Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

O videoclip da polémica

Um vídeo do duo francês de música electrónica Justice está a provocar um aceso debate em França sobre a utilização da Internet como veículo de expressão artística. O vídeo da música Stress acompanha um grupo de jovens dos subúrbios de Paris que provoca distúrbios por onde passam – roubo, assédio, destruição de um café, confrontos com a polícia, carjacking, terminando com a queima de um veículo. Há já sociólogos e analistas que defendem e condenam o conteúdo violento do videoclip, revelando influências dos filmes “O Ódio”, “Manual de Instruções para Crimes Banais” ou “Laranja Mecânica”. A mim parece-me que, a haver influências, essas são do realizador Chris Cunningham, autor de alguns dos melhores videoclips da última década (“Come to Daddy, Rubber Johnny), criador visual de grande requinte formal e estilístico. E Stresstem a marca visual de Cunningham.
Tirando as eventuais influências, eu julgo que este videoclip é, sobretudo, um bom golpe de marketing. Nada melhor do que pegar no sempre escaldante tema da violência racial e de subúrbios para motivar os holofotes da comunicação social e agitar a opinião pública. A direcção artística do videoclip está convincente e bem conseguida, mas repare-se como a sonoplastia/cacofonia sonora se sobrepõe à própria música (ouvem-se mais ruídos gerados pela violência do que a própria música). Por isso parece haver uma confusão de referências conceptuais. Por um lado é um videoclip para promover uma música, por outro parece ser um manifesto sobre a violência e as suas diversas formas de manifestação. Os Justice defendem que quiseram fazer uma paródia à forma como a comunicação social tratou o tema da violência aquando dos motins em França, há dois anos atrás. Nada mais errado. Aqui não existem quaisquer indícios de paródia, mas sim violência gráfica directa e frontal, que pretende passar por "séria" e "realista". A violência gratuita pela violência gratuita com intuito de "chocar" (quem?). Num panorama audiovisual diário apinhado de imagens de violência, este videoclip só chocará os mais sensíveis e incautos.
E que ninguém compare este objecto aos filmes citados (sobretudo "Laranja Mecânica" de Kubrick). O realizador de “Stress” é Romain Gravas – filho do realizador Costa-Gravas –, e tem recebido as mais variadas críticas. Não admira. A violência está muito bem encenada, só que muito mal contextualizada. Qual é verdadeiramente a mensagem do videoclip? Não acredito que seja no sentido de incitar a actos violentos como os que são mostrados nestas imagens. Seria demasiado ingénuo pensar isso. Parece-me é que os músicos dos Justice não pensaram convenientemente nas consequências. Ou então pensaram demasiado bem e agora sofrem (ou beneficiam, conforme a perspectiva) com as opções tomadas.

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Lomografia - fotografar ao sabor do instante


A Lomografia propriamente dita começa em Praga em 1991, quando dois jovens vienenses, de férias na capital da República Checa, descobriram a máquina Lomo. Começaram então a fotografar tudo, muitas vezes sem sequer olhar através da objectiva. De regresso a casa, o fascínio dos dois fotógrafos pela cor, a luz e a qualidade das imagens ( focadas ou desfocadas) foi tão contagioso que rapidamente a moda das Lomo se espalhou entre os jovens da cidade. Em 1995 nascia em Viena, na Áustria, a Sociedade Lomográfica e a primeira LomoEmbaixada, com o objectivo de impedir o desaparecimento das pequenas máquinas fotográficas russas.
Os manuais referem que a Lomografia é a arte de fotografar com uma câmara Lomo, de forma imprevisível, sem encenações nem preocupações de ordem técnica (enquadramento, luz, objectiva…). É uma forma de captar a realidade do quotidiano de forma original, com imagens muito coloridas, contagiantes, e enquadramentos invulgares. Em cada clique com uma máquina Lomo capta-se um momento da vida que ficará representado de forma que nunca imaginaríamos ser possível. A surpresa do resultado final é sempre a parte mais estimulante resultante do exercício de fotografar com uma Lomo. Existe uma considerável variedade e diversidade de máquinas de fotografar Lomo, que aliam a simplicidade de funcionamento com a surpreendente qualidade de imagem (e cada uma das máquinas permite efeitos distintos). O espírito da Lomografia é fotografar ao acaso, ao sabor do instante, sem preparação prévia ou condicionalismos técnicos. Há quase sempre reacções de espanto e de surpresa com as imagens que se captam com uma Lomo, como se a realidade estivesse surpreendentemente transfigurada após cada "click".
Para compreender o espírito da fotografia Lomo, convém ler as 10 regras da Lomografia. Aqui.

Gastar uns trocos para satisfazer a namorada


Este senhor desembolsou uns trocos da sua faraónica fortuna pessoal para comprar, em poucos dias, o quadro “Benefitis Supervisor Sleeping” de Lucien Freud (por 21,33 milhões de Euros) e um tríptico de Francis Bacon por 54,4 milhões. De uma só vez, Roman Abramovich, o dono do clube londrino Chelsea gastou mais de 70 milhões de Euros em pintura. É obra. Quer dizer: seria obra para qualquer cidadão comum, mas para quem tem cerca de 18 mil milhões de dólares no mealheiro (ou debaixo do colchão), é coisa pouca. Diz-se que o magnata russo foi influenciado para adquirir estas obras por causa da influência da nova namorada, Dasha Zhukova, moça interessada em arte contemporânea, ao ponto de querer abrir uma galeria de arte. A isto se chama amor... à arte.

As ideias surrealistas à venda


André Breton (na imagem) lançou petróleo para a fogueira das artes de vanguarda quando, em 1924, editou o "Manifesto do Surrealismo". Um verdadeiro manual de insurreiçãoo artística, intelectual e estética que viria a influenciar grande parte da criação artística do restante século XX. Os manuscritos deste célebre documento estavam na posse de Simone Collinet, primeira mulher do artista, e vão ser leiloados, hoje mesmo, na capital francesa. O preço de licitação situa-se entre os 200 mil e os 300 mil euros (gostava de saber qual seria a reacção de Breton, caso fosse vivo, a esta exorbitância de dinheiro por um manifesto que, claramente, repudiava os valores relacionados com o vil metal e bens materiais de consumo).
O texto do "Manifesto do Surrealismo" é um texto muito interessante e rico em princípios de intenções, mas lido hoje, é-o sobretudo para estudantes de artes e curiosos. Foi um texto extremamente efémero e datado, visto que o Surrealismo, enquanto movimento artístico oficial e organizado, durou poucos anos. No entanto, mantém importância histórica pela forma como deixou o legado e marcou o pensamento artístico do século XX e grande parte da literatura, pintura, poesia e cinema. No mesmo manifesto, Breton define Surrealismo da seguinte forma: "Automatismo psíquico pelo qual alguém se propõe a exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento".
Quem quiser ler online ou descarregar o "Manifesto do Surrealismo", basta clicar aqui.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Foto do dia

Manoel de Oliveira, cineasta português, a ser homenageado no festival de Cannes. Cumprimento de outro grande cineasta, Clint Eastwood, 23 anos mais novo que Oliveira. Duas enormes personalidades do cinema para uma bela imagem que dignifica a arte de ambos, de todos, de sempre.

Canibalismo - o último dos tabus


Não sou antropólogo nem sociólogo mas atrevo-me a dizer que na sociedade moderna continuam a persistir dois tabus difíceis de abordar: o incesto e o canibalismo. Só pronunciar estas duas palavras faz tremer de horror os mais sensíveis. É compreensível. Ambas práticas remontam a um passado histórico muito longínquo, tão longínquo quanto o tempo que o homem pisa o mundo. Deixemos o incesto para segundas núpcias (salvo seja!) e olhemos mais de perto o canibalismo. Por questões culturais ou de necessidade devido à fome extrema, o canibalismo não deixa ninguém indiferente, porquanto hediondo se torna a sua prática. Mas como muitos temas hediondos, este também não deixa de exercer fascínio. Um fascínio frio e racional, como é óbvio. O acto de devorar carne humana por questões religiosas (magia negra) ou culturais é um acto irracional e completamente desviante (associado a mentes psicopatas e paranóicas). Já o acto de comer por extrema necessidade com vista à própria sobrevivência devido a factores externos como a fome, alivia o peso moral do mesmo. Foi o que aconteceu em Outubro de 1972, quando teve início uma das histórias de sobrevivência mais controversas e inspiradoras: um avião que transportava uma equipa júnior de râguebi do Uruguai despenhou-se nas montanhas dos Andes. Alguns passageiros tiveram morte imediata, mas a maior parte sobreviveu. Durante oito dias, ficaram à espera de serem salvos. Mas o socorro nunca chegou e eles souberam pela rádio que as buscas tinham sido abandonadas. Rapidamente a comida e a bebida se esgotaram. Forçados a viver a temperaturas abaixo de zero durante dez semanas, os sobreviventes suportaram o inimaginável até que tomara uma decisão radical: comer a carne dos colegas mortos. O filme "Alive" ("Estamos Vivos!", 1993) retrata este episódio perturbante.
Mas o que mais choca no canibalismo é aquela vertente que conota o acto de comer carne humana como a mais elevada expressão de poder da mente de um predador sexual psicopata ou de um assassino em série. E ao longo da história, sobretudo do século XX, muitos exemplos macabros houve que se enquadram nesta tipologia. O mais recente caso é o do alemão Armin Meiwes, canibal de Rotemburgo, que violou e torturou um outro homem que conheceu na internet e que se voluntariou para o efeito. Depois de morto, fatiou o corpo e comeu diversas porções do mesmo (degustou 20 kg de carne) - relato sintetizado pode ser lido aqui. Da carne humana disse Armin: "é semelhante ao da carne de porco, um pouco mais amarga e mais forte, mas um sabor muito bom."
E o que dizer do aparentemente tranquilo fazendeiro americano Ed Gein (1906 - 1984), que serviu de inspiração para os filmes "Psycho" e "O Silêncio dos Inocentes". Hannibal - "The Cannibal" - Lecter não é apenas um mero personagem de ficção, visto que o bem real assassino Ed Gein serviu de inspiração. E o que dizer de Andrei Chikatilo, o carniceiro de Rostov (Rússia), que confessou ter morto, torturado, violado e comido o corpo de 53 mulheres e crianças entre 1978 e 1990? E o mais famoso e recente serial-killer americano: Jeffrey Dahmer, deu que falar quando foi descoberto, em princípios de 1990, e se descobriu que tinha sido autor de horríveis crimes que misturavam violação, necrofilia e canibalismo. E exemplos grotescos não faltam... No cinema, o filme mais célebre e polémico sobre canibalismo é o perturbador "Holocausto Canibal" (1980) de Ruggero Deodato (na imagem), um suposto "snuff movie" (que não é) com violência gráfica e horror sem escrúpulos.
Daí que o livro (na imagem) "Come o Teu Próximo - História do Canibalismo" (Editorial Magnólia) seja um livro corajoso mas que custa a ler pelo conteúdo explícito (e que pode custar a comprar: o empregado da livraria poderá sempre ficar a pensar: "mas este tipo interessa-se por este tema? Será que gosta de carne humana?"). É um livro duríssimo, que explora as raízes do canibalismo e as várias configurações do mesmo, oferecendo exemplos ilustrativos que vão das tribos mais isoladas e obscuras aos serial-killers mais psicóticos das sociedades modernas, percorrendo um curso temporal que vai da história antiga à actualidade. É um mergulho sem regresso aos nossos próprios medos e temores, um confronto directo com o mundo mais obscuro e demente da natureza humana.

Música caleidoscópica

Não é por acaso que no youtube os dois primeiros comentários a este vídeo são antagónicos: “This is super cool!” vs. “The horror, the horror”. Nem podia ser de outra forma: o compositor americano Philip Glass divide paixões, entre o fervor fanático e o ódio avassalador. A sua música esteve ancorada na estética minimal repetitiva para depois evoluir em distintas ramificações estilísticas ao longo dos anos. O que este vídeo documenta é a fase criativa mais febril e estonteante de Glass. O Philip Glass Ensemble interpreta o trecho “Train Spaceship Part 2” da ópera-que-revolucionou-a-ópera “Einstein on The Beach”, escrita em 1976 com encenação de Robert Wilson. Neste vídeo vemos um Philip Glass jovem e transbordante de energia a tocar órgão e a coordenar os restantes instrumentistas. Cabe dizer que se trata de 6 minutos de grande intensidade sonora, com flutuações melódicas, harmónicas e rítmicas subtis e hipnotizantes (era esse um dos efeitos da música repetitiva). O domínio do ritmo e das dinâmicas da composição de Glass é impactante, a forma como a voz se vai enquadrando na densa estrutura sonora é digna de nota. Existe uma ilusão de repetição, já que a cada sequência melódica Glass inflitra pequenas variações de molde a que surjam, paulatinamente, novos motivos de interesse musical, num processo quase caleidoscópico. É preciso abrir a mente para fruir esta descarga sonora de Glass. E já deu para perceber que, com estas palavras, me encontro do lado da barricada dos que dizem: “This is super cool!”.



DVD do mês


Na capa do DVD lê-se : "Um dos mais comoventes e brutalmente honestos filmes acerca do suicídio." Não é preciso dizer mais nada.

Domingo, 18 de Maio de 2008

Amália em filme... brevemente



É uma iniciativa inédita de marketing: no festival de cinema de Cannes foi promovido um filme português que... ainda nem começou a ser filmado. O filme pretende ser uma biografia da maior voz do fado português, Amália Rodrigues. Vai começar a ser rodado em breve, intitula-se "Amália - a Voz do Povo", terá a realização assegurada por Carlos Coelho da Silva e a produção de Manuel da Fonseca (Valentim de Carvalho e RTP). Quem irá assumir a grande responsabilidade de encarnar Amália? Uma jovem debutante no cinema chamada Sandra Barata Belo. Não se lhe conhecem dotes interpretativos ou vocais mas, pelo menos fisicamente, é muito parecida com Amália Rodrigues. Assim, os jornalistas nacionais e estrangeiros no festival de Cannes ficaram a saber, porventura com um ano de antecedência face à provável data de estreia (em Cannes 2009?), que Portugal se prepara para lançar ao mundo um filme sobre a cantora de "Povo Que Lavas No Rio". A isto se chama fazer bem o trabalho de casa.

Polanski - documentário controverso



"Roman Polanski: Wanted and Desired" é um documentário que deu que falar no último festival de cinema de Sundance. Produzido pelo cineasta Steven Soderbergh e realizado por Marina Zenovich (imagem à esquerda), retrata a vida conturbada que o realizador de "O Pianista" teve nos EUA após o massacre da esposa Sharon Tate (1969). Designadamente, o documentário foca o processo de acusação de pedofilia que as autoridades americanas moveram contra Polanski (consta que Polanski terá abusado sexualmente de uma menina de 11 anos em 1973), facto que o obrigou a emigrar para a Europa. Diz-se que este documentário investiga o caso sob vários pontos de vista e analisa as consequências que teve para o realizador. De resto, é de tal forma pertinente o conteúdo do filme que tanto pode agradar ou desagradar profundamente aos fãs do cineasta. "Polanski: Wanted and Desired" irá estrear em Julho nos EUA e, provavelmente, só depois do Verão chegará aos ecrãs europeus. Enquanto esperamos, vale a pena ler a entrevista à realizadora no site da Premiere americana. Aqui.

Os pensamentos de Kubrick


Stanley Kubrick foi um realizador que cultivou um estilo de vida quase eremita: durante toda a carreira pugnou por um acentuado ascetismo social e profissional. Praticamente não dava entrevistas a jornalistas, furtava-se às festas das estreias dos seus filmes, não mantinha relacionamento com outros realizadores ou actores, nunca escreveu um livro de memórias ou para explicar o seu cinema (como fizeram Bresson ou Tarkovski). Porém, conhecemos minimamente algumas das suas opiniões através de afirmações que se podem encontrar dispersas na internet ou em livros de cinema. São pequenas frases ditas pelo génio de "A Laranja Mecânica" que revelam a ponta do véu do seu espírito irrequieto:

- "A filmmaker has almost the same freedom as a novelist has when he buys himself some paper"
- "I never learned anything at all in school and didn't read a book for pleasure until I was 19 years old."
- "The great nations have always acted like gangsters, and the small nations like prostitutes."
- "A film is - or should be - more like music than like fiction. It should be a progression of moods and feelings. The theme, what's behind the emotion, the meaning, all that comes later."
- "There are few things more fundamentally encouraging and stimulating than seeing someone else die."
- "Perhaps it sounds ridiculous, but the best thing that young filmmakers should do is to get hold of a camera and some film and make a movie of any kind at all."
- "If it can be written, or thought, it can be filmed. "
- "The screen is a magic medium. It has such power that it can retain interest as it conveys emotions and moods that no other art form can hope to tackle. "

Sábado, 17 de Maio de 2008

"Cahiers du Cinéma": O canto do cisne?


O Público noticia que a mais influente revista de cinema da Europa, a francesa Cahiers du Cinéma está em vias de fechar portas. A revista foi a bandeira da "Nouvelle Vague" francesa nos anos 60 e implementou a famosa "política de autores", defendendo um cinema independente e ousado, alternativo ao sistema de produção comercial. Nas suas páginas escreveram nomes cimeiros do cinema, como Truffaut, Godard, Malle, Rivette, entre outros. Agora, os "Cahiers" estão à venda. E o perigo tem a ver com o facto de poder ser comprada por um grupo económico que despreze os princípios editoriais da revista em favor da rentabilização económica (o que significaria uma viragem radical da sua linha editorial e uma ruptura com a identidade da revista). A revista tem actualmente 20 mil leitores mensais, 10 por cento dos quais no estrangeiro. O espírito dos "Cahiers du Cinéma" está a extinguir-se e vozes do cinema mundial já se manifestaram em favor da preservação da identidade da revista. A ser verdade que estejamos a assistir ao canto do cisne da revista que ajudou a fundar e a desenvolver um tipo de cinema experimental, significa que termina também uma era em que o espaço público para a cultura alternativa se vai afunilando cada vez mais. E esse espaço para pensar o cinema, discuti-lo livremente e reformulá-lo chamava-se "Cahiers du Cinéma".

O papel do crítico musical


Este é um país que liga muito pouco à crítica de arte. Os críticos que escrevem para a imprensa generalista ou especializada, sejam de música, cinema, artes plásticas, literatura, ou de teatro, têm a nobre função de divulgar e promover os objectos culturais que analisam. Mas para quem escrevem os críticos? A verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, os críticos escrevem para o próprio umbigo, para uns quantos iniciados e para... os outros críticos. É um círculo vicioso que em nada beneficia o leitor médio de jornais ou revistas. O exercício da crítica deve conter tanto de informativo como de emissão de juízo de valor e, tendencialmente, elaborada numa linguagem o menos técnica e hermética possível.
Vem esta introdução a propósito do facto de, no dia 15 de Maio, terem passado 3 anos da morte daquele que considero ter sido um dos melhores críticos de música que este país já teve: Fernando Magalhães (na foto). Com formação em filosofia, a paixão pela música e pelo jornalismo falou mais alto. Durante anos escreveu para diversas publicações, mas foi no (então) semanário Blitz e no diário Público que a escrita de Fernando Magalhães se fez notar. Para além do grande domínio da língua portuguesa, o jornalista tinha uma vasta e diversificada cultura musical, que lhe permitia dissertar com a mesma desenvoltura sobre fado, krautrock, electrónica experimental, world-music ou jazz (foi a ler muitas das suas críticas que desenvolvi o gosto pelas mestiçagens estéticas). Depois, detinha um sentido de humor férreo e cáustico, sobretudo quando fazia reportagens de concertos ao vivo. Tanto revelava valores musicais emergentes como escrevia longas recensões sobre artistas consagrados como Frank Zappa, Residents, Dead Can Dance, Kepa Junkera ou (o seu muito amado) Peter Hammil. Muitas vezes se queixou que o Público não lhe dava rédeas soltas para escrever sobre aquilo que queria realmente escrever (dado que privilegiava as correntes musicais marginais e alternativas), facto que lhe proporcionava uma angústia crescente enquanto profissional. A crítica musical de Fernando Magalhães era cirúrgica, extremamente bem construída, inteligente, pragmática e pedagógica (premissa importante mas desprezada por muitos críticos). Do panorama da crítica musical nacional, só o João Lisboa se lhe compara em dimensão jornalística e cultura musical. Das novas gerações, o estilo jornalístico de Magalhães deixou marcas em críticos como João Bonifácio (Público).
3 anos depois do seu desaparecimento, vale a pena ainda ler ou reler muitos dos seus textos, artigos, críticas e entrevistas. Basta abrir este espaço dedicado à memória da escrita de Fernando Magalhães.


Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Kubrick em registo de paródia

Quem conhece a filmografia de Stanley Kubrick vai divertir-se a ver (com som) esta sequência em animação que brinca com algumas das melhores cenas dos seus filmes:

O mundo da blogosfera em debate


Para melhor visualização, carregar na imagem.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

A história do clichê cinematográfico


Mesmo quem não seja cinéfilo e apenas espectador regular de cinema sabe que os clichês são recorrentes nos filmes. Parece mesmo que, sem eles, os argumentistas não podiam viver (bem, nem todos). Por exemplo: quantas vezes não vimos já a típica cena de alguém que entra num carro porque vai a fugir de outro alguém e... o carro não pega? Ou a cena em que o assassino parece que já morreu baleado com 23 tiros mas volta a levantar-se para aterrorizar a vítima (uma vez mais)? Ou o personagem bom que quer matar o mau e fica sem balas nesse preciso momento? Como estes, há milhares de outros clichês que fizeram - e continuam a fazer - a história do cinema - para o bem e para o mal. O site que está em baixo é um manual impressionante de lugares-comuns e chavões no cinema, vistos e revistos, gastos e recorrentes. Clichês da história, clichês visuais, de interpretação, de realização, enfim, para todos os gostos. Alguém teve a paciência de os compilar por temas. Claramente um site para qualquer aspirante a argumentista de cinema saber evitar (ou reformular, quem sabe) os clichês da história.

O café dos artistas (e não só)


O que têm em comum Camus, Picasso, Apollinaire, Artaud, Sartre, Simone de Beauvoir e Tristan Tzara? Para além de todos serem grandes figuras da arte e da cultura, todos foram clientes assíduos do mais mítico e elegante café de Paris: Café de Flore, em Saint-Germain-des-Près. Francis Ford Coppola disse um dia que o seu sonho era viver neste bairro francês para assim poder tomar o pequeno-almoço todos os dias no Café de Flore. Foi neste café que, durante décadas, dezenas de pintores, intelectuais, escritores, estilistas, actores e outros artistas se encontravam num ambiente de tertúlia (na bela esplanada ou no interior requintado). Dizia-se que houve tempos em que o café tinha mais artistas em convívio do que garçons a servir à mesa.
Em Portugal extinguiram-se os últimos cafés com tradição, bom gosto, espaços de conversa e tertúlia, de convívio à volta de uma bebida e de um jornal. Fernando Pessoa, Almada Negreiros ou Luiz Pacheco viveram grande parte das suas vidas em cafés (Martinho da Arcada, por exemplo) e criaram muita das suas obras nesses cafés. Hoje já não existem cafés com carisma, personalidade, abertos à discussão das artes e da cultura. Por isso o Café de Flore é uma referência incontornável deste tipo de vivência e de modo de estar, não só de Paris, mas de toda a Europa. Aberto desde o final do século XIX, este café de culto continua a fascinar meio mundo, das artes à moda, do desporto ao cinema, da figura pública ao cidadão comum. A última vez que estive em Paris (há 5 anos) não tive oportunidade de por lá passar. Não falharei a visita da próxima vez.

Leonard Cohen em livro


O mais recente livro de poesia do músico Leonard Cohen, intitulado "The Book of Longing", vai ser editado em Portugal no próximo mês de Julho com o título "O Livro do Desejo", numa altura em que o cantor vai actuar ao vivo em Portugal no próximo dia 19 de Julho. O compositor Philip Glass já tinha composto músicas com base nos poemas de Cohen, no magnífico álbum intitulado, precisamente, "The Book of Longing" (2007). O seu primeiro livro, "Let Us Compare Mythologies", foi publicado em 1956. Com "The Spice Box on Earth", em 1961, Leonard Cohen torna-se internacionalmente reconhecido. Seguir-se-ão os livros "Flowers for Hitler" (1964) e "Beautiful Losers" (1966).
Em 1985 foi editado aquele que seria o primeiro livro de poemas de Leonard Cohen publicado no nosso país: "Filhos da Neve", na colecção Rei Lagarto da Assírio & Alvim, com tradução de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê. A edição deste novo volume de letras e poemas do cantor de "Marianne" só vem acalentar, por isso, a carreira musical e literária do cantor canadiano.
Uma excelente notícia, portanto.

"A generala"

Melhor capa de todo o sempre?

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Discos que mudam uma vida - 15


Virgin Prunes - "...If I Die, I Die" (1982)

A importância do desenho


Fernando Lemos, pintor surrealista, artista gráfico, fotógrafo e poeta português emigrado no Brasil desde 1953, deu uma entrevista ao Jornal de Letras. A dado momento, faz esta observação: "O desenho está em tudo. A escrita é feita de palavras, as palavras e as letras de desenho. O desenho escreve, inventou as letras para se exprimir. Uma das grandes falhas na educação é não se obrigar as crianças a desenhar na escola, tal como se escreve. É a mesma coisa, sendo que o desenho é uma linguagem universal. Quando ouço alguém a dizer 'desculpe mas não sei desenhar', é como se dissesse, 'desculpe, mas sou analfabeto".
Descontando o tendencioso exagero da afirmação, convenhamos que o pensamento do artista faz muito sentido num sistema de educação que não valoriza a expressão individual, a criatividade e, em última análise, o sentido estético e a arte.

O dia em que fui a Cannes (ou quase)


Hoje tem início a 61ª edição do Festival de Cinema de Cannes. O mais competitivo, mediático e afamado festival de cinema do mundo. Existem os prestigiados festivais de Veneza, Berlim, Sundance, mas nenhum se compara, em importância e glamour, ao de Cannes. E não há realizador no mundo, novato ou veterano, que não gostasse de ter os seus filmes a concurso neste festival ou, claro, ganhar a Palma de Ouro. Claro que Cannes é, também um mundo inesgotável de negócio (que o diga Paulo Branco) e de comércio, mas isso faz parte da essência de qualquer festival. Claro que também há frivolidades andantes, figuras públicas e estrelas de pacotilha que se pavoneiam pela carpete vermelha. No entanto, o cerne de Cannes sempre foi e será o cinema, os filmes, os artistas. Isso é que fica para a posteridade.
Poucos serão os cinéfilos que não gostariam de poder assistir ao festival. Sentir o frémito e as emoções resultante do visionamento dos grandes filmes a concurso, partilhar os aplausos ou os apupos aos filmes, assistir às concorridas conferências de imprensa com realizadores e actores, sentir o ritmo frenético da exibição dos filmes em catadupa, as várias secções competitivas, etc.
Foi o que tentei fazer um dia, ir a Cannes - através de um concurso nacional. Foi em 1990 e o concurso, designado, "Sê um Crítico de Cinema e vai a Cannes!" (cito de memória) era dinamizado pelo Instituto Português da Juventude. A coisa funcionava de forma muito simples: qualquer jovem com menos de 25 anos podia participar; bastava ver um filme que na altura estivesse em cartaz e escrever uma crítica ao mesmo. Os autores das 20 melhores críticas nacionais eram seleccionados para irem a Lisboa verem outro filme, outra crítica e, a melhor considerada pelo júri, tinha como prémio ir ao festival de Cannes durante dois dias (ou três, já não me recordo) com todas as despesas pagas.
Fui seleccionado para os 20 participantes de Lisboa com a crítica ao filme "Presumível Inocente" (1990) de Alan J. Pakula (com Harrison Ford), um muito interessante thriller que marcou aquele ano de cinema. Lá fui a Lisboa para a competição final, sempre com Cannes em vista. Cheguei numa sexta-feira. Logo nessa noite, eu os restantes concorrentes decidimos assistir a uma sessão num sítio óbvio, a Cinemateca. Recordo-me que vimos um clássico mediano do Raoul Walsh. O grupo de concorrentes era constituído por jovens estudantes de todo o país, e a única coisa em comum entre todos era a paixão pelo cinema. No sábado seguinte, logo de manhã, eu os outros 19 participantes oriundos de todo o país, fomos visionar o filme para a crítica final que iria decidir quem iria a Cannes. Era um filme tão medíocre e comercial que já nem me lembro que objecto era aquele. As críticas foram entregues ao júri que deliberou no dia seguinte. Quem ficou em primeiro lugar foi um jovem de Lisboa que ganhara o privilégio de conhecer Cannes. Eu fiquei em 4º ou 5º lugar e tive direito a um prémio de consolação: um bilhete para assistir ao Estoril Open! Como não gosto de ténis, despachei logo o dito cujo para outra pessoa interessada. Ir ao Estoril Open em vez de ir a Cannes era consolação para quem quer que fosse?
Foi a única vez que estive perto de ir a Cannes, por intermédio de um concurso juvenil, imagine-se. Talvez um dia programe umas férias em Maio na Côte d'Azur para servir de pretexto para conhecer o festival.

A arte de cortar e colar imagens




Na linguagem cinematográfica a montagem é uma técnica absolutamente essencial para dar coerência estrutural ao filme. A interligação e relação entre planos num filme é determinante para o resultado estético do mesmo. Depois do avanço dado em 1915 pelo percursor David Griffith com a montagem paralela ("Nascimento de Uma Nação"), seriam os russos a desenvolver a montagem de forma definitiva. Serguei Eisenstein, Dziga Vertov, Kuleshov (é célebre o "efeito Kuleshov") ou Pudovkin foram cineastas que exploraram todas as dimensões expressivas e comunicacionais da montagem.
Nos últimos 20 anos há um nome incontornável que domina a arte da montagem: Thelma Shoonmaker, montadora quase exclusiva dos filmes de Martin Scorsese. Ganhou três Óscares pela Melhor Montagem nos filmes "Touro Enraivecido"(1981), "O Aviador" (2005) e "The Departed" (2007). A capacidade de Shoonmaker em perceber a duração certa de cada plano, o rigor métrico e o sentido ritmo da montagem são características da melhor montadora da actualidade. No site mais abaixo referenciado podemos ver uma lista (das muitas possíveis) das 10 melhores montagens para cinema. Vale a pena ver com atenção o fluir de cada sequência e perceber a forma como cada montador/a estruturou essas mesmas montagens. Não faltam os clássicos incontornáveis ("Couraçado Potemkine", "Touro Enraivecido"...), mas é surpreendente visionar o filme referente ao primeiro lugar da lista. Dez exemplos maiores da arte de cortar e colar as imagens do cinema:

Arcade Fire no cinema

Lembra-se deste filme?

"Donnie Darko" (2001), um dos mais singulares filmes independentes e de culto desta década. Realizado por um novato Richard Kelly, este filme constituiu uma lufada de ar fresco naquilo a que se desingnou chamar "filme de adolescente". Um filme assaz surrealista e provocador e tendo como tema central um adolescente que sofria de visões bizarras que condicionavam o seu comportamento. "Donnie Darko" serviu de rampa de lançamento para o actor Jake Gyllenhaal, que viria mais tarde a projectar-se como co-protagonista do filme "Brokeback Mountain". Para além de uma realização segura e uma história original, o filme de Richard Kelly tinha outra virtude: a excelente e muito apropriada banda sonora adaptada: Joy Division, Echo & The Bunnymen (o filme começava ao som de "The Killing Moon"), Oingo Boingo (a ex-banda de Danny Elfman), etc.
Serve isto para dizer que o realizador Richard Kelly convidou os Arcade Fire para comporem a música original do seu novo filme "The Box" (com Cameron Diaz e Michael Madsen nos principais papéis). A isto se chama extremo bom gosto e lucidez artística.

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Rauschenberg


(1925 - 2008)
"It's so easy to be undisciplined. And to be disciplined is so against my character, my general nature anyway, that I have to strain a little bit to keep on the right track."

Spielberg vs. Ford?


Steven Spielberg vai realizar um filme sobre a vida do 16º Presidente da América, Abraham Lincoln. Tudo bem. A minha dúvida metódia é esta: será que vai chegar aos calcanhares do filme de John Ford, “A Grande Esperança” (“Young Mr. Lincoln", 1939), com um soberbo Henry Fonda no papel de Lincoln? Veremos.

A música corresponde à capa do álbum?



Ora aqui está um site absolutamente delicioso: as piores 150 capas de álbuns de toda a história da música. Um manual para todo o designer gráfico evitar. Ou talvez não. Falar em mau gosto ou no kitsch é redundante. Por aqui há capas de álbuns (de artistas obscuros e outros afamados) que raiam a extrema paranóia alucinogénica (pesei bem as palavras). Se as capas são deste calibre, imagino o conteúdo musical. Como diria Marlon Brandon no "Apocalypse Now": "The horror, the horror...". Só que é um horror extremamente divertido.
Este link vai direitinho para as 50 piores capas de sempre. Quem tiver coragem, que veja as outras 100 da lista.

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Julianne Moore na pintura


"Madame X" de John Singer Sargent

"Debilitada" de John Currin
"Mulher com Leque" de Amadeo Modigliani
"Adele Bloch-Bauer I" de Gustav Klimt
Produção fotográfica para a revista Harper's Bazaar, na qual a actriz Julianne Moore encarna mulheres na pintura. Fantástico.

Aviso à navegação


Acaba de ser libertado da prisão este senhor. Chama-se Mário Machado: líder da Extrema-Direita e do movimento ultra-nacionalista, neo-nazi, skinhead, leitor compulsivo do "Mein Kampf", adorador de Hilter, Himmler, Rudolf Hess e Goebbels, racista, xenófobo, defensor do Holocausto e armado com armas brancas e caçadeira de canos serrados. Tenham medo, tenham muito medo.