Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Momentos e Imagens - 21


A tempestuosa relação Klaus Kinski - Werner Herzog na rodagem do filme "Cobra"Verde"

É só um filme (de Hitchcock)


A biografia de Alfred Hitchcock - "É Só Um Filme" - já foi lançada no mercado português há dois anos, mas só agora comecei a lê-la e logo com uma certa sofreguidão. A biógrafa, Charlotte Chandler (também escreveu as biografias de Groucho Marx, Federico Fellini, Billy Wilder, Bette Davis e Joan Crawford) privou com o realizador durante muitos anos e conheceu-o melhor do que ninguém. O livro é riquíssimo em pormenores sobre a vida pessoal de Hitchcock, as suas obsessões, as suas relações com os actores e colegas de profissão, a sua visão do mundo e da arte, o seu especial sentido de humor negro. Irresistível e compulsiva leitura.

O touro enraivecido

O chamado espectáculo tauromáquico não me interessa para nada. Não gosto. Ponto. A razão pela qual coloco aqui duas imagens das festas de San Fermin em Pamplona, é por se tratarem de duas notáveis fotografias com os touros. A primeira é de uma colhida de um "matador" espanhol, em que vemos o duelo feroz entre o homem e o animal. O touro enraivecido colhe, dir-se-ia em desespero, o homem que o toureia. A segunda fotografia diz respeito à largada de touros pelas ruas apertadas de Pamplona: a composição plástica da imagem é perfeita, parece congelada no movimento, com os homens em corrida desenfreada a rodearem o touro, tocando-o com as mãos, num misto de medo e respeito.
Para apreciar a qualidade destas e de outras fotografias, é favor abrir o sempre excelente Big Picture.

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Discos que mudam uma vida - 69


Chemical Brothers - "Dig You Own Hole" (1997)

Decapitator strikes again

O Decapitador continua a fazer das suas!




Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

O verdadeiro recorde musical


582 bateristas bateram o recorde, hoje, do maior número de bateristas a tocar ao mesmo tempo. O anterior situava-se nos 533 bateristas, alcançado há três anos nos EUA. Amadores, profissionais, jovens e velhos, homens e mulheres, juntaram-se no Birmingham National Indoor Arena para, basicamente, tocar durante 10 minutos. Uma enorme batucada, está bem de ver (e ouvir).
Estes recordes são sempre um pouco parvos e sem grande impacto (quanto a mim). Um verdadeiro e original recorde seria, como um dia pensou o compositor John Cage, desafiar nove orquestras a tocar, cada uma delas, uma das nove sinfonias de Beethoven. Simultaneamente, claro. Segundo este espírito do visionário Cage, gostaria de ter visto este recorde dos 582 bateristas a tocar, ao mesmo tempo, com 582 guitarristas de heavy-metal, 582 pianistas de jazz, 582 baixistas de reggae, 582 teclistas de música "new age", 582 cantores da canto gregoriano, 582 Djs de tecno minimal e 582 dançarinas de dança do ventre. A isto sim, chamar-se-ia, com propriedade, um verdadeiro recorde (e uma proeza digna de nota).

Trio de ataque


Olha que três! Jim Jarmusch, Woody Allen e Quentin Tarantino vão apresentar os seus últimos filmes no festival de cinema de San Sebastián, que vai decorrer no próximo mês de Setembro. Mas para além deste trio de luxo, o festival oferece muito mais, como se constata no programa divulgado pelo jornal espanhol ABC.

O regresso a Marienbad


Li no blogue Sound + Vision que a editora Criterion vai lançar no mercado DVD um dos mais singulares e originais objectos de cinema de sempre: "O Último Ano em Marienbad" (1961) de Alain Resnais. Um filme magistral que marcou a "nova vaga francesa" sobre os labirintos da memória e das paixões humanas (é também uma obra-prima de realização e fotografia).
Pelo que se pode comprovar pela ficha técnica desta edição, é fácil constatar que se trata de mais um excelente DVD lançado pela prestigiada Criterion. Extras e mais extras de qualidade (entrevistas, documentários, booklet...), já para não falar da cópia restaurada digitalmente. Todos os pormenores são de extrema importância para a exigente Criterion - em termos de conteúdo e em termos formais - até a capa do DVD é esteticamente irrepreensível.
Sobre o filme, falei dele aqui.

Domingo, 12 de Julho de 2009

Plano-sequência de acção

Gosto de filmes que tenham boas montagens. De Eisenstein a Scorsese, de Hitchcock a Cronenberg, muitos foram os grandes cineastas que fizeram da montagem uma linguagem artística e expressiva. No oposto deste recurso, está o plano-sequência, que não admite cortes na filmagem. Mas também gosto muito de realizadores que recorrem, com notável mestria estética e técnica, ao plano-sequência. Desde a clássica abertura de "A Sede do Mal" (1958) de Orson Welles até "A Arca Russa" (2002) de Sokurov, ou aos filmes de Béla Tarr, Tarkovski e Gus Van Sant, o plano-sequência elevou-se a verdadeira expressão de arte.
Ora, eu julgava que o plano-sequência era sobretudo utilizado pelos realizadores como instrumento de contemplação, em sequências lentas e meditativas. Pensava que não havia grandes plano-sequência em filmes de acção, que privilegiam, precisamente, a montagem frenética. A verdade é que me enganei. Há dias descobri um filme que tem uma sequência espantosa filmada em plano-sequência e que é um filme de acção puro e duro. É um filme tailandês de artes marciais e acção.
O título americano é "The Protector" (2005) e é realizado por um tal Prachya Pinkaew. Na Internet vi comentários afirmando que se trata de uma sequência tão bem filmada e original quanto a cena inicial de "A Sede do Mal" de Welles. Não diria tanto, mas este plano-sequência é deveras um trabalho incrível ao nível do movimento de câmara (que parece que voa atrás do protagonista) e ao nível da coreografia da acção. Por vezes faz lembrar os movimentos de câmara do filme pioneiro "The Shining" (1980) de Stanley Kubrick, pela forma ágil como a "steadycam" se movimenta à volta do protagonista. O melhor é mesmo ver:
PS - Lembrei-me agora que há um filme de acção com bons planos-sequência - "Children of Men.

Clichés sonoros

O mundo do cinema está cheio de clichés, não só narrativos e visuais, mas também sonoros. Exemplos? Sempre que alguém começa a falar num microfone, este faz sempre um ruidoso "feedback"; numa sequência de perseguição automóvel, tem de se ouvir sempre o som do chiar dos pneus no asfalto; se um personagem se encontra em Paris, ouve-se música de acordeão; se estiver em Londres, o som do Big Ben; em Hong Kong, o som de um gongo; durante muito tempo, nos filmes de terror clássicos, qualquer porta que se abrisse ou fechasse, rangia assustadoramente. E por aí fora.
O site Film Sound tem uma deliciosa listagem de clichés sonoros nos filmes. Ver aqui.

Bebés "breakdancers"

Confesso que muitos dos vídeos mais vistos no Youtube me passam completamente ao lado. Mas este novo fenómeno pensado exclusivamente para a Internet e que já teve milhões de visitas, tem a sua piada. Trata-se da campanha publicitária "Live Young" (também conhecida por "Roller Babies") da marca de águas Evian. Esta estratégia publicitária inscreve-se numa tendência cada vez mais explorada, o "marketing viral", que se baseia na transmissão em massa de vídeos e mensagens através de endereços de e-mail e redes sociais na Internet. O que a companhia Evian gastou (e muito) na realização do pequeno filme, poupou (e muito) nos custos de transmissão que iria investir nas televisões.
Voltando ao vídeo da campanha: há que dizer que este spot publicitário é um prodígio técnico e uma maravilha em termos puramente visuais. É certo que não é a primeira vez que bebés são utilizados para publicidade e até para cenas de dança. Mas este bebés são assustadoramente realistas, autênticos "breakdancers" em patins que se divertem no meio de um parque. Na verdade, apenas a cabeça dos bebés é real, os corpos e respectivos movimentos foram concebidos digitalmente. Por último, a música. Nada mais nada menos do que um clássico da cultura hip-hop (lançado em 1979), "Rapper's Delight" dos Sugarhill Gang, aqui remisturado pelo célebre produtor Dan the Automator. O complemento musical perfeito para os bebés "breakdancers":

Sábado, 11 de Julho de 2009

Momentos e Imagens - 20


Piero Paolo Pasolini em reflexão improvisada num intervalo de filmagens.

Michael Mann - de A a Z


Agora que está quase a estrear o novo e muito esperado filme de Michael Mann, "Inimigos Públicos", sobre a vida do fora-da-lei John Dillinger (Jonnhy Depp), o site Empire divulgou um interessante dicionário de A a Z sobre o cineasta de "Heat". Uma excelente forma de conhecer melhor o universo cinematográfico do realizador.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Rebeldia punk? Só se falarmos de GG Allin


Comparado com este senhor, o Marilyn Manson é um menino de coro bem comportadinho. Comparado com este senhor, Iggy Pop, Johnny Rotten, Jello Biafra ou Alice Cooper são (ou foram) umas criaturas inofensivas e pueris. GG Allin foi único. Foi aquele músico punk que fez na vida tudo aquilo que os punks radicais nem imaginavam fazer. Levou ao extremo os preceitos punk de rebeldia e subversão de atitudes, não só em cima do palco, mas também na vida quotidiana. Morreu em 1993, com apenas 36 anos. Causa da morte? Claro: uma valente overdose de heroína.
Dizia-se que GG Allin era louco, alguém que levava ao extremo comportamentos de pura provocação demencial: entrava em palco nu, completamente drogado ou alcoolizado. Como de costume, defecava no palco, ingeria parte das fezes e arremessava o restante contra o público. Não satisfeito, auto-mutilava-se com cacos de garrafas de vidro ou pedaços de madeira. O sangue pelo corpo era tão banal como o ar que respirava - batia com o microfone na cabeça com extrema violência até esguichar sangue e, não raro, era introduzido no ânus do cantor. Práticas sexuais eram também comuns em palco.
Os concertos duravam, em média 15 minutos, tal o caos que se instalava, acabando GG Allin, a maior parte das vezes, em duros confrontos físicos com a assistência e até com os próprios músicos. A polícia era chamada para acalmar os ânimos e levava Allin para a prisão - foi detido dezenas de vezes. O títulos das canções que GG Allin vociferava diziam tudo sobre o "way of life" do cantor de várias bandas punk: "I Wanna Fuck Myself", "Hard Candy Cock", "I Wanna Piss On You", "Kill Thy Father", "Rape Thy Mother". O ódio à sociedade era o seu deniminador comum.
Curioso e irónico é o facto deste verdadeiro anti-cristo ter sido baptizado com o nome... Jesus Christ Allin. Os pais eram fanáticos religiosos. Mas cedo o jovem Allin manifestou não ser digno do nome, envolvendo-se em conflitos na escola, abusar de álcool e drogas, desacatos e violência. Musicalmente, GG Allin não era especialmente dotado, visto que era mais conhecido pelo seu lado apocalíptico ao vivo e pelos comportamentos imorais e obscenos. Os Murder Junkies foram a sua banda mais conhecida.
Tamanha figura marginal só podia dar em filme e foi logo o que aconteceu um ano após a morte de GG Allin: "Hated" do realizador Todd Philips foi realizado em 1994 e relançado em DVD em 2007. Neste documentário, podem ver-se espectáculos do músico, ensaios e entrevistas com Allin, mostrando também entrevistas com os membros de sua banda, amigos, e fãs dedicados. O próprio funeral do cantor obedeceu aos valores que em vida seguiu, como se pode ver aqui.
Eis alguns dos "melhores" momentos de GG Allin ao vivo:

A velhice dos actores


Megan Fox
Elijah Wood
Jonathan Rhys Meyers

A leitura quase sensual


O escritor português António Lobo Antunes afirmou, no Brasil, para uma plateia de estudantes, que a leitura é um "prazer quase sensual". Será que houve alguém na plateia que lhe perguntou o que falta para que o prazer da leitura elimine o “quase” e passe definitivamente a “leitura sensual”?

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Músicos jazz precocemente desaparecidos


Não foi só no campo da música rock que morreram músicos em idade jovem, como escrevi a propósito do fatídico "clube dos 27" - as estrelas rock que morreram com 27 anos. A história do jazz também está recheada de exemplos de grandes talentos que viveram intensamente e morreram demasiado cedo. O caso mais exemplar é o do grande Charlie Parker (na imagem), um génio do jazz falecido com apenas 34 anos. Ou o prodigioso do baixo eléctrico Jaco Pastorius (dos Weather Report), um enorme instrumentista do jazz-rock. Drogas, álcool e doenças vitimaram algumas das lendas memoráveis do jazz. Mais aqui.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Da comédia para o terror e vice-versa

Por aqui se prova que, como dizia Eisenstein, a montagem é a essência do cinema. Através deste recurso da linguagem do cinema, pode-se alterar por completo o sentido estético (e ético) de um filme. Ou de uma sequência de imagens, como mostram estes dois curiosos e interessantes exercícios. Com uma montagem bem planeada e com a utilização da música certa para criar o efeito pretendido, subverte-se por completo a essência de um filme, permitindo que uma comédia se transforme num terrível filme de terror, ou que um filme de terror se transforme numa comédia familiar de Domingo à tarde.
Dito de outro modo: e se o clássico de terror "O Exorcista" fosse essa comédia familiar?

Ou o delicioso filme "O Fabuloso Destino de Amélie" se tornasse num terrível filme de terror psicológico?

Discos que mudam uma vida - 68


PJ Harvey - "Rid of Me" (1993)

"Não Vi o Livro, Mas Li o Filme"


Este livro é o resultado do colóquio anual do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Com coordenação do professor e crítico de cinema (Expresso) Mário Jorge Torres, este livro é editado pela Húmus e aborda a sempre rica e diversificada relação entre o cinema e a literatura (entre outras artes), num contexto de interdisciplinaridade desenvolvida nos colóquios do CEC, genericamente intitulados ACT (Alteridades, Cruzamentos, Transferências).
Os textos aqui reunidos são da autoria de diferentes investigadores e professores, e no geral a qualidade dos ensaios parece-me muito boa (opinião ainda algo superficial pela leitura transversal que fiz). "Não Vi o Livro, Mas Li o Filme" é um óptimo livro que pode suscitar o interesse por parte de pessoas afeiçoadas a estudos literários, cinema, artes, comunicação ou cultura audiovisual. O conteúdo do livro pode ser acedido aqui e a sua aquisição numa livraria Bertrand.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Dicionário de Cinema Para Snobs - Parte 6

Cábula Snob Para Parecenças Confusas:

- Bibi Andersson é a actriz sueca que apareceu em muitos dos mais famosos de Ingmar Bergman, incluindo "Sorrisos de Uma Noite de Verão", "O Sétimo Selo", "Morangos Silvestres" e "A Máscara".
- Harriett Andersson é a actriz sueca que apareceu em muitos dos outros filmes famosos de Ingmar Bergman, como "Através de Um Espelho", "Lágrimas e Suspiros" e "Fanny e Alexander". Bibi e Harriet não são aparentadas.
- Josef von Sternberg era um realizador vienense baixinho, que acrescentou "von" ao nome por puro pretensiosimo e fez vários filmes nos anos 30 com Marlene Dietrich, na altura sua amante, incluindo "O Anjo Azul", "Marrocos", "O Expresso de Xangai" e "A Imperatriz Vermelha".
- Erich von Stroheim era um realizador vienense baixinho, que acrescentou "von" ao nome por puro pretensiosimo e fez notáveis filmes mudos como "Esposas Levianas", "Aves de Rapina" e "The Wedding March". Mais tarde fez aparições memoráveis como actor em "A Grande Ilusão" e "Crepúsculo dos Deuses".
- Sidney Lumet é o realizador intenso, autor de incómodos nacos de realismo nova-iorquino como "Serpico", "Um Dia de Cão" e "Príncipe da Cidade".
- Sydney Pollack foi o afável realizador de filmes populistas, amados pela academia, como "Tootsie" e "África Minha".
- William Wyler foi o rigoroso e exigente realizador que deu que falar nos anos 30 por causa dos filmes "Veneno Europeu" e "Jezebel, a Insubmissa" e que se inspirou na sua experiência como membro da Força Aérea americana na Segunda Guerra Mundial para fazer os filmes de guerra "Os Melhores Anos das Nossas Vidas".
- William Wellman foi o rigoroso e exigente realizador que deu que falar nos anos 30 por causa dos filmes "O Inimigo Público" e "Nasce Uma Estrela" e que se inspirou na sua experiência como piloto condecorado pela Legião Estrangeira Francesa na Primeira Guerra Mundial para fazer os filmes de guerra "The Story of GI Joe" e "Battleground".

Três mil comentários


Quando criei este blogue, foi sempre com a intenção de deixar a caixa de comentários aberta. Só assim entendia a essência deste espaço virtual: como espaço de partilha de ideias, de troca de opiniões, de experiências e de saberes. Claro que acarreta um risco, o de receber spam ou comentários menos abonatórios (ofensivos até, como aconteceu uma ou duas vezes), mas é um risco que sempre quis correr. Quando me deparo com um novo blogue no qual não existe possibilidade de comentar, acabo por me desinteressar. Há sempre o recurso de entrar em contacto com o autor desse blogue via e-mail, mas perde-se muito da espontaneidade que a caixa de comentários permite.
Isto para dizer que conto sempre com os comentários dos leitores, sejam ou não coincidentes com as minhas opiniões. Desde que os comentários sejam honestos e bem intencionados em relação ao conteúdo do post a que se referem, é sempre positivo receber comentários. Uma experiência enriquecedora para ambos os lados.
Este blogue já registou, num ano e meio, três mil comentários. Foi o Fifeco que deixou o comentário três mil no post sobre o Ronaldo e o Salaviza. Três mil comentários em 1598 posts é uma média deveras interessante. Para mais, num blogue como este, creio não ser coisa pouca. Prova que o que aqui se passa chega a um bom punhado de pessoas. E este feedback é sempre salutar e enriquecedor.
Obrigado a todos.

Público: a nobre excepção

Parabéns ao Público por não ter cedido à tentação de publicar, em grande destaque na primeira página, a apresentação de Cristiano Ronaldo em Madrid (ou o funeral de Jackson), tal como fizeram TODOS os outros jornais diários. É sinal que, apesar de tudo, o Público ainda defende critérios editoriais sérios e responsáveis (ainda que, de quando em vez, ceda ao populismo que grassa noutros jornais). Talvez o mundo ande demasiado distraído com a ronaldomania, mas há assuntos mais importantes do que um futebolista que se apresentou num estádio de futebol. Como as centenas de mortes ocorridas numa manifestação violentamente reprimida na China pelas forças militares.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Cristiano e Salaviza

O crítico de cinema João Lopes, sintetizou, em meia dúzia de palavras, no blogue "Sound + Vision", o essencial que há para dizer sobre a megalómana apresentação de Cristiano Ronaldo em Madrid, tomando como ponto de comparação a Palma de Ouro ganha no mais recente Festival de Cannes por João Salaviza. Dois jovens vencedores, dois portugueses, e dois tratamentos completamente distintos por parte dos media. A desproporção informativa foi gigantesca e desequilibrada (e injusta, dir-se-ia). O futebol poderá ser uma arte, mas tenho para mim que nunca será uma arte tão grande e bela quanto a arte do cinema.

Momentos e Imagens - 19


O escritor Ernest Hemingway e os pombos.

O mercado livreiro português bateu no fundo


aqui tinha escrito sobre o estranho fenómeno do aproveitamento comercial de figuras públicas que escrevem livros... porque são figuras públicas. Mas a visita que fiz hoje à livraria Bertrand superou todas as (piores) expectativas e ia-me causando um perigoso ataque de taquicardia. Em destaque na vitrina da livrara, bem no meio dos consagrados escritores Mia Couto e Salman Rushdie, dei de caras com um romance (sim, romance) do comentador social da TV (nem jornalista é) Cláudio Ramos. O livro intitula-se "Abraça-me" e, pasme-se, é editado pela própria Bertrand (enquanto editora)! Ou seja, ficamos a saber que a Bertrand Editora socorre-se de figuras pseudo-mediáticas para vender livros (ok, não é a única, mas sempre associei uma certa credibilidade editorial à Bertrand). Nunca me teria passado pela cabeça tal coisa - ou então sou eu que sou ingénuo demais.
Não resisti e perdi quase 10 minutos do meu precioso tempo a folhear e ler passagens desta "obra literária" do comentador "cor-de-rosa". E foi mais que suficiente para concluir que o livro "Abraça-me" é puro lixo (sem pruridos). Uma escrita incrivelmente ingénua que roça o patético (sobre a história de uma criança falecida), frases construídas como se fossem de uma redacção primária, clichés atrás de clichés, vazio total ao nível das ideias, da construção frásica. Já li composições de crianças de 12 anos muito melhor escritas e com mais criatividade do que a verborreia inútil deste rapaz que se julga escritor. E o Cláudio Ramos chama a isto livro e a Bertrand legitima este objecto como "literatura", orquestrando uma grande campanha de marketing como se estivesse a vender um Prémio Nobel! Inacreditável.
Nunca pensei que o mercado do livro em Portugal descesse tão baixo e que tivesse de se socorrer de figuras televisivas que, até como figura televisivas, são perfeitamente fúteis. Está longe de ser o primeiro caso e, pelos vistos, é um filão que está longe de esgotar.
Se alguém tiver coragem de ler o primeiro parágrafo deste objecto (e daí tirar as sua próprias ilações), poderá fazê-lo no blogue do autor.
PS: afinal este livro não representa a estreia de Cláudio Ramos no romance. Em 2008 editou "Geneticamente Fúteis". Afinal temos mesmo escritor.

Robert McNamara por Errol Morris


Morreu ontem, aos 93 anos, Robert McNamara, Secretário da Defesa durante o mandato do Presidente John F. Kennedy. McNamara foi uma das personalidades políticas mais controversas e influentes da segunda metade do século XX.
Sobre esta relevante figura política, um dos melhores documentaristas dos últimos 30 anos, Errol Morris, realizou um soberbo documentário: "Fog of War" ("Testemunhos de Guerra"). Ganhou o Óscar do melhor documentário de 2003. Trata-se de uma pertinente análise sobre o mandato dos presidentes Kennedy e Johnson, através de entrevistas contundentes do seu secretário de defesa. “Testemunhos de Guerra” aborda alguns dos acontecimentos mais importantes e delicados da história americana dos últimos 40 anos, como o bombardeamento do Japão, a crise dos mísseis de Cuba e a polémica guerra do Vietname, factos que desencadearam consequências sociais, históricas e políticas ainda hoje sentidas.
O documentário conta com uma montagem sublime, alternando entre os depoimentos de McNamara e imagens de arquivo dos factos relatados. Errol Morris tem um talento enorme na gestão do equilíbrio das imagens e das mensagens. Por outro lado, a música original de Philip Glass atribui um cariz mais solene e austero às mensagens veiculadas pelo filme. Um filme corajoso, que coloca o dedo nas feridas (ainda abertas) da sociedade americana, pelo olhar político de um influente político, Robert McNamara.
PS - O último filme do realizador Errol Morris, "Standard Operating Procedure", é outra faca afiada contra a política americana, ao revelar pormenores menos ortodoxos da acção militar dos EUA no Iraque e as atrocidades cometidas na prisão de Abu Ghraib.

A deserção

Primeiro foi José Saramago que emigrou para Espanha zangado com o seu país (mais propriamente, com certos políticos). Há poucos dias, a pianista Maria João Pires renunciou à nacionalidade portuguesa, zangada com Portugal (pela falta de apoios ao seu projecto de Belgais). Agora, o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares ameaça nesta entrevista que também quer ir-se embora para o Brasil (farto de Portugal).
A minha dúvida é: esta fúria anti-nacionalista só dá nos artistas? Não deveria dar, em primeira instância, nos próprios políticos?

Domingo, 5 de Julho de 2009

Discos que mudam uma vida - 67


Prefab Sprout - "Steve McQueen" (1985)
(Um dos melhores discos pop da década de 80)

Os filmes e os velhos

Gosto de filmes sobre velhos. É uma forma simplista de o dizer, mas é assim mesmo: filmes sobre velhos, ou sobre a velhice. E não encaro o termo “velho” com conotações pejorativas. Pelo contrário. É o tempo da maturidade, da sabedora e da experiência. Um tempo de reflexão serena sobre o tempo vivido e sobre o sentido da vida.  É preciso que um realizador tenha muita sensibilidade artística para não lidar com a velhice de forma sentimentalista ou condescendente, como se se tratasse de uma telenovela mexicana. É preciso ter visão, sentido estético, mentalidade aberta. 
Assim de repente, lembro-me de uma obra-prima do Neo-Realismo italiano: “Umberto D.” (1952) de Vittorio de Sica: a comovente vida de um pobre pensionista, solitário e desesperado, cuja relação com o seu fiel cão o salva de um fim trágico. Ou o memorável “Morangos Silvestres” (1957) de Ingmar Bergman, essa esplendorosa meditação sobre o fim da vida de um professor universitário. 
Também de Bergman, o crepuscular “Saraband” (2003), a sua última obra em forma de testamento sobre as inquietações afectivas de um idoso em final de vida. Mais recentemente, há dois ou três títulos muito interessantes cujos personagens principais são pessoas idosas, reformados, mas que ainda mantêm sonhos e esperanças: “As Confissões de Schmidt” (2002) de Alexander Payne, com um extraordinário Jack Nicholson, que antevê um novo futuro após a morte súbita da mulher; e “Vénus” (2006) de Roger Michell, com um não menos extraordinário e veterano Peter O’Toole (na imagem). E que dizer do grande filme sobre uma avó e sua relação com o neto soldado, em “Alexandra” (2007) de Sokurov
É caso para dizer: o cinema também é para velhos.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Danny, Tim e Charlie

No momento em que escrevo, está a ser exibido na RTP o magnífico filme "Charlie e a Fábrica de Chocolate" (2005) de Tim Burton. Belo filme para um sábado à tarde, e que se adequa na perfeição no espírito "para toda a família". 
Para além da história e do imaginário criado pela mestria visual de Burton, este filme tem ainda um grande atributo: a música de Danny Elfman. E basta ouvir os 5 minutos do genérico inicial para perceber que se trata do melhor estilo Danny Elfman, tão bem aplicado à essência do filme:

O escritor que um dia vai dar um tiro na cabeça

O escritor Pedro Paixão deu uma entrevista à revista Sábado. 53 anos, doente bipolar há 25, casado por quatro vezes, um filho de 19 anos. Diz que fez a tese de doutoramento em apenas 4 meses (para depois entrar em depressão meio ano), escreve na cama com o portátil em cima das pernas, deita-se às 20h, nunca teve televisão em casa nem lê jornais ou revistas, não gosta de aparecer em público nem de ser fotografado, toca piano de ouvido, só se interessa por dois temas - mulheres e ideias, tudo o que escreve é autobiográfico, manteve uma grande cumplicidade intelectual com o Miguel Esteves Cardoso (assegura que sentia amor por ele), já tentou o suicídio, e diz que se não se sentisse o melhor escritor português já teria dado um tiro na cabeça. Tamanha honestidade comove-me.
Eu só li um livro do Pedro Paixão (o primeiro dele, por sinal), “A Noiva Judia” (1992) e até não desgostei da prosa melancólica e existencialista, mas perdi o interesse depois de ler um outro livro no qual repetia a mesma fórmula. Já não tenho muita paciência para histórias sobre amores frustrados e devaneios filosóficos sobre cidades e suas gentes anonimamente alienadas.

Twisted films of PES

O universo da animação criativa de PES


Mais aqui.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O olhar demencial do soldado Pyle


Foi em 1987 que estreou o filme "Full Metal Jacket" ("Nascido para Matar") de Stanley Kubrick. Curiosamente, vi-o numa sessão da meia-noite, com meia dúzia de espectadores perplexos perante a violência psicológica da primeira metade do filme. Não é o meu Kubrick favorito, apesar de gostar muito dele. Julgo que tem desequilíbrios narrativos e momentos menos inspirados. 
No entanto, a primeira metade do filme, desde a admissão na tropa até ao brutal suicídio do soldado Pyle (impressionante Vincent D'Onofrio), é Kubrick puro, sem concessões, direcção feroz de actores e realização férrea. Lembro-me de me ter ficado na memória, durante muito tempo, esta imagem do soldado Pyle sentado na sanita com olhar demencial (ainda hoje quando me lembro deste filme, é a primeira imagem que me vem à cabeça). O soldado Pyle era um soldado gorducho e pouco apto para a exigência dos treinos militares, constantemente humilhado pelo temível Sargento Hartman. Até que a sua saúde mental se degrada entrando num estado de total loucura e alucinação.
E é essa loucura assustadora que vemos nos olhos de Pyle. Quando olha para o soldado Joker (Matthew Modine) com uma expressão de puro ódio e demência, de quem já não tem medo de nada, nem tem nada a perder. E é aí, nessa sequência de pura tensão na casa de banho (espaço muito do agrado de Kubrick), que Pyle explode, matando o sargento e suicidando-se de seguida. Apesar de não ser um filme de terror, "Full Metal Jacket" encerra, nesta perturbante cena, muito do terror psicológico que o realizador já experimentara no soberbo "Shining" (1980). E é das sequências de cinema de que mais gosto de toda a obra kubrickiana.

Momentos e imagens - 18


O louco e genial músico de Cartoons Spike Jones.
Mais aqui.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Discos que mudam uma vida - 66


Massive Attack - "Mezzanine" (1998)

O político que quis imitar a arte de um palhaço


"Eu continuo a ser uma coisa só, apenas uma coisa - um palhaço, o que me coloca num nível bem mais alto que o de qualquer político."
Charlie Chaplin

As fotografias de Glastonbury

Estas extraordinárias fotografias dizem respeito à última edição do maior festival de música do mundo: Glastonbury. O festival que, em dimensão, nº de concertos e espectadores, faz parecer os festivais de verão portugueses uma festinha de província. Em 2007, por exemplo, houve um impressionante nº de 700 espectáculos (música, teatro, circo, dança, e muito mais) realizados em 80 palcos para uma assistência de quase 200 mil pessoas, durante vários dias.
Glastonbury 2009 terminou há poucos dias. O site The Big Picture publicou um conjunto de notáveis fotografias do evento, captando a essência do espírito do festival.
Vale a pena espreitar, até porque as fotos estão em alta resolução e grande dimensão (ou então clicar nestas).

Obrigado Sony Walkman


É provável que geração do mp3 não faça ideia do que é este objecto (ok, é um exagero, mas...). Mas este Walkman da Sony (e muitos outros modelos subsequentes), que agora comemora 30 anos, marcou a história dos objectos culturais do século XX. Está para a música analógica como o i-Pod para a era digital. No fundo, ambos desempenharam a mesma função - a de dar música, mas com características muito distintas.
O que teria sido da minha geração sem o Walkman com as velhinhas cassetes áudio que funcionavam a pilhas? O que seria das férias de Verão, quando era adolescente, sem que pudesse levar a música portátil para ouvir algumas das minhas 1000 K7's? Teria sido muito difícil de suportar um mês sem música, certamente. Nos tempos que correm, este objecto é arqueológico, mas faz parte da nostalgia de consumo musical. Com o Walkman (outro modelo que não este) ouvi muita música nos anos 80 e gastei centenas de pilhas. A mudança de cassetes era todo um ritual, para ouvir aquele álbum ou aquele artista:
Half Man Half Biscuit, Test Department, Red Lorry Yellow Lorry, Captain Beefheart, Devo, Philip Boa and the Voodoo Club, Death in June, The Triffids, Robert Ashley, George Crumb, Christian Death, Dissidenten, Front 242, Camper Van Beethoven, Beatnigs, Anne Clark, Dif Juz, 23 Skidoo, The Wolfgang Press, Asmus Tietchens, in The Nursery, SPK, And Also The Trees, The Band of Holy Joy, John Adams, Elliott Sharp, Butthole Surfers, Mick Karn, Minimal Compact, Hugo LArgo, Graeme Revell, Rapeman, Coil, Steven Brown, Felt, The Residents, Can, Holger Czukay, The Feelies, Art Zoyd, Miso Ensemble, Meredith Monk, Nurse With Wound, Laibach, Christian Marclay, Harold Budd, Robert Fripp, Lights in a Fat City, Jon Hassel, Somei Satoh, Cathy Berberian, La Monte Young, Henry Cow, Negativland, Clock DVA, Biota, Moroccan Trance Music, Demetrio Stratos, Sixth Comm, Z'Ev, Skinny Puppy, Milton Babbit, Clair Obscur, Swans, Virgin Prunes, Hector Zazou, Bill Frisell, Chalres Mingus, Holger Hiller, The Gun Club, Sol Invictus, Barry Adamson, Cranioclast, Lydia Lunch, O Yuki Conjugate, No Means No, Lou Harrison, Psychic TV, Muslimgauze, Foetus, Delerium, Non, Anarband, Andrew Poppy, David Fulton, Zoviet France, Wire, Elvis Costello, Tom Cora, Faust, Von MAgnet, God, Ravi Shankar, Osso Exótico, Harry Partch, Pauline Oliveros, The Fall, Painkiller, Nicolas Collins, Peter Frohmader, David Sylvian, Kronos Quartet, Zap Mama, Jarboe, Sainkho, Jorge Reyes, Loop Guru, Carlos Zíngaro, Jane's Addiction, Ocaso Épico, Boyd Rice, FM Einheit, Alvin Lucier, Dinossaur Jr., Lush, Pengui Cafe Orchestra, Fred Frith, Pascal Comelade, Organum, Loop, The Hafler Trio, Cecil Taylor, Ala Stivell, Delerium, Tony Oxley, Pigface, Godflesh, Big Black, La Fura Dels Baus, Brian Eno, HIST, Arcace Device, Smegma, Fugazi, John Cage, Rollins Band, Yo La Tengo, John Cale, Masada, Scorn, Luciano Berio, Robert Rich, Pierre Boulez, Dead Kennedys, Telectu, Lard, Caspar Brotzman, XTC, etc, etc, etc.
E as cassetes apodrecem na gararem...

"Fome" - o corpo indomável


Mais vale tarde do que nunca. Hoje vi um dos melhores filmes de... 2008 (ver a minha lista de preferências de 2008).
Chama-se "Fome", e foi realizado pelo artista plástico-agora-realizador Steve McQueen. Já contava com um filme de efeito "murro no estômago", mas não contava com uma obra que traz qualquer coisa de novo ao cinema. A história é conhecida e vem nas enciclopédias: Bobby Sands, activista do IRA, preso político sem reconhecimento por parte de Thatcher, inicia em 1980 uma greve de fome como forma de protesto contra o o tratamento dado aos prisioneiros da terrível prisão de Maze, reclamando o estatuto de preso político. Bobby é alguém que defende, até ás últimas consequências, as suas profundas convicções políticas e ideológicas, e que tem consciência das consequências dos seus actos.
O que "Fome" tem, a meu ver, de prodigioso é o modo como Steve McQueen filma o corpo humano (e por inerência, o espírito humano) nas suas maiores privações e violência. Filma-o sem reservas morais, sem condicionalismos estéticos. Nota-se bem que o olhar de McQueen é o de um artista plástico: nos enquadramentos, nos planos, na montagem, na utilização soberba dos sons e da música (de David Holmes, um ex-DJ), na exploração dos espaços físicos e na gestão do tempo - e neste aspecto é impressionante o diálogo entre Bobby Sands e um padre num plano fixo de mais de 15 minutos. Aliás, este é mesmo o momento em que existe mais diálogo. Durante o resto do filme, os silêncios e os olhares pontuam os momentos de sofrimento e brutal violência vivida pelos prisioneiros.

"Fome" é um filme de retratra o espírito selvagem e inquietante de alguém que não renega a sua essência, a sua fé, e por isso é um filme seco, mas de uma secura terrivelmente fascinante, que traduz em imagens o que as palavras nem sempre conseguem revelar. O corpo humano como expiação, que sofre em defesa de um inabalável ideal (e 10 prisioneiros morreram à fome). Os últimos 10 minutos de película, em que vemos Bobby Sands a definhar, são os mais espantosos e, arrisco, poéticos. Há poesia na forma como o realizador filma os esgares, os olhares e o corpo do prisioneiro, como ele olha para si próprio enquanto jovem, como recorda os momentos em que corria pelo bosque. O actor que dá corpo ao manifesto, Michael Fassbender é impressionante na entrega e na interpretação.
Steve McQueen, por seu lado, mostrou com este seu primeiro filme, ser um realizador com muitíssimo talento e recursos visuais enormes (a prova são os inúmeros prémios que recebeu, um deles em Cannes 2008). Oxalá o futuro o confirme com obras de fôlego tão poderosas quanto este "Fome".

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Disco religioso: "Let Me Touch Him"

Há capas de discos que são um verdadeiro tratado. A facção "capas religiosas" (no sentido lato) é das mais interessantes. Há qualquer coisa de profundamente sinistro neste tipo de capas, em que a fé, o sentimento religioso, Deus, padres, e irmãs, são valores que não se coadunam, vá lá, muito bem com o design gráfico que as respectivas capas revelam. Vejam-se estes exemplos paradigmáticos e sintam medo, muito medo:







A mala "Blade Runner"



Para os fanáticos e incondicionais do filme de Ridley Scott, nem se questiona ter de dar 90€ por esta mala. Para os outros, mesmo para os cinéfilos - mas que não são coleccionadores obcecados -trata-se de um objecto de luxo supérfluo. A mala "Blade Runner", que reproduz a mala que o próprio Dick Deckard usava no filme, conta com 5 discos de alta definição (Blu-Ray), carregadinhos de extras como documentários e finais alternativos nunca vistos. Um livro, uma reprodução do "Spinner" (carro voador de Harrison Ford), imagens do designer Syd Mead (que criou vários elementos visuais do filme, como o próprio carro) e até um unicórnio de papel em miniatura. Aposto que quem compra esta mala a esvazia, coloca o seu conteúdo na estante preferida lá de casa e leva a mala para o emprego.

Pina Bausch e Pedro Almodóvar

Coreografia de Pina Bausch para o filme "Fala com Ela" (2002) de Pedro Almodóvar

Bugs Bunny maestro!

Quem acompanha este blogue já deverá saber que gosto de listas. Listas sobre muitas coisas, mas essencialmente sobre música e cinema. Gosto porque compilam o melhor e o pior de determinado assunto que me interessa. Suscitam discussão e reflexão. Por isso tenho divulgado aqui muitas listas. Ora, um dos sites especializados em listas de todo o género, o List Universe, acaba de apresentar uma das listas mais interessantes para mim - pessoal e profissionalmente falando: "As dez melhores utilizações de música clássica nos cartoons clássicos". Como referi neste post, considero o período de ouro da música para cartoons como um dos mais criativos e ricos de toda a história do cinema (no âmbito da relação música-imagens), com génios musicais como Spike Jones, Carl Stalling ou Raymond Scott que compuseram verdadeiras obras-primas para os cartoons da Warner Brothers, numa abordagem musical erudita e lúdica e com uma precisão estética perfeita entre imagem e som. A lista que o site List Universe apresenta é um compêndio irresistível dos melhores momentos da animação clássica (desde os anos 30) da WB e da Disney com personagens como Mickey Mouse, Bugs Bunny ou Tom & Jerry.
Nesta colecção de 10 brilhantes momentos, vemos algumas das mais originais sequências musicais de sempre (com muita diversão à mistura), com a utilização de peças eruditas bem conhecidas: de Wagner a Rossini, de Liszt a Strauss, de Brahms a Tchaikovsky. É caso para dizer: já não se fazem desenhos animados como estes que, deleitado, via em criança na televisão.
Abrir aqui. E ver o Rato Mickey a conduzir uma louca orquestra:

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Sasha e a música

E eis que surgem mais notícias sobre Sasha Grey. Para além de actriz no último filme de Steven Soderbergh e de se conhecer os seus bons gostos cinéfilos, agora um site português divulga uma entrevista com Sasha na qual se fica a saber que também faz... música. E logo com influências radicais e extremistas, nomeadamente, com o rock industrial e noise mais abrasivo como o dos históricos Throbbing Gristle. A actividade musical da jovem chegou ao ponto de trabalhar com David Tibet, dos Current 93. Ficamos a saber tudo nesta entrevista.
Agora só falta que Sasha Grey se aventure pela literatura (o William Burroughs ou o Andy Warhol teriam gostado de conhecer a jovem).

Momentos e imagens - 17


O escritor Truman Capote como centro das atenções.

Relato do Kindle 2


Só uma nota breve: vale bem a pena ler a reportagem de hoje do Público (Caderno P2) sobre o novo e-book Kindle 2. A jornalista Isabel Coutinho, directamente de Nova Iorque, dá conta da sua experiência com este leitor multimédia. Apesar da primeira reacção ter sido de relutância, a jornalista acabou por se render à qualidade e versatilidade deste objecto que pode revolucionar os hábitos de leitura de meio mundo.
Já escrevi sobre este tema aqui.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Uma compilação de "twist"


Amados ou odiados, os "twist" são um fenómeno dramático relativamente recente na história dos filmes. Basicamente, o "twist" é um recurso dos argumentistas para surpreender o espectador com finais imprevisíveis e que revelam o segredo da história (geralmente associada ao género de suspense ou de thriller). Pessoalmente, gosto de bons "twist". Não daqueles fáceis e até previsíveis, mas daqueles que fazem cair o queixo de espanto do espectador perante o engenho da resolução dramática de determinado filme. É o caso do filme da imagem deste post, "Os Suspeitos do Costume" (1994) de Bryan Singer; de "Seven" (1995) de David Fincher; ou de "Angel Heart" (1987) de Alan Parker
Para tem curiosidade de analisar os bons, os assim-assim e os maus "twist", é favor abrir esta lista. Como todas as listas, é subjectiva e passível de discussão. Mas é uma lista onde constam todos os (bons e medianos) filmes com twist da história recente - ainda que o título mais antigo referenciado seja o clássico intemporal "Citizen Kane" (1941) de Orson Welles.

Pasolini em música


Este é um disco de homenagem a um dos mais controversos cineastas de sempre: Pier Paolo Pasolini. Um cineasta que, curiosamente ou talvez não, tem despertado fascínio e devoção como poucos realizadores. O fascínio e devoção tem sido revelado por canções e músicas que lhe são dedicadas ou que abordam o universo estético e ético do autor de "Decameron". A editora Self Released resolveu compilar todas as canções que exploram a obra e a pessoa de Pasolini. E assim nasceu o disco "Songs For a Child - Tribute to Pier Paolo Pasolini", com a música dark ambient, electrónica e industrial de projectos como Coil, Spiritual Front, In Slaughter Natives, Black Sun Productions ou Teatro Satanico
Música imbuída num inquietante espírito "pasoliniano" para homenagear as imagens icónicas que Pasolini nos deixou. Download mp3 do disco aqui (carregar em "try").

Nico Muhly em Portugal


O prodígio musical (seja o que for que isto signifique) vai estrear-se ao vivo em Portugal. Nico Muhly, do qual já dei conta aqui, vai tocar no teatro Maria Matos em Novembro. Elogiado pela crítica internacional, ex-colaborador de Philip Glass, Muhly é um talento pop-erudito-experimental com sólidos atributos mas que está ainda a desbravar um caminho estético próprio.
Pelos vistos, a nova direcção artística do teatro de Lisboa está a apostar forte nos concertos. Para além de Muhly, um outro músico de referência (e de outra geração) vai pisar o palco do MM: Jon Hassell. E ainda: Vladislav Delay, Gala Drop, Osso Exótico, Jaki Liebizeit, Scarp, entre outros.