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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Ian Curtis: livro essencial


O livro "So This is Permanence" (Faber & Faber) de Ian Curtis é já uma das melhores edições do ano. A edição é da viúva do líder dos Joy Division, Deborah Curtis e do reputado jornalista musical Jon Savage. São quase 300 páginas em capa dura, formato A4, contendo todas as letras de Ian Curtis manuscritas, apontamentos, letras originais, cartas de fãs, textos de jornais e fanzines da época, capas dos livros de preferência de Ian, etc.

A Deborah Curtis e o Jon Savage (sobretudo este) também escrevem textos muito interessantes sobre as dimensões da lírica de Curtis no seio da banda. Essencial para os fãs dos Joy Division, portanto. 

Uma das coisas mais interessantes em Ian Curtis (falecido com apenas 23 anos de idade), é que muito do seu talento e criatividade foram conseguidos à custa de muita leitura. Ian lia compulsivamente desde a adolescência, isto porque na sua apática e pequena cidade de Macclesfield (a 40km de Manchester) pouco mais havia a fazer do que ouvir música e ler. Ian lia alguma da melhor e mais alternativa literatura do século XIX e XX, cultivando a sua mente para as fascinantes e obscuras poesias das canções dos Joy Division.

Segundo este livro "So This is Permanence", Ian Curtis leu apaixonadamente os seguintes autores:

- Friedich Nietzsche
- Franz Kafka
- Rimbaud
- Oscar Wilde
- Antonin Artaud
- H.P. Lovecraft
- Nikolai Gogol
- Baudelaire
- Edga Allan Poe
- T.S. Eliot
- J.G. Ballard
- William S. Burroughs
- Jean-Paul Sartre
- Hermann Hesse
- Dostoievsky
- Aldous Huxley
- Anthony Burgess

E pensando bem, muitos destes escritores e poetas, reflectem-se nas letras de Ian Curtis.

O livro encontra-se à venda na Fnac online por apenas 16,43€ (já com portes incluídos).



sábado, 4 de janeiro de 2014

Desejos para 2014

Em 2014 gostaria que:

- Sergei Eisenstein fizesse um filme sobre a "Primavera Turca".
- Orson Welles filmasse a adaptação de "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa.
- James Dean entrasse num filme de Wes Anderson.
- Montgomery Clift fosse o galã culto e tímido num filme de Woody Allen.
- Elvis Presley gravasse um disco com canções de Leonard Cohen.
- Frank Sinatra fizesse um dueto com Tom Waits.
- Jim Morrison entrasse num álbum dos Radiohead ou dos Queens of The Stone Age.
- Franz Kafka escrevesse um argumento para um filme de Roman Polanski.
- Marlon Brando fosse o par romântico de Charlize Theron num filme de Scorsese.
- Andrei Tarkovski convidasse Amon Tobin para fazer a música para um novo filme.
- Charlie Chaplin participasse numa comedia com Jerry Lewis.
- Jacques Tati fizesse um filme sobre o impacto das tecnologias digitais na sociedade.
- Primo Levi escrevesse um guião para um documentário sobre Hitler filmado por Errol Morris.
- Frank Zappa colaborasse num disco de Mike Patton.
- George Orwell escrevesse um ensaio sobre o estado da política actual.
- Andy Warhol fizesse uma serigrafia gigante sobre Miley Cyrus.
- Nagisa Oshima fizesse um remake de "O Império dos Sentidos" com Scarlett Johansson e Sean Penn.
- Baudelaire e Rimbaud escrevessem poemas para canções de Matt Elliott e Bob Dylan.
- Leni Rifenstahl realizasse um documentário épico sobre o Mundial de Futebol 2014 no Brasil.
- Jackson Pollock pintasse a fachada do Parlamento Português.
(...)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O livro é melhor que o filme? Ou vice-versa? Ou nenhuma destas opções?

aqui tinha abordado a relação entre o cinema e a literatura.
É sabido que desde o início da história do cinema que a literatura (como o teatro,) tem servido de inspiração para a evolução da 7ª Arte. Grandes obras-primas do cinema resultaram de adaptações de livros menores e grandes obras literárias redundaram em filmes medíocres. José Saramago recusou, durante anos, autorizar a adaptação de livros seus para cinema, invocando o argumento de que o cinema "destrói a imaginação".
Compreendo o sentido da afirmação, mas refuto que seja uma verdade tão linear. A literatura e o cinema são duas linguagens muito diferentes e, cada uma à sua maneira, projectam a imaginação do receptor (espectador/leitor) de formas distintas. O cinema, quanto mim, não só não destrói a imaginação como a estimula para terrenos que, porventura, a literatura não provoca. Os estímulos visuais potenciam e enriquecem outros estímulos. E as imagens associadas a essa tão eficiente expressão artística que é a música, chegamos a um resultado imagético total e irrepreensível.
Uma coisa me parece certa: ninguém arrisca dizer que um bom livro substitui um bom filme (ou vice-versa). São duas formas de fruição estética que, cada uma a seu modo, fomentam experiências distintas mas que, no fundo, se podem perfeitamente complementar.
Por isso, uma conversa que me parece redundante é aquela que se centra na relação de qualidade entre um livro e a respectiva adaptação cinematográfica.
Ou seja: tentar saber qual é melhor: o livro "As Vinhas da Ira" de John Steinbeck ou adaptação cinematográfica de John Ford? É melhor o filme "O Processo" de Orson Welles ou o livro homónimo de Franz Kafka? Qual tem mais qualidade artística: o livro "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago ou o filme "Blindness" de Meirelles? Dezenas de outros exemplos poderiam ser enumerados. Quanto a mim, é uma conversa inconsequente.
A literatura e o cinema são dois campos do conhecimento e da cultura que terão sempre o seu lugar no universo da criação artística. Ou isoladamente, ou complementarmente.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O argumentista Barton Fink


Apesar de muito pouca gente valorizar o papel dos argumentistas no cinema, estes detêm grande parte da responsabilidade pelo sucesso ou insucesso de uma série de televisão ou de um filme. Com alguma malícia, é voz corrente dizer-se que, quando uma "sitcom" consegue o êxito, os responsáveis são os actores; quando há insucesso, a culpa é sempre dos argumentistas.
Seja como for, não me ocorre filme mais propício sobre este assunto do que o magnífico "Barton Fink" (1991) de Joel e Ethan Coen: é a história de um argumentista que, tendo sucesso no teatro da Broadway, é contratado para trabalhar na meca do cinema, Hollywood, no intuito de escrever argumentos para filmes de guerra série B.
John Turturro (na imagem), no papel de Barton Fink, é magistral na forma como encarna o papel de um argumentista perturbado e desinspirado por diversos acontecimentos surreais. Aliás, todo o filme é perpassado por uma atmosfera kafkiana, tensa e enigmática. O filme é sobre o trabalho de escrita, sobre a criatividade das palavras, sobre os sonhos desfeitos, sobre a crise de inspiração, sobre o cinema "himself".
A realização é soberba, as interpretações superlativas (com John Goodman e Judy Davis), o argumento fascinante. Foi o primeiro filme dos irmãos Coen a ganhar prémios em Cannes (Palma de Ouro, Melhor Actor e Melhor Realizador) e, para mim, continua a ser o meu filme preferido dos autores de "No Country for Old Man".

quinta-feira, 11 de março de 2010

Preconceitos à volta de futebol e cultura

Um dia alguém me contou que no final dos anos 60, numa entrevista ao "Diário de Lisboa", o escritor José Cardoso Pires afirmava que "feliz ou infelizmente, 'A Bola' é o jornal onde se escreve melhor português". Achei surpreendente.
Serve de mote para contar isto: quando era adolescente nutria uma grande admiração por um amigo uns anos mais velho: professor erudito de Humanidades, leitor compulsivo, cinéfilo e melómano inveterado. Exerceu sobre mim uma espécie de guia cultural, ensinando-me a olhar para um filme de Tarkovski, a ouvir uma composição de Boulez, a interpretar uma tela de Pollock ou a fruir a literatura de Kafka e Proust. No fundo, foi alguém que condicionou a minha formação cultural, que formou o meu gosto e afinou a minha percepção sobre matérias artísticas.
Não o via muitas vezes, achava-o um eremita que por vezes deambulava pelas ruas com livros debaixo do braço e que odiava manifestações de gosto popular como o futebol. Um suposto intelectual não podia gostar de futebol, pensava eu. Até que um dia tive um choque. Ao passar junto de um quiosque, vislumbro esse meu amigo, amante das artes, das letras e do pensamento, com o jornal “A Bola” na mão! Como era possível alguém como ele gostar dessa coisa de gosto massificado e popular que era o futebol?, pensei.
Na verdade, gostava. Só aos poucos me mentalizei que o gosto pela cultura (qualquer uma) não era incompatível com o gosto pelo futebol do "povo". Um professor erudito pode ser fanático pelo Benfica, assim como um jardineiro pode gostar de ópera. Era um preconceito bacoco que acabei por exterminar. Com a idade e a experiência, percebi que o prazer que se retira ao assistir a um bom jogo de futebol não é o mesmo de quando se vê um filme ou se lê um bom livro. Unicamente são formas diferentes de retirar prazer de uma actividade, ambas experiências enriquecedoras e legítimas, e que podem (devem) ser compatíveis no gosto generalista de qualquer pessoa.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A arte no seu tempo (e fora dele)


Cada artista ou criador é fruto do seu tempo. A arte é fruto do seu tempo. Estamos em 2010, em pleno século XXI. Os artistas de hoje reflectem, essencialmente, sobre a experiência do presente, podendo trabalhar sobre referências do passado para projectar um futuro mais ou menos coerente. A música, o cinema, a literatura, e outras manifestações artísticas só existem porque são concebidas e contextualizadas nas circunstâncias da era em que os artistas vivem (já dizia Ortega y Gasset).
Vem esta reflexão introdutória a propósito porque, volta e meia, dou comigo a pensar o que fariam artistas que já morreram, e que viveram noutras épocas históricas, se vivessem neste nosso tempo, neste mundo, neste contexto social, político e histórico, neste tempo com as referências tecnológicas e culturais contemporâneas.
Por isso, faço o seguinte exercício mental (mais ou menos aleatório): que tipo de música faria hoje Debussy ou Satie?? Como seria o cinema de realizadores como F.W. Murnau, Buster Keaton ou Eisenstein? Sobre que temas escreveria George Orwell, Fernando Pessoa ou Edgar Allan Poe? Que configuração teria hoje a teoria filosófica de Nietzsche ou Schopenhauer? E Jackson Pollock desenvolveria hoje a mesma “action painting” que fazia nos anos 40 do século passado? Como se expressaria o surrealismo de Salvador Dalí? Stravinsky, John Cage ou Varèse aventurar-se-iam pela música electrónica?
O que diriam Franz Kafka ou Aldous Huxley da sociedade da comunicação globalizada? Qual seria a posição de um Einstein ou de um Freud face à evolução da ciência actual? Como se manifestaria hoje a inigualável genialidade criativa de um Bach ou de um Mozart? Provavelmente, alguns dos artistas citados não sofreriam quaisquer mudanças e seriam fiéis à identidade artística que os tornou famosos. Por outro lado, outros criadores haveria que seriam mais facilmente permeáveis à influência do meio que os rodeassem, alterando o seu rumo artístico e cultural de forma mais severa.
Enfim, questões que não passam de mera retórica mas que fazem sentido à luz da curiosidade do espírito humano.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O ofício de tradutor literário


Há uma profissão que muito respeito e admiro: a de tradutor literário. Folheando grandes obras da literatura clássica ou moderna, tento intuir a complexidade de uma tradução literária, as infinitas horas passadas a ler o livro na língua original, as horas ao computador a escrever e a consultar grossos dicionários de línguas.
Um dia conheci um tradutor (de alemão - português) que me dizia que este profissional trabalha quase sempre na sombra do nome do escritor que está a traduzir, mas é um elemento essencial para o sucesso e reconhecimento crítico de uma determinada obra. Mas não é, certamente, um trabalho fácil. Existe aquela célebre máxima de raiz latina - que muito atormenta os intelectuais - que diz "tradutore, traidore". Ou seja, a tradução é uma potencial traição à língua original da obra. Pode ser e pode não ser. Se já é difícil traduzir prosa tão complexa como a de um James Joyce, Kafka, Proust ou um Musil, como será com a poesia?
Portugal tem grandes tradutores de várias línguas: Vasco Graça Moura, Miguel Serras Pereira e Frederico Lourenço (que traduziu "Homero") são apenas alguns nomes cujos trabalhos já mereceram prémios e distinções. A tradução é um trabalho que exige um extraordinário conhecimento cultural das línguas com que se trabalha. É um trabalho tecnicamente árduo, de grande rigor intelectual e fisicamente desgastante.
Um trabalho que exige diversificada formação cultural, muita disciplina e empenho intelectual. Mas este esforço nem sempre é reconhecido pelos leitores e pelas editoras, que geralmente pagam mal. E são poucos os tradutores portugueses que conseguem viver apenas deste trabalho. Traduções à parte, tenho um amigo formado em filosofia que foi aprender alemão para ler no original as obras de Heidegger. Tinha outro amigo que dizia que só lendo Proust em francês é que se conseguia captar as nuances da língua e o conteúdo literário da obra.
Por outro lado, houve muitos estudiosos estrangeiros que aprenderam português para ler Fernando Pessoa ou Camões (o escritor italiano Antonio Tabucchi foi um deles). Persiste a sensação de que nas traduções se perde sempre qualquer coisa do original, mas aí a criatividade do tradutor e o seu domínio das línguas é fundamental para fazer esquecer, no espírito do leitor, essa possibilidade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Para explicar Woody Allen


Ramón Luque, autor do livro “En Busca de Woody Allen – Sexo, Muerte y Cultura en su Cine”, explora o universo temático do realizador de Nova Iorque com exemplar simplicidade e pragmatismo. A sua análise nem parece a de um professor universitário (da Universidade Juan Carlos de Madrid). O leitor compreende sempre onde quer chegar o autor e o que quer dizer, sem recorrer a uma linguagem hermética e excessivamente teórica que grassa neste tipo de ensaios.
E para explicar o cinema de Woody Allen e os seus temas favoritos plasmados nos seus filmes – religião, sexo, morte, solidão, amor, cultura, arte, existencialismo, filosofia -, Ramon Luque socorre-se, sem pejo, de uma teia inusitada de referências de pensadores, artistas e filósofos (já para não falar em cineastas). A saber: Freud, Kierkegaard, Camus, Bourdieu, Durkheim, Nietzsche, Jung, Deleuze, Vattimo, Unamuno, Husserl, Heidegger, Habermas, Foucault, Derrida, Sartre, Fromm, Weber, Tchekov, Dostoievsky, Tolstoi, McLuhan, Orwell, Bataille, Nabokov, Whitman, Mailer, Shakespeare, Cervantes, Sófocles, Strindberg, (Karl e Groucho) Marx, Kafka, Proust, entre outros.
No meu curso superior tive um professor que valorizava, desmesuradamente, a bibliografia consultada e as referências a autores nos trabalhos académicos. Tenho a certeza que esse professor daria uma excelente nota final a Ramón Luque.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Kafka vs. Kubik

O célebre conto "A Metamorfose" de Kafka adaptado para vídeo. Trata-se de dois filmes feitos por alunos de comunicação audiovisual da escola António Arroio de Lisboa. A supervisão artística e técnica foi feita pelo realizador e professor Carlos Gomes. É um trabalho assumidamente amador, claro, mas para mim este trabalho tem um sabor especial, porque a música que se ouve é... minha (Kubik).

quinta-feira, 19 de março de 2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

Oferta livreira

Quase 2 mil livros para descarregar, gratuitamente, em formato PDF: Fernando Pessoa, Shakespeare, Oscar Wilde, Eça de Queiroz, Rimbaud, Thomas Mann, Cervantes, James Joyce, Kafka, Machado de Assis, entre muitos outros escritores de renome nacional e mundial. Link.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O filme e o livro (e vice-versa)



aqui tinha abordado a relação entre o cinema e a literatura. É sabido que desde o início da história do cinema que a literatura (o teatro, menos) tem servido de inspiração para a evolução da 7ª arte. Grandes obras-primas do cinema resultaram de adaptações de livros menores e grandes obras literárias redundaram em filmes medíocres. José Saramago recusou, durante anos, autorizar a adaptação de livros seus para cinema, invocando o argumento de que o cinema "destrói a imaginação". Compreendo o sentido da afirmação, mas refuto que seja uma verdade tão linear. A literatura e o cinema são duas linguagens muito diferentes e, cada uma à sua maneira, projectam a imaginação do receptor (espectador/leitor) de formas distintas. O cinema, quanto mim, não só não destrói a imaginação como a estimula para terrenos que, porventura, a literatura não provoca. Os estímulos visuais potenciam e enriquecem outros estímulos. E as imagens associadas a essa tão eficiente expressão artística que é a música, chegamos a um resultado imagético total e irrepreensível. Uma coisa me parece certa: nem um bom livro substitui um bom filme, e vice-versa. São duas formas de fruição estética que, no fundo, se complementam.
Por isso uma conversa que me parece redundante é aquela que se centra na relação de qualidade entre um livro e o filme que se baseou nesse mesmo livro. Ou seja: saber qual é melhor: o livro "As Vinhas da Ira" de John Steinbeck ou adaptação cinematográfica de John Ford? É melhor o filme "O Processo" de Orson Welles ou o livro homónimo de Franz Kafka? Qual tem mais qualidade artística: o livro "Ensaio Sobre a Cegueira" de Saramago ou o filme "Blindness" de Meirelles? Dezenas de outros exemplos poderiam ser enumerados. Quanto a mim, é uma conversa inconsequente.
O curioso é que o site List Universe acabou de publicar uma interessante (e discutível) lista de filmes que são melhores do que os livros que lhe deram origem. Lá podemos encontrar filmes como "O Padrinho", "Tubarão", "Silêncio dos Inocentes" ou "Blade Runner". O melhor filme recenseado é o "Stand by Me" de Bob Reiner com base num livro de Stephen King. Nada contra. Link.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Retrato do artista quando jovem - 3


Marilyn Manson

Glenn Gould

Kurt Cobain

Truman Capote

Vincent Van Gogh

Björk

Sid Vicious

Peter Gabriel

Franz Kafka

Serge Gainsbourg

Danny Elfman

Leonard Bernstein

Scarlett Johansson

sábado, 19 de abril de 2008

Os caminhos da tradução literária


O suplemento do Público da última semana, o Ípsilon, trazia uma longa reportagem sobre a edição nacional da monumental obra literária "O Homem Sem Qualidades" de Robert Musil. Sobre esta edição já escrevi aqui qualquer coisa. Para além da habitual análise à obra literária em si e respectivo escritor, o jornal dedica ainda três páginas ao tradutor, o crítico literário e professor João Barrento. Esta abordagem jornalística ao trabalho do tradutor não é muito habitual, dado que o tradutor fica quase sempre na penumbra quando se trata de analisar um livro estrangeiro. E João Barrento merece, e muito, que os holofotes se dirijam a ele. Barrento tem uma longa experiência de tradução - sobretudo autores consagrados de língua alemã - e aventurar-se na tradução exigente de uma das grandes obras romanescas do século passado, "O Homem Sem Qualidades" (três volumes, perto de 2000 páginas), é meritório e digno de registo. Barrento tem uma cultura literária muitíssimo apurada e abrangente, e nesta entrevista explica os aspectos principais da tradução de Musil. Demorou 3 anos a concluir a tradução e organização dos dois primeiros tomos do livro. Admirável.
Sempre admirei o trabalho de tradutor. Trabalha quase sempre na sombra do nome do escritor, mas é um elemento essencial para o sucesso e reconhecimento crítico de uma determinada obra. Mas não é, certamente, um trabalho fácil. Existe aquela célebre máxima de raiz latina - que muito atormenta os intelectuais - que diz "tradutore, traidore". Ou seja, a tradução é uma traição (à língua original da obra). Pode ser e pode não ser. Se já é difícil traduzir ficção tão complexa como a de James Joyce, Kafka ou Musil, como será com a poesia? Portugal tem grandes tradutores de várias línguas: Vasco Graça Moura, Miguel Serras Pereira e Frederico Lourenço (que traduziu "Homero") são apenas alguns nomes cujos trabalhos já mereceram prémios. A tradução é um trabalho que exige um extraordinário conhecimento cultural das línguas com que se trabalha. É um trabalho tecnicamente árduo, de grande rigor intelectual e desgastante fisicamente. Conheci uma vez um tradutor português que traduzia autores alemães para português, e dizia que era um trabalho gratificante, mas apenas até certo ponto. Exige muita disciplina e empenho intelectual e nem sempre é reconhecido pelos leitores e pelas editoras, que geralmente pagam mal. E são poucos os tradutores portugueses que conseguem viver apenas deste trabalho.
Traduções à parte, tenho um amigo formado em filosofia que foi aprender alemão para ler no original as obras de Heidegger. Tinha outro amigo que dizia que só lendo Proust em francês é que se conseguia captar as nuances da língua e o conteúdo literário da obra. Por outro lado, houve muitos estudiosos estrangeiros que aprenderam português para ler Fernando Pessoa ou Camões (o escritor italiano Antonio Tabucchi foi um deles). Persiste a sensação de que nas traduções se perde sempre qualquer coisa do original, mas aí a criatividade do tradutor e o seu domínio das línguas é fundamental para fazer esquecer, no espírito do leitor, essa possibilidade.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Robert Musil


É um dos acontecimentos do ano no que diz respeito ao mercado editorial português: no próximo dia 7 de Abril, vão ser editados os dois volumes da obra literária “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil (1880 – 1942). Traduzido pela primeira vez directamente do alemão pelo competentíssimo João Barrento (tradutor, ensaísta, crítico literário), este romance é tido como o baluarte da pós-modernidade do século XX, ao lado de “À Procura do Tempo Perdido” de Marcel Proust e “Ulisses” de James Joyce (nomes a que se poderá adicionar Franz Kafka). Tal como a obra “Ulisses”, “O Homem Sem Qualidades” é uma obra muito citada e referenciada mas pouco lida. É o meu humilde caso. De Robert Musil li apenas “O Jovem Törless” (o outro livro que Musil escreveu em vida), um possante retrato da juventude através da trajectória existencial de um jovem num internato e das suas perturbações (que vão das dúvidas teológicas até os traumas da diferenciação sexual – obra que influenciou a escrita existencialista de “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira).

quarta-feira, 19 de março de 2008

Dia do Pai


Franz Kafka - "Carta ao Pai"
É um pequeno mas muito significativo livro que Kafka escreveu ao pai, Hermann Kafka. O escritor sempre teve uma relação muito difícil com o pai, e nesta carta o autor de "A Metamorfose" analisa minucioasamente os contornos psicológicos e emocionais dessa relação, num relato pungente e lírico que revela as perversidades das relações humanas. Não se trata de uma carta de amor, nem de ódio filial declarado. É um ajuste de contas, um estudo profundo sobre a relação pai-filho. Um livro que deveria ser lido tanto por pais como por filhos. A capacidade de análise e argumentação de Kafka transforma esta carta num poderoso documento da literatura universal.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Proust e futebol?

Quando era adolescente nutria uma grande admiração por um amigo bem mais velho: professor de Humanidades, leitor compulsivo, cinéfilo e melómano inveterado. Exerceu sobre mim uma espécie de guia cultural, ensinando-me a olhar para um filme de Tarkovski, a ouvir uma composição de Boulez, interpretar uma tela de Pollock ou a fruir a literatura de Kafka e Proust. No fundo, foi alguém que condicionou a minha formação cultural, que formou o meu gosto e afinou a minha percepção da realidade. Não o via muitas vezes, achava-o um eremita que por vezes deambulava pelas ruas com livros debaixo do braço e que odiava manifestações de gosto popular como o futebol. Um pretenso intelectual não podia gostar de futebol, pensava eu. Até que um dia tive um choque: ao passar junto de um quiosque, vislumbro o meu amigo, amante das artes e do pensamento, com o jornal “A Bola” na mão! Como era possível alguém como ele gostar dessa coisa de gosto massificado e popular que era o futebol? Na verdade, gostava. Só aos poucos me mentalizei que o gosto pela cultura (elitista, alternativa) não era incompatível com o gosto pelo futebol. Preconceito bacoco que acabei por exterminar. Com a idade e a experiência, acabei por perceber que o prazer que se retira ao assistir a um bom jogo de futebol não é o mesmo de quando se vê um filme ou se lê um bom livro. Todas as formas de fruição são válidas. Desde que nenhuma delas assuma proporções exacerbadas e de teor fundamentalista.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Arte máxima de um minimalista


A história da música da segunda metade do Século XX não seria a mesma sem a figura central do compositor e intérprete norte-americano Philip Glass. Multipremiado a nível mundial pelas suas composições, o percurso deste músico tem sido trilhado com base num prolífico e diversificado trabalho de criação musical, desde a década de 60 até aos nossos dias. Com 70 anos de idade, a veia artística deste músico parece tornar-se cada vez mais ambiciosa e fecunda. Desde 1973 que o seu trabalho se espraia por abordagens tão distintas como a música para teatro, dança, cinema, óperas e orquestras. O talento de Glass advém de uma notável sensibilidade melódica, aliada a um fortíssimo sentido rítmico, a um gosto pelo desafio formal e a uma distinta capacidade para criar ambiências sonoras. A sua abertura estilística e o interesse na fusão entre a música erudita, a electrónica e as tradições musicais do mundo, valeram-lhe inúmeros louvores da crítica e do público (o seu trabalho com o indiano Ravi Shankar e o africano Foday Musa Suso são disso testemunha irrefutável). A sua visão artística partilhou-se também com cantores pop como Suzanne Veja, Paul Simon, Natalie Merchant, a artista e performer de vanguarda Laurie Anderson, o músico electrónico experimental Aphex Twin e o grupo de música contemporânea Kronos Quartet.

Fascinado pela cultura musical dos indianos e africanos, Glass integrou estas linguagens composicionais autóctones na sua música. Daí que, juntamente com Steve Reich, Terry Riley e La Monte Young - outros compositores americanos que marcaram a década de 60 e que partilhavam o fascínio pela música étnica -, Glass fez parte do movimento inicial da corrente minimal repetitiva, a qual despontou no final dos anos 60 como reacção crítica ao serialismo de Boulez e Messiaen. Esta corrente postulava a rejeição do esquematismo matemático da música devedora de Webern e Schoenberg. Glass e restantes compositores, dotados de uma mentalidade mais aberta e desafiadora, libertaram-se dos espartilhos da composição clássica, optando por inaugurar uma nova linguagem musical. Para tal, a música de Glass, Reich e Riley, assentava no primado da repetição de pequenos trechos melódicos ou rítmicos, com pequenas variações através de grandes períodos de tempo, e subtis modulações harmónicas, incutindo no ouvinte uma sensação de hipnose ritualista (a ideia de repetitividade rítmica destes compositores advém das culturas rituais de África e Índia). Contudo, Philip Glass sempre rejeitou a noção de que a sua música fosse minimalista, refutando, inclusive, a palavra minimalismo (“that word should be stamped out!”, disse sobre este assunto). Após divergência de opiniões com Steve Reich, Glass forma em 1968 o Philip Glass Ensemble, constituído por sintetizadores, vozes e instrumentos de sopro, destinado a executar ao vivo as suas peças. Este Ensemble mantém, ainda hoje, uma intensa actividade artística. Mesmo que Glass queira ver-se aliado de rótulos mais ou menos consensuais, a verdade é que a obra magna da história da música minimal é da sua autoria: a ópera-que-revolucionou-a-ópera “Einstein on the Beach” (1975), com direcção artística do famoso Robert Wilson. Obra de uma grande complexidade estética e formal (tem a duração de 5 horas), “Einstein on the Beach” é um assombro de pujança sonora, melódica e rítmica. Neste trabalho, a mestria de Glass no domínio dos mais ínfimos elementos musicais, a forma como manipula o tempo, as harmonias mutantes, o conceito de repetitividade, a riqueza expressiva e conceptual e a originalidade estética, conferem a esta obra um lugar maior nas composições musicais da pós-modernidade artística do século XX. Para além desta ópera marcante na sua carreira, Glass compôs ainda a obra “O Corvo Branco” estreada na Expo 98 de Portugal e escreveu ainda outras 20 nos últimos 25 anos.

Minimalista ou não, Philip Glass depressa enveredou por um caminho próprio. Das dezenas de discos, encomendas e peças originais, destacam-se “Music in Twelve Parts” (1975), “North Star” (1977), “Satyagraha” (1985), “Songs From Liquid Days” (1986), “Glassworks” (1993) e as composições para a genial trilogia “Qatsi” de documentários não narrativos do realizador Godfrey Reggio. De igual modo, a sua produção musical para o cinema (desde composições de bandas sonoras originais para filmes mudos até às grandes produções de Hollywood) tem sido extensa e rica: a magnífica música para o filme “Kundun” de Martin Scorsese, “As Horas” de Stepehn Daldry, “The Truman Show” de Peter Weir, musicou os filmes clássicos de Jean Cocteau (“La Belle et La Bête”, “Les Enfants Terribles” e “Orphée”) e Tod Browning (“Drácula”), e os premiados documentários do norte-americano Errol Morris. Ao longo da sua carreira, Philip Glass sempre se identificou com alguns dos criadores mais originais e irreverentes do panorama artístico do século XX: Jean Genet, Jean Cocteau, Mishima, Jean Epstein, Beckett, Brecht, ou Kafka.
Um artista completo, ainda que não consensual.

(Texto original para a revista "Hora TMG")

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Livros e cinema - afinidades selectivas


A relação entre o cinema e a literatura remonta, praticamente, aos primórdios da história do cinema. Ainda no período do cinema mudo, foram muitas as obras literárias, dos mais variados géneros, a serem adaptadas ao cinema. Todavia, nem sempre grandes livros originaram grandes filmes. O inverso também é verdade: muitos livros desinteressantes resultaram em magníficas obras cinematográficas. Ao longo de mais de cem anos de história do cinema, realizadores consagrados e menos consagrados basearam os seus filmes em obras literárias: John Huston, Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Murnau, Francis Coppola, François Truffaut, Rainer Fassbinder, John Ford, entre muitos outros. De igual modo, inúmeras obras de escritores, dos clássicos aos contemporâneos, foram objecto de adaptações ao cinema: Philip K. Dick, Alexandre Dumas, Julio Verne, Stephen King, Ernest Hemingway, Virginia Wolf, Michael Crichton, Marguerite Duras, Isabel Allende, John Steinbeck, George Orwell, Graham Greene, Tolkien, Ray Bradbury, William S. Burroughs, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Manuel Tiago, entre muitos outros exemplos.À volta deste assunto, geram-se debates acalorados no que concerne às eventuais diferenças de qualidade do objecto “livro” e do objecto “filme”: qual o verdadeiro conceito de adaptação literária ao cinema? O realizador deve basear-se literalmente no livro ou tem o direito de recriar o conteúdo do mesmo? Até que ponto o cinema, como expressão artística autónoma, necessita da literatura para se exprimir? É melhor o filme ou livro? Quais as fronteiras estéticas entre a linguagem da literatura e do cinema?

Sem querer assumir o risco das respostas, deixo aqui apenas uma pequeníssima lista de grandes obras literárias que originaram grandes filmes:

Livro: “FARENHEIT 451” de Ray Bradbury
Filme: “FARENHEIT 451” de François Truffaut

Livro: "SOLARIS" de Stanislav Lem
Filme: "SOLARIS" de Andrei Tarkovski

Livro: “THE PROCESS” de Franz Kafka
Filme: “O PROCESSO” de Orson Welles

Livro: “BRAM STOKER’S DRACULA” de Bram Stoker
Filme: “DRACULA” de Todd Browning (e a versão de Coppola)

Livro: “MACBETH” de William Shakespeare
Filme: “MACBETH” de Orson Welles

Livro: “THE THIRD MAN” de Graham Greene
Filme: “O TERCEIRO HOMEM” de Carol Ree

Livro: “UMA ABELHA NA CHUVA” de Carlos de Oliveira
Filme: “UMA ABELHA NA CHUVA” de Fernando Lopes

Livro: “THE NAKED LUNCH” de William S. Burroughs
Filme: “O FESTIM NU” de David Cronenberg

Livro: “QUERELLE” de Jean Genet
Filme: “QUERELLE” de Rainer Fassbinder

Livro: “MANHÃ SUBMERSA” de Vergílio Ferreira
Filme: “MANHÃ SUBMERSA” de Lauro António

Livro: “AMERICAN PSYCHO” de Bret Easton Ellis
Filme: “AMERICAN PSYCHO” de Marry Harron