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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Demasiado

Cada vez mais me convenço disto: 
- Há demasiada produção cinematográfica para cada vez menos amantes de cinema; 
- Há demasiada edição de livros para tão poucos leitores; 
- Há demasiado pouco tempo livre para conhecer tanta produção musical.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O leitor compulsivo

Todos os que gostam de ler e de livros vão adorar este artigo de opinião. É especialmente pensado para os "leitores compulsivos". Em 10 mandamentos, reúnem-se 10 características dos leitores compulsivos. Eu gosto muito de ler, mas não me revi em dois dos mandamentos. Seja como for, para quem ama a leitura há muita verdade neste compêndio de mandamentos. Para ler, abrir aqui.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O conhecimento segundo Kevin


Há quase dois mil anos, a maior biblioteca do mundo - a de Alexandria no antigo Egipto continha num só edifício todos os livros de ciência, arte, matemática, cultura, política produzidos naquele tempo. Ou seja, reunia a totalidade dos conhecimentos da Humanidade. No seu momento alto, a Grande Biblioteca de Alexandria chegou a acumular mais de meio milhão de documentos. Proporcionalmente, a Biblioteca de Alexandria tinha mais livros e documentos do que muitas  das maiores bibliotecas da actualidade. Isto apesar do facto de os conhecimentos humanos serem agora infinitamente mais vastos do que na Antiguidade.

Talvez levado pelo ideal de reunir todo o conhecimento humano produzido até hoje, o co-fundador da revista Wired (importante revista de ciência, cultura e tecnologia), Kevin Kelly, (na imagem) quis saber o volume e dimensão do conhecimento humano. Ou seja, quantificou (se isso é possível), grosso modo, a acumulação de conhecimentos humanos nos diversos formatos e suportes até aos dias de hoje.

Não sei como fez as contas, mas os resultados que apresentou foram estes: ao longo da história da Humanidade os seres humanos publicaram/criaram até à data:

- Trinta e dois milhões de livros.
- Setecentos e cinquenta milhões de artigos e ensaios.
- Vinte e cinco milhões de canções.
- Quinhentos milhões de imagens.
- Quinhentos mil filmes.
- Três milhões de vídeos, programas televisivos e curtas-metragens.
- Cem mil milhões de páginas na internet.

A maior parte desta explosão de conhecimentos e informação aconteceu na última metade do século XX e primeira década do século XXI. Kevin Kelly refere, por último, que o conjunto de conhecimentos humanos tem sido produzido a uma tal alta velocidade e quantidade que esse mesmo conhecimento duplica de cinco em cinco anos. E visto que esta estimativa foi feita há mais de dois anos, é mais do que certo que estes dados estão, e muito, desactualizados. Kevin Kelly é um guru da cibercultura e quando arriscou fazer esta estimativa referia-se ao facto do conceito da Biblioteca de Alexandria poder ser convertida numa colossal biblioteca... virtual.

Isto porque empresas como a Google e algumas da maiores universidades do mundo como Harvard, Oxford ou Stanford, têm um projecto comum de digitalização de livros e documentos, no sentido de criar a maior biblioteca universal de conhecimentos e cultura jamais sonhada. As intenções podem ser boas, mas este projecto hercúleo e de dimensões épicas arrisca-se a nunca ser concluído, dada a torrente colossal de informação produzida diariamente em todo o mundo.

terça-feira, 31 de março de 2015

O que acontecerá?

- O que acontecerá quando deixar de ter prazer em ver um filme clássico?
- O que acontecerá quando deixar de ter prazer em ouvir um disco novo?
- O que acontecerá quando deixar de ter prazer em ler um livro?
- O que acontecerá quando deixar de ter prazer em entrar numa livraria ou biblioteca?
- O que acontecerá quando deixar de ter prazer em partilhar com os amigos os meus prazeres?
- O que acontecerá quando deixar de ter prazer em escrever neste blogue?
- O que acontecerá quando deixar de ter prazer... no prazer?
(...)

sábado, 28 de março de 2015

Uma fotografia cheia de artistas

Houve um tempo em que era possível reunir numa só fotografia grandes génios das artes e da cultura. Sobretudo nas décadas de 1920/30, em Paris, cidade onde se reunia a nata dos artistas de vanguarda (surrealismo futurismo, literatura, artes plásticas e cinema).
Senão, vejamos quem faz parte desta fotografia (datada de 1930).

Em cima: Paul Eluard, Jean Arp, Yves Tanguy e Rene Crevel
Em baixo: Tristan Tzara, Andre Breton, Salvador Dali, Max Ernst e Man Ray.

Ou seja, nesta imagem histórica estão reunidos quase todos os principais artistas de vanguarda da época. Para completar e enriquecer a fotografia só falta o realizador Luis Buñuel, que nesta altura já tinha realizado a curta-metragem surrealista "Un Chien Andalou" (1929) com Salvador Dali e era amigo de quase todos estes visionários.

domingo, 22 de março de 2015

REP de volta

É sempre um regozijo anunciar um novo livro de Rui Eduardo Paes (REP). Aliás, um não, mas sim dois livros num só: "Bestiário Ilustríssimo II" e "Bala". Em 2012 REP lançou o livro "Bestiário Ilustríssimo" de que dei conta neste post. O trabalho desenvolvido ao longo das últimas três décadas deste crítico e teórico da música é insubstituível. Tem sido um trajecto ímpar na divulgação daquelas músicas ditas mais criativas e inovadoras de todos os quadrantes: rock, jazz, improvisação, erudita contemporânea, electro-acústica, electrónica, pós-rock, etc. Aliás, se o caro leitor tiver curiosidade em conhecer que músicas o REP gosta, basta aceder aqui à lista dos 100 discos da sua preferência.

Com esta edição Rui Eduardo Paes conta já oito livros editados nos últimos 15 anos (o nono chegará antes do final do ano), dando sempre destaque às músicas menos convencionais e àquelas que os jornais habitualmente não falam. O seu vastíssimo conhecimento não se limita à história da música (da clássica às múltiplas vanguardas), mas estende-se também à história da arte em geral, ao cinema, e às teorias sociais, culturais e políticas que servem para contextualizar e explicar fenómenos estéticos determinados. REP escreve com fervor emergente de um jovem que retira enorme prazer pela descoberta de um novo disco entusiasmante, de um novo grupo ou músico que merece destaque. O seu enfoque é sempre o de um teórico que disserta sobre a música como expressão artística, seja em que terreno musical for. Daí que possamos ler nos seus livros referências que podem ir da rebuscada cena de música noise japonesa como das últimas tendências da electrónica cut'n'paste ou das jovens promessas do jazz nacional.

Mesmo que não conheçamos um artista que REP aborda (e há fortes probabilidades de tal acontecer), pela forma entusiasta como o ensaísta escreve, somos levados a googlar para ouvir do que se trata. No meu entendimento, há muito poucos jornalistas musicais nacionais que me conseguem provocar este impulso de querer saber, de querer conhecer, de querer ouvir. Mas a qualidade da sua escrita vai para além da mera recensão de um disco ou de um objecto estético. O seu estilo de escrita é por si altamente estimulante, revelando um notável domínio sobre a língua portuguesa que raia as características da boa literatura. Um estilo que Rui Eduardo Paes cultiva como uma arma contra o habitual cinzentismo e comodismo da crítica de arte em Portugal.
  
Por conseguinte, o valor da sua escrita - mais a mais porque é um "cavaleiro solitário" nesta área - é amplamente reconhecido e fruto de um laborioso trabalho de investigação de anos e anos. O livro que agora edita - dedicado à ideia de "tempo" na arte - continua a desafiar categorizações (é uma "anti-enciclopédia") e a reformular a especificidade formal da crítica musical. Destaque para o "Bestiário Ilustríssimo II" com as suas múltiplas, curtas e diversificadas críticas e discos, artistas, instrumentos musicais, bandas e movimentos (como o grande destaque dado ao Stoner Rock). Já o livro siamês "Bala", com as belas ilustrações de David de Campos, serve de complemento ao outro, num formato mais pequeno mas não menos interessante de reflexão sobre as manifestações artísticas mais interessantes do século XX e XXI.

A edição deste livro "dois-em-um" é da Chili Com Carne e pode ser encomendada aqui.




quarta-feira, 18 de março de 2015

A educação do meu gosto - 3

A educação do  meu gosto - Literatura

Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.




Comecei a ler relativamente tarde. Ao contrário do meu gosto pela música que começou bastante cedo (12 anos), a leitura foi um prazer tardio. Lembro-me de ler durante horas banda desenhada – Hugo Pratt, Michel Vaillant, Quino (Mafalda), Lucky Luke, Asterix e super-heróis da Marvel. A leitura de livros sem imagens foi iniciada volta dos meus 17 anos com policiais: Agatha Cristie, George Simenon e Raymond Chandler. O mesmo amigo que me despertou para Tarkovski era um fã de Franz Kafka e passou-me esse entusiasmo: “A Metamorphose” e “O Processo” foram um choque. 

De Kafka passei para os contos de Edgar Allan Poe e Lovecraft, os surrealistas (André Breton, Apollinaire…) e essas obras negras e fascinantes chamadas “Os Cantos de Maldoror” de Lautréamont e "Filosofia na Alcova" do Marquês de Sade. A leitura de "Siddharta" de Herman Hesse aos 19 anos foi toda uma epifania. O mesmo amigo que me gravava as cassetes “Heterodoxos” introduziu-me nas teorias sociais e culturais revolucionárias do Situacionismo com o livro “A Sociedade do Espectáculo” de Guy Debord e nos movimentos de ruptura artística do Dadaísmo, Futurismo, Beat e Fluxus. Desenvolvi um gosto pelos autores "malditos" e fora do mainstream literário. O meu gosto pela leitura foi-se acentuando até ler autores tão díspares quanto Holderlin, Artaud, Proust, Hemingway, Bukowski, Camus, Genet, Michaux, Burroughs, Schopenhauer, Kierkegaard, Stig Dagerman, James Joyce, Albert Cossery, Italo Calvino, Unamuno, Oscar Wilde, Henry Miller, Philip Roth, Conrad, Mishima, Bataille entre dezenas de outros. Não sei bem porquê mas nunca consegui adentrar-me nos russos (Dostoievski, Tolstoi, Tchekov, Gogol...).

Desenvolvi um fervor especial pela leitura de livros de ensaios de música, arte, cinema e livros históricos sobre a 2ª Guerra Mundial, tendo um fascínio especial pela história do Holocausto. Interessei-me pelas (auto)biografias de artistas e por vastos temas relacionados com a cultura digital/cibernética dos nossos dias.

Não sei exactamente em que medida, mas sei que a leitura (e aquilo que li ao longo da minha vida) foi essencial para definir o que (sei) sou hoje.

Imagem: pormenor da minha biblioteca.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A educação do meu gosto - 2

A educação do meu gosto – Música

Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.





É lugar-comum dizer-se que ma adolescência se forma a nossa personalidade e os nossos gostos. Um estudo recente indica que a idade média de influência da música para o resto da vida se situa no período entre os 14 e 18 anos. Não tenho vergonha de dizer que cheguei a comprar singles (singles!) de Madonna ou de Wham! Estávamos em meados dos anos 80 e basicamente ouvia apenas o que a rádio passava. Aos 12 anos comecei a aprender guitarra clássica e esta experiência deu-me bases para gostar de música erudita. Aos 18 entrei para um curso superior de música que me possibilitou contacto com as várias facetas da música contemporânea. Comecei a ouvir música na rádio espanhola que passava muito jazz, world-music e rock alternativo. 

Da mesma forma que me aconteceu com o cinema, amigos mais velhos serviram de farol. Lembro-me uma vez um amigo que me sugeriu ouvir Echo & The Bunnymen, Jesus & Mary Chain, Joy Division, The Fall e Bauhaus (na imagem). Gravou-me cassetes e passei meses a ouvi-las. Tinha a felicidade de ter uma mesada bastante razoável que me possibilitou comprar discos em vinil. Comprava o semanário Blitz religiosamente todas as terças-feiras e ouvia atentamente o programa “Som da Frente” do António Sérgio (Rádio Comercial) à procura de novidades musicais. Cada disco que recebia em casa era uma relíquia guardada a sete chaves. Passei a corresponder-me com largas dezenas de amigos por todo o país que tinham gostos comuns e trocávamos gravações e listas. 

Assim consegui juntar quase mil cassetes áudio com música de todos os géneros. Um amigo (mais uma vez) gravou-me compilações de músicos e bandas muito diferentes a que chamava “Heterodoxos”, onde podia caber Jimi Hendrix e Krafwerk, John Cage e Meredith Monk, John Coltrane e Einstürzende Neubauten. O meu gosto musical expandiu-se exponencialmente para todas as correntes que ousavam desafiar as convenções e procuravam a criatividade e a originalidade. Felizmente que hoje ainda mantenho esta curiosidade militante e este amor pela música.

domingo, 15 de março de 2015

A educação do meu gosto - 1

A educação do meu gosto - Cinema



Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.  

Durante a minha adolescência gostava de filmes do Rambo e filmes de acção em geral. Mas também nessa altura comecei a ver filmes clássicos na televisão (RTP2), épicos históricos, de gangsters e westerns. A televisão espanhola passava aos sábados à tarde grandes filmes clássicos de Hollywood que via com sofreguidão. Um dia, numa noite num bar da minha cidade encontrei-me com um amigo mais velho. Um amigo com uma cultura vasta e de qualidade. Começámos a falar de cinema e fixei para sempre uma frase que me disse: “Tens de conhecer o cinema de Andrei Tarkovski, é um cinema metafísico de grande exigência estética”. Nunca tinha ouvido falar do cineasta russo mas fiquei altamente motivado para tal. Numa época sem internet e poucas enciclopédias disponíveis, lá procurei por esse Tarkovski. Até que um outro amigo, estudante de Comunicação Social, me gravou uma cassete VHS com o filme “Stalker” (na imagem). Vi-o nessa mesma noite e quase não consegui dormir atormentado por tantas interrogações que o filme me suscitou.

A descoberta de Tarkovski foi, certamente, o início da minha formação de gosto pelo bom cinema. A partir daí comecei a ler religiosamente as críticas de cinema nos jornais e revistas, os catálogos da Cinemateca, a procurar todos os livros sobre cinema da biblioteca pública e a conhecer cada vez mais a história do cinema desde as suas origens. Ou seja, o gatilho que me despertou para o cinema de qualidade foi o encontro com esse amigo num bar em finais dos anos 80. 
Obrigado, António.

sábado, 24 de janeiro de 2015

British Pathé na internet

Pathé é uma importante sociedade de cinema de origem francesa. Durante décadas dedicou-se à realização, produção, exibição e arquivo de milhares de filmes e imagens. Existe a congénere inglesa, a British Pathé que possui uma extensa e valiosa colecção de imagens e filmes sobre cultura, moda, história, ciência, viagens, desporto e guerras. A maior parte deste rico e variado património está sob a forma de pequenos clips de vídeos de escassos minutos.

Talvez poucos saibam que o Youtube disponibiliza um canal dedicado em exclusivo à memória audovisual do século XX. Assim, a colecção do arquivo cinematográfico da British Pathé (um impressionante número de 85 mil registos vídeo históricos!) está oficialmente disponível no YouTube. Em alta resolução, os vídeos abrangem os anos de 1896-1976 e tratam não só de episódios da história inglesa mas de todo o mundo.

Entre os destaques do acervo estão as reportagens de eventos como o desastre do Titanic, a primeira e segunda Guerra Mundial, a destruição do dirigível Hindenburg, feitos históricos dos anos 20 ou 30, entrevista a figuras céleres da política e da história, ou esta curiosidade - com 45 anos! - da vitória no concurso de Mr. Universe de... Arnold Schwarzenegger.

Abrir aqui o link com os milhares de vídeos.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Transformar o blogue em livro?



Desde há uns anos a esta parte, o mercado livreiro em Portugal edita uma avalanche de livros sem interesse nenhum: livros escritos, supostamente, por celebridades oriundas dos meandros da televisão e da moda (que escrevem "romances"), de reality shows desprezíveis, do futebol, da gastronomia dita gourmet, do jornalismo sensacionalista, da blogosfera, etc. 

Resultado: todos os dias vemos nos escaparates, em grande destaque, livros inúteis sobre auto-ajuda, sobre como atingir os vários estados de felicidade, sobre astrologia e tarot, sobre viagens de sonho à Gronelândia sem gastar dinheiro, sobre políticos e banqueiros corruptos, sobre temas históricos mais do que explorados, livros de "literatura ultra-light" formatada, fútil e supérflua, livros sobre histórias eróticas (como se fossem novidade literária!), sobre crónicas políticas anteriormente editadas num jornal dito de "referência", sobre a problemática das relações amorosas em tempos de crise, sobre como nos devemos vestir em estilo "trendy", sobre dietas milagrosas, enfim, uma montanha de edições prontas-a-consumir  num tempo de vacuidade cultural como diria o filósofo contemporâneo francês Gilles Lipovetsky. 

E a verdade é que, paradoxalmente, apesar da crise da venda de livros, é cada vez mais fácil a qualquer pessoa com o mínimo de visibilidade mediática (sim, porque esta é uma premissa importante para as editoras) editar um livro sobre a mais improvável temática. Ainda que não tenha interesse nenhum. Dir-me-ão: "Mas há público para comprar estes produtos". Claro que há. Assim como há público para ver programas de puro lixo televisivo. 

Pensando bem, indo ao encontro da tendência do mercado livreiro, eu próprio poderia apanhar a onda e editar um livro com o muito material que já publiquei, ao longo de oito anos, neste blogue O Homem Que Sabia Demasiado. Reunia as publicações que considerava serem as mais interessantes e editava um livro. Mas havia vários problemas para ultrapassar:

Problema número 1: Dificilmente conseguiria reunir um conjunto de textos suficientemente bons para incluir num livro.

Problema número 2: Mesmo que o conseguisse, dificilmente encontraria alguma editora interessada para concretizar a edição.

Problema número 3: Ainda que houvesse alguma editora interessada, o autor deste blogue não é mediático, não aparece na televisão nem tem milhares de page views por dia como o blogue A Pipoca Mais Doce (que já vai no terceiro livro).  

Problema número 4: Mesmo que o livro fosse, deveras, editado, quase de certeza que só o compraria a meia-dúzia de leitores mais fiéis deste blogue, os meus pais e o meu amigo de infância que, mesmo não gostando do cinema de Béla Tarr, diz que aprecia só para me agradar.

E é isto. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Já não há tempo nem paciência


Quando era novo tinha tempo para tudo. Não havia internet nem gadgets electrónicos. Nesse tempo, escrevia e recebia centenas de cartas com pessoas que partilhavam os mesmos interesses que eu: música, cinema e artes. Lia muito e via muitos filmes. E sempre me dediquei aos estudos. Aos 17, 18, 20 anos, ia ao cinema ver tudo: filmes bons, razoáveis e maus (era uma sofreguidão). Só em contacto com experiências artísticas boas e más é que formei o meu gosto cultural. E conversas, muitas conversas de partilha de conhecimento com amigos mais velhos e sabedores. Repito: num tempo sem internet.

Mas agora tenho 45 anos. E sinto que já não tenho tempo, nem paciência, para conhecer objectos culturais e artísticos superficiais que a sociedade de consumo nos impinge diariamente. Só tenho tempo para fruir o que é realmente muito bom. Ou, pelo menos, bom. Estou cada vez mais selectivo no que consumo culturalmente. Isto é, já não perco tempo a ver filmes que sei que, à partida, são fracassos ou medíocres. Nem ler livros que não sejam realmente muito bons. Ou ouvir discos que não me proporcionem prazer, que me surpreendam ou me inquietem o espírito. 

Ou seja, cheguei a uma fase da minha vida que não arrisco perder tempo com coisas fúteis ou até, minimamente, razoáveis. Numa era de avalanche de informação (e não de conhecimento), de uma oferta de livros nunca vista, de semanas de estreias com 10 filmes, de overdose de música na internet, há que saber distinguir a qualidade (cada vez mais escassa) do puro lixo ou do entretenimento disfarçado de cultura.

Tento concentrar-me no que realmente interessa e exijo o melhor: o grande cinema, a grande música, a grande literatura. Perguntam: e qual é o meu entendimento de "grande cinema", "grande música" e "grande literatura"? Bom, se acompanham há algum tempo este blog acho que já terei deixado algumas pistas. Seja como for, serão sempre aquelas manifestações que eu considero verdadeiramente de grande valor artístico e que estimulam o nosso intelecto e mudam a nossa vida (para melhor).

E é só com isto que eu quero concentrar-me para o resto da minha vida. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Portugal: cultura é para o lixo


Este é um inquérito sobre o qual importa reflectir:
"Portugueses são dos que têm menos actividade cultural da Europa. Em termos de frequência na participação em actividades culturais, como ler ou visitar museus, os países nórdicos revelam os melhores resultados: Na Suécia, 43% dos cidadãos descrevem a sua taxa de participação como elevada ou mesmo muito elevada, seguindo-se a Dinamarca (36%) e os Países Baixos (34%).
Portugal é, com Chipre, um dos países do fim da tabela, com apenas 6% da população a registar uma participação elevada ou muito elevada, apenas ultrapassados pela Grécia, onde 5% dos cidadãos diz ter uma actividade cultural frequente. Este Eurobarómetro revela que 49% dos portugueses aponta a falta de interesse como razão para não ler livros, sendo que 35% dos portugueses dizem não ter ido a concertos no último ano por falta de dinheiro."
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Toda a restante (e deprimente notícia) aqui.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

1001



As edições livreiras têm inundado o mercado com livros (melhor: manuais quase bíblicos) sobre o que devemos ouvir, ler, ver, comer, beber e conhecer antes de morrer.
E os editores não fazem a coisa por menos - são sempre 1001 títulos para conhecer, nunca 100 essenciais ou 500. São 1001 e pronto (alguma razão psicanalítica haverá para a escolha deste número).
Em comum, estes livros têm duas obsessões: indicar mais de mil títulos para conhecer e abordar, subliminarmente, a morte.
Ou seja, são sugestões para ler, ver, ouvir, tudo antes de morrer (falta citar os livros "1001 Viagens Antes de Morrer", "1001 Vinhos para Beber Antes de Morrer", entre outros títulos).
O que estes livros propõem é um conjunto de experiências culturais e de vida que extravasam o tempo útil médio de existência de qualquer mortal. Há qualquer coisa de exacerbado no princípio destes livros, e o excesso de sugestões pode revelar-se confuso, contraproducente e frustrante numa sociedade onde se vive demasiado depressa e no meio da super-abundância material.
Na realidade, quantas vidas precisaríamos de ter para conhecer todos os livros, todos os filmes, todos os discos, todas as comidas, todas as bebidas e todos os lugares propostos nesta espécie de enciclopédias-temáticas-para-terráqueo-ler?

A criatividade de Kutiman

Kutiman é o alter-ego de Ophir Kutiel, um músico e artista israelita que ganhou fama por fazer música unicamente a partir de sons retirados de vídeos de músicos amadores do Youtube (como se pode ver e ouvir aqui). 
Depois desta experiência criativa bem sucedida, Kutiman enveredou por projectos mais elaborados, como foi fazer uma espécie de retrato sonoro e visual de determinadas cidades do mundo, como Jerusalém, Cracóvia ou Tóquio.
O trabalho criativo de Kutiman parte de um pressuposto simples mas de execução complexa: neste esplêndido exemplo de Tóquio, Kutiman percorreu a cidade filmando-a sob vários pontos de vista de forma a dar a conhecer as suas intrínsecas características sócio-culturais. Para além disso, pediu a diversos músicos, amadores e profissionais, que tocassem aleatoriamente pequenos trechos musicais representativos da tradição musical japonesa. Kutiman gravou-os para, posteriormente, num processo meticuloso de "corte-e-cola", proceder a um laborioso processo de reciclagem estética fundindo sons, ritmos e melodias.
O resultado pode-se ver e ouvir no vídeo que se segue: mestria e criatividade visual e musical para o século XXI. Não é propriamente um videoclip, uma curta-metragem ou um documentário. "Thru Tokyo" é antes um notável e surpreendente postal ilustrado turístico-cultural do Japão em formato audiovisual.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Do lado de lá



Gostava de conhecer os gostos culturais dos leitores deste blog. Gostava de conhecer, cara a cara, alguns dos leitores mais assíduos.
Gostava de saber o que gostam de ler, ver e ouvir. O que gostam de visitar quando chegam a uma cidade desconhecida. Quais os livros que procuram quando entram numa livraria da qual nada conheciam. Que conversas têm com os amigos acerca do último grande filme que viram. Se têm alguma mania de escrever os seus pensamentos diarísticos: uma frase, um sentimento, uma sensação. Ter um feedback do "lado de lá".
Porque sei que alguns leitores deste blog partilham os mesmos gostos que eu, gostava que um dia pudessem ser meus amigos na "vida real". E partilhar, à mesa de um café, à saída de um cinema ou de uma galeria de arte, as emoções (nem sempre unânimes) que a arte proporciona. Discutir saudavelmente ideias e opiniões sobre um objecto estético com base num gosto partilhado, é das coisas mais belas que se pode pedir a uma amizade (como nos filmes de Woody Allen).
Porém, enquanto O Homem Que Sabia Demasiado definha e se encontra em curva descendente na qualidade (até um dia morrer de morte natural), continuarei a partilhar com os leitores anónimos e "invisíveis" os meus gostos e os meus interesses. Uma partilha quase sempre de sentido único (porque quase nunca há feedback como nas relações pessoais), uma partilha que um dia há-de terminar selando um cinematrográfico "The End". 

domingo, 6 de outubro de 2013

Se pudesse

Se pudesse, passaria o resto da vida a ver filmes.
Se pudesse, passaria o resto da vida a ler livros.
Se pudesse, passaria o resto da vida a escrever.
Se pudesse, passaria o resto da vida a ouvir música.
Se pudesse, passaria o resto da vida a fazer música.
Se pudesse, passaria o resto da vida a ver concertos.
Se pudesse, passaria o resto da vida a assistir a festivais de cinema.
Se pudesse, passaria o resto da vida a viajar, deambulando.
Se pudesse, passaria o resto da vida a meditar.
Se pudesse, passaria o resto da vida a "viver" a vida.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Cinemateca: morte lenta

É uma notícia triste (para o panorama cultural português) mas que se aguardava: a Cinemateca Portuguesa (Lisboa) está em risco de fechar por falta de verbas. Sim, agora não se trata de cortar em material publicitário ou em salários (que já foram feitos). O que está agora em causa é o encerramento de portas. Ponto.
Segundo esta notícia, a Cinemateca, instituição cultural de utilidade pública reconhecida no campo da divulgação e preservação da História do Cinema, corre o sério risco de fechar portas e actividades se em Setembro não tiver um orçamento que possibilite o seu normal funcionamento.
É lamentável que um país deixe chegar a esta situação-limite uma instituição cultural de inestimável valor e grandeza. Mas os sinais dos últimos dois anos têm vindo a prenunciar o desinvestimento progressivo estatal no sector da cultura. 
A ver vamos se o Estado vai conseguir resolver este grave problema... 

sábado, 10 de agosto de 2013

Lisbon Record Shops

João Pedro Almeida é um amante de música e de lojas de discos e vive em Lisboa. Perante a ausência de uma lista estruturada de lojas de discos em Lisboa, resolveu pôr mãos à obra e fazer ele próprio um site com um objectivo muito claro: divulgar as lojas de discos (essencialmente de vinil) existentes na capital tendo como 'target' primordial os turistas estrangeiros. 
João Pedro Almeida deu-lhe o nome de Lisbon Record Shops e revela-se uma preciosa ajuda para os apreciadores e coleccionadores de discos: não só constam os nomes das lojas actualmente em actividade, como as respectivas descrições de cada uma delas, fotografias de cada espaço, localização no mapa da cidade e informações úteis (morada, horários de funcionamento, contactos...).
Estrangeiros ou portugueses, já não há desculpas para desconhecer o que Lisboa oferece no que diz respeito a lojas de discos especializadas.






sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Os filmes de Paris no telemóvel









No mundo tão vasto das chamadas app (aplicações) para telemóveis, nem sempre é possível encontrar boas apps no domínio do cinema. Ora, o canal de televisão francês Arte fez uma parceria com o estúdio Small Bang, especializado em aplicativos para smartphones, e lançou o que, provavelmente, se vai tornar na app mais interessante sobre Paris. 
O nome da app é Cinemacity e está disponível, por enquanto, em francês, inglês e alemão tanto na plataforma iPhone como na Android. O software mapeia diversos locais de vários filmes filmados na capital francesa e ainda sugere passeios temáticos onde o utilizador pode percorrer locais imortalizados por animações e clássicos do cinema. O serviço, inteiramente gratuito, ainda informa o tempo necessário para cada caminhada e dá uma descrição breve sobre a cena que foi filmada em cada local, assim como uma ficha técnica do filme (sem contar com a produção francesa, só Hollywood realizou à volta de 800 filmes em Paris!).
O que pode pedir mais um cinéfilo que visite a Cidade-Luz?
Eis como funciona o Cinemacity: