segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O grande Borgnine


Depois dos Globos de Ouro, Colin Firth e Natalie Portman voltaram hoje a ser consagradas com os prémios do Sindicato de Actores dos Estados Unidos.
Para além deste facto (que se irá repetir, é quase certo, nos próximos Óscares), gostei de ver o prémio de carreira atribuído ao grande e veterano actor Ernest Borgnine. Aos 94 anos, Borgnine encarna uma certa ideia clássica do cinema americano, oriundo de uma geração praticamente desaparecida (Kirk Douglas é um dos últimos veteranos vivos da sua geração). Lembro-me de ver filmes (dramas, comédias, westerns) deste actor em sessões de cinema de sábado à tarde na televisão espanhola, quando era miúdo.
Sempre me impressionou a sua versatilidade e a sua enorme força expressiva.

Kubrick em Paris


domingo, 30 de janeiro de 2011

"127 Horas" - o inferno de um alpinista


O filme "127 Horas", de Danny Boyle, não é assim tão mau quanto certa crítica diz, nem é tão bom como a maior parte dos cinéfilos referem (8.2 de classificação no imdb.com).
Eu não gostei do filme anterior de Danny Boyle, o oscarizado "Slumdog Millionaire". Achei bem mais interessante e conseguido este "127 Horas". Um filme que retrata a história verídica do alpinista Aron Ralston que ficou aprisionado, durante 5 dias, no meio de uma gruta (com o braço direito preso numa rocha). Sem ninguém saber do seu paradeiro, Aron Ralston conseguiu reunir as suas últimas forças e grandes doses de coragem para amputar o próprio braço de forma a escapar da morte certa e lenta.
O filme é equilibrado e, apesar de se saber o desfecho, consegue manter o espectador interessado na evolução do sofrimento de Aron Ralston, interpretado por um convincente James Franco, (nomeado ao Óscar de Melhor Actor). A cena da amputação é intensa e dura de se ver (nos EUA alguns espectadores desmaiaram e outros sofreram náuseas), mas o filme não vale apenas por esse tormentoso momento.
Os flashbacks e as visões de Aron Ralston estão bem construídas e o ritmo narrativo e dramático é consentâneo com a progressão dos factos. A tensão acumulada é extenuante. O verdadeiro Aron Ralston foi consultor do filme, pelo que os mais pequenos pormenores são os mais reais possíveis.
Uma última nota para a notável montagem e para a banda sonora do indiano A.R. Rahman, que acompanha maravilhosamente, sem exagerar (como era em "Slumdog Millionaire"), os diversos momentos dramáticos do filme (sobretudo na cena da auto-mutilação, que o verdadeiro Aron Ralston descreve neste vídeo, com impressionante frieza).
Menos interessante a forma como Boyle filma o deserto, quase como se estivesse a filmar um videoclip para Madonna.
Aron Ralston e James Franco

Discos que mudam uma vida - 131


U2 - "The Unforgettable Fire" (1984)

O cinema experimental em livro


"Film as a Subversive Art" de Amos Vogel.
Um notável livro sobre todas as correntes experimentais, de vanguarda e subversivas da História do Cinema (são mais de 500 filmes recenseados, desde o período mudo até aos anos 80).
O autor do livro, ensaísta e também realizador de filmes experimentais, aborda o cinema como forma de arte interventiva na sociedade, o cinema como expressão de rebelião ideológica, de estéticas libertárias e de exploração formal. É considerada a obra mais emblemática e aprofundada sobre as correntes vanguardistas e e "underground" da Sétima Arte.
Os filmes e cineastas mais ousados, independentes e alternativos estão compilados neste livro (Maya Deren, Kenneth Anger, Jonas Mekas, Stan Brakhage, Jean Genet, Pasolini, etc), devidamente explicados, ilustrados com fotografias e com enquadramentos históricos.
Pode ser encomendado via Amazon (eu comprei-o numa feira do livro).

sábado, 29 de janeiro de 2011

The Young Gods: rock sem guitarras

A mítica banda de culto The Young Gods, inicia hoje uma mini-digressão por Portugal: hoje no Porto, Domingo e Segunda-feira em Lisboa, e Terça-feira na Guarda.

Em 1985, uma revolução musical teve lugar em Genebra, Suíça, perpetrada por um jovem admirador de Jim Morrison (Doors) e dos Swans. Esse jovem, Franz Treichler, foi o mentor de uma das mais visionárias bandas dos últimos 25 anos: The Young Gods. Da pacata Suíça surgia, assim, um vulcão de energia e de insurreição sonora, tão influente para uma geração de músicos e bandas de todo o mundo.
No início de carreira, essa rebelião sonora foi corporizada com o recurso a equipamento rudimentar: magnetofones, dois teclados e um sampler Akai básico. Foi o material suficiente para incendiar as primeiras actuações ao vivo dos The Young Gods, ainda detentores de uma sonoridade agreste e com as performances carismáticas do vocalista e líder (que cantava, com a mesma fluência, em três línguas diferentes: inglês, alemão e francês). A Inglaterra, país atento aos novos valores, reparou na originalidade do trio suíço (uma banda de guitarras sem… guitarras!), pelo que não tardou que a editora independente Wax Trax! editasse, em 1987, o primeiro álbum de originais da banda. A imprensa depressa rotulou os The Young Gods como pioneiros do rock industrial, uma classificação acertada, uma vez que recorriam a pesados riffs de guitarra samplados, voz cavernosa e ritmos marcantes.
O jornal inglês Melody Maker descrevia a música do grupo como sendo o “rock mais incendiário do momento, capaz de criar um novo horizonte musical”. E estava tudo dito. O primeiro álbum, “The Young Gods” foi, por isso, uma fulgurante estreia que lançou sólidas sementes para uma brilhante carreira de 25 anos.
Apenas dois anos depois, em 1989, os The Young Gods subiam a parada com a obra-prima “L’Eau Rouge”, lançado por uma editora mais respeitada, Play It Again Sam. Neste disco, o trio de Franz Treichler, depurou a sua música, com uma mistura cirúrgica de orquestrações clássicas com guitarras noisy e ritmos industriais. Foi a rampa de lançamento da banda, não só na Europa como, sobretudo nos EUA, país pelo qual começaram a fazer várias digressões de sucesso.
Duas bandas seminais do rock alternativo norte-americano, Ministry e Nine Inch Nails, assumiram desde a primeira hora, a influência directa da música dos Young Gods. Porém, nada fazia prever que, ao terceiro álbum, os The Young Gods voltassem a surpreender com um álbum tremendamente original. Em 1991 o grupo lançou o álbum “Play Kurt Weill”, extraordinário e sofisticado disco de versões do célebre compositor alemão Kurt Weill, que Al Comet (teclista do grupo) considerou o “pai de toda a música pop”.
As grandes canções de Weill, como “Alabama Song” (cantada em tempos por Jim Morrison), “September Song”, “Mackie Messer” ou “Speak Low”, foram magistralmente recriadas pela banda suíça, com arranjos superlativos que misturaram a fidelidade à tradição e a vontade de inovação estética. Apesar da sonoridade alternativa e fora dos domínios do mainstream, os The Young Gods estavam, cada vez mais, a afirmar-se junto de novos públicos.
O empurrão para tal foi conseguido com o disco “T.V. Sky” (1993), totalmente cantado em inglês e que continha alguns dos maiores êxitos da banda: “Gasoline Man”, “Skinflowers” e “T.V. Sky”. Os anos 90 seriam ainda relevantes para a carreira dos suíços, uma vez que o álbum “Only Heaven” (1995) seria marcante para a carreira do grupo.
Após um silêncio de cinco anos, os The Young Gods regressaram em força na primeira década de 2000, com uma sonoridade mais electrónica, ambiental e menos visceral: os álbuns “Second Nature” (2000), “Music for Artificial Clouds” (2004) e “XXY” (editado em 2005 para celebrar 20 anos de carreira) e “Super Ready/Fragmenté” (2007) constituíram discos que proporcionaram uma grande diversidade de fãs.
Em 2008, o trio de Franz Treichler, sempre conotado com a música digital e electrónica, explorou um registo nunca anteriormente abordado: o acústico. Partiram para uma digressão de sucesso (que passou por Portugal) totalmente acústica, apresentando as grandes canções que marcaram 25 anos de actividade intensa. Entretanto, no final de 2010, Os The Young Gods lançaram um novo álbum, intitulado “Everybody Knows”, que regista uma nova etapa na criatividade do grupo, conseguindo regenerar a sua sonoridade, mais electrónica, mais contida, mas sempre com indesmentível energia e rasgo criativo.
Portugal será, por estes dias, um palco privilegiado para a apresentação do novo álbum (assim como alguns grandes êxitos mais antigos). Um palco que, certamente, será um lugar de total celebração musical. E pegando numa expressão de um jornalista inglês proferida há muitos anos, o concerto desta banda mítica será um momento de puro e contagiante “Unforgettable Fire” (por sua vez, uma expressão extraída de uma música dos U2). E não se pode pedir mais nada, portanto.
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Texto de Victor Afonso
Publicado no BIS (Boletim do TMG) na edição relativa aos meses de Janeiro, Fevereiro e Março 2011.
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"Miles Away" - do novo álbum "Everybody knows"

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #7

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GaGa. Sangue. Esperma. E Vacuidade.


Ao longo de décadas de cultura popular houve muitos artistas excêntricos. Artistas que cultivaram a excentricidade nas suas mais diversas manifestações (visuais, musicais, verbais...). Frank Zappa foi um deles. Um músico (genialmente) excêntrico e visionário.
A excentricidade em Zappa funcionava como uma espécie de complemento aos seus desvarios musicais. Não era, por assim, dizer, a marca que mais o caracterizava, uma vez que a originalidade estética estava acima de todas as prioridades.
A alegada excentricidade das figuras pop dos últimos 20 anos (começando em Madonna), rege-se por outros princpíos, mais fugazes e pueris: é a excentricidade pela excentricidade, entendida como fogo fátuo sensacionalista e veículo publicitário para alimentar páginas de jornais, para cultivar uma pseudo-imagem de culto, para chocar a opinião pública sem rumo ou sentido algum. É a excentricidade do vazio, sem substância, da imagem e do marketing, da cultura bacoca envolta numa ideia de consumo imediato para encher revistas do social. A música, essa, convém que seja banal e inconsequente, porque nem todos conseguem aliar a inovação estética com a excentricidade visual.
Lady GaGa insere-se, perfeitamente, neste conceito. Não é por acaso que a Universidade da Carolina do Sul criou uma nova cadeira de sociologia para estudar o "fenómeno" Lady GaGa. A jovem artista, sedenta de protagonismo e holofotes sobre si própria, continua a dar que falar depois de ter dito que "que manter a virgindade porque assim assegura a sua criatividade" ou pela célebre aparição com "roupa de carne" na cerimónia dos MTV Video Music Awards.
Lady GaGa não perdeu pela demora em criar mais um "facto excêntrico", ao anunciar que vai lançar um perfume com uma fragrância à medida da "originalidade" da artista pop: com cheiro a sangue e a esperma. A minha teoria é a de que GaGa viu o filme "Anticristo" e ficou obcecada pela cena em que Williem Dafoe ejacula, não esperma, mas sangue (Freud teria, por certo, uma explicação pela opção por estes fluidos corporais em particular).
Já se especula qual será a próxima proposta "excêntrica" de Lady GaGa: exumar o cadáver de Béla Lugosi para dormir com ele? Criar um vaporizador para a casa com cheiro a larvas mortas, urina de porco chinês e umas quantas gotas de champanhe Moët & Chandon? Aparecer em palco enquanto é depilada na zona genital por um anão? Anunciar ao mundo que vai casar com um eunuco e defender a zoofilia? Fazer uma música pop com os sons dos orgasmos da actriz porno Sasha Grey? Tudo é possível. E tudo é garantido: seja o que for que GaGa venha novamente a fazer, dizer ou até cantar, é seguro que a vacuidade de ideias e de propostas se vai manter. O culto da imagem fútil vai manter-se (ou seja, o superficial invólucro que a sustenta), e a excentricidade vai continuar a ser inversamente proporcional à visão artística e à música da cantora.
Ao contrário de Franz Zappa, portanto.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"Up" - os primeiros 5 minutos


No programa de rádio da Antena 3, "Prova Oral", ouvi durante alguns minutos um debate sobre cinema. A páginas tantas, o Fernando Alvim perguntou aos convidados se alguma vez tinham chorado num filme. Foram referidos vários títulos mais ou menos habituais e consensuais sobre este tema, mas houve um que me reavivou a memória. Alguém disse que, ao fim dos primeiros 5 minutos de "Up - Altamente", já chorava baba e ranho.
É curioso que, quando vi o filme na sala de cinema (escrevi sobre ele aqui), fiquei deveras impressionado (e emocionado) com o início fulgurante do filme, tanto mais por se tratar de um filme de animação. E lembro-me de ter ficado com os olhos húmidos no final destes prodigiosos 4 minutos de cinema. Agora revi a sequência e comprovei a mesma sensação. Na internet existem dezenas de relatos de espectadores que também sentiram um nó na garganta com a primeira sequência de "Up".
Num curto espaço de tempo, sem diálogos ou legendas, a Pixar conta uma simples e fascinante história de amor - entre Ellie e Carl - com todos os ingredientes, positivos e negativos, da vida de um casal: o enamoramento, a casa, o trabalho, os sonhos (não) realizados, a vida a dois, a infertilidade do casal, a morte, o sentido da vida e a solidão. Ou seja, resume em poucos minutos temas sérios que certas longas-metragens de acção real não conseguem concretizar.
Espantoso momento narrativo, maravilhosa montagem e imagens ternuerentas e de pura magia, na melhor tradição do cinema clássico, e que comprova o estatuto do cinema de animação como verdadeira arte cinematográfica.
Vale a pena rever a dita sequência.

Playtime #43


A solução: "Stranger Than Paradise" (1984) - Jim Jarmusch
Quem descobriu: Jack

Perpetuar a Memória do Holocausto

Hoje assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
66 anos depois da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, eis um relato impressionante (é apenas um extracto) de um sobrevivente (ainda vivo).
Para que Humanidande nunca esqueça.

(Desenho de David Olère, 1945)
Excertos do livro "Sonderkommando":
Béatrice Prasquier (jornalista) - O que acontecia, nos fornos crematórios de Auschwitz, às cinzas depois de os corpos serem queimados?
Shlomo Venezia (sobrevivente de Auschwitz)- As cinzas deviam ser eliminadas para não deixar nenhum vestígio. Na verdade, quer nos fornos quer nas valas comuns alguns ossos, como os da bacia, queimavam mal. Era por isso que os ossos mais largos deviam ser retirados e esmigalhados separadamente, antes de serem misturados com as cinzas. Estas, uma vez trituradas, eram transportadas numa pequena carroça. Um camião vinha recolhê-las regularmente para que fossem deitadas ao rio. Cheguei a substituir um dos homens responsáveis por triturarem as cinzas. Isso permitia-me apanhar um pouco de ar e sair da atmosfera sufocante e fétida do Crematório.

Béatrice Prasquier - O que via e o que é que acontecia quando os deportados chegavam às câmaras de gás?
Shlomo Venezia - A morte das pessoas que iam para a câmara de gás era tudo menos uma morte pacífica. É de tal modo violento e triste que tenho dificuldade em falar destas visões da câmara de gás. Podíamos encontrar pessoas com olhos saídos das órbitas devido ao esforço feito pelo organismo. Outras com sangue por todo o lado ou sujas pelos seus próprios excrementos. Todas pessoas agonizavam e sofriam terrivelmente na câmara. Não se pense que o gás era lançado e morriam automaticamente. Era um processo que podia demorar mais de dez minutos, nos quais as pessoas procuravam desesperadamente um pouco de ar - homens, mulheres e crianças. Um processo de carnificina de tipo industrial que matou milhões de pessoas. Na minha opinião, não posso garantir, mas penso que muitas pessoas morriam mesmo antes de o gás ser lançado. Estavam de tal modo apertadas umas contra as outras e em pânico, que os mais pequenos, os mais débeis, sufocavam.

A imagem que víamos ao abrir a porta depois da chacina era atroz, não dá para imaginar o que aquilo era. Pensávamos que era impossível alguém sobreviver ao gás mortífero, mas um dia, ao abrir a porta da câmara, encontrámos um bebé vivo! Sobreviveu porque estava a agarrado ao peito da mãe no momento do lançamento do gás, e o efeito de sucção permitiu-lhe não inalar o veneno. Não é preciso dizer que um oficial SS, assim que viu o bebé a chorar, sacou da pistola e matou-o, a sangue frio, com um tiro na nuca. Nos primeiros dias, apesar da fome que me atormentava, tinha dificuldade em tocar no bocado de pão que recebíamos. O odor persistia nas mãos, sentia-me sujo com a morte. Com o tempo, tive de me habituar a tudo, como instinto de sobrevivência. Tornei-me num autómato sem capacidade de raciocinar.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A colaboração improvável


"A primeira colaboração improvável", noticia o Ípsilon e com total razão: Dan Deacon foi convidado por Francis Ford Coppola para compor a banda sonora do seu próximo filme, "Twixt Now and Sunrise".
Como raio foi Coppola lembrar-se deste alucinado compositor de electrónica?
Dan Deacon, um americano típico, de aspecto gordinho, semi-calvo, barba, óculos à "nerd", que estudou num conservatório de música, tirou cursos de composição e mandou os diplomas às malvas. Também não cultiva aquela imagem petulante de artista intelectual. Mas a verdade é que Dan Deacon faz alguma da música electrónica mais interessante, rica e divertida (porque a música pode ter este atributo) da actualidade.
"Spiderman of the Rings" (2007) "Bromst" (2008) são os seus dois últimos e notáveis álbuns: electrónica caleidoscópica em estado catatónico.
Dan Deacon ganhou já diversos prémios artísticos e de "solo performance", actua em prestigiados centros de arte, mas isso nem é o mais importante. O importante é que este músico faz música como se fosse uma criança de 6 anos a descobrir, fascinada, instrumentos de brincar: de forma eminentemente lúdica - mas visto ser um adulto, sem perder a seriedade estética - à maneira de um Felix Kubin.
Depois, há outra característica desconcertante em Deacon: as suas actuações ao vivo. Ao invés de actuar num palco separado da assistência, faz exactamente o contrário: o público rodeia o músico à volta da mesa repleta de parafernália electrónica (samplers, teclados, fios, microfones, computador, mesa de mistura...). A fruição musical faz-se muito mais espontaneamente e de forma muito mais directa e intensa (literalmente aos empurrões).
Esta ligação quase umbilical entre músico e assistência provoca uma loucura sadia (à boa maneira do espírito de comunhão libertado da energia rock de uns Lightning Bolt) e o ambiente do concerto apodera-se de uma loucura contagiante.
Como será, então, a colaboração entre este músico tão particular com o cinema actualmente "minimalista" (palavras do realizador) de Coppola?
Esperemos para ver (e ouvir).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Óscar para Trent Reznor?


Se um dia alguém me dissesse que Trent Reznor estaria nomeado para um Óscar, diria que era maluco. Impossível um tipo como ele ser nomeado para um prémio tão institucional. Afinal, Trent Reznor foi durante anos o líder da banda de rock industrial Nine Inch Nails, projecto de proa da música alternativa dos EUA.
Pelos vistos, a realidade superou a mera especulação. Quando há dias recebeu o Globo de Ouro pela banda sonora de "A Rede Social" de David Fincher, Reznor agradeceu, meio atónito, e disse que se encontrava numa situação "surreal".
Agora a pergunta impõe-se: como será se Trent Reznor ganhar o Óscar?
PS - A propósito: não achei a música que Reznor fez para o filme nada de especial.

Tom Waits e Corbijn


A revista BLITZ informa: "Tom Waits: 2011 poderá ser dele. Homenagem, livro de Corbijn e talvez disco a caminho."
Livro de Anton Corbijn sobre Tom Waits? E porque não, já agora, filme de Corbijn sobre Tom Waits? Isso é que era!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LUME - Big Band do século XXI


Há fenómenos que não compreendo: um dos mais originais discos de música portuguesa editados (no final) de 2010 praticamente passou despercebido na imprensa: LUME - Lisbon Underground Music Ensemble, liderado pelo compositor, director de orquestra, pianista e manipulador de electrónica Marco Barroso.
Há pelo menos dois anos que esta singular orquestra de jazz (com 15 músicos oriundos de várias experiências) andava a dar nas vistas com concertos em sítios muito específicos. Agora, com o primeiro disco de estreia, o LUME impõe-se como uma big band de jazz do século XXI. Uma big band que mistura, num caldeirão explosivo, o jazz de Duke Ellington, Albert Ayler, John Zorn, o rock tresmalhado de Frank Zappa, Residents, Mr. Bungle, Tortoise, a electroacústica experimental de Charles Ives e Ligeti, a música para cinema de Ennio Morricone ou Henry Mancini e a música erudita contemporânea de Stravinsky ou Messiaen. A tudo isto há ainda a juntar a electrónica com utilização de samples de filmes e excertos de músicas rock.
O resultado musical é um fervilhar impressionante de ideias por segundo, num ritmo swing trepidante (a fazer lembrar, por vezes, Naked City de Zorn) conduzido por uma excepcional secção de sopros. Lá fora há algumas orquestras de jazz que pisam território estético semelhante ao LUME (como a Viena Art Orchestra ou os Flat Earth Society) mas eu arrisco afirmar, sem pudor, que a música de Marco Barroso é muito mais criativa e desafiadora. Esta orquestra, prova, igualmente, a grande qualidade técnica dos instrumentistas portugueses que em nada ficam a dever às grandes referências internacionais.
O crítico de música e ensaísta Rui Eduardo Paes refere que estamos perante um "disco pós-moderno". Isto porque rompe fronteiras estilísticas, subverte linguagens e mistura, com elevado bom gosto, estéticas aparentemente antagónicas, resultando num todo orgânico. Um projecto de uma riqueza musical rara no nosso país. Desejo ardentemente que o trabalho do LUME seja reconhecido em Portugal e, também, no estrangeiro.

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #6

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domingo, 23 de janeiro de 2011

Playtime #42


A solução: "Deliverance" (1972) - John Boorman
Quem descobriu: Dezito (André Sousa)

O poder do cinema

Este sábado assisti ao verdadeiro poder do cinema: uma sessão no Pequeno Auditório do Teatro Municipal da Guarda onde se exibia o filme "O Circo" (1928) de Charles Chaplin. A assistência, constituída por perto de 100 pessoas, entre crianças pequenas, adolescentes, jovens e idosos, todas as faixas etárias misturadas a deliciarem-se (gargalhadas do princípio ao fim) perante um filme com 83 anos de idade, mudo e a preto e branco (factores que ainda incomodam muita gente).
Foi a prova de que as verdadeiras obras-primas imortais do cinema (neste caso de Chaplin), independentemente da idade ou das suas inerentes caraterísticas, continuam a fascinar gerações atrás de gerações.
É isto a magia e o poder do cinema.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O cinema e o filão da internet


David Fincher realizou o filme "A Rede Social" sobre o Facebook e tem havido rumores da possibilidade de surgirem outros filmes sobre a internet e a tecnologia. É provável que, com a actual crise de inspiração na indústria cinematográfica de Hollywood, se explorem novos filões que sigam o êxito do filme de Fincher.
Depois da febre dos remakes e das sequelas, os filmes sobre conteúdos, redes sociais e programas da internet poderão ser o próximo passo a explorar por produtores e realizadores. Com o exemplo de sucesso demonstrado por David Fincher, é inevitável fazer um exercício retórico sobre outros possíveis exemplos.
Do tipo:
- David Cronenberg realizar um filme sobre o Twitter
- Anton Corbijn realizar um filme sobre o Myspace
- Michael Haneke realizar um filme sobre o Blogger
- Lars Von Trier realizar um filme sobre o o Messenger
- Woody Allen realizar um filme sobre o Hi5
- Alejandro González Iñárritu realizar um filme sobre o WikiLeaks
- Pedro Almodóvar realizar um filme sobre o YouTube
- Spike Lee realizar um filme sobre o i-Tunes
- Clint Eastwood realizar um filme sobre o Flickr
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Passe um certo absurdo e ironia destas sugestões, a verdade é que não é assim tão descartável a ideia deste tipo de filme surgirem em catadupa nos próximos tempos.
Adenda: depois de publicar este post li esta notícia que confirma a realização de uma biografia em filme do autor do WikiLeaks, Julian Assange!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Discos que mudam uma vida - 130


David Bowie - "The Rise And Fall of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" (1972)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O olhar fotográfico de Kieslowski


Viviam-se os anos de todas as revoluções: anos 60. Um jovem polaco amante de fotografia e cinema, chamado Krzysztof Kieslowski, vivia na terceira maior cidade da Polónia, Lódz, uma lúgubre e industrial cidade.
Foi nesta cidade que, aos vinte anos, o aspirante a realizador fez os seus primeiros trabalhos fotográficos. As imagens captadas são da cidade e dos seus habitantes, em situações de lazer ou de trabalho. Imagens do quotidiano de uma cidade do leste europeu. Crianças sorridentes, velhos com cara cansada, prédios novos e prédios antigos. No fundo, a captação da realidade daqueles tempos, feita sob a objectiva de Kieslowski.
Krzysztof Kieslowski viria a ser, anos mais tarde, um dos mais notáveis realizadores polacos de sempre, tendo obtido larga aceitação crítica mundial por todos os festivais de cinema por onde passou (assim como tantos outros prémios).
Um cineasta de autor, de grande exigência estética, que cultivou uma linguagem formal rígida, existencialista e metafísica.
Os seus filmes maiores são os dez filmes que constituem "O Decálogo" (1988), "A Dupla Vida de Véronique" (1990) e "Trilogia das Cores" (1993/94), soberba trilogia sobre as três cores da bandeira francesa.
Kieslowski faleceu precocemente, em 1996, com 54 anos.
As fotografias que se seguem, tiradas em Lódz em 1965, fazem parte do seu espólio fotográfico:


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um Woody Allen menor


Woody Allen não falha: lança nas salas de cinema um novo filme por ano. Esta semana estreia por cá "You Will Meet a Tall Dark Stranger" (com o piroso título português "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos").
Já vi e... desilusão. Ao contrário do excelente anterior filme (comentado aqui), "Whatever Works", esta nova obra de Allen resume-se a um amontoado de auto-citações com um argumento estafado e previsível. Ou seja, "já vi" este filme em filmes anteriores do cineasta de Nova Iorque. É este o principal problema criativo de Woody Allen: a repetição dos mesmos ingredientes nos seus filmes. Regressa à comédia existencial com toques dramáticos, à volta de traições e amores perdidos entre homens e mulheres de distintas gerações. E nem o leque de actores salva o filme: Anthony Hopkins é mais um alter-ego de Woody Allen-enquanto-actor, revelando todos os tiques nervosos e irrequietos que identificam o cineasta.
Eu gosto muito, mesmo muito, da obra de Woody Allen (e percebe-se pela quantidade de posts que já dediquei a este realizador). Só que Allen não pode, nem consegue, fazer um bom (ou muito bom) filme com a exigente regularidade anual.
Na última década, a meu ver, Allen só fez dois ou três grandes, grandes, filmes. "Match Point" (2005), "O Sonho de Cassandra" (2007) e "Tudo Pode Dar Certo" (2009).
Creio que Woody Allen só conseguiria dar um golpe de rins artístico na sua carreira se conseguisse fazer um filme tão original como "Zelig", "Crimes e Escapadelas" ou "A Rosa Púrpura do Cairo", (algumas das) obras-primas da sua carreira.
Porém, tudo indica que vai continuar no seu registo habitual que já provoca cansaço até nos fãs mais empedernidos. Pena...

O jazz e a literatura


Em Portugal, que eu tenha conhecimento, há apenas um livro que versa sobre a relação entre literatura e jazz. É um livrinho editado pela Campo das Letras, há uns anos, da autoria de Miguel Martins. Lá fora há vários títulos, mas destaco este: "Ask me Now" de Sascha Feinstein, procura estabelecer pontes de ligação (e há muitas!) entre os músicos de jazz e a criação literária.
O jazz era a música de eleição da Beat Generation (Kerouac, Burroughs, Ginsberg), que servia de espécie de "carburante energético" para os davaneios criativos destes escritores.
Para além desta associação, muitos outros escritores mantiveram fortes ligações com o jazz: Boris Vian (que também foi músico), Malcolm Lowry, Georges Simenon, Milan Kundera (foi baterista de jazz!), Sam Shepard, Henry Miller, Julio Cortazár, ou os portugueses António Ferro, Carlos Oliveira ou Jorge de Sena.

O carburante

"O que incita as pessoas a erguerem o punho, a pegarem numa espingarda, a defenderem juntas causas justas ou injustas, não é a razão, mas a alma hipertrofiada. É este o carburante sem o qual o motor da História não poderia funcionar e à falta do qual a Europa teria ficado deitada na relva, a olhar preguiçosamente as nuvens que pairam no céu."
Milan Kundera, in "A Imortalidade"

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Christian Bale


Não acompanhei a entrega dos Globos de Ouro, mas do palmarés final gostei especialmente do Globo atribuído ao actor Christian Bale (pelo filme "The Fighter").
Era hora do imenso talento de Bale ser reconhecido. Não só pela sua incrível capacidade de moldar o seu próprio corpo conforme as necessidades do papel (engorda ou emagrece desmesuradamente), mas sobretudo pelas suas inegáveis qualidades de actor que, tenho a certeza, são herdadas do grande Robert De Niro (por sua vez, laureado com o prémio de carreira Cecib B. DeMille). De resto, não é por acaso que Christian Bale agradeceu, no final do seu discurso, ao actor de "Taxi Driver".

Buñuel na memória

"Último Guión - Buñuel en la Memoria" é o título de um documentário que estreou há dois anos em salas europeias (que eu saiba, em Portugal ainda não estreou) da dupla Gaizka Urresti y Javier Espada (director da Fundación Buñuel de Calanda) sobre a vida e obra do realizador espanhol Luís Buñuel.
O documentário baseia-se em conversas entre o filho do realizador, Juan Luis Buñuel, e o premiado argumentista Jean-Claude Carrière, autor de alguns dos melhores e mais irreverentes argumentos dos filmes de Buñuel, como os imprescindíveis "Este Obscuro Objecto de Desejo" (1977), "O Fantasma da Liberdade" (1974), "O Charme Discreto da Burguesia" (1972) e "A Via Láctea" (1969).
O filme revisita os locais onde o cineasta espanhol viveu e trabalhou (EUA, México, França e Espanha) ao mesmo tempo que se descrevem os epísódios mais interessantes da vida excêntrica de Luís Buñuel.
O trailer é delicioso (sobretudo para quem conhece a vida e obra de Buñuel):

domingo, 16 de janeiro de 2011

Playtime #41

A solução: "Vera Drake" (2005) - Mike Leigh
Quem descobriu: Sam

O último e esquecido filme de Buster Keaton


O génio de Buster Keaton decaiu depois da obra-prima "The General" (1925), na imagem. Ao contrário de Charlie Chaplin, Keaton - o tal actor que "nunca ria" - não resistiu ao cinema sonoro e afundou-se no alcoolismo e em filmes menores durante anos a fio.
Ironia das ironias, o seu último grande filme consistiu num duplo regresso: por um lado, o regresso ao imaginário dos comboios que o celebrizou em "The General", por outro, o regresso à linguagem do cinema... mudo.
Refiro-me à curta-metragem "The Railrodder" (1965), realizada um ano antes da morte de Buster Keaton. Esta comédia, com 25 minutos de duração, foi rodada no apogeu da redescoberta da obra de Keaton, para muitos, um actor e realizador maior que Chaplin (afirmação sempre arriscada e controversa).
Keaton tivera uns anos antes uma má experiência no filme "Film", em que contracenava com o célebre escritor Samuel Beckett. Com "The Railrodder", a experiência foi bastante mais proveitosa e positiva, uma vez que representou o regresso de Keaton ao seu universo cómico muito pessoal.
Buster Keaton aceitou o convite do realizador canadiano Gerald Potterton para, em seis semanas, rodar um filme com uma história simples: Keaton faz o papel de um londrino que deseja visitar o Canadá. Chegado ao Canadá a nado (!), Keaton encontra uma dresina amarela (pequena locomotiva a motor utilizada para puxar comboios na linha férrea) e com ela percorre milhares de quilómetros atravessando o Canadá de lés a lés .

A locomotiva está equipada com uma caixa mágica que fornece ao passageiro tudo o que é necessário no quotidiano para que possa comer, dormir, lavar-se, aquecer-se, tomar chá, lavar a roupa, caçar, tudo isto enquanto a vagonete rola pelos carris muitas vezes perigosos. Uma viagem na qual não faltam as peripécias mais rocambolescas típicas do humor burlesco dos anos 20 do século passado.
"The Railrodder" é, pois, um prodigioso exercício de comédia minimalista na esteira dos seus melhores filmes mudos. Sem diálogos, um veículo rolante e um Buster Keaton magnífico que recupera, orgulhosamente, os trejeitos interpretativos que o tornaram famoso muitas décadas antes. Vale a pena descobrir este, para todos os efeitos, "road movie".
Existe uma belíssima edição portuguesa (agora está barata), em duplo DVD, do filme "The General" - "Pamplinas Maquinista" que contém, como extra o filme "The Railrodder" - aqui.
Seja como for, aqui está o filme integral:

sábado, 15 de janeiro de 2011

O suicídio em "Caché"

O filme "Caché" (2005) do realizador austríaco Michael Haneke é um notável exercício sobre o efeito que as imagens (por mais banais) produzem na consciência humana, capazes de despoletar as mais inesperadas e terríveis consequências.
Como quase todos os filmes de Haneke, "Caché" tem também sequências perturbadoras. Como esta cena de suicídio: sura e seca. Como habitualmente, Haneke recorre ao plano fixo (geralmente longo) para captar o momento. E Haneke cultiva um particular gosto em chocar o espectador com situações dramáticas inesperadas, deixando-o desarmado perante a violência e o horror.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Música substitui cocaína?


"Ouvir boa música desperta no ser humano sensações de euforia e adrenalina, equivalentes ao consumo de cocaína. O estudo desenvolvido pela Universidade de Montreal, no Canadá, defende que ouvir boa música solta no cérebro uma substância chamada dopamina (associada à sensação de bem-estar e de prazer), que tem como função estimular os sistema nervoso central".
(in revista Sábado).
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Primeira pergunta: quais os critérios para definir e identificar "boa música"?
Segunda pergunta: será que os toxicodependentes de cocaína irão passar a substituir esta substância de consumo ilegal por música?
Terceira pergunta: por associação, ouvir "má música" (seja o que se entenda por tal), pode, proporcionalmente, provocar sensações negativas e depressivas no sistema nervoso central?
Quarta pergunta: o Oliver Sacks já foi ouvido sobre este assunto?

Spam

Não sabia e fiquei hoje a saber pela revista Sábado: a origem do termo "spam" relativo à informação considerada lixo na Internet, faz alusão directa ao célebre sketch dos Monty Python com o mesmo nome. E faz sentido.
Basta rever este clássico dos humoristas ingleses para perceber isso mesmo:

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os filmes são como nós somos


"O cinema é muito como a música. Pode ser muito abstracto, mas as pessoas anseiam por lhe dar um sentido intelectual, de o passar logo para palavras. E, quando não o conseguem fazer, é frustrante. Mas conseguem encontrar uma explicação desde o interior, se o permitirem. Um filme deve valer por si próprio.
As pessoas, por vezes, dizem que têm dificuldade em compreender um filme meu mas eu creio que compreendem muito mais do que têm consciência. Porque somos todos abençoados com a intuição, temos realmente o dom de intuirmos coisas. Gosto do ditado - 'O mundo é como tu és'. E acho que os filmes são como nós somos".
David Lynch, in "Em Busca do Grande Peixe"

Dois cartazes

São dois filmes que vão estrear brevemente em Portugal. Dois filmes de realizadores de gerações e formações bem diferentes (cada um no seu território de exploração cinematográfica): Darren Aronofsky e Jean-Luc Godard.
Ainda não vi nenhum destes filmes, por isso aproveito apenas para comentar os respectivos cartazes. Cada um à sua maneira, são dois notáveis cartazes: “Black Swan” pela inegável qualidade plástica da imagem, pelo olhar doce de Natalie Portman e pela inquetante cratera no seu rosto; “Film Socialism”, de Godard, pelo conceito gráfico minimalista – fundo negro, letras vermelhas e as iniciais do cineasta francês entrelaçadas com as do título da película. Ideias aparentemente simples, despojadas e que, ao mesmo tempo, revelam criatividade ao nível das soluções visuais.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Joy Division no antigo BLITZ

Velhos tempos, estes do semanário BLITZ. Eis um suplemento, em forma de revista, do então jornal sobre os Joy Division.
Não sei há quanto tempo, mas foi publicado, certamente, há perto de 20 anos. Lembro-me bem de ler e guardar este suplemento, num época em que a internet era um sonho e o acesso à informação era crucial ser efectuado através deste tipo de publicação.
O magnífico blog Misterioso Impossível, disponibiliza esta revista de 15 páginas sobre a banda de Ian Curtis (para saudosistas - do jornal ou do grupo) assim como uma enorme diversidade de discos (música alternativa), livros e jornais editados na década de 80.


O serial killer, o estudante, o livro e o filme


Na vasta e rica (pelas piores razões) história de serial killers americanos, John Wayne Gacy ocupa um lugar de destaque. Em apenas seis anos, entre 1972 e 1978, matou, torturou e violou 33 adolescentes (todos rapazes). Era tido como um cidadão comum e pacato, casado, trabalhava num vulgar e pequeno negócio e vestia-se de palhaço (daí a alcunha de "Palhaço Assassino", na imagem) para animar inocentes festas familiares. Foi com este disfarce que seduziu rapazes jovens para os seus jogos sexuais de perversidade inimaginável. Depois da tortura impiedosa que infligia às malogradas vítimas, John Gacy matava-as com grande crueldade e enterrava-as no quintal de casa. Até que foi descoberto pela polícia...
Foi preso em 1978 e condenado à morte por injecção letal. No entanto, só seria executado em 1994, quando contava já 52 anos.
[William Forsythe no papel de John Gacy]
Há uma história interessante pelo meio de tudo isto: Jason Moss, um jovem estudante de psicologia criminal com um fascínio mórbido por serial killers, decidiu fazer a tese de licenciatura sobre o assassino John Gacy. Decorria o ano de 1993 e o estudante de 18 anos, inteligente e destemido, encetou um contacto regular com o assassino, enviando cartas para ganhar a confiança do criminoso. Fez-se passar por homossexual para seduzir Gacy (enviou-lhe fotos ousadas), contou-lhe pormenores da sua vida pessoal e falou com o serial-killer (este a partir da prisão) por carta e telefone.
A perigosa intimidade entre os dois foi de tal ordem que perturbou a vida quotidiana do jovem estudante, tornando-se até violento. Durante vários meses, Jason Moss quis ir ao fundo da psicologia do assassino, compreender as suas motivações e a sua personalidade. Até que um dia, pouco antes de John Gacy ser executado, este solicita a presença física de Jason moss na prisão, para se conhecerem pessoalmente.
E é nesse particular momento que se atinge o clímax de tensão entre ambos: apesar de se considerarem "amigos", John Gacy ameaça matar Jason Moss em plena cela (na ausência dos guardas prisionais), revelando toda a natureza malévola do serial killer (imagem em baixo).
Mais tarde, Jason Moss escreveria um livro para descrever os pormenores deste relacionamento doentio, assim como a correspondência que estabeleceu com outros famosos assassinos em série presos: Charles Manson, Jeffrey Dahmer e Henry Lee Lucas.
Esse livro, "The Last Victim", teve um assinalável êxito de vendas, dando origem a um filme assaz interessante - "Dear Mr. Gacy" (2010), com um fantástico e perturbador William Forsythe no papel do sinistro John Gacy. Um filme que retrata, com imperturbável serenidade, a conturbada e perigosa relação entre Gacy e Moss (no YouTube pode-se ver uma entrevista de Jason Moss na qual conta os pormenores desta relação).

Entretanto, Jason Moss dedicou-se à advocacia durante alguns anos, mas sempre referindo que o episódio da sua visita a Gacy na prisão o marcou para sempre. Emocionalmente instável, cometeu suicídio aos 31 anos, numa curiosa data que suscitou interpretações "satânicas": seis de Junho de 2006 (ou seja, 6-6-6, o "número da Besta"). Mera coincidência?

Os verdadeiros John Gacy e Jason Moss, quando este visitou o serial-killer na prisão (momentos antes de ambos entrarem para uma cela... sozinhos).

Trailer do filme "Dear Mr. Gacy".