeiro "king of comedy".
Herdeiro do génio e da irreverência criativa de Lenny Bruce (Dustin Hoffman encarnou no cinema este virulento personagem do humo negro), George Carlin granjeou controvérsia e admiração por todo o mundo com as suas vibrantes actuações e programas de televisão. Quando muitos humoristas referem a necessidade do humorista saber não ultrapassar os limites da decência através do humor, George Carlin defendida precisamente o contrário: "acho que é dever do comediante descobrir onde está o limite e cruzá-lo deliberadamente". Nenhum tema era imune à crítica feroz de Carlin - política, sociedade, aborto, mundo do espectáculo e, com não rara polémica, religião. É sobre religião um dos mais famosos e acutilantes discursos humorísticos de George Carlin, aqui reproduzido com legendas em português (versão brasileira).

No seguimento deste vídeo, vale a pena conhecer a desconcertante teoria de George Carlin sobre os Dez Mandamentos.

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Pollack


Morreu ontem o realizador Sydney Pollack, aos 73 anos, vítima de cancro detectado há apenas 10 meses. Num certo ponto de vista, Pollack integra com Scorsese e Eastwood, a última geração clássica do cinema de Hollywood. Ainda há poucos dias tinha visto o seu último filme em DVD: "A Intérprete" (2005), com Sean Penn e Nicole Kidman. Um interessante thriller político passado nos bastidores da sede da ONU. Mas Pollack vai ser lembrado por muito mais do que o seu derradeiro filme: "África Minha" (1985) com uma fabulosa Meryl Streep, está cotado na lista do Imdb como o 13º melhor filme de sempre (ganhou dois Óscares). "Tootsie" (1983), com um magnífico Dustin Hoffman travestido de mulher. "3 Dias do Condor"(1975), um filme de espionagem nomeado aos Óscares com Robert Redford e Faye Dunaway. Paralelamente à sua actividade de realizador, não se pode esquecer o trabalho importante de Pollack como produtor ("Cold Mountain" e "Michael Clayton") e actor (fez parte do naipe de actores do último filme de Stanley Kubrick, "De Olhos Bem Fechados", 1999).
Nos extras do filme "A Intérprete", Sydney Pollack comenta que o trabalho de realização é um trabalho penoso e difícil. Não retira grande prazer das filmagens, exceptuando no trabalho de montar o filme, que é aquela faceta do trabalho cinematográfico em que se sentia mais à vontade para criar no isolamento da sala de montagem. Pollack dixit: "I don't value a film I've enjoyed making. If it's good, it's damned hard work."

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

DVD do mês


Na capa do DVD lê-se : "Um dos mais comoventes e brutalmente honestos filmes acerca do suicídio." Não é preciso dizer mais nada.

Sábado, 17 de Maio de 2008

O papel do crítico musical


Este é um país que liga muito pouco à crítica de arte. Os críticos que escrevem para a imprensa generalista ou especializada, sejam de música, cinema, artes plásticas, literatura, ou de teatro, têm a nobre função de divulgar e promover os objectos culturais que analisam. Mas para quem escrevem os críticos? A verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, os críticos escrevem para o próprio umbigo, para uns quantos iniciados e para... os outros críticos. É um círculo vicioso que em nada beneficia o leitor médio de jornais ou revistas. O exercício da crítica deve conter tanto de informativo como de emissão de juízo de valor e, tendencialmente, elaborada numa linguagem o menos técnica e hermética possível.
Vem esta introdução a propósito do facto de, no dia 15 de Maio, terem passado 3 anos da morte daquele que considero ter sido um dos melhores críticos de música que este país já teve: Fernando Magalhães (na foto). Com formação em filosofia, a paixão pela música e pelo jornalismo falou mais alto. Durante anos escreveu para diversas publicações, mas foi no (então) semanário Blitz e no diário Público que a escrita de Fernando Magalhães se fez notar. Para além do grande domínio da língua portuguesa, o jornalista tinha uma vasta e diversificada cultura musical, que lhe permitia dissertar com a mesma desenvoltura sobre fado, krautrock, electrónica experimental, world-music ou jazz (foi a ler muitas das suas críticas que desenvolvi o gosto pelas mestiçagens estéticas). Depois, detinha um sentido de humor férreo e cáustico, sobretudo quando fazia reportagens de concertos ao vivo. Tanto revelava valores musicais emergentes como escrevia longas recensões sobre artistas consagrados como Frank Zappa, Residents, Dead Can Dance, Kepa Junkera ou (o seu muito amado) Peter Hammil. Muitas vezes se queixou que o Público não lhe dava rédeas soltas para escrever sobre aquilo que queria realmente escrever (dado que privilegiava as correntes musicais marginais e alternativas), facto que lhe proporcionava uma angústia crescente enquanto profissional. A crítica musical de Fernando Magalhães era cirúrgica, extremamente bem construída, inteligente, pragmática e pedagógica (premissa importante mas desprezada por muitos críticos). Do panorama da crítica musical nacional, só o João Lisboa se lhe compara em dimensão jornalística e cultura musical. Das novas gerações, o estilo jornalístico de Magalhães deixou marcas em críticos como João Bonifácio (Público).
3 anos depois do seu desaparecimento, vale a pena ainda ler ou reler muitos dos seus textos, artigos, críticas e entrevistas. Basta abrir este espaço dedicado à memória da escrita de Fernando Magalhães.


Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Rauschenberg


(1925 - 2008)
"It's so easy to be undisciplined. And to be disciplined is so against my character, my general nature anyway, that I have to strain a little bit to keep on the right track."

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Um certo culto que se extingue


Com o encerramento do cinema Quarteto e a morte de Pedro Bandeira Freire (exibidor, programador) desaparece - ou vai-se extinguindo dramaticamente - uma certa memória do cinema, uma militância passional pela 7ª arte que se torna cada vez mais rara. Bandeira Freire personificava esse amor pelo cinema enquanto expressão artística e cultural de uma geração. No consumo desenfreado e massificado do cinema nos centros comerciais, é impossível fruir o cinema como algo imanente, dada a impessoalidade e a indiferença identitária que essas salas comerciais representam. Não pode haver sentimento de cinefilia numa sala abarrotada de miúdos com pipocas e latas de Coca-Cola. Não há cinefilia quando 90% dos filmes em exibição, semanalmente, são de produção dos grandes estúdios de Hollywood, filmes que se esquecem, as mais das vezes, logo após o seu visionamento e que mais não representam do que fogo fátuo audiovisual. Consequentemente, o espaço público para a programação e exibição do chamado cinema de autor, independente, alternativo, europeu e asiático, tende a afunilar-se perigosamente. Valha-nos os festivais de cinema temáticos (DocLisboa, IndieLisboa, Fantasporto) e a cultura do DVD, cujo mercado é cada vez mais diversificado e virado para a história do cinema, que proporciona continuar a alimentar o gosto pela arte que consagrou Eisenstein.

Sábado, 29 de Março de 2008

A morte pode ser bela

Este é um dos finais de filme mais desoladores e belos dos últimos anos: "O Tempo Que Resta" (2006), do cineasta francês François Ozon (talvez o mais interessante realizador francês da nova geração). Vítima de uma doença terminal aos 30 anos, o jovem Romain decide refugiar-se de tudo e de todos e viver os seus últimos momentos de existência numa praia. A forma como Ozon encena estes últimos 7 minutos de filme são de um sublime despojamento e paradoxal experiência. Romain, o outrora famoso fotógrafo da moda, sabe que a aproximação da morte é iminente e, querendo enfrentar esse momento final na mais completa solidão, escolhe para morrer uma praia cheia de famílias e crianças felizes. Romain aprecia e saboreia os insignificantes instantes de vida revelando um olhar já triste e derrotado. Deita-se na toalha de frente para o sol para a derradeira despedida e com um subtil sorriso estampado no rosto. A praia fica deserta. Ouve-se a música elegíaca de Arvo Pärt. François Ozon filma aquele corpo já morto, no deserto em que se tornou aquela praia, como se estivesse a renascer. Os últimos resquícios de sol parecem reflectir-se no rosto inerte de Romain. E o último plano do pôr-do-sol é já a morte a resgatar a alma de Romain. Visconti não teria desdenhado este final de filme (vide " Morte em Veneza"). Belo, belo.

Terça-feira, 25 de Março de 2008

Debussy - 90 anos depois


Hoje comemoram-se 90 anos da morte de uma dos grandes inovadores da música do fim do século XIX e princípio do século XX: Claude Debussy. Que eu tenha reparado, nem uma linha foi publicada nas páginas de cultura dos jornais diários sobre a efeméride. Debussy abriu as portas da modernidade musical e das revoluções estéticas que irromperam a partir da primeira Guerra Mundial: primeiro com o Impressionismo (movimento de que fez parte mas que sempre rejeitou), depois com o contributo de Stravinsky e desembocou na vanguarda de compositores como Edgar Varèse, Charles Ives ou John Cage. Debussy renovou a linguagem harmónica, criou novas sucessões de acordes, compôs linhas melódicas de grande sensualidade e explorou novas possibilidades rítmicas. Bastaram duas composições para que o nome de Debussy fosse inscrito nos manuais da Historia da Música: “Pelléas et Melisande” e o sublime poema sinfónico “Prélude à L'après-Midi d'un Faune”, baseado num poema de Mallarmé e transposto para bailado por Vaslav Nijinski em 1912.
90 anos depois, a música de Debussy permanece actual e moderna.

Segunda-feira, 24 de Março de 2008

A música do enterro


A notícia é do Público online. O título menciona: “Sri Lanka: Arthur C. Clarke enterrado ao som de "2001 Odisseia no Espaço". A dúvida sobressalta: Arthur C. Clarke foi enterrado ao som de “2001 Odisseia no Espaço”? Mas qual som? Para além de ser vago falar ao "som da banda sonora de um filme", não informa qual a composição utilizada, em que contexto, uma vez que a banda sonora do filme homónimo de Kubrick é um conjunto de composições muito diferentes – Strauss e Ligeti. Seria ao som da valsa de Strauss? Ou da peça "Lux Aeterna" de Ligeti? Como é comentado (e bem) no site do jornal, não faz sentido noticiar um título destes.

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Rest in Peace


Duas mortes no campo das artes, no mesmo dia: uma assaz previsível - Arthur C. Clarke (escritor de ficção científica) aos 90 anos; outra - Anthony Minghella (realizador de cinema) completamente inesperada, aos 54. Há apenas uma relação entre uma e outra personalidade, o cinema.

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

A cidade dos jovens suicidas


Uma coisa é falar dos suicídios de artistas, gente que já viveu muito, homens e mulheres com longa experiência de vida social e artística (como eu falei aqui). Outra coisa é falar de suicidas que mal saíram da idade da puberdade tardia. É o que tem acontecido no estranho caso em Bridgend, no País de Gales: em apenas um ano, suicidaram-se 17 adolescentes por aquelas terras. A 17ª vítima era uma jovem de somente 16 anos. Na semana passada, dois primos (na imagem), de 15 e 20 anos de idade e ambos de Bridgend, morreram num período de dois dias. Consta que existe um pacto colectivo de suicídio combinado por Internet. Por outro lado, os pais acusam os meios de comunicação de especulação e de manchetes sensacionalistas que só motivam mais os jovens a tomar esta decisão extrema de acabar com a vida. A polícia desmente o pacto afirmando que eram todos jovens com “grandes problemas”. E os outros milhões de jovens que, por todo o mundo, têm “grandes problemas”, porque não se suicidam desta forma colectiva? Seja como for, é um fenómeno bizarro e chocante. 17 mortes por suicídio entre a comunidade jovem, numa cidadezinha de apenas 130 mil habitantes (onde toda a gente se conhece), é algo que foge a qualquer explicação racional e objectiva. E é um fenómeno assustador pela dimensão e pela quantidade de mortes. Um fenómeno de estudo sério, de reflexão cuidada para sociólogos e psicólogos. Um fenómeno que encosta à parede pais e educadores, dada a violência e aparente irracionalidade dos factos.
PS – Lembremo-nos que em muitos países o suicídio é a segunda ou terceira causa de morte entre crianças e adolescentes, logo após os acidentes ou doenças graves.

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Alain Robbe-Grillet


Alain Robbe-Grillet morreu ontem aos 85 anos de idade. Foi o mentor do chamado "novo romance" francês (juntamente com Marguerite Duras e Nathalie Sarraute), caracterizado por uma inovadora linguagem narrativa não-linear, repleta de descrições de ambientes, de perfis psicológicos dos personagens. À semelhança da Nova Vaga do cinema francês da décda de 60, Robe-Grillet explorou novos territórios de experimentação da linguagem e da estrutura da narrativa. E esta faceta de experimentalista ficou para sempre marcada num filme charneira da "nova vaga": "O Último Ano em Marienbad" (1961), do realizador Alain Resnais. Neste sublime filme, a ausência de história convencional era colmatada com uma linguagem visual depuradíssima, com uma composição plástica da imagem de teor barroco e com o recurso a elipses, flashbacks e figuras de estilo. O conceito de memória e seus labirintos são, igualmente, objecto de descodificação nesta obra magna do autor de "Hiroshima Meu Amor".

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Os Deuses amam quem se suicida?


Ernest Hemingway (na imagem), Kurt Cobain, Camilo Castelo Branco, Ian Curtis, Jacqueline Kennedy Onassis, Roland Barthes, Jean Michel Basquiat, Walter Benjamin, Mishima, Guy Debord, Cleópatra, Florbela Espanca, Gogol, Adolf Hitler, Virgínia Woolf, Primo Levi, Stefan Sweig, Anna Karenina, Sylvia Plath, Guy de Maupassant, Vincent van Gogh . O que têm estas pessoas em comum, além do facto de serem famosas? O suicídio.
Como dizia Albert Camus, o suicídio deveria ser a questão crucial da filosofia. Ou seja, tentar saber se a vida merece ou não ser vivida. A morte em geral e o suicídio em particular, continuam a ser assuntos tabu na cultura ocidental. No Japão, a morte voluntária é encarada com certa bonomia e tolerância cultural, sendo e o harakiri (suicídio através da espada - foi como morreu o escritor Mishima) era uma prática comum nos samurais (para não falar no terrível fenómeno kamikaze da 2º Guerra Mundial). No Japão há inúmeros casos de suicídios colectivos de jovens e até crianças, muitas das vezes combinados pela internet.
Durkheim foi um dos primeiro sociólogos a estudar seriamente o fenómeno do suicídio. E durante a segunda metade do século XX, houve muitos estudos que apontavam para a relação entre a actividade artística e o suicídio, entre as doenças mentais (depressão, esquizofrenia) e a criatividade. O facto é que ao longo da história da humanidade houve centenas de artistas, cientistas, poetas, escritores, músicos, políticos, cultos e inteligentes que, voluntariamente, puseram fim às suas vidas. Entramos nos desígnios insondáveis da mente humana. Portugal tem um longo e relativamente vasto historial de suicidas: Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Mário de Sá Carneiro, Florbela Espanca.
Arthur Schopenhauer defendia que cada um é livre de pôr termo à sua vida. É a consequência de o homem se tratar de um ser livre. O “Dicionário de Suicidas Ilustres” (edição brasileira) de J. Toledo compila os casos de suicídio de mais de 700 pessoas famosas oriundas das mais diversas profissões (mas com especial enfoque nas profissões artísticas). No livro, comtam-se por exemplo, o suicídio de seis prémios Nobel, inúmeros prémios Pulitzer e mais uma grande quantidade de informações sobre os personagens ficcionais suicidas que se tornaram célebres, tanto na literatura quanto no cinema, como Anna Karenina, heroína do livro homónimo, escrito por Tolstoi. A morte será sempre um tema eterno nas discussões populares ou intelectuais, e o suicídio continuará a possuir aquela aura de mistério, de cobardia ou de coragem (conforme a opinião de cada um), de forma de fugir ao sofrimento ou como carro de combate para o debelar. E continará a exercer um profundo fascínio o exercício de tentar compreender (psicologica e culturalmente) porque é que se matam escritores e poetas, músicos e filósofos, artistas e pensadores, homens e mulheres de espantosa inteligência e formação. Se calhar, é porque, como diz Camilo Castelo Branco, "o suicídio não é uma coragem vulgar. Suicidam-se os que se desprezam a si e ao mundo."

Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Roy Scheider


Soube agora: o actor Roy Scheider morreu ontem aos 75 anos de idade. Não era um actor de proa do star system de Hollywood (apesar de ser da mesma geração de um Gene Hackman, não tinha o mesmo estatuto e talento que este), mas bastaram-lhe dois ou três papéis fulcrais para não mais ser esquecido: os filmes "The French Connection" (1971) de William Friedkin, "All That Jazz" (1979) de Bob Fosse e o incontornável "Tubarão" (1975) de Spielberg.

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Live fast, die young


Há 15 dias foi a morte prematura do actor Brad Renfro, com apenas 25 anos de idade. Hoje o mundo é surpreendido com a morte súbita de Heath Ledger, actor em clara ascensão depois do monumental sucesso de "Brokeback Mountain" (tinha acabado de finalizar o último capítulo de Batman no papel de Joker) e, imagine-se, estava a filmar com um dos elementos dos Monty Python, Terry Gilliam, no filme "The Imaginarium of Doctor Parnassus" (a estrear em 2009). Ambos foram encontrados mortos nos apartamentos - um em Los Angeles (Renfro), outro em pleno centro de Nova Iorque (Ledger). Ambas causas de morte estão relacionadas com o excesso de drogas e álcool. O mítico paradigma da cultura juvenil iniciado com James Dean (live fast, die young) e continuado com Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Ian Curtis, River Phoenix ou Kurt Cobain (todos morreram antes dos 30 anos) voltou a sacudir as cabeças das estrelas pop?

Sábado, 19 de Janeiro de 2008

Xadrez mundial mais pobre



Leio que Bobby Fischer, um dos últimos grandes génios do xadrez mundial morreu. Um génio irreverente que tinha tanto de genial como de louco. A propósito de Fischer, já tinha falado da relação entre loucura e genialidade aqui.

Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Pacheco - delírios e hipocrisias


Ainda a propósito da morte de Luiz Pacheco. Não deixa de ser profundamente irónico (e parece-me até: cínico) que a Assembleia da República tenha decretado um minuto de silêncio pelo desaparecimento do escritor. Parece que o Estado quer institucionalizar o Pacheco. Coisa mais absurda e hipócrita nunca se viu. O mesmo Estado que nunca manifestou a mínima preocupação por Pacheco. A haver vida noutro mundo, o autor de "Comunidade" deve estar a rir-se estupidamente desta pretensa honra oficial (uma certa imprensa afina pelo mesmo diapasão: como o Pacheco era um personagem marginal e dizia palavrões, há que lhe dar destaque pelo lado exótico da coisa). É desconcertante que um autor que foi tão provocador, escandaloso, irreverente, insubmisso, anti-clerical e detentor de uma costela anárquica, seja agora alvo de homenagens formais. Pensarão os engravatados da AR (os quais, aposto, ou não gostavam ou não conheciam o Pacheco) que é desta forma pasteurizada que se fazem homenagens a figuras tão marginais e fora do sistema? A hipocrisia política é bem capaz de mandar erigir uma estátua no Marquês de Pombal em "memória do célebre e magnânime homem das letras Luiz Pacheco"?

Domingo, 6 de Janeiro de 2008

A morte do insubmisso


Agora que Luiz Pacheco nos deixou, relembro o que escrevi sobre ele aqui e aqui.
RIP