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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Um disco seminal do rock

Na lista dos "50 Discos Que Toda a Gende Deve Ouvir" elaborada pelo semanário Expresso, há um destaque a um disco que me é muito especial (marcou-me como melómano e influenciou-me como músico). Trata-se de "The Ascension" (1981) de Glenn Branca. O texto referente a este disco é assinado pelo crítico João Lisboa que, sabiamente, o considera fundamental para compreender as últimas décadas de história do rock (curiosamente, contrapõe esta obra de Branca com os 4'33'' de silêncio de John Cage).
Ora, porque é que este disco é tão especial e importante? Basicamente, porque, em 1981, Glenn Branca, em plena era revolucionária do movimento No Wave, esventra por dentro a estética do rock e explora novos domínios sónicos e sonoros. Com base em quatro guitarristas (dois dois quais elementos dos futuros Sonic Youth), um baterista e um baixista, Glenn Branca criou um rock instrumental de pendor formal quase sinfónico, recorrendo a riffs minimalistas e ritmos quase de um rigor mecânico (herança do Krautrock).
"The Ascension" é, por isso, um disco extremamente influente e visionário, prenhe de uma intensidade e de uma densidade completamente original à altura. Sem este disco e sem a visão iconoclasta do rock de Branca, não teria havido Sonic Youth, My Bloody Valentine, The Jesus & Mary Chain, Spacemen 3, e tantos e tantos outros grupos que recorreram à guitarra eléctrica como fonte de explosão sonora.
Em 2006 tive a oportunidade de entrevistar telefonicamente o músico Glenn Branca para a revista Mondo Bizarre. O resultado da entrevista pode ser lido abrindo este link.
Entretanto, caro leitor, aumente o volume dos altifalantes e carregue em play para ouvir (se conseguir) na íntegra esta obra fulminante da história do rock:

sexta-feira, 28 de março de 2008

Jarboe - é impossível explodir o vazio


Houve um tempo em que Nova Iorque era o centro nevrálgico da actividade musical dita underground. Na era pré e pós No-Wave, no final dos anos 70, a emergência de novas propostas, arriscadas e nervosas, transformou-se num fluxo prolífero de renovadas linguagens estéticas. Cruzaram-se múltiplas sensibilidades musicais e abriram-se horizontes imprevisíveis no espectro da música rock (e não só). Desse caldeirão de novas referências, podemos referenciar músicos e bandas como Glenn Branca, Lydia Lunch, Foetus, Sonic Youth, Teenage Jesus and The Jerks e, inevitavelmente, os Swans. Michael Gira, o líder desta banda marcante nas décadas de 80 e 90, soube como poucos traduzir em sons a efervescência existencial (sexo, morte, religião, decadência, podridão eram temas recorrentes) em perturbantes e negros registos como “Cop” (1984), “Greed” (1986) ou o fundamental “White Light Form The Mouth of Infinity” (1991). Como complemento vocal (e instrumental, nos teclados), havia nos Swans um discreto mas influente elemento: Jarboe. A sua voz, ora melodiosa, ora irascível, tornou-se numa referência absoluta no panorama das vocalistas femininas do espectro rock e experimental, onde pontuam também os nomes incontornáveis de Diamanda Galás e Lydia Lunch.Ainda na regência dos Swans, em finais dos anos 80, surge um dos mais interessantes projectos paralelos à actividade do grupo, os Skin, fruto da cumplicidade entre Michael Gira e Jarboe. Desta efémera aliança surgiram dois excelentes álbuns - “Blood, Women, Roses” de 1987, e “Shame, Humilty, Revenge” de 1988. Depois do fim da carreira seminal dos Swans, Jarboe trilhou um percurso musical próprio, feito de colaborações diversas e de discos cada vez mais pessoais e intimistas, não deixando de lado a faceta mais negra e experimental que sempre a caracterizou. Por seu turno, a veia criativa de Jarboe expandiu-se para novos territórios de exploração e novas congeminações musicais. Álbuns a solo como “Beautiful People Ltd” (1993) e “Sacrificial Cake” (1995), este último editado pela Alternative Tentacles, confirmaram Jarboe como uma intrépida exploradora de emoções e pesquisadora de soluções sonoras surpreendentes (nomeadamente, com a introdução de samples electrónicos).
Em 1998,
“Anhedoniac” vê a luz do dia. Registo duro e directo, no qual Jarboe, como é seu apanágio, transgride e subverte todos os limites: estilhaça qualquer vislumbre de formato de canção, alterna melodias encantatórias com devaneios guturais, constrói labirínticos puzzles instrumentais e abre a porta da colaboração a gente da electrónica experimental como os Pan Sonic. O disco “Anhedoniac” foi posteriormente reeditado pela editora Atavistic, num trabalho de remasterização, novo design gráfico e com “bonus tracks”. Sob a máxima “You Can’t Explode What’s Empty”, Jarboe expõe os males do mundo numa descarnada entrega emocional. Musicalmente, a ex-Swans vagueia por entre músicas lamurientas, densas e repletas de insinuações inquietantes sobre a condição humana no mundo moderno. Jarboe cruza texturas aparentemente desconexas, cria ambientes soturnos e alegóricos, provoca e desconcerta o ouvinte. No fundo, tal e qual como fazem todos os grandes artistas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A vanguarda mesmo aqui



Este site é um poço sem fundo. De qualidade e de descoberta. A UbuWeb (ou simplesmente Ubu) foi fundada em Novembro de 1996, inicialmente como um depósito de poesia visual e concreta e, mais tarde, também sonora. Com o passar do tempo, este site foi abarcando todas as formas de manifestações artísticas de vanguarda – do cinema à música, da performance às artes visuais. Aqui podemos encontrar obras de grandes criadores do Século XX; ver filmes, ouvir músicas, ler textos e poesia das correntes mais experimentais e conceptuais. Podemos ver filmes pouco conhecidos de artistas consagrados como Samuel Beckett (na foto), Peter Greenaway, David Byrne, Jean Cocteau, Salvador Dali, Jean Genet, Jonas Mekas, Meredith Monk, Dziga Vertov entre dezenas de outros. De igual modo, podemos descarregar músicas e poesias sonoras de John Cage, Glenn Branca, Hugo Ball, Derek Bailey, Roland Barthes, grupo Fluxus, etc. Um impressionante manancial de informação rigorosa sobre as principais expressões artísticas de vanguarda do último Século e da contemporaneidade. A descobrir obsessivamente. Aceder aqui. Particularmente interessante é a secção sobre cinema da transgressão.

sábado, 24 de novembro de 2007

Glenn Branca - ruído branco


É um dos músicos mais respeitados dos últimos 30 anos. Figura ímpar da cena musical nova-iorquina de vanguarda, Glenn Branca cilindrou a linguagem rock convencional com as suas sinfonias de guitarras noise nos anos 70, tendo influenciado nomes como Sonic Youth. Entrevista ao músico, directamente de Nova Iorque.

A sua relação com a música começou na segunda metade dos anos 70, com a explosão do movimento No Wave em Nova Iorque e com músicos como Lydia Lunch, Arto Lindsay, Teenage Jesus and the Jerks e Suicide. Olhando para o passado, considera que esse foi um momento importante para a sua evolução musical?
Sim, foi uma surpresa para mim todo esse movimento. Eu vim para Nova Iorque nos anos 70 para fazer teatro e fazia muita música para teatro, mas não tinha perspectivas de fazer carreira como músico. Todavia, sempre quis formar uma banda rock desde que aprendi a tocar guitarra, com os meus 15 anos. Quando cheguei a Nova Iorque estava o movimento punk no auge e foi algo muito excitante para mim. Entretanto, conheci um músico no teatro que também tinha desejo de formar uma banda rock e demos início a uma banda. Foi um processo muito rápido: formámos a banda em poucas semanas, arranjámos concertos e audiência num ápice. Ambos tínhamos interesse em todo o tipo de música experimental, fosse na forma de jazz, de rock ou de música clássica contemporânea.

Na verdade, a sua música nunca se cingiu apenas ao rock. Costuma dizer que o jazz ou compositores contemporâneos minimalistas como La Monte Young ou Philip Glass, foram importantes para si. Como lida com estas referências tão díspares?
Bom, para mim isso nunca constituiu problema. Eu estudei música e nunca senti qualquer estranheza em gostar de diferentes referências musicais. Podia ouvir num minuto os Beatles e os Kings e, no minuto a seguir, Mahler e Penderecki, e depois, Miles Davis ou Brian Eno. Nunca me importei com essas diferenças convencionais entre géneros musicais, o que importava mesmo eram as ideias, a criatividade dos músicos e as experiências estéticas que retirava de cada artista, de cada disco.

Fale um pouco sobre o seu método de composição. Por exemplo, como é que faz para juntar o minimalismo e a “teoria da afinação” de La Monte Young com a energia do rock de guitarras?
Humm... É uma boa pergunta! Eu sempre gostei de música rock intensa e enérgica, e o tipo de compositores contemporâneos que ouvia era gente como Ligeti e Stockhausen. Eram estes os compositores que eu achava serem aqueles que faziam música mais intensa. Fazia sentido eu gostar de música intensa e brutal e deixar-me influenciar por esses compositores que eu gostava de ouvir em casa com o volume bem alto. O tipo de teatro que fazia também comungava dessa intensidade, desse espírito de confrontação estética.

Gosta da palavra experimental para classificar a sua música?
Sim, essa é a palavra que sempre gostei e que sempre usei para caracterizar o meu trabalho desde os anos 70. O movimento No Wave foi um movimento que eu considero ter sido experimental, ainda que mais tarde tenha sido chamado de Art-Rock, uma designação que eu julgo ser terrível e desajustada, até porque era confundida com o rock progressivo inglês que na altura estava também a ter muita aceitação.

Dissonância, consonância e caos são também três conceitos que lhe dizem muito respeito nas suas criações. É um trabalho difícil conjugar estes três tipos de abordagem ao som?
Esse tem sido o grande desafio e a parte interessante da minha actividade musical. Quando me apercebi que podia misturar esses conceitos – algo que eu procurava concretizar de forma consciente e deliberada – conclui que o resultado podia ser muito estimulante e criativo. É um trabalho que compositores clássicos já tentaram fazer há muito tempo, como Mahler, ainda que a dissonância explorada por este compositor não fosse muito proeminente, comparando com a minha abordagem que é bem mais extrema.

Ao longo da sua carreira editou diversas sinfonias pelas quais é mais conhecido. A sua intenção ao usar o termo “sinfonia” vai no sentido de dar outro significado à palavra e de se afastar, deliberadamente, da conotação rock?
Não, eu escrevi sinfonias simplesmente porque queria escrever sinfonias, e foi o que fiz. Não tive qualquer outra intenção, como se depreende das suas palavras.

Contudo, as suas obras foram já interpretadas por sinfonias clássicas como a The London Sinfonietta. Como lida com esta confrontação entre a música dita convencional e os conceitos avantgarde?
Isso nunca foi um problema para mim. Os chamados músicos convencionais estão, na verdade, muito familiarizados com técnicas avantgarde. Aquilo que faço é muito menos avantgarde do que Xenakis, John Cage ou Morton Feldman. Essa transição e conexão entre esses dois universos foi sempre, para mim, natural.

A sua música influenciou muitas bandas importantes do rock dos anos 80, como Sonic Youth ou My Bloody Valentine. Disse numa entrevista recente que já não ouve música rock. Significa que o panorama rock actual já não é suficientemente excitante para si?
Detesto dizer que é verdade. Por vezes ouço uma ou outra banda de que gosto, mas na generalidade não me interessam muita essas bandas que fazem parte de movimentos de moda, acho-as extremamente aborrecidas. Por isso prefiro ouvir coisas como Sonic Youth ou Swans.

Continua a viver e a trabalhar em Nova Iorque. Mesmo depois do 11 de Setembro, esta cidade continua a exercer grande influência e inspiração em si no que diz respeito à parte criativa?
Bom, eu não costumo ser influenciado por acontecimentos. É um erro pensar que a minha música é inspirada pela cidade e seus diversos acontecimentos. A música tem mais a ver com ela própria, não precisa de mais referências para se justificar. A música que escrevo deriva de um processo muito técnico e laborioso, e não tem tanto a ver com conceitos como o mal, a destruição ou o caos. A música que faço tem mais relação com noções de intensidade, consciência e exploração de novas ideias.

Sabia que o seu apelido em português significa “branco”? Por causa disso, um amigo meu costumava chamá-lo de “Glenn White-Noise”, num trocadilho entre o seu nome Branca e um certo noise que pratica.
(risos) Ah! Gosto dessa descrição! Branca é um apelido italiano, e já sabia que significava branco (white), mas esse trocadilho é realmente divertido e, mais importante, apropriado.

Entrevista conduzida por Victor Afonso para a revista Mondo Bizarre.