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terça-feira, 31 de março de 2015

Squarepusher: na vanguarda electrónica do século XXI



Squarepusher é o nome artístico de Tom Jenkinson, artista que há 20 anos tem dado cartas na evolução da música electrónica (a par de Aphex Twin e Amon Tobin). Squarepuser é um baixista de jazz virtuoso (na esteira do mítico Jaco Pastorius) que espantou o mundo quando em 1996 lançou o disco de estreia "Feed Me Weird Things", um misto de jazz frenético com drum'n'bass.
Há um ano este músico visionário editou um disco intitulado "Music For Robots" de que dei conta neste post. Um disco no qual verdadeiros robots faziam música a mando de Squarepusher. Um ano depois o músico regressa com um novo conceito visual e tecnológico (a componente visual sempre teve muita importância no seu trabalho), que irá acompanhar um novo álbum pela prestigiada editora Warp.

Sem grandes exageros, depois de ver o vídeo pode-se afirmar que a criatividade musical e visual de Squarepusher está para o século XXI como os Kraftwerk estiveram para as décadas de 1970/80. Ou seja, na vanguarda da música electrónica. Squarepusher desenvolveu um conceito estético e audiovisual caleidoscópico no qual os estímulos sonoros provocam uma reacção visual num ritmo estonteante para os sentidos. Não é música pop fácil para as massas, nem música para satisfazer todas as sensibilidades. Mas é música desafiante, original, provocadora, que rompe convenções e aponta pistas para o futuro. É música como se milhentos sons tecnológicos fossem centrifugados numa trituradora a alta velocidade e depois reorganizados segundo uma lógica própria.
Nota: A componente visual não é aconselhável para pessoas propensas à epilepsia ou a estímulos visuais fortes.
Quem quiser conhecer o "making of" deste vídeo e as explicações do músico, abrir aqui.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"iDiots"

O mundo das tecnologias invadem o nosso quotidiano e somos já homens, mulheres, jovens e crianças completamente dependentes (uns mais do que outros) dos aparelhos tecnológicos. Designadamente, dos telemóveis, que usamos para tudo e para nada, comprando o último modelo da moda porque é "fashion" ou instalando aplicações inúteis que só servem para perder tempo (e às vezes dinheiro). E é nesta perspectiva crítica e satítica que os estúdios de animação Big Lazy Robot (Barcelona) criaram esta curta-metragem deliciosa sobre a dependência dos telemóveis. 
A curta tem o título de "iDiots", uma clara referência ao iPhone e à Apple, e é a história de simpáticos robots (modelos que existem à venda no Japão) que fazem fila para comprar o modelo 4 do iDiot para se entreterem com actividades inúteis... E mais não conto, porque é preciso ver até ao fim esta divertida história - muito bem filmada e sonorizada - para perceber (e meditar) o nível de dependência que a sociedade tem face à tecnologia.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Pulp Fiction" recriado

Pogo é o nome artístico de Nick Bertke. No seu canal do Youtube, Pogo diverte-se a fazer remisturas de imagens de filmes e séries televisivas, criando um divertido e ritmado "mashup" de sons e imagens. Agora pegou no clássico "Pulp Fiction" de Quentin Tarantino para o retalhar com minúcia milimétrica, de forma a criar uma remontagem de "samples" de vozes (Samuel L. Jackson e Uma Thurman) e de imagens ao sabor da música (da autoria do próprio Pogo).
Digamos que é uma recriação possibilitada pela democratização das ferramentas tecnológicas e digitais ao alcance de qualquer talentoso artífice de imagens e sons. E acaba por ser bem divertido ouvir Samuel L. Jackson vociferar - como se estivesse a cantar numa qualquer música da moda - "Say 'what' again!":

terça-feira, 20 de março de 2012

Brincar ao cinema mudo


Com a tecnologia existente é hoje possível realizar tarefas que eram inimagináveis há apenas meia dúzia de anos atrás. Como por exemplo, fazer um pequeno filme sem recurso a máquinas de filmar profissionais e técnicos especializados. Com um Smartphone bem artilhado é já suficiente para realizar filmes. Prova disso é a primeira longa-metragem, de título “Olive”, realizada integralmente com um telemóvel Nokia N8 que vai estrear brevemente em 2012 nas salas de cinema nos EUA. Sem querer ser tão ambicioso quanto a este feito, a verdade é que qualquer pessoa pode brincar ao cinema recorrendo aos (cada vez mais) potentes e avançados programas de filmagem e edição de imagens.

É o caso do programa “Silent Film Director”, um software barato que se adapta a qualquer equipamento Apple (iPhone, iPad, iPod - via AppStore) ou smartphone com sistema Android instalado. Trata-se, simplesmente, de uma aplicação extremamente simples e intuitiva de trabalhar. É possível filmar qualquer sequência de vídeo (de preferência uma sequência curta mas filmando em HD), e depois editá-la recorrendo a efeitos visuais que remetem para a estética do cinema mudo dos anos 1920 (tão popular agora por causa do sucesso do filme “O Artista”), ou para o “home vídeo” dos anos 60, a tonalidades sépia, a preto e branco, em “slow motion”, etc. É possível também definir a velocidade do vídeo, a definição de imagem, colocar legendas, montar e aplicar pequenos efeitos visuais. Convém dizer que a aplicação já traz incluída música de piano para acompanhar os vídeos (da autoria do compositor profissional Kevin MacLeod) no verdadeiro estilo das comédias burlescas dos anos 1920.

No fim, o que resultar da experiência, o realizador amador poderá partilhar nas redes sociais ou disponibilizar o projecto na galeria “Show Time”: um sítio na internet onde os utilizadores de todo o mundo publicam vídeos de um minuto para qualquer pessoa ver (e classificar). E é incrível constatar como em apenas um minuto existem tantos vídeos criativos e com ideias bem interessantes (alguns recorrem a montagens de sequências de cinema conhecidas, mas devidamente montadas e alteradas). As características de “Silent Film Director”, apesar de obviamente limitadas e amadoras, são suficientes para proporcionar momentos de puro divertimento a “brincar ao cinema”!
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Eis um simples exemplo da utilização do "Silent Film Director" que um alguém fez a propósito do lançamento do iPad 2:

Ver aqui a review sobre o funcionamento deste programa.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

HAL 9000

O escritor Arthur C. Clarke sabia o o que estava a fazer quando escreveu "2001 - Odisseia no Espaço". Por seu lado, o realizador que adaptou a referida obra de Ficção Científica, Stanley Kubrick, sabia igualmente o que estava a filmar.
O filme, magna obra de arte de Kubrick, retrata duas viagens: a espacial, pelo espaço sideral, o cosmos infinito, e a viagem interior, pela mente do homem (suas memórias e desejos). Uma viagem maior do que a vida.
Em "2001 - Odisseia no Espaço", a personagem principal acaba por ser um... computador. Estávamos em 1968, muito longe ainda da erupção tecnológica e informática da era actual. HAL 9000, de seu nome, esse computador central sofisticado, representado por uma brilhante luzinha vermelha, tinha a capacidade de falar naturalmente (voz do actor canadiano Douglas Rain), controlar o funcionamento da nave espacial, monitorizar todos os movimentos humanos, detectar as emoções humanas, apreciar manifestações artísticas e tomar decisões tidas como racionais e inteligentes. Apesar de programado para obedecer à voz humana, Hal 9000 acaba por ganhar vontade própria e aniquilar a vida humana.
Aparentemente, revoltou-se contra o seu criador. Perante a ameaça do computador, quando o astronauta Dave Bowman precisou desactivar HAL 9000, entrou numa sala central vermelha e retirou-lhe os seus módulos de memória um a um (na imagem). Esses módulos eram todos totalmente transparentes (entretanto, a realidade apanhou a ficção: desde 2008 que os módulos de memória transparentes se tornaram reais. Pesquisadores do Instituto KAIST, na Coreia do Sul, construiram o primeiro módulo de memória totalmente transparente).
Desde o advento massivo da era informática na sociedade moderna que a sombra do super-computador HAL 9000 tem pairado no ar. Tornou-se um ícone da tecnologia e da cibernética, uma referência da cultura digital das últimas décadas. Muito se escreveu e disse sobre o significado deste computador (até ensaios filosóficos), mas uma coisa é certa: para Kubrick, HAL 9000 representava o pico da evolução humana e tecnológica, contranstando com o nascer da alvorada do domínio tecnológico dos primatas - representada com a célebre sequência inicial da manipulação dos ossos.
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Desde há três anos que existe um projecto denominado The HAL 9000 Project, que explora a dimensão do computador no filme "2001 - Odisseia no Espaço", assim como disponibiliza informações, imagens, curiosidades e screensavers do mais famoso computador ficcional de toda a história do cinema.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Transhumanismo (no cinema e não só)


O Transhumanismo, é uma doutrina filosófica e científica cuja base se cimenta nas tecnologias mais sofisticadas aplicadas a vários ramos do saber, da genética à física, da biotecnologia à filosofia, da cibernética (inteligência artificial) à robótica, da antropologia à medicina ou à neurociência. É uma das áreas do conhecimento humano que mais me têm fascinado nos últimos dez anos. Basicamente, o objectivo do Transhumanismo é melhorar e desenvolver a espécie humana (em termos mentais e físicos) através de todos os meios possíveis e eticamente respeitáveis, nomeadamente, através de uma utilização racional das tecnologias mais avançadas que existem. Contrariar o envelhecimento e aumentar a longevidade, erradicar as doenças degenerativas e mortais, incrementar a inteligência e as capacidades mentais, são algumas das prioridades do Transhumanismo. Ficção científica? Delírios científicos sem exequibilidade real? Nem por sombras. Um dos suportes tecnológicos para o desenvolvimento dos ideais Transhumanistas tem a ver com o aumento na velocidade dos (super)computadores laboratoriais, facto que tornará ainda mais poderosa a fascinante Nanotecnologia, isto é, a manipulação atómica da matéria a nível microscópico (molecular, manipulando átomo a átomo).

Cada célula humana possui centenas de enzimas: máquinas microscópicas capazes de executar a enorme variedade de reacções químicas necessárias à vida. A ideia da nanotecnologia é construir máquinas (ships microscópicos) do tamanho de apenas alguns átomos capazes de executar funções previamente definidas. Por exemplo, um conjunto de nanomáquinas, chamado nanorobot, que execute determinadas tarefas pré-concebidas na resolução de determinados problemas, debelando doenças degenerativas.

Este cenário já tinha sido antecipado pelo conto premonitório do escritor de Ficção Científica Isaac Asimov, cuja adaptação ao cinema resultou no interessante filme “Viagem Fantástica” de Richard Fleischer (1966). Neste filme (vencedor de dois Óscares), um grupo de neurocientistas é miniaturizado - chegando ao tamanho de uma molécula de glicose - e enviado, a bordo de uma nave, ao cérebro de um paciente em coma para o operar, percorrendo para isso a sua corrente sanguínea e todos os perigos inerentes. Hoje em dia, com a nanotecnologia, já é possível à realidade imitar a ficção (mas não ainda nos termos do filme citado). Filmes como "A.I." (2001) de Steven Spielberg parecem ter sido concebidos à luz da ideologia transhumanista.

Apesar do Transhumanismo constituir, por assim dizer, uma das manifestações mais arrojadas da cultura tecnológica do nosso tempo, não é por isso que não deixa de suscitar controvérsia nos meios académicos. Francis Fukuyama, célebre autor dos livros “O Fim da História” e “O Nosso Futuro Pós-Humano” refere que "o Transhumanismo tem das ideias mais terríveis e destruidoras que conheço." Só que Fukuyama não especifica de qAdicionar imagemue forma. Estaria a referir-se à manipulação genética? Aos desafios da clonagem humana? À utilização “errada” da nanotecnologia? À possibilidade (bem real, mas ainda longínqua) da inteligência artificial poder suplantar a inteligência humana, como defendem muitos cientistas? A verdade é que o Transhumanismo, apesar dos seus princípios teóricos de beneficiação da condição humana com base na tecnologia aplicada às ciências (com o intuito de almejar a condição pós-humana), não deixa de levantar questões morais, éticas e até filosóficas.

No fundo, é o homem a brincar a Deus. Será este o caminho do futuro? De qualquer forma, o cinema representou ideias do Transhumanisno praticamente desde a sua génese, muito antes até de se saber o que era o Transhumanismo e o que esta corrente defendia. Estas ideias ficaram sobretudo expostas, directa ou indirectamente, em filmes de Ficção Científica tão marcantes como "Metropolis" até "Avatar".

Eis uma lista de dez filmes essenciais: Link.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Uma nova era para a imagem

Desde que conheci o alucinante e inovador espectáculo visual, "ISAM", do Amon Tobin que comecei a interessar-me, mais a sério, pela criação visual virtual e de "video mapping". Com a tecnologia digital e multimédia disponível, de há uns anos para cá, tem surgido uma nova geração de artistas visuais que inovam nos conceitos de espectáculo multimédia. A ambição é de tal ordem que já não chega apresentar os trabalhos em salas de espectáculos convencionais. Têm de ir para o exterior, aproveitando as fachadas de enormes edifícios para os transformar e lhes dar, digamos, "vida" (também recorrendo à tecnologia 3D).
O resultado é quase sempre um trabalho colossal de programação informática ao mais alto nível da sofisticação, um deslumbramento visual impensável há meia dúzia de anos atrás. É todo um mundo novo de imagens e experiências audiovisuais que se abre, com possibilidades plásticas e estéticas impressionantes. Há já, até, festivais internacionais dedicados a esta nova tendência artística. Já conhecia algumas experiências do género, mas fiquei hoje deveras impressionado quando me mostraram o vídeo em baixo. Trata-se de um colectivo de 4 artistas designado AntiVJ (considerado um dos melhores do mundo) que se dedica a intervir em espaços abertos, construindo para tal, trabalhos virtuais que desafiam o olhar.

Basicamente, é isto: uma projecção virtual de 5 minutos numa enorme fachada (lisa) de um prédio. O som e a música são essenciais para perceber a dimensão artística do feito (a sincronia entre imagem e som é perfeita). Há um imprevisível processo de metemorfose de formas, construção e desconstrução de linhas e texturas, como se do nada surgisse matéria e se transformasse a cada novo segundo. O público assiste ao vivo - certamente atónito - a toda esta parafernália visual. Dada a complexidade deste trabalho e ao facto de ser uma produção muito cara, apenas tem 5 minutos de duração, dos quais os últimos dois são verdadeiramente incríveis (o ideal é ver em ecrã cheio e com o volume de som elevado).
Uma nova era da imagem já começou, portanto.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Enquanto não vejo "O Mágico"...


Este é o filme que mais anseio ver neste final de ano e estreia esta quinta-feira em Portugal: "O Mágico" de Sylvain Chomet. Já tinha adorado o seu primeiro filme - "Belleville Rendez-Vous" (2003), e esta nova película de animação é ainda mais sugestiva pelo facto de se inspirar no universo do realizador Jacques Tati (assim como na sua personagem, o carismático e desastrado Sr. Hulot).
Enquanto não vejo "O Mágico" de forma a poder comentá-lo, relembro, a propósito de Tati, o que o cineasta francês referiu numa entrevista à revista Time, em 1958, data da estreia do filme "O Meu Tio" (na imagem), a propósito do paradoxo da modernidade:
"Vejam o que nos está a acontecer - esta especialização. A despersonalização está a tirar todo o significado humano à nossa vida quotidiana. Um homem costumava orgulhar-se da forma como conduzia. Agora um carro guia-se sozinho. Uma mãe costumava orgulhar-se dos seus bolos. Agora eles fazem-se sozinhos. Um rapaz costumava orgulhar-se das coisas que inventava para brincar. Agora está soterrado em brinquedos feitos em fábricas. É triste , não é?"
Essa é uma questão ainda premente na cultura de hoje: a de saber se a evolução tecnológica contribuiu, ou não, a despersonalização das relações humanas e, consequentemente, do sentido de liberdade individual. Um dos grandes críticos da sociedade tecnológica, Paul Virilio, admite que sim, que a tecnologia acabou por afunilar a liberdade do cidadão, derivado da vigilância electrónica do Estado em nome da segurança global.
Virilio critica também o uso da tecnologia em nome da evolução da sociedade, sem olhar aos efeitos colaterais nefastos que, potencialmente, produz no homem.
Claro que era impossível para Tati antecipar a grande revolução tecnológica de hoje (se até Bill Gates se enganou...), e o que ele criticava era, no fundo, as profundas mudanças de hábitos sociais dos anos 50 condicionados pela pretensa modernidade da mecanização da sociedade de consumo e de massas - desde o tráfego automóvel, o comércio, os pequenos utensílios tecnológicos domésticos, a arquitectura massificada das grandes cidades, etc.
Tudo isto condicionou um certo tipo de vida e de relações humanas, que sempre foram mais genuínas e espontâneas na sociedade pré-tecnológica.
Em relação à opinião de Tati propriamente dita, convém enfatizar o ano em que foi proferida: 1958. Nessa altura, a sociedade de consumo e da cultura massificada era um fenómeno crescente e real. E passados mais de 50 anos, só resta outorgar visão a Tati na sua feroz crítica ao excesso de tecnologia mecanizada na vida social contemporânea.

sábado, 9 de maio de 2009

O robô poeta


Leonel Moura, um dos mais destacados investigadores na área da robótica na arte e da inteligência artificial, já tinha concebido um robô pintor, como referi neste post. Fruto do seu trabalho assaz inovador, o artista plástico e cientista português que trabalha há anos na investigação da chamada "criatividade artificial", criou um robô... poeta. Chama-se ISU, e tem esta estranha aparência que a imagem revela (parece mais um camião de brincar sofisticado do que um poeta visual). Desenganem-se os cépticos se julgam tratar-se de uma provocação ao mundo da arte. É o próprio Leonel Moura que afirma: "As máquinas, quando dotadas de autonomia e alguma inteligência, conseguem gerar determinadas criações originais independentes do humano que esteve na origem do processo".
ISU é capaz de realizar composições pictóricas baseadas em palavras, graças a um sistema de sensores que lhe permite criar obras com base na informação que recolhe à sua volta, de modo a que nunca cria dois trabalhos iguais. O nome ISU advém de Isidore Isou, o criador do chamado "Letrismo" (que influenciou movimentos literários artísticos de vanguarda).
Ora, ISU, o primeiro poeta das máquinas criativas, acaba de editar o seu primeiro livro de poemas, cuja apresentação aconteceu no Museu da Água de Coimbra. "Os poemas reunidos neste livro foram realizados durante o período de uma semana. Dotado de um dicionário baseado num conjunto de poemas de autores conhecidos - com destaque para Herberto Helder - ISU produziu cerca de uma centena", explica Leonel Moura.

domingo, 15 de março de 2009

O "Cine-Olho"


Rob Spence é um realizador e produtor canadiano. Nunca fez nada de relevante no passado para ser reconhecido, mas pelos vistos, vai fazer. Rob Spence perdeu um olho quando tinha 13 anos devido a um disparo fortuito de uma arma de fogo. Teve de remover o olho ferido e colocar um de cristal. Agora tem 36 anos e tomou uma decisão que pode mudar a sua vida: reuniu uma equipa de engenheiros e médicos com o objectivo de elaborar uma prótese ocular que consiga incorporar uma mini-câmara. Essa mini-câmara será composta por um microship capaz de filmar e transmitir tudo o que vê. 
Com as imagens recolhidas por essa espécie de olho robótico (chama-lhe "Eyeborg"), Rob Spence pretende fazer o primeiro documentário filmado com uma prótese ocular. O realizador quer, de igual modo, denunciar a fragilidade do direito à privacidade numa sociedade onde aumenta a vigilância global e tecnológica (imagino o que não fariam os serviços secretos de todo o mundo com um dispositivo como este para fins de espionagem internacional -  e não só). Há um ano, escrevi sobre o artista cibernético Stelarc, que implantou uma orelha no braço com fins estético-tecnológicos. O caso do realizador canadiano, apesar de algumas semelhanças com o do Stelarc, tem contornos e fins distintos. O "olho-câmara de filmar" de Spence parece inaugurar uma era na qual o corpo humano se transforma, à custa da tecnologia, numa espécie de humanóide (ou cyborg). 
Nos anos 20 do século XX, o realizador de vanguarda russo Dziga Vertov inventou o conceito "Kino-Glaz", ou "Cine-Olho": a câmara funciona como terceiro órgão ocular, instrumento que complementa o olho orgânico. Foi com a teoria do "Cine-Olho" que Vertov captou a realidade tal como ela era, filmando obras como "O Homem da Câmara de Filmar". Agora, Rob Spence, está a um passo de materializar, em termos absolutos e teóricos, o desejo do cineasta russo. Ou seja, um dia veremos na sala de cinema um documentário filmado integralmente por um "olho". 
Rob Spence tem um blogue - Eyeborg.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"Pangeia animal" em prol da paz


À primeira vista vemos que é a representação de um galo. Mas basta um segundo olhar mais atento para perceber que este galo está concebido com os continentes e países do planeta Terra que, juntos, configuram o animal, numa espécide de nova pangeia. É o resultado do projecto "Piece Together for Peace" (belo trocadilho), da japonesa Graflex Directions (o artista é Kentaro Nagai). A ideia deste projecto teve início com base no zodíaco japonês que contém 12 animais (galinha, porco, rato, coelho, etc). A partir dessa ideia, o objectivo era juntar os continentes de forma a dar-lhes forma animal, e neste sentido, apelar à união e paz entre os povos. Vale a pena espreitar os restantes 11 animais feitos a partir dos continentes. Criatividade visual sem espartilhos. Não é propositado, por certo, mas acho piada que, na imagem do porco, Portugal seja... o rabo!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O lugar às artes experimentais


Quem estiver em Madrid entre os dias 2 e 5 de Outubro, poderá assistir à 8ª edição do festival de música experimental ExperimentaClub. Um festival dedicado às correntes das artes audiovisuais de vanguarda – música experimental, improvisada, electroacústica, electrónica, vídeo-arte, instalação sonora, arte digital. Para além de concertos e performances de artistas de referência internacional, a programação conta ainda com conferências, workshops, ciclos de cinema e colóquios. Em Barcelona existe o festival Sonar, em Madrid há o ExperimentaClub. Muito bom. Aqui.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

George Antheil - Bad boy of music


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o poianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.

Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Conte: um artista cyberpunk






Christopher Conte é um jovem artista norueguês que mistura, nas suas elaboradas criações escultura, biomecânica, tecnologia robótica e ciências médicas. Utiliza materiais e peças do dia-a-dia para construir esculturas minuciosamente trabalhadas. Os objectos escultóricos de Conte são visualmente deslumbrantes, desconcertam pelo detalhe de construção, pela simbiose criativa e pela ambiguidade formal. Não é por acaso que se reclama herdeiro do artista H.R. Giger e se tornou uma figura relevante das artes cibernéticas contemporâneas. Prova disso foi a excelente reportagem que a incontornável revista Wired dedicou ao artista, assim como as exposições de sucesso crítico e de público.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A arte de RAP


Leonel Moura, artista plástico e investigador de inteligência artificial (na área da robótica), continua o seu pioneiro trabalho no campo da relação entre a arte e a robótica. Já aqui escrevi sobre o tema. Entretanto, o artista tem patente no seu espaço de exposição - "Leonel Moura ARTe", em Lisboa, os primeiros 12 desenhos realizados pelo robô pintor RAP (Robotic Action Painting). Leonel Moura advoga uma nova forma de expressão criativa com estes trabalhos efectuados por máquinas artificiais, programados para pintarem segundo padrões pré-definidos. Com a tecnologia a determinar o acto "artístico", o conceito de criação artística precisa de uma redefinição (precisa desde Duchamp...), de um novo entedimento conceptual. A tecnologia aliada à arte ou a arte subjugada à tecnologia?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

3D - revolução a caminho

Há dois anos passei pela experiência de ver cinema não em 3D, mas em 4D. Foi no cinema do parque de diversões do Zoomarine, em Albufeira, naquela que é a primeira sala do país com tecnologia digital de ponta preparada para tal efeito. A quarta dimensão caracteriza-se por incluir elementos ligados aos cinco sentidos, como o vento, a água ou os cheiros para aumentar a sensação de realismo e de envolvimento sensorial. O curto filme abordava as questões do aquecimento global, da exploração dos oceanos e da destruição das florestas húmidas e tropicais. Foram apenas 15 minutos de projecção, com os tais óculos indispensáveis, mas confesso que fiquei impressionado com o poder de emersão que as imagens e todo o ambiente à volta geraram nos espectadores (e as minhas filhas pequenas que o digam!). Alturas houve em que o espectador sentia estar no meio do oceano e ter que se desviar dos tubarões ameaçadores.
O filme U23D dos U2, que neste momento se encontra em exibição em salas tecnologicamente preparadas para o efeito, não possui os elementos reais do 4D - água, vento ou cheiro. Mas pelas experiências já vividas por espectadores e críticos de cinema, consta que a experiência é avassaladora: a sala transforma-se mais numa sala de concerto (em que o espectador se sente no meio da acção) e menos numa sala convencional de cinema. A pergunta instala-se: qual o futuro do cinema? Até que limites a tecnologia continuará a desenvolver a linguagem e a experiência do cinema? Quais as fronteiras que o digital irá impôr no domínio do entretenimento?
Nota: para o Verão está já anunciado um novo filme com visionamento 3D: "Viagem ao Fundo da Terra". O fenómeno promete.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Não é só uma questão de estilo

Reparem qual a etiqueta deste post: "Arte e tecnologia". Não podia ser de outra forma. O novo MacBook é arte. E tecnologia. Muita. Não vai ser Natal brevemente?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Onedotzero - aventura na imagem animada


O mundo da criação audiovisual digital contemporânea é um mundo inesgotável de criatividade e de imaginação. A linguagem do cinema transmuta-se em estilhaços estéticos e formais impossíveis há apenas 10 anos atrás. A tecnologia digital impõe novas formas de olhar a imagem, promove a inovação radical, a fusão de linguagens e a mutação de expressões artísticas – sobretudo centradas na música e na animação computorizada. Há muitos festivais dedicados à exploração e divulgação do cinema digital, mas aquele que tem sido o mais reconhecido internacionalmente é o Onedotzero (em Inglaterra). Onedotzero é um misto de festival, de conceito artístico e de editora (já lançou 5 DVD com a melhor produção audiovisual dos últimos anos). De resto, o lema do festival é mesmo "Adventures in Moving Image". Nos 5 DVD (tenho dois) podemos conhecer algumas da melhor produção audiovisual e digital do mundo inteiro, a vanguarda da vanguarda estética, seja em formato do videoclip, seja em curta-metragem de animação 3D, seja num misto de tudo e mais alguma coisa. O certo é que o futuro da criação digital passa por aqui. Espreitemos uma fascinante amostra do que de melhor tem para oferecer o 5º DVD lançado pela onedotzero (reunida em 3 singelos minutos):

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Animusic - música animada

A Animusic é uma empresa americana especializada em animação 3D digital e criação de música MIDI. Até aqui nada de novo, uma vez que há centenas de empresas do ramo a trabalhar nesta área de investigação/criação. O que torna a Animusic única é o resultado do seu trabalho: criações visuais e musicais surpreendentes, de grande refinamento estético e nas quais a música desempenha (ao contrário do habitual) o papel principal. Ou seja, as animações digitais da Animusic exigem um elaboradíssimo e moroso trabalho de criação, pré-produção e produção, de forma a que o resultado seja desafiante para os sentidos. O imaginário criado, os ambientes virtuais, os instrumentos bizarros que produzem sons, os músicos robotizados e a sincronia perfeita entre música e imagens, torna os trabalhos da Animusic únicos no panorama audiovisual contemporâneo. Esta empresa editou até à data dois DVD contendo compilações dos melhores momentos (eu tenho o primeiro, lançado em 2004).
Veja-se este exemplo de criatividade:


Há mais exemplos, basta ir ao youtube.