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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Que grande ano literário...

Que grande ano literário seria 2011 se surgirem edições de novos livros de Oliver Sacks, Sam Harris, Bret Easton Ellis, Paul Auster, Martin Amis, Antonio Tabuchi, Slavoj Zizek, Alex Ross, Günter Grass, Richard Dawkins, Ian Kershaw, Philip Roth, Comarc McCarthy, Denis Johnson, Jonathan Littell, Julio Cortázar, Kjell Askildsen, Chuck Palahniuk, Gilles Lipovetsky, Cristopher Hitchens, Jonah Lherer, Orhan Pamuk, Imre Kertész, Francis Fukuyama, Umberto Eco, Bill Bryson, J.M. Coetzee, Bernard-Henri Levy, Le Clézio, Pedro Mexia, Eduardo Lourenço, Maria Filomena Mónica, António Barreto ou José Gil.
Era bom, não?

sábado, 24 de janeiro de 2009

O império do efémero


A designer de moda Ana Salazar revelou ao semanário Expresso que o livro da sua vida é "O Império do Efémero" do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Saúdo a excelente escolha, mais a mais, pelo facto do livro em questão ser um ensaio sociológico e cultural que arrasa a sociedade de consumo em todas as suas manifestações (nas quais se inclui a moda). E para quem, como Ana Salazar, se movimenta profissionalmente no mundo da moda há 30 anos - que é um dos fenómenos desse "império do efémero" - o livro escolhido pela estilista revela distanciamento crítico e pertinência intelectual.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Mensagem de Natal com óculos especiais


Vi no cinema "Bolt", o filme de animação da Disney. Sem ter a espessura visual e o arrojo narrativo do magnífico "Wall.E", "Bolt" não deixa por isso de ser um digníssimo filme de animação que diverte miúdos e graúdos. Espanta o grau de sofisticação e perfeição actual da animação digital, mais a mais, tendo em conta que o filme da Disney é projectado num sumptuoso sistema a três dimensões.
Para usufruir das maravilhas do 3D, foi preciso pagar mais 1,5€ pelos óculos especiais. Uns óculos de massa pretos e com lentes leigeiramente escurecidas. Estes óculos especiais fizeram-me lembrar um filme de culto muito interessante de John Carpenter - "They Live" ("Eles Vivem", 1988). O filme de John Carpenter conta a história de um pacato cidadão desempregado que anda à procura de emprego. Um dia, encontra uns óculos escuros que o fazem ver o mundo como ele realmente é e não como as aparências mostram. Um mundo subjugado por uma raça alienígena, que está entre nós, disfarçada de humanos normais. Um mundo que lembra a "Alegoria da Caverna" de Platão (o próprio filme "Bolt" versa sobre o tema, uma vez que o cão julga viver numa realidade que não é "real"). Um mundo povoado por sombras projectadas pela realidade escondida. Um mundo adormecido e submisso por poderes superiores e bem escondidos - é clara a crítica política e social de Carpenter - que impede que se coloquem em causa os problemas da sociedade e as políticas governativas. Com os óculos especiais, muito parecidos com esses do 3D do cinema, o personagem via um mundo de alienígenas de aspecto cavernoso e ameaçador, assim como mensagens subliminares transmitidas pelos diversos media:

Obedeçam!
Comprem!
Vejam TV!
Submetam-se!
Mantenham-se calmos!

John Carpenter, com a metáfora filosófica de "They Live", mostrou como os poderes instituídos (no filme os aliens funcionam como meras parábolas) podem engendrar sistemas de controlo do indivíduo, numa extensão da visão da manipulação social pensada por George Orwell em "1984". Às vezes penso que a ficção se adianta à realidade. Vivemos numa sociedade hiper-consumista como o filósofo Gilles Lipovetsky não se tem fartado de criticar. Esta sociedade na qual julgamos obter a felicidade através de bens de consumo material, através da obediência cega às autoridades que supostamente "sabem" mais do que o comum dos mortais anónimos.
Uma sociedade que precisava de uns óculos especiais para descobrir o verdadeiro mundo oculto, podre e corrupto, que se esconde por detrás de grandes nomes, grandes instituições, grandes políticos e grandes empresas supostamente impolutas. Se pudéssemos usufruir desses decisivos óculos especiais para descortinar a verdadeira realidade que se encobre por detrás das campanhas de solidariedade beneméritas, dos interesses financeiros à escala global, dos jogos políticos de bastidores, das manipulações informativas perpretadas pela comunicação social, das manobras de propaganda económica e política, conseguiríamos ver, não sem perplexidade envergonhada, a perversidade, a vileza, a infâmia, a sordidez, a ganância, a ânsia de poder, e a escória que brota dos seres humanos que se julgam acima de outros seres humanos, limitando o exercício de liberdade individual. Mesmo - e sobretudo - nesta época natalícia. Mas ainda que não tenhamos os óculos especiais para conhecer a verdadeira realidade, teremos sempre uma ferramenta para combater o conformismo e a submissão: espírito crítico.
E é esta a minha "mensagem" de Natal para todos.

domingo, 28 de setembro de 2008

Vivemos uma felicidade paradoxal


Em 1993 li um livro que produziu em mim uma nova visão sobre o mundo, um livro radical e ousado escrito por um filósofo francês que viria a ser um dos grandes críticos da sociedade de massa (não sem controvérsia, como convém): Gilles Lipovetsky. O livro chamava-se "A Era do Vazio - Ensaio Sobre o Individualismo Contemporâneo" (Relógio D'Água, 1989). O autor fazia uma crítica profunda dos paradigmas da sociedade contemporânea, analisando as relações sociais, a falência do modelo pós-moderno, a crise do liberalismo galopante, a crise da cultura de vanguarda, hoje assente em manifestações estereotipadas e inconsequentes. Eis a observação mais pertinente de Lipovestsky acerca do estado actual da arte: "A moda dos 'ismos' já passou. As manifestações estrondosas do início do século, as grandes provocações, deixaram de ser apreciadas hoje em dia. Perda de fôlego da vanguarda, tal não significa que a arte esteja morta, que os artistas já não tenham imaginação, mas que as obras mais interessantes se deslocaram, já não procuram inventar linguagens de ruptura. As experimentações continuam mas com resultados pobres, a arte conhece a sua fase depressiva. A situação pós-moderna da arte já não tem a ver com nenhum vector revolucionário, perdeu o seu estatuto pioneiro e desbravador, esgotou-se. O pós-modernismo não passa de um outro nome para designar a decadência moral e estética do nosso tempo."
Uns anos mais tarde, Lipovetsky lançaria outro livro arrasador sobre a sociedade contemporânea - "O Império do Efémero" - desta vez analisando o mundo da moda, da publicidade, das marcas de luxo e do entretenimento e de como estas componentes da vida social podem provocar a alienação do indivíduo. Há menos de um ano, O filósofo e ensaísta francês editou a sua mais recente e controversa obra: "A Felicidade Paradoxal - Ensaio Sobre a Sociedade do Hiperconsumo" (Edições 70), um olhar sobre a nossa civilização à luz de um novo estádio: o hiperconsumo. Lipovetsky defende que o consumidor moderno já não consome apenas objectos e bens, mas também cidadania, solidariedade, ética, ecologia que os media e as grandes instituições vendem ao cidadão comum. Todas as grandes instituições sociais são colonizadas pelo consumismo. Numa entrevista ao Público há um ano, Lipovetsky afirma: "O drama é que até os pobres são hiper-consumidores, não lhes basta comer, também aspiram à existência que vêem na publicidade e na televisão. O consumo tem uma função terapêutica, funciona como forma de esquecer os males da individualização: quando as mulheres estão deprimidas vãos às compras, é um lugar-comum. É uma pequena droga, equivalente à missa de antigamente. Existe hoje um consumo-mundo, justamente porque já não existe Deus. Hoje a própria religião entrou numa lógica de consumo. A sociedade democratizou o conforto e a qualidade de vida, mas o indivíduo, divorciado da política e do interesse colectivo, centra-se num total individualismo e na busca pelo prazer através do consumo."
Gilles Lipovetsky, apesar de não ter sido o primeiro pensador a reflectir sobre a sociedade de consumo, apresenta neste seu último livro uma visão extremamente actual e pertinente das relações do homem com os estímulos que o rodeiam, escalpelizando de forma crítica, os pequenos males que corroem os alicerces da nossa sociedade. Pequenos males que fomentam este estado de "felicidade paradoxal" em que vivemos.

sábado, 21 de junho de 2008

Um crítico musical à margem


A música não é só ouvida. É também lida. E sobretudo em livros tão bons quanto este, que pretende analisar as múltiplas ramificações da chamada música de "vanguarda". Na sua já considerável travessia jornalística por variados jornais de relevo - do "Jornal de Letras" ao "Blitz", d' "O Independente" ao "Expresso" (para já não citar publicações estrangeiras) - Rui Eduardo Paes tem-se dedicado, afanosamente - e não raras vezes enfrentando obstáculos à sua actividade - ao estudo e divulgação das chamadas "novas músicas". Eis o seu último manifesto.
De que fala este livro intitulado «Phonomaton – As Novas Músicas no Início do Séc. XXI» de Rui Eduardo Paes? Fala, na essência, sobre o mesmo que os seus três livros anteriores – todos editados pela Hugin (e com distribuição nas boas livrarias): a problemática das músicas contemporâneas de índole experimental e a significação das estéticas de ruptura face aos valores culturais instituídos. Dito de outro modo, aborda todas as expressões artísticas tidas como de vanguarda, nas suas múltiplas formas e configurações - música electroacústica, improvisada, electrónica, multimédia, erudita contemporânea, computer music, novo jazz e outras derivações estéticas radicais e alternativas face à cultura "mainstream" dominante.
Rui Eduardo Paes tem sido uma voz crítica única no panorma jornalístico nacional e, neste trabalho em particular, recorre a uma argumentação extremamente bem urdida, lúcida e com uma visão histórica dos factos simultaneamente original e pertinente. Analisa eloquentemente os fenómenos artísticos, disseca-os com auxílio de teorias não só musicais como filosóficas e literárias, citando para tal autores tão prementes para a cultura contemporânea como Virilio, Camus, Borges, Sartre, Lyotard, Deleuze, Debord, Heidegger ou Cioran. Além disso, explora a congeminação de relações entre distintas áreas do pensamento ensaístico, tentando estabelecer elos de ligação entre correntes específicas do pensamento artístico (surrealismo, dadaísmo, pós-modernidade, teoria do Caos, minimalismo, nihilismo...) com outras tantas correntes musicais e artísticas (free jazz, música concreta, electrónica, improvisação, instalações multimédia, cinema experimental, pintura conceptual...).
Rui Eduardo Paes contribui assim, com esta obra e com o conjunto dos seus livros (ver no seu site), para a clarificação histórica e evolutiva dos processos criativos mais avançados da cultura contemporânea, dando um especial destaque (com entrevistas) ao panorama nacional e seus principais intérpretes: Rafael Toral, Major Eléctrico, Miso Ensemble, Telectu, Carlos Zíngaro, Emídio Buchinho, Vitriol, René Bertholo, etc.
Não se veja em "Phonomaton" um estudo académico de musicologia; Rui é avesso a redundantes academismos formais. Não é, igualmente, um livro sobre objectos culturais fáceis e imediatos. O livro representa antes uma plataforma de análise e de reflexão múltipla sobre as músicas emergentes do século XXI (e suas correspondentes ramificações noutras artes), num âmbito quiçá distante do senso comum e da superficialidade crítica. De qualquer modo, este sensível manifesto de Rui Eduardo Paes, essencial para quem gosta de música, revela-se também intelectualmente estimulante para qualquer leitor avesso à massificadora sociedade do espectáculo - e todas as suas referências culturais adjacentes -, a mesma sociedade à qual o fulminante pensador Gilles Lipovetsky classificou de "era do vazio".