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Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Música caleidoscópica

Não é por acaso que no youtube os dois primeiros comentários a este vídeo são antagónicos: “This is super cool!” vs. “The horror, the horror”. Nem podia ser de outra forma: o compositor americano Philip Glass divide paixões, entre o fervor fanático e o ódio avassalador. A sua música esteve ancorada na estética minimal repetitiva para depois evoluir em distintas ramificações estilísticas ao longo dos anos. O que este vídeo documenta é a fase criativa mais febril e estonteante de Glass. O Philip Glass Ensemble interpreta o trecho “Train Spaceship Part 2” da ópera-que-revolucionou-a-ópera “Einstein on The Beach”, escrita em 1976 com encenação de Robert Wilson. Neste vídeo vemos um Philip Glass jovem e transbordante de energia a tocar órgão e a coordenar os restantes instrumentistas. Cabe dizer que se trata de 6 minutos de grande intensidade sonora, com flutuações melódicas, harmónicas e rítmicas subtis e hipnotizantes (era esse um dos efeitos da música repetitiva). O domínio do ritmo e das dinâmicas da composição de Glass é impactante, a forma como a voz se vai enquadrando na densa estrutura sonora é digna de nota. Existe uma ilusão de repetição, já que a cada sequência melódica Glass inflitra pequenas variações de molde a que surjam, paulatinamente, novos motivos de interesse musical, num processo quase caleidoscópico. É preciso abrir a mente para fruir esta descarga sonora de Glass. E já deu para perceber que, com estas palavras, me encontro do lado da barricada dos que dizem: “This is super cool!”.



Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Leonard Cohen em livro


O mais recente livro de poesia do músico Leonard Cohen, intitulado "The Book of Longing", vai ser editado em Portugal no próximo mês de Julho com o título "O Livro do Desejo", numa altura em que o cantor vai actuar ao vivo em Portugal no próximo dia 19 de Julho. O compositor Philip Glass já tinha composto músicas com base nos poemas de Cohen, no magnífico álbum intitulado, precisamente, "The Book of Longing" (2007). O seu primeiro livro, "Let Us Compare Mythologies", foi publicado em 1956. Com "The Spice Box on Earth", em 1961, Leonard Cohen torna-se internacionalmente reconhecido. Seguir-se-ão os livros "Flowers for Hitler" (1964) e "Beautiful Losers" (1966).
Em 1985 foi editado aquele que seria o primeiro livro de poemas de Leonard Cohen publicado no nosso país: "Filhos da Neve", na colecção Rei Lagarto da Assírio & Alvim, com tradução de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê. A edição deste novo volume de letras e poemas do cantor de "Marianne" só vem acalentar, por isso, a carreira musical e literária do cantor canadiano.
Uma excelente notícia, portanto.

Sábado, 19 de Abril de 2008

Glass em 12 partes

Sabia-se que Philip Glass seria objecto de um documentário, mais cedo ou mais tarde. Sabe-se agora que vai estrear nos EUA o filme "Glass: a Portrait of Philip in Twelve Parts" do realizador Scott Hicks (o mesmo que fez "Shine" sobre o pianista esquizofrénico David Helffgot). Philip Glass, actualmente com 70 anos, merecia já um filme pelo conjunto da sua impressionante carreira e Scott Hicks passou um ano com o compositor para captar a essência da sua vida e do seu trabalho. Bem-haja Scott! O trailer augura uma bela homenagem.
E por falar em Glass, apetece-me agora ouvir a sua colaboração com o genial Ravi Shankar neste magnífico disco:

Domingo, 13 de Abril de 2008

A evidência

Pode ler-se aqui mais ao pormenor de que trata a curta-metragem "Evidence". O filme é do premiado realizador Godfrey Reggio, autor da trilogia "Qatsi", já dissecada neste blogue. Basicamente, "Evidence" aborda a reacção expressiva das crianças quando estão a ver televisão (e o subsequente poder que exerce sobre elas), neste caso, o filme "Dumbo". A música, como habitualmente nos filmes de Reggio, é de Philip Glass:

Domingo, 16 de Março de 2008

Robert Mapplethorpe

Fotografia histórica que marcou uma fase decisiva de dois jovens artistas no ano de 1976: Philip Glass (compositor e músico) e Robert Wilson (encenador, coreógrafo, performer - trabalhou com William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Tom Waits e David Byrne). Glass e Wilson trabalhavam na altura na ambiciosa ópera-que-revolucionou-a-ópera "Einstein on the Beach". Não menos importante: a fotografia foi tirada por um dos mais importantes fotógrafos americanos dos anos 70 e 80: Robert Mapplethorpe

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Arte máxima de um minimalista


A história da música da segunda metade do Século XX não seria a mesma sem a figura central do compositor e intérprete norte-americano Philip Glass. Multipremiado a nível mundial pelas suas composições, o percurso deste músico tem sido trilhado com base num prolífico e diversificado trabalho de criação musical, desde a década de 60 até aos nossos dias. Com 70 anos de idade, a veia artística deste músico parece tornar-se cada vez mais ambiciosa e fecunda. Desde 1973 que o seu trabalho se espraia por abordagens tão distintas como a música para teatro, dança, cinema, óperas e orquestras. O talento de Glass advém de uma notável sensibilidade melódica, aliada a um fortíssimo sentido rítmico, a um gosto pelo desafio formal e a uma distinta capacidade para criar ambiências sonoras. A sua abertura estilística e o interesse na fusão entre a música erudita, a electrónica e as tradições musicais do mundo, valeram-lhe inúmeros louvores da crítica e do público (o seu trabalho com o indiano Ravi Shankar e o africano Foday Musa Suso são disso testemunha irrefutável). A sua visão artística partilhou-se também com cantores pop como Suzanne Veja, Paul Simon, Natalie Merchant, a artista e performer de vanguarda Laurie Anderson, o músico electrónico experimental Aphex Twin e o grupo de música contemporânea Kronos Quartet.

Fascinado pela cultura musical dos indianos e africanos, Glass integrou estas linguagens composicionais autóctones na sua música. Daí que, juntamente com Steve Reich, Terry Riley e La Monte Young - outros compositores americanos que marcaram a década de 60 e que partilhavam o fascínio pela música étnica -, Glass fez parte do movimento inicial da corrente minimal repetitiva, a qual despontou no final dos anos 60 como reacção crítica ao serialismo de Boulez e Messiaen. Esta corrente postulava a rejeição do esquematismo matemático da música devedora de Webern e Schoenberg. Glass e restantes compositores, dotados de uma mentalidade mais aberta e desafiadora, libertaram-se dos espartilhos da composição clássica, optando por inaugurar uma nova linguagem musical. Para tal, a música de Glass, Reich e Riley, assentava no primado da repetição de pequenos trechos melódicos ou rítmicos, com pequenas variações através de grandes períodos de tempo, e subtis modulações harmónicas, incutindo no ouvinte uma sensação de hipnose ritualista (a ideia de repetitividade rítmica destes compositores advém das culturas rituais de África e Índia). Contudo, Philip Glass sempre rejeitou a noção de que a sua música fosse minimalista, refutando, inclusive, a palavra minimalismo (“that word should be stamped out!”, disse sobre este assunto). Após divergência de opiniões com Steve Reich, Glass forma em 1968 o Philip Glass Ensemble, constituído por sintetizadores, vozes e instrumentos de sopro, destinado a executar ao vivo as suas peças. Este Ensemble mantém, ainda hoje, uma intensa actividade artística. Mesmo que Glass queira ver-se aliado de rótulos mais ou menos consensuais, a verdade é que a obra magna da história da música minimal é da sua autoria: a ópera-que-revolucionou-a-ópera “Einstein on the Beach” (1975), com direcção artística do famoso Robert Wilson. Obra de uma grande complexidade estética e formal (tem a duração de 5 horas), “Einstein on the Beach” é um assombro de pujança sonora, melódica e rítmica. Neste trabalho, a mestria de Glass no domínio dos mais ínfimos elementos musicais, a forma como manipula o tempo, as harmonias mutantes, o conceito de repetitividade, a riqueza expressiva e conceptual e a originalidade estética, conferem a esta obra um lugar maior nas composições musicais da pós-modernidade artística do século XX. Para além desta ópera marcante na sua carreira, Glass compôs ainda a obra “O Corvo Branco” estreada na Expo 98 de Portugal e escreveu ainda outras 20 nos últimos 25 anos.

Minimalista ou não, Philip Glass depressa enveredou por um caminho próprio. Das dezenas de discos, encomendas e peças originais, destacam-se “Music in Twelve Parts” (1975), “North Star” (1977), “Satyagraha” (1985), “Songs From Liquid Days” (1986), “Glassworks” (1993) e as composições para a genial trilogia “Qatsi” de documentários não narrativos do realizador Godfrey Reggio. De igual modo, a sua produção musical para o cinema (desde composições de bandas sonoras originais para filmes mudos até às grandes produções de Hollywood) tem sido extensa e rica: a magnífica música para o filme “Kundun” de Martin Scorsese, “As Horas” de Stepehn Daldry, “The Truman Show” de Peter Weir, musicou os filmes clássicos de Jean Cocteau (“La Belle et La Bête”, “Les Enfants Terribles” e “Orphée”) e Tod Browning (“Drácula”), e os premiados documentários do norte-americano Errol Morris. Ao longo da sua carreira, Philip Glass sempre se identificou com alguns dos criadores mais originais e irreverentes do panorama artístico do século XX: Jean Genet, Jean Cocteau, Mishima, Jean Epstein, Beckett, Brecht, ou Kafka.
Um artista completo, ainda que não consensual.

(Texto original para a revista "Hora TMG")

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Trilogia natura #2


Godfrey Reggio é o realizador da célebre e aclamada Trilogia QATSI. Se esta trilogia era centralizada na relação do homem com a sociedade moderna, as culturas primitivas e a tecnologia, “Anima Mundi” coloca o ênfase no reino animal. Trata-se de uma abordagem à natureza raramente vista e suas distintas espécies animais, num olhar cinematográfico inteligente e acutilante. A música do compositor norte-americano Philip Glass, contribui decisivamente para incrementar emotividade às imagens captadas por Godfrey Reggio, numa experiência audiovisual de grande impacto no espectador. O DVD encontra-se à venda na Amazon.




Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Glass - música para cinema


No site do compositor Philip Glass estão recenseados 36 filmes para os quais compôs a música original. Apesar de não conhecer todos esses filmes (há uns 10 que ainda não vi), arrisco a elaborar as cinco bandas sonoras de que gosto mais (não necessariamente as melhores):

1 - "Koyaanisqatsi" - Real. Godfrey Reggio
2 - "Kundun" - Real. Martin Scorsese
3 - "The Fog of War" - Real. Errol Morris
4 - "Powaqqatsi" - Real. Godfrey Reggio
5 - "Dracula" - Real. Tod Browning

Seleccionar os melhores álbuns do compositor americano é um exercício muitíssimo mais árduo.

Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Discos que mudam uma vida - 3


"Songs from the Liquid Days" (1986) - Philip Glass

Sábado, 24 de Novembro de 2007

Documentários políticos: visões e revisões


Num mundo globalizado e massificado pelas tecnologias da informação e comunicação, a realidade social e política toma contornos surpreendentes e cada vez mais imprevisíveis. Essa realidade já não é balizada com base em coordenadas estanques e uniformes: fenómenos globais como o terrorismo, a emigração ilegal, a pobreza, o racismo, os ideais fundamentalistas e radicais, a economia a reboque dos interesses do petróleo, os lobbies, a instabilidade social ou os conflitos étnicos e regionais, provam que o mundo é cada vez mais um mundo descoordenado, instável, inseguro e altamente complexo. Os grandes ideais políticos mobilizadores preconizados por Churchill ou John Kennedy parecem já ineficazes face à complexidade da realidade contemporânea.
Por seu turno, os EUA mantêm - fazendo uso do estatuto de única superpotência mundial - a sua supremacia militar, económica e política face ao resto do mundo. Mas por detrás dessa imagem de potência global, escondem-se segredos políticos que embaraçam a actual Administração Bush. O documentário “O Mundo Segundo Bush” (William Karel, 2004) é um crítico e polémico olhar sobre a presidência americana, as suas controversas políticas internas e externas, nas quais se revelam pormenores pouco conhecidos da administração Bush. Uma assombrosa investigação jornalística que expõe os segredos e mecanismos do poder, através de entrevistas aos protagonistas, detalhes de factos desconhecidos da opinião pública e manipulações de informação sobre temas tão controversos como a invasão do Iraque e as relações entre Bush e os magnatas do petróleo da Arábia Saudita (Bin Laden incluído). Longe da demagogia militante de Michael Moore.
Por outro lado, Robert McNamara, antigo Secretário de Defesa dos EUA dá-nos também uma visão surpreendente dos bastidores políticos do período mais delicado da política externa americana no brilhante documentário "Testemunhos de Guerra ("The Fog of War", 2003). Noutro ponto da barricada, Fidel Castro, resiste até ao fim no seu casulo comunista e anti-imperialista (o documentário "Fidel" de Oliver Stone). Os três documentários políticos (de produção recente)configuram, assim, uma espécie de trilogia surpreendente sobre o universo político mundial menos visível à opinião pública mundial. Para que todos possamos perceber melhor o mundo em que vivemos. Destes três filmes mencionados, o mais pertinente (e o melhor em termos estritamente cinematográficos) é o do premiado realizador Errol Morris. Ganhou o Óscar do melhor documentário de 2003. Trata-se de uma pertinente análise sobre o mandato dos presidentes Kennedy e Johnson, através de uma entrevista contundente do seu Secretário de defesa, o famoso e influente Robert McNamara. “Testemunhos de Guerra” aborda alguns dos factos mais importantes e delicados da história norte-americana dos últimos 40 anos, como o bombardeamento do Japão, a crise dos mísseis de Cuba e a controversa guerra do Vietname, factos que desencadearam consequências sociais, históricas e políticas ainda hoje vividas. Depois, a música original de Philip Glass outorga um cariz mais solene e austero às mensagens veiculadas pelo filme. Perante estes exemplos de intervenção cívica (porque é disso também que é feito um documentário), urge perguntar: quando é que em Portugal haverá algum realizador suficientemente corajoso para engendrar um documentário político que coloque, sem rodeios, o dedo nas feridas desta, aparentemente tácita, democracia representativa?

Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

A Era tecnológica em ebulição


Em 2002, o realizador Godfrey Reggio e o músico Philip Glass (em colaboração com o reputado violoncelista Yo-Yo Ma), fecharam a trilogia “QATSI” com chave de ouro: “Naqoyqatsi – A Guerra Como Forma de Vida”. Não é tão impactante como o primeido filme da série -"Koyaanisqatsi", mas é um documento audiovisual que deixa o espectador estarrecido. O filme, sem narração nem história convencional, recai sobre a temática da turbulência social e cultural existente na sociedade globalizada e tecnológica do Século XXI.

A consolidação da era do computador e da electrónica impuseram-se como paradigmas culturais e sociais (quase) inabaláveis, influenciando o nosso modo de vida em todos os aspectos: media, artes, política, desporto, entretenimento, comunicação, medicina, cultura, publicidade, etc. A violência tecnológica, é, segundo o ponto de vista político do realizador, o mal civilizacional do nosso tempo, configurando uma crítica social pós-moderna.

Reggio mostra-nos um mundo saturado de imagens pré-fabricadas, fruto da sociedade hiper-acelerada e materialista, uma sociedade onde a Natureza foi suplantada pelo advento maciço da tecnologia digital. Estilisticamente, a proposta visual de "Naqoyqatsi" contrasta com os dois filmes anteriores, uma vez que proliferam as imagens digitais manipuladas e os efeitos rebuscados de imagem, em detrimento de imagens reais (numa montagem trepidante que confere a esta obra uma dimensão caleidoscópica verdadeiramente onírica, que estimula os nossos sentidos e a nossa percepção do mundo actual).
Mais info: http://www.naqoy.com/