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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Empire: The End

Ao fim de três de existência, a única revista de cinema em Portugal, a Empire, chega ao fim este mês de Julho. Claro que era uma réplica da Empire britânica e que estava vocacionada essencialmente para o cinema comercial e de super-heróis, mas não deixa de ser penoso constatar o desaparecimento sucessivo de títulos da imprensa escrita especializada.
Em relação à Empire, comprava-a muito esporadicamente, quando via que tinha uma reportagem ou entrevista que me interessava. 
Este último número vou comprá-lo. Por dois motivos: porque quero ficar com a última edição como coleccionador (também tenho a última da revista também desaparecida Premiere); e porque traz um "Especial realizadores: Mann, Fincher e Lynch na Primeira Pessoa".
A notícia.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Polanski e a Prada

Já não é de agora que realizadores consagrados fazem pequenos anúncios para o mundo da publicidade. Há muitos anos que tal acontece. 
David Fincher, Martin Scorsese ou David Lynch, são apenas três cineastas famosos que já realizaram spots publicitários para grandes marcas internacionais. Roman Polanski é o último exemplo: há uns meses realizou um spot publicitário (de título "Prada Suits Everyone") de pouco mais de 3 minutos para a prestigiada marca de luxo Prada
A história é simples e tem quase, quase, a dimensão de curta-metragem: Helena Bohnam Carter é uma paciente que visita o consultório do psiquiatra Ben Kingsley. A paciente descalça os seus sapatos Prada, deita-se no divã e começa a debitar as suas angústias (é uma mulher solitária e tem pesadelos), enquanto Kingsley começa a fixar o seu olhar no exuberante casaco de pêlo que ela trazia vestido.
Polanski atribui ao final deste pequeno filme um toque irónico (quase cínico) colocando a nu, de certo modo, o fascínio que a ostentação do luxo provoca em mentalidades mais, digamos, susceptíveis. Mesmo na mentalidade de um suposto psiquiatra...

terça-feira, 17 de abril de 2012

"Fight Club" - A frase

Quando vi "Fight Club" (1999), de David Fincher, fiquei com a nítida ideia de que o filme era essencialmente - para além de outras coisas - uma feroz análise do individualismo numa sociedade materialista subjugada ao sistema capitalista. E esta frase proferida por Edward Norton sintetiza, na perfeição, o seu personagem e a abordagem crítica que o filme comporta. Uma frase que reflecte a vacuidade dos tempos modernos da sociedade de consumo, num tempo em que a aparência funciona como vão paradigma social.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

As próximas grandes estreias


O semanário Expresso dedicou duas páginas na análise da temporada de estreias de cinema que se avizinha (entre Janeiro e Fevereiro). Foram 11 filmes citados.
De todos esses filmes, eis aqueles que, por ordem de expectativa e de preferência, mais aguardo:
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1- "The Artist" de Michel Hazanavicius
2 - "A Invenção de Hugo" de Martin Scorsese
3 - "Cosmópolis" (na imagem) de David Cronenberg
4 - "O Cavalo de Turim" de Béla Tarr (apesar de já ter visto)
5 - "J.Edgar" de Clint Eastwood
6 - "O Gebo e a Sombra" de Manoel de Oliveira
7 - "Millennium - Os Homens Que Odeiam as Mulheres" de David Fincher
8 - "Cavalo de Guerra" de Steven Spielberg
9 - "Tabu" de Miguel Gomes
10 - "Take Shelter" de Jeff Nichols

terça-feira, 12 de abril de 2011

Uma grande história num minuto

Hoje em dia há festivais e concursos de cinema e vídeo para todos os gostos e formatos. Até para pequenos filmes filmados num qualquer iPhone. Já vi concursos de curtas-metragens de apenas cinco minutos de duração. Para fazer algo de interessante (ao nível da história, da realização e da interpretação) em tão escasso tempo, é preciso muita criatividade.

Criatividade essa que, a espaços, surge no formato de publicidade, mundo do audiovisual no qual muitos jovens realizadores iniciam as suas carreiras (David Fincher é um claro exemplo).

A título de exemplo, veja-se como em pouco mais de um minuto se desenvolve uma ideia de forma tão rica: este spot publicitário do Canal Plus explora uma ideia tão simples quanto eficiente (e muito divertida). Para além do mais, está muito bem filmado e montado. Só mesmo nos últimos segundos do filme percebemos o porquê das desventuras do pobre rapaz. A conclusão é deveras desconcertante. E há que dizer que a mensagem é mesmo esta: nunca devemos subestimar uma grande história (e a verdade é que as grandes histórias podem caber tanto numa longa-metragem como num filmezinho de 1 minuto).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os genéricos


O João Lameira, a propósito do post abaixo deste, abordou quão importante é o genérico de um filme. E com toda a razão.
Sempre que penso em genéricos, lembro-me de um filme de Woody Allen (creio que "Annie Hall") em que a personagem interpretada pelo próprio realizador desiste de entrar na sala de cinema porque já tinha sido exibido o genérico inicial do filme. Faz sentido: podia ter perdido um genérico extraordinário. E o filme começa verdadeiramente no genérico (quando os há, porque o cinema contemporâneo aboliu muita dessa tradição).
Durante décadas, no período clássico de Hollywood, os genéricos ("opening credits") foram quase sempre iguais, com o mesmo ritmo, a mesma estética visual, a mesma forma de apresentação dos créditos artísticos e técnicos, o mesmo lettering, com poucas variações na própria sequência gráfica dos títulos. Veja-se, por exemplo, os muitos filmes de John Ford que terminam da mesma maneira: "Directed by John Ford". Por isso, muitas das vezes, os genéricos serviam apenas para aborrecer os espectadores, deixando-os indiferentes.

Porém, a partir de um dado momento, os genéricos sofreram alterações profundas, no estilo, na forma, no conteúdo. Outros realizadores optaram até por prescindir dos genéricos iniciais (Francis Ford Coppola), outros há que são fiéis a um mesmo estilo (Woody Allen) durante largos anos.
Por vezes um genérico inicial de um filme (quando é realmente bom e original) é determinante para incutir no espectador o fascínio das imagens, a envolvência emocional da película. Saul Bass criou alguns dos genéricos mais originais para filmes de Alfred Hitchcock, ou para "Anatomy of Murder" de Otto Preminger.
Nos últimos anos, David Fincher tem sido um dos poucos cineastas que atribui valor artístico ao genérico, talvez devido à sua formação inicial como realizador de videoclips.
O genérico é uma arte e imprime identidade artística a um cineasta, e não tem que ter uma função meramente funcional (como a de apresentar a lista de actores e intervenientes do filme, como era quase sempre no cinema clássico). E hoje já não há artistas gráficos com a veia criativa de um Saul Bass...
Eis um site que sugere 10 grandes "opening credits" do cinema recente.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A velhice e os filmes


Gosto de filmes sobre velhos. É uma forma simplista de o dizer, mas é assim mesmo: filmes sobre velhos, ou sobre a velhice. E não encaro o termo “velho” com conotações pejorativas. Pelo contrário. É o tempo da maturidade, da sabedora e da experiência. Uma etapa de vida que impõe respeito, valorização e atenção. Tempo de reflexão serena sobre o tempo vivido e sobre o sentido da vida.
No cinema, é preciso que um realizador tenha muita sensibilidade artística para não lidar com a velhice de forma sentimentalista ou condescendente, como se se tratasse de uma telenovela pejada de todos os lugares-comuns sobre o tema.
É preciso ter visão, mentalidade aberta, sentido humanista e deitar fora os preconceitos. Assim de repente, lembro-me de uma obra-prima do Neo-Realismo italiano: “Umberto D.” (1952) de Vittorio de Sica: a comovente vida de um pobre pensionista, solitário e desesperado, cuja relação com o seu fiel cão o salva de um fim trágico.
Ou o memorável “Morangos Silvestres” (1957) de Ingmar Bergman, essa esplendorosa meditação sobre o fim da vida de um professor universitário desencantado. Ou a relação de amizade entre o motorista Morgan Freeman e a velha aristocrata Jessica Tandy em "Driving Miss Daisy" (1989). Recordo-me também do último e terno filme do mestre Akira Kurosawa, "Rapsódia em Agosto" (1991), no qual uma idosa sobrevivente de Nagasaki se confronta com a custódia dos seus quatro netos e a relação com um inesperado sobrinho americano.
Também de Bergman, o crepuscular “Saraband” (2003), a sua última obra em forma de testamento sobre as inquietações afectivas e emocionais de um idoso em final de vida.

Nos últimos anos, há dois ou três títulos muito interessantes cujos personagens principais são pessoas idosas, reformados que ainda mantêm sonhos e esperanças (ou talvez não): “As Confissões de Schmidt” (2002) de Alexander Payne, com um extraordinário Jack Nicholson, que antevê um novo futuro após a morte súbita da mulher; e “Vénus” (2006) de Roger Michell, com um não menos extraordinário e veterano Peter O’Toole. Goste-se ou não do filme, "The Curious Case of Benjamim Button" (2008) é uma reflexão sobre os vários estados etários da vida humana, com especial ênfase na velhice. E que dizer do grande filme sobre uma avó e sua relação com o neto soldado, em “Alexandra” (2007) de Sokurov? Ou da maravilhosa viagem de reconciliação de um velho num cortador de relva que é retratada em "The Straight Story" (1999) de David Lynch (lembrança de João Gonçalves)?

É caso para dizer: o cinema (também) é (de e para) velhos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As sequelas inúteis

Recentemente, os cinéfilos foram surpreendidos com a sequela inútil e medíocre do filme de culto "Donnie Darko". Isto levou-me a pensar que, apesar da onda de sequelas por tudo e por nada há, potencialmente, filmes que pelas suas características (argumento, estética, realização, peso de culto...) são praticamente impossíveis de fazer sequelas, sob pena de destruirem o imaginário cinéfilo da obra original.
A título de exemplo - seria infame que houvesse sequelas de filmes como:
- "A Noite do Caçador"
- "Blade Runner"
- "Eraserhead"
- "Reservoir Dogs"
- "Aguirre: A Cólera de Deus"
- "The Wild Bunch"
- "A Laranja Mecânica"
- "Blue Velvet"
- "Morte em Veneza"
- "Paris, Texas"
- "O Feitiço do Tempo"
- "O Eclipse"
- "A Sede do Mal"
- "As Virgens Suicidas"
- "Hiroshima, Meu Amor"
- "12 Angry Men"
- "Ed Wood"
Sempre queria ver a "coragem" dos produtores de Hollywood...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Óscar para Trent Reznor?


Se um dia alguém me dissesse que Trent Reznor estaria nomeado para um Óscar, diria que era maluco. Impossível um tipo como ele ser nomeado para um prémio tão institucional. Afinal, Trent Reznor foi durante anos o líder da banda de rock industrial Nine Inch Nails, projecto de proa da música alternativa dos EUA.
Pelos vistos, a realidade superou a mera especulação. Quando há dias recebeu o Globo de Ouro pela banda sonora de "A Rede Social" de David Fincher, Reznor agradeceu, meio atónito, e disse que se encontrava numa situação "surreal".
Agora a pergunta impõe-se: como será se Trent Reznor ganhar o Óscar?
PS - A propósito: não achei a música que Reznor fez para o filme nada de especial.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço 2010 - Os filmes


De referir que ainda não vi certos filmes que, potencialmente, poderiam ser incluídos na lista dos melhores do ano, como "Lola" de Brillante Mendoza, "O Mágico" de Sylvain Chomet, "Eu Sou o Amor" de Luca Guadagnino, "O Segredo dos Teus Olhos" de Juan José Campanelleou ou "Mistérios de Lisboa" de Raúl Ruiz.

1 - "Shutter Island" - Martin Scorsese
2 - "O Laço Branco" - Michael Haneke
3 - "O Escritor Fantasma" - Roman Polanski
4 - "Filme do Desassossego" - João Botelho
5 - "Whatever Works" - Woody Allen
6 - "As Ervas Daninhas" - Alains Resnais
7 - "Fantasia Lusitana" - João Canijo
8 - "Um Homem Singular" - Tom Ford
9 - "Ruínas" - Manuel Mozos
10 - "Polícia Sem Lei" - Werner Herzog
11 - "Toy Story 3"- Lee Unkrich
12 - "A Rede Social" - David Fincher
13 - "The Road" - John Hillcoat
14 - "Buried" - Rodrigo Cortés
15 - "Cela 211" - Daniel Monzón

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A arte de Chris Cunningham


Na história recente da cultura do videoclip (antigamente designado teledisco), há cinco ou seis grandes realizadores que deixaram marca autoral: David Fincher (agora realizador de cinema), os conhecidos Spike Jonze e Michel Gondry, Floria Sigismondi (autora do célebre "The Beautiful People" de Marilyn Manson, entre outros), Jonathan Glazer (realizou em 2004 o interessante "Birth" com Nicole Kidman) e Chris Cunningham.
Este último é, quanto a mim, o maior de todos, ainda que a sua produção seja, porventura, menor em quantidade relativamente aos restantes realizadores.
Realizou spots publicitários (Playstation, por exemplo), videoclips para artistas pop mainstream - Madonna e Björk e para seminais projectos da electrónica experimental - Autechre, Aphex Twin, Squarepusher (da editora Warp Records). Mas para a cultura do audiovisual da década de 90 ficará para sempre essa impressionante obra que é "Come to Daddy" (1997) de Aphex Twin, verdadeiro compêndio simbiótico de negritude estética, cibernética alienada, música libertária, terror alucinatório e imagens em erupção catatónica (considerado um dos melhores videoclips de sempre).
Cunningham aprendeu com o mestre: Stanley Kubrick, com quem trabalhou um ano para o projecto nunca concluído "I.A." (posteriormente realizado por Spielberg).
Em 2005, Cunningham realizou uma espécie de sequela de "Come to Daddy", onde um corpo mutante e disforme (reminiscências das mutações genéticas de David Lynch e David Cronenberg) chamada "Rubber Johnny" dança, de forma aterradora e distorcida, uma polirrítmica música de... Aphex Twin.
Já não é propriamente um videoclip com a estrutura convencional, é antes um formato mais ambicioso, próximo da curta-metragem de ficção. E é outro legado estético insusbtituível da cultura das imagens para a primeira década deste novo milénio.
Last but not least: Chris Cunningham prepara, já há algum tempo, a adaptação para cinema do célebre livro da cultura cibernética "Neuromancer" do guru tecnológico William Gibson. Aguarda-se nada menos do que uma bomba.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Remontar e construir de novo

Na era digital, a manipulação das imagens e dos sons tornou-se banal e acessível a qualquer utilizador de software de edição.
Na internet (sobretudo no YouTube), existem muitos exemplos de manipulações de filmes que têm dois propósitos (digo eu): divertir e subverter a natureza/significado original de uma obra. São exercícios que se confinam a um trailer modificado de filmes famosos, designados "trailer recut", ou remontagem em forma de trailer. E ao fazer um recut faz-se uma reconstrução da história, a qual pode ser bem verosímil para quem não conhecer o original. Assim se prova o poder da montagem no cinema (e no audiovisual, em geral).
Neste post já tinha referido o caso paradigmático do filme de terror "Shining" de Kubrick, transformado numa comédia familiar.
Mas a verdade é que não param de crescer outros exemplos na internet, como estes três magníficos exemplos de subversão do género cinematográfico, fazendo-se valer de algum talento na remontagem de imagens, inserção de legendas, narração em off e música/efeitos sonoros. E se o trabalho ficar bem feito, em menos de dois minutos de trailer, um filme de terror pode adquirir um significado oposto ao original, ou uma comédia musical parecer um terrível filme de terror. É o que acontece ao vermos estes três exemplos de falsos trailers.
Até Mary Poppins parece ser a encarnação do mal; o filme "Seven" torna-se numa comédia familiar de Domingo à tarde da TVI e o trailer do filme "A Lista de Schindler" conta a história romântica de um sedutor mulherengo! Simples e eficaz.
Nota: é importante ouvir a música e a narração em off destes trailers porque constituem elementos-chave que criam a percepção ilusória no espectador (a par da montagem).





quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A (fascinante e terrível) América psicótica


O fascínio que os americanos, no geral, têm pela cultura das armas e pela violência advém das reminiscências do Oeste selvagem. O tema foi explorado por Michael Moore no seu documentário “Bowling for Columbine”, e inúmeros ensaios, livros e estudos, têm tentado explicar o fenómeno (ainda há dias uma notícia dava conta de um plano falhado de um jovem em matar colegas de escola). A América não é o país mais violento do mundo. México, Colômbia ou até o Brasil têm índices mais elevados de violência.
No que os EUA são diferentes são no tópico "homicídios sem motivação aparente", aqueles crimes que espantam a opinião pública com os massacres nas escolas ou outros locais públicos. É quase sempre nos EUA que surgem os casos de violência mais espectaculares e mediáticos.
A América é a terra natural dos serial killers (estatisticamente falando), é a terra dos massacres improváveis, dos crimes mais hediondos, inexplicáveis e intrincados (vide o filme “Zodiac” de David Fincher, ou "Elephant" de Gus Van Sant, ou "Henry - Retrato de um Assassino", ou...), dos assassínios de figuras públicas, etc.
E a obsessão dos americanos pela violência e pelo crime é historicamente fértil. Paralelamente, a investigação forense também exerce um grande fascínio junto do cidadão comum. O estudo da mente de um criminoso (sobretudo da de um serial killer) é matéria vasta para dissertações teóricas e científicas. O lado negro da mente humana emerge como matéria de fascínio e de desconcerto perante a racionalidade das coisas.
Na literatura, no cinema e nas séries de televisão, a criminologia, a morte violenta, e as patologias sociais associadas, são temas extremamente recorrentes e explorados até à saciedade. Os sucessos dos últimos anos no campo das séries televisivas têm forte relação com este panorama – CSI, 24, Dexter, Prison Break, Ossos, Lei e Ordem são apenas alguns exemplos.
Na literatura, basta referir o sucesso de Truman Capote com o livro “A Sangue Frio”, espantoso relato semi-jornalístico, semi-ficcional, de um homicídio brutal na América rural dos anos 50.
Haveria muito mais para mencionar, mas fico-me apenas por mais este exemplo: “American Psycho” (na imagem), livro do escritor da chamada Geração X, Bret Easton Ellis (autor de outro livro de culto - "Menos Que Zero"), perturbante retrato de uma viagem ao abismo na violência mas sádica e desbragada, numa sociedade americana dos anos 80 afogada em yuppies corretores de bolsa e endinheirados consumistas.
O livro foi adaptado para cinema pela realizadora Mary Harron (em 2000), com o actor Christian Bale possuído como um urso em fúria. Bale é Patrick Bateman, durante o dia um cumpridor executivo da bolsa, obcecado pelos bens materiais, usa fatos de alta-costura, cultiva o corpo, é calculista e frio, e frequentador de restaurantes elitistas. À noite, Patrick transforma-se num monstro sanguinário e implacável, assassinando, sem dó nem piedade, almas penadas que vagueiam pelos becos de Nova Iorque. Os bens materiais não o satisfazem, e procura excitação na violência mais alucinada.
A visão ficcionada e aterradora do livro de Bret Easton Ellis recalca a ferida aberta que é a violência desmedida e sem motivação aparente na sociedade actual. Reflecte o mal civilizacional e a deriva de um homem que se tornou reflexo da era do vazio, amoral, libertina. Uma América cada vez mais psicótica. Uma América que gosta de ostentar a bandeira da liberdade, da democracia e das oportunidades, mas que também vive num limbo de sordidez, sombras e violência.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O grande papel de Michael Douglas


O actor Michael Douglas anunciou publicamente que sofre de cancro da faringe e que irá submeter-se a um intenso tratamento para tentar superar este grave problema de saúde.
O filho de Kirk Douglas (que ainda é vivo, tem 93 anos) nunca foi um actor da minha especial predilecção, mas reconheço-lhe talento que provou nalguns filmes. Especialmente nestes quatro filmes: "Wall Street" (1987), "Black Rain" (1989), "The Game" (1997) e "Falling Down" (1993). E é sobretudo neste último título ("Um Dia de Raiva", em português), realizado por Joel Schumacher, que Michael Douglas teve, quanto a mim, a sua superior e definitiva interpretação: a de um yuppie revoltado contra uma sociedade amorfa e sufocante, sem identidade e a caminho do abismo. Sobre este brilhante filme escrevi mais demoradamente aqui.
Neste momento, o grande papel da vida de Michael Douglas é bem real: o do lutador contra a doença.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Internet: fonte para filmes


À falta de ideias mais originais, Hollywood parece agora virar-se para projectos cinematográficos que explorem ferramentas de sucesso da Internet.
O recente "The Social Network" de David Fincher aborda a criação do Facebook. Já era de esperar que a Google também quisesse um filme sobre os seus dois fundadores - Sergey Brin e Larry Page. E é o que vai acontecer brevemente: a história da criação do maior motor de pesquisa do mundo vai ser levada ao grande ecrã.
Agora, por uma questão de elementar justiça, espera-se que surjam no futuro filmes sobre a história do YouTube, Wikipédia, Twitter, Myspace, MSN, Yahoo, Blogger, Imdb, Hi5, Lastfm, Flickr e, porque não, o símbolo da arrob@.
Daria uma boa quantidade de filmes para os próximos anos...

domingo, 20 de junho de 2010

Uma vida normal levada ao extremo


O que acontece quando uma cartomante nos diz: "você não pertence a esta vida." O protagonista deste filme, um vulgar homem de negócios com uma vida entediante, de seu nome Edmond, dá uma resposta possível: chega a casa, diz à mulher que vai sair para não mais voltar. E assim faz. Começa a deambular pelas ruas de Nova Iorque, cheias de tentações e perigos ao virar da esquina. Edmond empreende uma viagem existencial à procura de um sentido de libertação espiritual, à procura de sensações de energia e adrenalina que o façam sentir... vivo. Sexo, crime, violência, desespero, descontrolo emocional - um calvário terreno até à expiação dos pecados finais. Ecoam por esta película uma simbiose de laivos de "Fight Club" ou de "Eyes Wide Shut". É como se Edmond se culpasse por viver uma vida vazia, absorta, ausente. Edmond é interpretado pelo excelente actor William H. Macy. Aliás, todo o filme é suportado pela performance de Macy.
"Edmond"
é um filme que passou completamente ao lado do panorama cinematográfico de Portugal (nem teve estreia nacional), mas vale a pena conhecê-lo em DVD. Fez furor quando, há dois anos, passou pelo festival de Sundance. O realizador Stuart Gordon - conhecido sobretudo pelo truculento filme de terror gore "Re-Animator" (1985) -, faz par com o notável argumentista e realizador David Mamet.
Mamet sabe como ninguém contar uma história, e uma história quase sempre com contornos que desafiam a lógica narrativa habitual, com elementos assaz surrealistas e muito bem engendrados. Nota-se a cada passo que a escrita é de Mamet, nos diálogos, nas situações narrativas criadas, no subtil humor, nas personagens no limite do abismo, nas piscadelas de olho ao espectador. Como exemplo, veja-se este diálogo:
Glenna: You know who I hate?
Edmond: No, who is that?
Glenna: Faggots.
Edmond: Yes, I hate them too. Do you know why?
Glenna: Why?
Edmond: They suck cock. And that's the truest thing you will ever hear.
É isto e muito mais "Edmond".

sábado, 10 de abril de 2010

Finalmente o "biopic" de Kurt Cobain?

A notícia da realização de um filme sobre a vida de Kurt Cobain já não é de agora. Sabia-se que a viúva Courtney Love tinha uma palavra a dizer sobre o assunto. Ao que parece, segundo várias notícias entretanto veiculadas, o "biopic" do líder dos Nirvana vai mesmo acontecer. E como Courtney Love é co-produtora do filme, consta que terá sugerido que o actor Robert Pattinson interprete o papel do ex-marido e Scarlett Johansson de... Courtney Love. Recorde-se que o actor de "Crepúsculo" já deu vida a uma figura real no filme "Little Ashes", interpretando o pintor surrealista Salvador Dali.
E quem vai realizar? Love sugeriu um nome: David Fincher. Veremos no que isto vai dar...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

"O Jogo" real

Recordam-se do magnífico filme "The Game" (1997) de David Fincher, no qual Michael Douglas jogava um jogo perigoso sem o saber, só para sentir a adrenalina e sentir-se vivo? Pois bem, a realidade imitou a ficção, com a criação de uma empresa especializada em oferecer aos clientes corajosos emoções fortes e situações de stress.
A empresa é francesa, chama-se "Ultime Réalité", e promete experiências extravagantes, imprevisíveis e arriscadas, como perseguições, raptos, noites passadas numa morgue, e outros serviços similares. Claro que a segurança, à semelhança do que acontecia no filme de Fincher, é devidamente assegurada. O único problema é o preço: quem quiser usufruir de tão exclusivos serviços/jogos para elevar a adrenalina, terá de desembolsar entre 900 e 7.450 euros.
A minha única dúvida é se David Fincher terá recebido direitos de autor pela ideia...