Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Contra o ACTA!

Primeiro foram as propostas de lei americanas anti-pirataria PIPA e SOPA a agitarem as águas cibernéticas à escala global. Agora, bem mais grave e contundente, discute-se o ACTA, um acordo multinacional que é muito mais prejudicial para a liberdade da internet tal como a conhecemos hoje.
O ACTA significa Anti-Counterfeit Trade Agreement e pretende proteger as propriedades intelectuais no mundo inteiro. A intenção até pode ser considerada legítima, só que as consequências previsíveis são devastadoras a todos os níveis.
O ACTA foi negociado secretamente por um selectivo grupo de países ricos e desenvolvidos (EUA, Canadá e Inglaterra à cabeça) e por poderes corporativos fora das convenções internacionais já existentes sobre a criação de novas propriedades intelectuais, como o World Intellectual Property e a World Trade Organisation.
O ACTA propõe que os servidores de internet funcionem como "vigilantes" na rede, e serão obrigados a fornecer dados privados dos utilizadores suspeitos de detentores de direitos autorais. A ser aplicado este acordo, a censura, a limitação de liberdade e o controlo de partilha de informação seriam fortemente implementadas, e todo o paradigma cultural da internet tal como o conhecemos deixaria de existir. É como se se aplicasse, à risca, a teoria do "Big Brother" que George Orwell preconizou no seu visionário livro "1984".
A internet passaria a ser quase policiada e uma simples partilha de conteúdo de imagem ou som poderia dar direito a... prisão. A título de exemplo, este mesmo blog não poderia mais existir, porque disponibiliza conteúdos - imagens, vídeos, textos e sons - passíveis de direitos autorais. O próprio Youtube poderia ter de restringir a informação online ou, em última análise, encerrar actividade.
Um atentado à liberdade e um ataque repressivo à cultura digital que parecem ficção científica mas não é. Portugal, como é habitual, foi a reboque dos países europeus e já assinou este acordo (será ratificado em Junho próximo no Parlamento Europeu).
Poucas - mas dignas e corajosas - são as vozes com responsabilidade política que se insurgiram contra esta enormidade. Só o partido Bloco de Esquerda, pela voz firme e objectiva da deputada Catarina Martins, teve a coragem de levantar o problema no Parlamento - aqui.
Por todo o mundo circulam petições, manifestações na rua, manifestos online e outras formas de protesto perante esta sombria forma de manipulação de um instrumento de informação e comunicação que revolucionou o mundo nos últimos 20 anos.
Ver o site Stop Acta!
E eis a petição que qualquer cidadão pode (deve!) assinar contra o ACTA.
Para compreender o alcance diabólico deste plano de controlo ditatorial da comunicação na rede, nada como visionar o seguinte vídeo.

Os filmes no ano em que nasci


Uma aplicação define quais os filmes em destaque no ano em que cada pessoa nasceu. Tendo nascido em 1969, posso considerar que nasci num ano cinematográfico interessante:

1. "True Grit"
2. "Butch Cassidy and the Sundance Kid"
3. "Easy Rider"
4. "Midnight Cowboy"
5. "On Her Majesty's Secret Service"
6. "The Wild Bunch"
7. "The Italian Job"
8. "Hello, Dolly!"
9. "Paint Your Wagon"
10. "Z"
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Só que esta lista omite outros títulos de 1969 impossíveis de ignorar (pelo menos para mim): "Andrei Roublev" de Andrei Tarkovski; "Satyricon" de Fellini ou "The Damned" de Visconti.

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Nos sonhos (musicais) de Lynch

É sabido que o cinema de David Lynch está imbuído de um profundo imaginário surrealista. Nos filmes deste cineasta, o bizarro e o imprevisível acontecem a cada momento, não descortinando explicações racionais para determinadas cenas ou sequências. Por outro lado, a utilização da música sempre foi um mecanismo expressivo fundamental na arte 'lynchiana'.
Um dos momentos mais sublimes, misteriosos e bizarros de toda a filmografia de Lynch no que se refere à música em cena, diz respeito ao momento em que o actor Dean Stockwell canta (ou faz que canta) o clássico "In Dreams", de Roy Orbinson, no filme "Blue Velvet" (1986).
Há qualquer coisa de simultaneamente sedutor e repulsivo nesta cena. A toada romântica da música contrasta com o ambiente tenso daquele quarto e a reacção de Dennis Hopper (carismático e perturbador Frank Booth) é reveladora da paranóia do seu personagem. A música tem por título "In Dreams" (não terá sido ao acaso), e em sonhos parece que flutuam os espectadores ao assistirem a este filme, em geral, e a esta sequência, em particular.
Inesquecível.

O "Doodle" que faltava


Na sequência do post em baixo sobre "Doodles", eis um Doodle dedicado ao realizador centenário Manoel de Oliveira. Digamos que é um criação caseira em jeito de singela homenagem - porque ele já merecia ser "distinguido" com tamanha honra pelo Google.

Os "Doodles" de cinema


Por vezes a Google surpreende com os famosos "Doodles", versões divertidas do logótipo convencional da Google. No início, estas criações serviam sobretudo para comemorar feriados, aniversários, eventos desportivos e personalidades de dimensão mundial.
De há uns anos para cá, a Google também tem assinalado figuras artísticas de reconhecido mérito (Fernando Pessoa e Amália Rodrigues, em Portugal, por exemplo).
Ora, hoje, dia 6 de Fevereiro, a Google resolveu assinalar os 80 anos do nascimento do realizador francês François Truffaut (na imagem em cima). Na verdade, não são muitos os "Doodles" dedicados a cineastas e ao cinema (há muitos mais acerca da temática musical).
Por isso resolvi investigar e averiguar quais as figuras ou eventos de índole cinemetográfico que a Google já criou:

20 anos de Wallace & Gromit

Nino Rota - 100 anos do nascimento

Akira Kurosawa

Jim Henson - 75 aniversário

The Flinstones - 50 anos

1ª Exibição Cinematográfica

Federico Fellini - 92 anos do nascimento

Charles Chaplin - 122 anos do nascimento

"O Feiticeiro de Oz" - 71 anos

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Um filme encantador

Preâmbulo: "O Artista" é um filme encantador. É essa a palavra que melhor o define: encantador. Ninguém que goste, verdadeiramente de cinema, poderá afirmar que este filme é desinteressante ou falhado. Um filme que condensa toneladas do melhor imaginário que a história da Sétima Arte nos deu - e nunca tantos clichés souberam tão bem e fizeram tanto sentido. Uma ode à magia do cinema e à sua riquíssima herança artística.
O realizador Michel Hazanavicius soube pegar num ponto fulcral da história do cinema, a passagem do período mudo para o sonoro, de forma a criar uma história que homenageia os grandes pares românticos do cinema numa época em que o cinema era amado pelo povo e entendido como arte e como puro entretenimento.
"O Artista" prova que uma certa ideia de reinvenção do cinema está, como se prova, na reciclagem de referências históricas para as transformar num objecto estético novo (à custa das tecnologias digitais, não se pense que filme foi rodado com a mesma técnica rudimentar dos anos 20). E foi isso que o cineasta francês fez, com grande entusiasmo cinéfilo e devoção pela magia do cinema mudo: fez um consistente filme (quase todo todo) mudo, com personagens (mesmo os figurantes!) que parecem, mesmo, ter vivido em 1927, e reconstruiu todo um imaginário cinematográfico com múltiplas ramificações.
A própria realização tem referências a técnicas de filmagem do mudo, o actor principal (magnífico Jean Dujardin) parece um sósia do galã Douglas Fairbanks, a actriz Bérénice Bejo que faz de Peppy Miller encarna uma convincente diva em ascenção, e a música de Ludovic Bource é espantosa na forma como recupera a tradição musical dos filmes mudos com um toque de inevitável modernidade.
E para que se perceba a maravilhosa capacidade de evocação dos clássicos imortais de Hollywood, nada como ver estes magníficos dois minutos finais com a dança de sapateado dos dois protagonistas. É como se Gene Kelly (e repare-se como Jean Dujardin é parecido com ele!)e Ginger Rogers tivessem voltado a brilhar no grande ecrã.
Em suma, "O Artista" é uma obra de pura celebração do cinema "dentro do cinema", capaz de recuperar a genuína nostalgia sentimental do cinema mudo, resgatando-o para uma era moderna. Para além disso, tem outro grande trunfo: a capacidade para motivar as novas gerações a descobrir o verdadeiro cinema mudo!

Glenn Close e as outras


Ontem revi, no canal Hollywood, o filme "Fatal Attraction" (1987) de Adrian Lyne, com um excelente par de actores: Michael Douglas e Glenn Close.
Glenn Close é notável na forma como interpreta uma mulher obcecada num homem com quem teve um caso, perseguindo-o de forma paranóica. E fiquei a pensar que Close é uma boa actriz que se perdeu nos anos seguintes, não sendo devidamente aproveitada para um papel da envergadura de "Fatal Attraction".
Dobrou vozes em filmes de animação, entrou em várias séries televisivas e em filmes de segunda categoria (deu um ar da sua graça quando fez de Cruella de Vil em "101 Dálmatas". Nos últimos dez anos não houve um único bom filme com Glenn Close como actriz principal.
Mas este é um fenómeno que afecta outras actrizes da mesma geração de Close, como Debra Winger, Jessica Lange (que agora ganhou um Globo de Ouro pela série "American Horror Story", mas que pouco se tem visto no cinema), Melanie Griffith ou Geena Davis. Actrizes que nos anos 80 e 90 pareciam ter um futuro auspicioso e brilhante à sua frente, mas que aos poucos começaram a eclipsar-se - e daí estas actrizes se terem já queixado publicamente que Hollywood lhes oferece muito poucos papéis interessantes para as suas idades...

Discos que mudam uma vida - 158


David Bowie - "Low" (1977)

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Denzel e Monk

Denzel Washington já interpretou várias figuras negras míticas, como o activista político Malcolm X ou o pugilista Rubin 'Hurricane' Carter.
Numa entrevista concedida a um site espanhol, o actor refere que recusou interpretar Nelson Mandela porque "não se via no papel e não tem pretensões de interpretar todas as lendas negras".
O jornalista insistiu e perguntou que outras personalidades negras especiais gostaria de encarnar. Ao que Denzel respondeu: "Thelonious Monk, um dos grandes músicos de jazz da história com graves problemas mentais. Deixou de tocar piano repentinamente e nunca mais tocou. Decidiu deixar de falar e, um dia, decidiu deixar-se ficar na cama, onde viria a morrer. É uma história fascinante".
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É bem verdade: Thelonious Monk foi um dos músicos de jazz mais influentes mas também um dos mais bizarros e surpreendentes (e neste capítulo teve concorrência forte no mundo do jazz, como Charlie Parker ou Sun Ra). Seria muito interessante uma adaptação ao cinema da vida e obra de Monk, e certamente que Denzel Washington faria uma boa figura no papel do principal criador do género Bebop.

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

A animação surrealista de Jan Svankmajer

É preciso ter disposição para perder 16 minutos e 22 segundos - que é o que dura o vídeo em baixo - para compreender e fruir a enorme criatividade do realizador de animação checo chamado Jan Svankmajer.
Desde 1964 que Svankmajer faz filmes de animação (e não só) baseados num universo estético e visual único: ambientes cláustrofóbicos e kafkianos, humor surrealista, personagens bizarros, sátira social... Tudo com recurso exímio a elementos quase rudimentares: animação de volumes (plasticina, barro e muitos outros objectos do quotidiano), mas também à "live action". Sem palavras, mas com muita imaginação. A sua filmografia é relativamente escassa e espalha-se entre curtas-metragens e meia-dúzia de longas-metragens.
Diz-se que Svankmajer influenciou, de forma determinante, o imaginário de Tim Burton e de Terry Gilliam (uma verdade incontestável). Actualmente com 77 anos, Jan Svankmajer continua a realizar filmes surpreendentes e únicos. E é pena que tão pouca gente conheça o seu magnífico e original trabalho.
"Food" é uma obra dividida em três partes: "Breakfast", "Lunch" e "Dinner". Três momentos incrivelmente originais nos quais o realizador faz uma demolidora crítica à forma como os homens comem alimentos. Mistura animação com pessoas reais. E tem de ser visto para se acreditar:

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

"O Pássaro Pintado"


Sobre este livro disse o realizador espanhol Luis Buñuel: "Talvez o livro que mais me tenha impressionado". Por seu lado, o famoso escritor Arthur Miller afirmou: "Um feito literário muito importante e muito difícil de conseguir".
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Editado em Portugal pela editora Livros de Areia, "O Pássaro Pintado" é um livro originalmente editado em 1965 por Jerzy Kosinski (1933-1991), escritor de origem polaca que sobreviveu durante a 2ª Guerra Mundial, ocultando a sua identidade judaica no seio de uma família católica polaca. Esta obra literária granjeou-lhe imensa notoriedade no meio literário, e nos anos seguintes tornar-se-ia uma das figuras de vanguarda pelo seu trabalho no mundo das artes e letras como professor, ensaísta, fotógrafo, argumentista de cinema e romancista. Suicidou-se em 1991.
O livro de Kosinski é baseado nas memórias de infância do próprio autor e retrata as deambulações de uma criança que foi deixada ao cuidado alheiro durante a Guerra, numa aldeia recôndita da Polónia. A velhota responsável morre, e o rapaz vê-se sozinho ao frio, em busca de abrigo e de alimento. Sucessivamente marginalizado pela sua tez morena entre os aldeões loiros de olhos azuis, vai sofrendo vários actos de agressividade perversa. O livro tem passagens duras, de grande sofrimento e de uma tristeza latente. A escrita é fluída, quase cinematográfica, de grande rigor e precisão narrativa.
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"O Pássaro Pintado" daria um excelente argumento para um filme sobre os horrores da 2ª Guerra Mundial, muito ao estilo de filmes como "A Infância de Ivan" (1962) de Andrei Tarkovski ou "Vem e Vê" (1985) de Elem Klimov, dois filmes espantosos que retratam o sofrimento cruel vivido por crianças durante o horror nazi.
Seja como for, a obra literária de Kosinski vale por si própria - ainda por cima com ilustrações originais do consagrado ilustrador João Maio Pinto - e é altamente recomendável a sua leitura.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Philip Glass - 75 anos


Hoje é o dia dos 75º aniversário de um dos meus compositores contemporâneos favoritos (e já muitas vezes citados neste blog - tem 45 entradas): Philip Glass.
Amado e odiado em igual medida, como quase todos os grandes artistas o são, Philip Glass é um compositor que atravessou as últimas quatro décadas com espantosa capacidade de reinvenção criativa. Inicialmente conotado com o minimalismo, Glass inovou e conseguiu trilhar um caminho musical único com base numa linguagem estética assente numa forte identidade artística.
A sua vasta e diversificada obra é prova de um trabalho intenso e ecléctico, com peças para orquestra, teatro, ensemble, óperas, documentários, bailado, exposições e filmes de ficção. Em 2007, quando Philip Glass completou 70 anos, o realizador Scott Hicks (o mesmo que fez "Shine" (1996) sobre o pianista esquizofrénico David Helffgot) acompanhou-o durante mais de um ano para a realização de um documentário sobre o compositor.
Deste trabalho resultou o muito interessante filme "Glass: a Portrait of Philip in Twelve Parts", um magnífico documentário que revela o método criativo de Glass, a sua relação com os seus músicos, assim como os seus momentos familiares mais recatados. Um documentário honesto e descomprometido que faz justiça à grandeza artística do autor de algumas das bandas sonoras mais memoráveis dos últimos 25 anos.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Kubrick vs Scorsese

Depois de passar 25 dias a ver os 34 filmes de Stanley Kubrick e Martin Scorsese, um cinéfilo chamado Leandro Copperfiled aventurou-se numa minuciosa montagem com 500 das mais emblemáticas cenas das filmografias de ambos.
Um trabalho que lhe levou muitas horas mas que resultou numa belíssima homenagem que é também uma amostra incrível das melhores imagens que Kubrick e Scorsese nos deixaram (Scorsese até à data).

Claustrofobia num elevador


Ainda há surpresas: na minha última investida na Fnac, comprei um DVD (por uns irrisórios 5€) que não conhecia mas que me suscitou muita curiosidade: "Lady in a Cage" (1964) realizado por um tal Walter Grauman.
O título português é bombástico: "Bárbaros do Século XX", e a capa referia que se tratava de um "soberbo filme-choque", com a participação de um jovem James Caan (no seu primeiro papel importante no cinema). Foram motivos suficientes para comprar o DVD.
O filme conta com a excelente actriz Olivia de Havilland, duas vezes vencedora de um Óscar (ainda é viva com 95 anos!), lançada para o estrelato em 1938 com "As Aventuras de Robin Hood"). Sozinha na sua residência durante um fim-de-semana de intenso calor, uma viúva (Olivia de Havilland) vê-se acidentalmente presa no elevador que tem dentro de casa, devido a uma falha de electricidade.

A partir deste ponto, o seu mundo meticuloso e bem organizado é posto em causa quando o elevador, parado três metros acima do chão, se torna uma claustrofóbica câmara de tortura - uma verdadeira jaula. Incapaz de se libertar, a sua situação torna-se desesperada quando o alarme de emergência atrai uma mão cheia de indesejáveis intrusos - um alcoólico e a sua amiga prostituta, bem como um trio de jovens delinquentes (liderados por um notável e quase adolescente James Caan), que embarcam numa espiral de vandalismo e brutalidade que culmina em violência e mortes.

O ponto de partida para este filme de suspense propicia situações de grande angústia e desespero, com a invasão da casa por parte dos assaltantes e delinquentes. James Caan é soberbo no papel de líder tresloucado de um bando de delinquentes sem códigos de honra. Olivia de Havilland é magnífica na forma como encena a sua própria claustrofobia e a tensão crescente. A realização é fenomenal no modo como enquadra os planos, a montagem e alterna movimentos de câmara surpreendentes.

"Lady in a Cage" foi proibido em Inglaterra pela sua violência e brutalidade. É compreensível no ano em que foi feito, 1964, mas aos olhos do espectador de hoje já não choca. No entanto, não deixa por isso de ser um belíssimo exercício de suspense na esteira de um "Psycho" de Hitchcock que estreara apenas 4 anos antes. E é também uma película de referência para todos os filmes que se seguiram sobre invasão de privacidade e violência juvenil.
Em suma, uma preciosa descoberta que se tornou num filme de culto.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

As semelhanças

O mundo do espectáculo é um mundo que tem tanto de contrastante como de idêntico. O site Totally Looks Like é um divertido sítio onde encontramos, sobretudo, grandes semelhanças físicas entre actores, actrizes, músicos e outros artistas. Semelhanças que nos desconcertam e sobre as quais, quiçá, nunca nos ocorreram (como as últimas duas imagens deste post!). Outras são, de tal forma óbvias, que saltam à vista.





"Klip"


Li no site C7nema a informação de um filme que está a suscitar muitas expectativas no festival de cinema de Roterdão. O filme em questão chama-se "Klip" e é realizado por uma jovem (28 anos) sérvia de nome Maja Milos.
"Klip" retrata a vida caótica de um grupo de jovens obcecados por sexo, drogas e violência. O sexo é duro e explícito, e a utilização das drogas e da violência é muito realista. Certamente um filme que dificilmente será exibido nos EUA.
Os mais atentos sabem que esta fórmula explosiva já foi testada na obra polémica de Larry Clark, com os filmes-choque "Kids" (1995) e "Ken Park" (2002). Ao que parece, a realizadora não nega a influência directa.
A reportagem completa sobre este filme pode ser lida aqui.

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Monty Python!


É incontornável: a notícia da reunião dos impagáveis Monty Python para uma nova comédia de ficção científica chamada "Absolutely Anything", é a melhor notícia cinematográfica de 2012 até à data. Ao que consta, falta apenas a confirmação da participação do actor Eric Idle (o segundo da direita na imagem) para a trupe dos cinco humoristas anárquicos ficar completa (faltaria Graham Chapman, se fosse vivo). Um verdadeiro presente para os fãs (como eu) dos Monty Python e do seu humor absurdo.
E convenhamos que o mote da história deste filme promete: extraterrestes com poderes... humanos!

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Resnais: Auschwitz e Marienbad

Lembrei-me do realizador francês Alain Resnais por dois motivos: primeiro, porque é o realizador que filmou, pela primeira vez, o campo de extermínio nazi de Auschwitz no brilhante documentário "Noite e Nevoeiro" (1955) - e hoje comemoram-se 67 anos da libertação desse campo; segundo, porque Alain Resnais é também o cineasta do filme que agora serve de imagem inicial a este (renovado) visual do blogue: "O Último Ano em Marienbad".
E que filme é este? Provavelmente, um filme mais comentado do que realmente visto. Um filme de uma estirpe formal e estética rara no cinema actual. E o que conta este filme? Muito, pouco ou nada, conforme a interpretação: num luxuoso e enorme hotel, um estranho quer convencer uma mulher casada para fugirem juntos. Porém, parece difícil ela lembrar-se que tiveram um caso (ou talvez não tiveram) no último ano em Marienbad. Este é o mote de um dos mais enigmáticos e fascinantes filmes de sempre: "L'Année Dernière à Marienbad" (título original). Uma obra que, mais do que qualquer outra, evoca uma inusitada energia os labirintos da consciência e da memória. O cineasta disse, a propósito deste filme: "Fiz uma tentativa crua e primitiva para captar a complexidade do pensamento e os seus mecanismos."
Tudo é enigmático e barroco nesta obra de Resnais, desde as personagens ao ambiente criado, à voz off que narra acontecimentos em forma de poesia onírica, a realização em longos planos-sequência, a montagem elíptica, os hipnóticos movimentos de câmara, a narrativa cerebral. Visualmente, "O Último Ano em Marienbad" é um filme belo como poucos, feito de uma expressividade plástica depuradíssima. Para o sucesso artístico do filme muito contribuiu o texto e argumento de Alain Robbe-Grillet (um dos expoentes do chamado "Novo Romance" francês"), perfeito para a visão barroca de Alain Resnais.

As personagens são todas anónimas, sem alma, e vítimas de um qualquer encantamento que povoa o palácio internacional (e o seu vasto jardim) onde toda a acção do filme se desenrola - uma espécie de cela dourada e labiríntica, afastada do mundo real, quase num universo paralelo de consciência. A personagem feminina principal, mulher enigmática e sem nome (tal como o homem que a seduz), é encarnada por uma fascinante e bela actriz: Delphine Seyrig (trabalhou também com Truffaut e Buñuel). Os diálogos e pensamentos que o espectador lê são verdadeiros textos poéticos, plenos de luz e de sombras, de evocações e emoções, de enigmas e memórias.

Depois, a câmara de Alain Resnais filma o majestoso palácio e as personagens como raramente se viu no cinema, através de movimentos de câmara que mais parecem movimentos de volúpia e de sedução - planos-sequência de tirar o fôlego de tanta beleza. Quase como se a câmara de filmar não existisse e fosse substituída pelo olhar do próprio espectador, atento aos mais ínfimos pormenores da arquitectura, das estátuas, dos olhares e movimentos, da subtileza das decorações barrocas daquele espaço.

Em suma, um filme mítico, hipnótico, ousado, que se revê sempre com renovado prazer e surpresa e cuja modernidade intrínseca sobreviveu, sem mácula, ao desgaste das décadas.

Cinema português: a encruzilhada

Para ler e reflectir sobre o futuro do cinema português:

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Estreias aos pontapés


Hoje regista-se mais uma avalanche de estreias comerciais nas salas portuguesas: oito filmes! Tem sido esta a média de filmes que estreiam todas as semanas em Portugal. Em cada mês, uns 30 filmes novos nas salas. Quase um por dia. Um ritmo louco que não corresponde às proporções do mercado cinematográfico português (perdeu 800 mil espectadores em 2011) nem abona a favor do sistema de distribuição dos filmes.
É como se as distribuidoras lançassem para as feras filmes aos magotes só para despachar mercadora, sem critério nem rigor objectivo. E isto quando se sabe que há bons filmes que vão directamente para o mercado de venda de filmes (DVD) ou para a exibição nas televisões e dezenas de filmes perfeitamente dispensáveis que inundam os cartazes semanais das salas comerciais.
E o nicho dos filmes de autor e independentes, que percorrem festivais internacionais de cinema, que ganham prémios de reconhecimento, que outorgam grandeza artística à palavra "cinema", está cada vez mais a reduzir-se em termos de expressão.
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Não esquecer outro dado importante e sintomático dos tempos que correm: nos últimos dois anos, duas capitais de distrito ficaram sem salas de cinema: Évora e Bragança. E a ameaça paira no ar noutras cidades capitais de distrito. Apesar das críticas que se possam fazer aos critérios de distribuição dos filmes e da mediania (ou mediocridade) da maior parte deles, a verdade é que é sempre um drama maior ficar sem nenhuma sala de cinema numa cidade média portuguesa. Mal por mal, em cada 10 filmes estreados, há-de haver um ou outro, de tempos a tempos, que valha realmente a pena ir ver ao cinema...

Saudades das férias

Facelift

A razão pela qual este blog redefiniu visualmente o seu "layout" tem a ver com o facto da necessidade que tenho sentido, há muito tempo, de aumentar o espaço disponível para imagens e vídeos.

A nova imagem do blog é retirada do filme "O Último Ano em Marienbad" (1961) de Alain Resnais.

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Playtime #68


A solução: "Nostalgia" (1983) - Andrei Tarkovski
Quem descobriu: Rui Gonçalves

"I Will Find You"

Vale a pena perder (pouco mais) de 3 minutos para ver esta bela curta-metragem de animação intitulada "I Will Find You", de Andrei Bakhurin. Não só o filme em si é delicioso (com um twist final da história ao mesmo tempo terno e tenebroso) como também vale a pena pela música dos excelentes Estradasphere:

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

O adeus a Theo


A notícia de hoje mais relevante e importante do mundo cinematográfico não tem a ver com as nomeações dos Óscares.
A notícia de hoje mais relevante e importante do mundo cinematográfico tem a ver com a morte súbita e trágica de um grande cineasta contemporâneo que ainda estava em plena actividade (aos 76 anos): Theo Angelopoulos.
RIP.

Música para grutas



Ainda não vi o documentário "A Gruta dos Sonhos Perdidos" de Werner Herzog. Mas um amigo meu, cujo gosto cinéfilo tenho muito em conta, contou-me que já o viu e, ainda por cima, na versão disponível em 3D.

Garantiu-me que se trata de um belo filme sobre as fascinantes e misteriosas Grutas Chauvet, em França, e que a utilização do 3D está muito bem conseguida ("Parece mesmo que o espectador está lá em baixo nos abismos da gruta", disse-me).

Outro aspecto que salientou do documentário de Herzog é a utilização da música original, a qual contribui para o envolvimento quase espiritual da exploração das grutas. E como também confio no gosto musical do meu amigo, fui pesquisar quem é o autor da música: Ernst Reijseger (na imagem), um violoncelista e compositor holandês com larga experiência no jazz de vanguarda, na música improvisada e na erudita contemporânea (já não é a primeira vez que faz música para filmes de Werner Herzog).

Ouvi vários excertos da música original de Ernst Reijseger e gostei bastante. Poderia dizer que, mesmo não tendo visto o documentário, senti que a sua música evoca fortes imagens, ambientes misteriosos e uma especial dialéctica lírica entre homem e natureza. Gosto especialmente da força espiritual que emana desta composição:

Agora que já ouvi a música, resta-me ver o filme...

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

"Inception" by... Fritz Lang!

O jornal Daily Mail divulgou há dias uma interessante reportagem subordinada a uma simples e desafiadora questão: "E se os modernos blockbusters tivessem sido feitos na década de 50?" Pegando nesta premissa, o artista gráfico americano Peter Stults reinventou os posters de filmes como "Inception", "Pulp Fiction" ou "Trainspotting", criando imagens totalmente vintage. Para além da óbvia curiosidade dos posters feitos na forma estética dos anos 50 e 60, é também curioso os nomes dos créditos artísticos.
Assim, o filme "Trainspotting" seria realizado por Jean-Luc Godard e interpretado por uns jovens Michael Caine e Anthony Hopkins; ou o "Inception" realizado por Fritz Lang e interpretado por Burt Lancaster e Rita Hayworth! E quem melhor para actor em "Drive" do que... James Dean?!
Eis as provas: