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domingo, 23 de novembro de 2014

Kubrick na rádio

Crónica radiofónica ("Teoria da Evolução") sobre quando Stanley Kubrick recusou a música original de Alex North para o filme "2001 - Odisseia no Espaço".

domingo, 23 de março de 2014

Tarr e Vig na rádio

Mensalmente colaboro com uma rádio local (Rádio Altitude) com uma rubrica chamada "Teoria da Evolução". Nesta rubrica radiofónica abordo assuntos culturais. Neste caso, faço uma breve resenha sobre o cinema de Béla Tarr e o seu compositor favorito, Mihály Vig
Para escutar, basta clicar no play.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dia Mundial da Rádio


Há uns anos, o saudoso radialista António Sérgio respondia assim à pergunta da revista BLITZ - "Quais foram para si os anos áureos da rádio em Portugal?"
António Sérgio - "Os anos dos programas de autor na antiga Rádio Comercial, ainda pertencente à RDP. A rádio era ouvida com uma clubite muito especial. Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos. Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos - as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música."
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É disto que se trata. A rádio portuguesa já não incentiva ninguém a comprar música, a motivar a paixão pela música. Nas palavras de António Sérgio: já não "incendia o imaginário dos ouvintes".
A rádio precisa de um abanão. Precisa de renovar a sua função como meio de comunicação, dado que a internet lhe roubou o protagonismo. Já não se sente o mesmo prazer a ouvir rádio como há 10 ou 15 anos atrás, com programas de autor como os de António Sérgio, Aníbal Cabrita, Rui Morrison, ou Luís Filipe Barros e dos programas da XFM.
A rádio deve livrar-se das convenções, da pressão dos critérios economicistas e da ditadura das audiências/playlists. A formatação generalizada da rádio portuguesa é deprimente. A letargia criativa e a falta de conhecimentos dos radialistas são notórias. Depois do despedimento do último grande radialista nacional e responsável por alguns dos melhores programas de rádio de autor - António Sérgio, não resta quase ninguém. Sobram algumas rádios universitárias, com tendência independente e de forte marca autoral (RUC e RUM).
Em Espanha, o panorama das rádios nacionais é totalmente diferente. Para (muito) melhor. Primeiro, a percentagem de música espanhola que passa nas rádios é significativamente maior do que a de origem anglo-saxónica; segundo, há tanto espaço para divulgar os músicos consagrados como as bandas em início de carreira, com um notável empenho e interesse por parte das rádios. Os programas de rádios espanhóis de autor não se limitam a passar música para preencher o éter hertziano. São criteriosos, informados, esclarecidos, actualizados, cultos, com conhecimentos de música.
Ou seja, atributos que não fazem parte da maior parte dos animadores de rádio nacionais (salvo honrosas excepções, todas da Antena 2 e 3). É claro que os espanhóis têm dois defeitos que os portugueses se orgulham de não ter: têm péssima pronúncia inglesa e falam frequentemente no meio das músicas (mas estes dois pormenores são menores comparados com as características positivas acima referidas).
A Radio 3 espanhola, emissora nacional de serviço público, tem programas de grande qualidade, num horário consecutivo - de manhã à noite. Podemos ouvir, em horário nobre, world music, jazz, rock experimental, clássica, electrónica, flamenco, debates sobre livros, cinema e arte, etc.
Com o estado actual das rádios portuguesas apetece trazer de novo as rádios piratas dos anos 80!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Woody Allen "dá sono"

Há uma rubrica matinal na rádio Antena 3 que se chama "Serginho na Farmville", cuja autoria é de um tal Serginho com pretensões a humorista (mas o seu humor é completamente rasteiro e sem graça nenhuma). A dita crónica tem a duração de uns escassos dois ou três minutos, nos quais Serginho dispara opiniões de pendor satírico sobre um pouco de tudo. Sempre que o ouço, quase nunca lhe acho piada. Destila um humor de pacotilha, previsível e sem rasgos de invenção, sempre recorrendo à mesma fórmula de crítica social e cultural de nível "revisteiro".
Hoje, particularmente, achei o programa lamentável. Entre outras coisas, Serginho refere que os filmes de Woody Allen, James Cameron e Fonseca e Costa lhe dão sono e que não suporta a "arte intelectual." Serginho pode ter a opinião que quiser, mas a forma como manifestou total desprezo pelo cinema de Woody Allen e outros dislates semelhantes, sem qualquer tipo de humor e coerência, revela uma mentalidade completamente preconceituosa e supérflua.
Para ouvir a crónica, abrir aqui.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dia Mundial da Rádio

Eis dois brilhantes filmes sobre o fenómeno da rádio em tempos idos: "Talk Radio" (1988) de Oliver Stone e "Radio Days" (1987) de Woody Allen.
Ambos são pouco conhecidos e referenciados na filmografia de cada um dos realizadores, mas são duas obras belíssimas sobre o impacto que a rádio, como órgão de comunicação, teve durante décadas junto da sociedade. Vi-os na altura das respectivas estreias e nunca mais os revi, mas recordo-me de ter gostado muito deles, cada um à sua maneira e com abordagens distintas.
O filme de Oliver Stone passa-se quase todo num estúdio claustrofóbico de uma estação de rádio de Nova Iorque, com um radialista nocturno que conta as mais mirabolantes histórias. Pelo meio há conversas controversas com ouvintes, facto que conduz à questão: qual é o verdadeiro limite comunicacional da rádio?
O filme de Woody Allen, por sua vez, procura abordar o papel da rádio nos tempos gloriosos dos anos 30 do século XX, quando era o principal meio de comunicação com a sociedade. O teatro radiofónico começava a despertar e a rádio era fonte de informação e entretenimento por excelência. Uma comédia de Woody Allen no seu melhor.
Dois filmes que olham para o fenómeno radiofónico sob olhares diferentes (mas ambos acutilantes) numa época em que a rádio perdeu muito do seu encanto e poder de sedução fruto de múltiplos factores.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Já chega de "Só Grandes Músicas"!


O semanário Expresso publicava esta semana um interessante artigo sobre os efeitos nem sempre benignos da música em excesso. E da necessidade do nosso cérebro trabalhar em silêncio. Mas na nossa era é praticamente impossível vivermos e trabalharmos sem música de alguma espécie. E os estabelecimentos e locais públicos são grandes responsáveis deste fenómeno. Sobretudo se estiverem a transmitir músicas de certas rádios...
É o caso da inefável RFM, a estação de rádio nacional especializada em divulgar os êxitos comerciais da actualidade, perdão, dos anos 80. A RFM, cujo ambicioso lema é "Só Grandes Músicas".

Entre-se em qualquer loja comercial, repartição pública, consultório, táxi ou café e as estatísticas provam que, se houver uma rádio sintonizada – na senda de querer dar musica ambiente ao cliente – há fortíssimas probabilidades de estar sintonizada na bolorenta RFM ou na esclerosada Rádio Comercial. Não falha. Como, ainda por cima, a cultura dos eighties está na moda, estas duas estações são as “special ones” na vanguardista tarefa de divulgar os hits de antanho do Elton John, do Lloyd Cole, do Phil Collins, do Rod Stewart, dos Waterboys ou bandas afins.

A música dos 90 ou da actualidade, praticamente não existe. Há quem goste de ouvir milhares de vezes as mesmas canções pop-corn de outrora (como em tudo na vida), mas no meu caso, quando entrei há dias numa loja e ouvi o locutor, expedito e expansivo, a anunciar a próxima “grande musica”, quase me deu vontade de ir ouvir antes um discurso político do Sócrates.
Ah, a grande música a que se referia o animador radiofónico era a “Dancer in The Dark” do boss Springsteen. Pois.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

45 anos de jazz radiofónico


Em 2011, o programa “Cinco Minutos de Jazz” de José Duarte comemora 45 anos de emissões! É o programa diário - de segunda a sexta - mais antigo da rádio portuguesa. A primeira emissão foi em 21 de Fevereiro 1966. A sua abertura e fecho pertencem já à história da rádio portuguesa. De Segunda a Sexta, na Antena 1 às 03:55 e 21:55.,”Cinco Minutos de Jazz” tem como objectivo divulgar música jazz de todos os estilos e de todos os anos - jazz de New Orleans, swing dos anos 30, bebop dos anos 40, big bands, hard bop dos anos 50, estilos que coabitam até com o free jazz ou com as novas tendências modernas.

José Duarte confessou um dia que, em conversa com um músico estrangeiro, referiu que mantinha há várias décadas um programa de apenas 5 minutos de jazz na rádio. O músico não acreditou. Não admira. O programa “5 Minutos de Jazz” deve ser caso único em todo o mundo, não só pela especificidade do próprio programa, como também pela longevidade. Por vezes acusado de conservador no gosto musical, a verdade é que José Duarte se tem revelado um incansável divulgador de jazz em Portugal. Parabéns, portanto.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As opiniões de Botelho


Ouvi quase na íntegra a entrevista do realizador João Botelho no programa "Prova Oral" da Antena 3, a propósito do seu último filme - "O Filme do Desassossego". E gostei do que ouvi. O João Botelho é um cineasta formado na velha e boa cinefilia dos anos 60, no "Cinema Novo", no gosto pelo cinema clássico europeu.
Eis algumas das opiniões e frases soltas que proferiu (desgarradas do contexto, eu sei, mas pronto, não consegui captar tudo...):
- O filme que gostaria de ter feito é "Amor de Perdição" de Manoel de Oliveira.
- O seu realizador preferido é John Ford e o seu filme preferido de sempre é "Young Mr. Lincoln" do mesmo realizador.
- Considera que hoje em dia os adultos já não vão ao cinema como antigamente; os filmes de Hollywood são direccionados para os adolescentes e jovens (faixa 14 - 22 anos). Referiu que certas séries televisivas norte-americanas são de melhor qualidade do que a maior parte do cinema de Hollywood.
- Preferia fazer um filme em Bollywood do quem em Hollywood.
- Conviveu, todos os dias, durante 4 anos, com João César Monteiro.
- Adora o cinema de Buñuel, Ozu, Bresson, Welles, Rossellini, Visconti, Ophuls, Oliveira...
- Aprendeu muito com o mestre Manoel de Oliveira. Uma vez este disse-lhe: "Se não tiveres dinheiro para filmar uma carroça, filma apenas a roda, mas tem é de ser bem filmada!"
- Teve contacto com o conteúdo da Arca de Fernando Pessoa há 30 anos, com os manuscritos, os óculos, e canetas do escritor.
- Considera que o actor que interpreta Bernardo Soares, Cláudio da Silva, é um misto dos actores Gael Garcia Bernal e Johnny Depp. Disse-lhe para nunca pestanejar durante as filmagens. O actor só pestanejou quando acendeu um cigarro.
- Podiam-se fazer dezenas de filmes diferentes a partir do "Livro do Desassossego" de Pessoa.
- Manoel de Oliveira "inventou" a "5ª idade" à qual espera chegar.
- Questionado sobre se gostaria de fazer um filme sobre futebol, Botelho referiu que não, porque o futebol é muito difícil de filmar, de captar as emoções do jogo. Gostou moderadamente do documentário de Kusturica sobre Maradona e do "Zidane - Um Reatrato do Século XXI".
- Do cinema contemporâneo gosta dos irmãos Coen, de Tim Burton e de Wes Anderson.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Discos que mudam uma vida - 103


Violent Femmes - "Violent Femmes" (1983)
O primeiro disco de vinil que comprei (por volta de 1986). Foi num tempo em que se compravam discos via postal, encomendando por catálogo e recebendo em casa uns dias (ou semanas depois). A emoção de colocar a agulha na rodela de vinil pela primeira vez gravou-se para sempre na minha memória. Claro que canções pujantes como "Add it Up", "To the Kill", "Gone Baby Gone" ou "Kiss Off" ajudaram a esse processo de gravação. Na altura quase ninguém conhecia Violent Femmes, e só passava nos programas de rádio mais alternativos, como o saudoso "Som da Frente" de António Sérgio.
O outro dia ouvi um tema deste disco num... supermercado, a servir de tapete sonoro enquanto os clientes compravam cenouras ou cereais. O mundo mudou mesmo...
Ainda assim, continua uma obra musical memorável.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Já não se aguenta a música dos 80


Distraidamente vi na televisão, no inenarrável programa Top +, que este CD duplo, "Anos 80: A Década de Ouro", entrou directamente para o quarto lugar do top de vendas das compilações. Primeiro: gostava de saber quem é que ainda tem paciência para verificar se o disco A ou B sobe ou desce de posição de venda. Que diferença faz e a quem interessa? Segundo: não me admira nada que os anos 80 continuem a vender bem. Sempre venderam, mesmo antes da nostalgia cultural pelos "eighties" ter regressado em força nos últimos tempos. Basta ouvir a música que passa nas lojas, nos hipermercados, nas rádios nacionais, nos programas de televisão, para perceber que os anos 80 continuam na crista da onda. Demasiado na crista (como referi neste post).
A década de 80 foi particularmente paradoxal. Houve da melhor e da pior produção artística. Música excelente e música horrivelmente insuportável. E este tipo de CDs com os êxitos dos anos 80 são já insuportáveis porque representam o pior da música pop dessa década: Europe, Modern Talking, Starship, Jennifer Rush, Deacon Blue, Foreigner, Cyndi Lauper, Wham e tantos outros grupos afins.
A minha dúvida existencial é esta: quem continua a ouvir, repetidamente, os mesmos êxitos musicais de há 20/25 anos? Os mesmos que ouviam nos anos 80, por mero saudosismo (sádico, diria)? Ou uma nova geração alegadamente deslumbrada com este riquíssimo espólio musical?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Perguntas indiscretas - 10


Porque é que há 20 anos existiam programas de rádio de autor a divulgar música alternativa e independente às 16h, todos os dias, numa rádio nacional (Comercial) e hoje já não é possível que tal aconteça? Há, actualmente, menos liberdade para espaços de divulgação musical de qualidade? A ditadura comercial das “playlists” suga todo o espaço radiofónico? Os interesses económicos suplantam os interesses culturais? Já não há radialistas de qualidade? A rádio, afinal, morreu?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"A rádio não incendeia nada"


BLITZ - "Quais foram para si os anos áureos da rádio em Portugal?"

António Sérgio
- "Os anos dos programas de autor na antiga Rádio Comercial, ainda pertencente à RDP. A rádio era ouvida com uma clubite muito especial. Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos. Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos - as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música."
(Entrevista de 2007, publicada na BLITZ nº17)
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Completamente de acordo. Aliás, já o tinha dito, de outro modo, aqui e aqui.

domingo, 1 de novembro de 2009

A marca da Lista Rebelde


A famosa Lista Rebelde do programa "Som da Frente" que viciou uma geração nos anos 80 com a divulgação das bandas mais interessantes daqueles anos, representava a diversidade de propostas musicais do panorama alternativo. Na Lista Rebelde, cabiam os Dead Can Dance como os Motorhead, os Joy Division ou os This Mortal Coil, os X-Mal Deutschland ou o Glenn Branca. Este interesse pelo eclectismo estético que Sérgio promovia sempre me interessou.
O blogue Vivathe80s reuniu 500 temas que passaram pela Lista Rebelde do radialista. Aqui estão apenas representados 30, mas há mais 470 para descobrir aqui. E pensar que tempos houve em que se podia ouvir estas músicas, em horário nobre, na rádio!
1 – Gun Club – Sex Beat
2 – Scritti Pollitti – Sweetest Girl
3 – U2 – Pride (In The Name Of Love)
4 – Bronski Beat – Smalltown Boy
5 – Wah! – 7000 Names Of Wah!
6 – Joy Division – Atmosphere
7 – The The – Perfect
8 – Tone On Tails – Performance
9 – Bauhaus – Kick In The Eye
10 – Cure – Faith (Live)
11 – Associates – Party Fears Two
12 – This Mortal Coil –Song To The Siren
13 – Comateens – Late Night City
14 – Waterboys – A Pagan Place
15 – Virginia Astley – Love’s A Lonely Place To Be
16 – Motorhead – Please Don’t Touch
17 – Psychadelic Furs – Love My Way
18 – Echo & The Bunnymen – Back To Love
19 – Talking Heads – Great Curve
20 – U2 – Glória
21 – R.E.M. – Radio Free Europe
22 – B52’s – Future Generation
23 – Cure – Love Cats
24 – Waterboys –December
25 – Cure – Charlotte Sometimes
26 – New Order – Ceremony
27 – Siouxsie & The Banshees – Israel
28 – Teardrop Explodes – Passionate Friend
29 – DB’s – Neverland
30 – Teardrop Explodes – Tiny Children

António Sérgio: calou-se a Voz da rádio


António Sérgio (1950 - 2009) não gostava que lhe chamassem o "John Peel português". Mas ele era, efectivamente, o John Peel português. Não só pelos 40 anos dedicados à rádio, como pela imensa cultura musical que transmitiu a várias gerações, pela única voz marcante da rádio portuguesa, pelos programas únicos de divulgação de novas tendências musicais, pela entrega e paixão pela música, pelo carinho que revelava para com os ouvintes.
Aprendi com o António Sérgio que havia o "direito à diferença" (lema do programa "Som da Frente", Rádio Comercial), foi com ele que tomei contacto pela primeira vez com dezenas e dezenas de bandas independentes (rock, pop, electrónica, world...), foi com ele que constatei o que é fazer rádio com personalidade e carácter, em diversos programas de autor - "Som da Frente", "Lança-Chamas", Grande delta", "A Hora do Lobo"...
Num Portugal fechado e conservador, foi António Sérgio o primeiro a desbravar caminho para a divulgação de novas músicas, nas diversas rádios por onde passou. A sua voz cava e grave, o seu sotaque inglês irrepreensível (nas entrevistas que fazia a músicos ingleses), o seu vasto conhecimento histórico, exerceram grande influência nos ouvintes que, nesses tempos, não dispunham do facilitismo da internet. Num panorama radiofónico tão pobre e limitado como o português, a morte do António Sérgio reveste-se de um simbolismo particularmente forte. É o fim de uma era.
Nos últimos anos deixei de o ouvir, porque perdi o hábito de ouvir rádio. Mas muito do que sou hoje, como ouvinte e músico, devo-o ao António Sérgio. E como eu, milhares de outras pessoas.
Há muitos anos, numa noite em que ouvia "Som da Frente", telefonei para a Rádio Comercial para falar com ele e pedir-lhe se podia passar o tema "Cristina The Astonishing" do Nick Cave. Ele atendeu-me com uma humildade tocante e atendeu o meu pedido. Passado uns minutos, tocou (como ele gostava de dizer) o tema magnífico de Nick Cave. Disse que era um dos temas preferidos do Nick Cave e aqui fica em jeito de homenagem:
Esteja onde estiver, espero que haja rádio para o António Sérgio continuar a por em prática o seu amor pela música.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A poesia tocante dos Rammstein


Os Rammstein tocam por estes dias em Portugal. Ouvi na rádio um dos novos temas da banda alemã e fiquei absorvido pela criatividade musical dos moços. Mais: fiquei rendido à verdadeira volúpia poética que transborda de um tema com o belo título... "Pussy".
Atente-se no refrão da música. Quem não ficar comovido com esta transbordante erupção poética de cariz erógena, é porque não tem sentimentos (e atenção que tem de ser recitado com voz cavernosa, tal como se ouve aqui):
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Just a little bit, just a little bitch
You’ve got a pussy
I have a dick

So, what’s the problem
Let’s do it quick
So take me now before it’s too late

Life’s too short so I can’t wait
Take me now, oh, don’t you see
I can’t get laid in Germany
To short, to tall
Doesn’t matter, one size fits all

You've got a pussy
I have a dick
So, what's the problem
Let's do it quick

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Recordação do dia: Pixies

Entre 1986 e 1993 existiu uma banda da qual guardo grandes recordações: Pixies. Foram uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama indie rock. O álbum "Surfer Rosa" (1988) será recordado, mesmo daqui a 50 anos, como um marco irredutível da música rock de todos os tempos. Uma enorme banda de culto, portanto.
O radialista António Sérgio ("Som da Frente", da Rádio Comercial) era um fã incondicional da banda de Black Francis, e passava esse entusiasmo aos ouvintes sedentos de música excitante (como eu). Isto vem a propósito do facto de hoje ter ouvido, na Antena 3, o clássico tema "Here Comes Your Man". Não é o meu tema preferido dos Pixies, mas foi uma saborosa surpresa ouvir a canção, não só porque há anos que não ouvia este tema, mas também porque o ouvi a tocar na rádio a meio da tarde. E bastou ouvir os primeiros acordes da guitarra para que fosse assaltado pelas tais recordações...

sábado, 11 de abril de 2009

Contradições jazzísticas


José Duarte  (também conhecido como “Jazzé” Duarte) é uma figura veterana da divulgação do jazz em Portugal (pelo menos desde 1958). Um resistente que, ao longo de mais de 40 anos de actividade como autor de rádio, de televisão, programador e conferencista, tem divulgado por todo o país a grande musica que é o jazz. Conheceu figuras gigantes do jazz, como Louis Armstrong, John Coltrane ou Charlie Haden. Até diz que é amigo pessoal de várias figuras da actualidade, como Diana Krall. Doou o seu rico espólio (livros, discos, manuscritos, fotografias) à Universidade de Aveiro, instituição que criou o inovador Centro de Estudos de Jazz (onde José Duarte é também professor). Manteve durante mais de 40 anos os míticos programas “Cinco Minutos de Jazz” (em três rádios diferentes) e o “A Menina Dança?”. Dos cinco minutos de divulgação passou para uma hora de rádio (uma grande conquista!) com o programa “Jazz Com Brancas” na Antena 2, em horário nobre, às 20h, diariamente (no ar há dois anos).
Apesar da importância do trabalho de divulgador excepcional do jazz, José Duarte não é bem visto nalguns sectores da música e do jornalismo, dado que é acusado de ser conservador e de ostentar um gosto estético pouco aberto a linguagens de ruptura (o próprio assume que o o jazz de que mais gosta é o tradicional e refuta fusões musicais muito ousadas). Há uns meses deu uma entrevista à revista “Notícias Magazine”, na qual explana uma série de sentimentos contraditórios. Acha um exagero o número de festivais de jazz em Portugal (50) e acusa (como acusava há 20 ou 30 anos) o país de ser ignorante, inculto e só ele gostar verdadeiramente de jazz neste país. Diz que há apenas três festivais importantes: Seixal, Guimarães e Estoril. Questionado sobre o papel do “Jazz em Agosto” da Gulbenkian, manifestamente, o festival de jazz mais inovador e vanguardista em Portugal, José Duarte começa por dizer que é um “festival de risco”, e que de todo o cartaz do último ano, suportou, amarrado ao lugar, apenas dois concertos. Porquê? “Porque são músicos desconhecidos, mas não é por isso, porque são músicos arrojados, mas não é por isso, porque são apostas falíveis, é por isso. Um homem com a minha idade e com a minha experiência sabe que um saxofonista aos berros não tem futuro. As pessoas não ouvem música que as incomoda”. Estas afirmações seriam suficientes para José Duarte ser apelidado de reaccionário. 
E insiste, na sequência da sua afirmação sobre o “Jazz em Agosto”: "Outra coisa que acontece com os festivais é que eles carregam o nome de fulano ou de sicrano, o do organizador, pessoas cujo gosto não está muito vezes definido. Pessoas que apanharam o comboio em andamento e que desconhecem mais de metade da história do jazz, e isso reflecte-se nas escolhas”. Esta é uma clara alusão perniciosa ao nome do programador do festival da Gulbenkian, Rui Neves. O “Jazz em Agosto” tem a sua especificidade, tem o seu público e tem um notável programador no leme, e fica mal a José Neves denegrir a sua imagem desta forma, ainda que de forma indirecta.
Por último, José Duarte diz que uma parte importante do seu papel de divulgador tem sido a de conferencista. É verdade. Já assisti, há anos, a uma conferência dada por “Jazzé” e cumpre a sua função de divulgador. Acontece que, na referida entrevista à revista, diz uma inverdade: “A actividade de conferencista é muito antiga – lembro-me de ir com os meus LP, de carro, pelas estradas do pais, de norte a sul, nos anos sessenta, sem cobrar nada, pelo amor à pátria. E ainda hoje faço isso”. É verdade que continua a fazer isso, mas é mentira que o faça sem cobrar nada. Pelo contrario: até se faz pagar muitíssimo bem pelas conferências que dá (sei do que falo), porque esta é também uma das suas fontes de rendimento. José Duarte tem muito mérito pelo seu papel estóico de divulgador do jazz em Portugal, mas por vezes, as suas afirmações públicas não estão isentas de contradições, provocações e maledicência.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um pai de família a preceito

Ouvi a notícia na rubrica do Nuno Markl na Antena 3. Tem tanto de cómico como de ridículo (e de triste, acrescentaria). Um jovem casal holandês, Heath e Deborah Campbell, tem três filhos. Tudo de normal, até agora. O elemento que distorce esta aparente anormalidade é o facto de Heath Campbell ser um acérrimo... neo-nazi. Ora, como bom neo-nazi que é, Heath nega a existência do Holocausto, odeia de morte os Judeus e venera o fascismo alemão até às últimas consequências. Para provar o seu amor pela causa, resolveu baptizar os seus três filhos com nomes a preceito. Então é assim: uma filha chama-se JoyceLynn Aryan Nation Campbell; a outra, Honszlynn Himler Campbell. E, crème de la crème, o filho mais novo, que acaba de fazer três anos, dá pelo singelo nome de Adolf Hitler Campbell! E logo com uma carinha de anjo. Ao que parece, o diligente neo-nazi ficou indignado pelo facto de uma pastelaria se ter recusado a confeccionar um bolo de aniversário para o filho por causa do infame nome. Convenhamos que não é todos os dias que se pode ver escrito, com creme de chocolate num bolo de aniversário, a dedicatória "Happy Birthday Adolf Hilter!". O pudor, a dignidade intelectual e o respeito pela memória de 6 milhões de judeus mortos no Holocausto terão pesado na consciência do pasteleiro e, consequentemente, na nega ao pedido. Há estigmas e estigmas na vida. Mas o estigma que esta pobre criança, Adolf Hitler Campbell, vai carregar às costas até morrer, é daqueles estigmas que nem Jesus Cristo conseguiria suportar. Ele há coisas...
A notícia mais desenvolvida e com fotografias, aqui.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Surpresa radiofónica... efémera


Como já disse uma vez, acho a rádio portuguesa pavorosa, salvo raríssimas excepções. Música a metro, comercial, programação formatada e sem novidades que motivem entusiasmo. Por isso ando sempre com a rádio sintonizada na Rádio 3 espanhola, enquanto ando de carro, por ser muito mais original, mais vocacionada para programas de autor. Mas ontem tive uma agradável surpresa quando, ao sintonizar a Antena 3, ouvi uma música do grupo sueco Hedningarna! Era do disco "Hippjokk" (1997), um dos grandes discos dos anos 90, a par, de resto, com quase toda a restante discografia do grupo que ousou fundir as sonoridades tradicionais nórdicas com uma sensibilidade electrónica contemporânea. Pensei que se tratava de um programa alternativo de fim da tarde (se a rádio fosse sempre feita destas surpresas...). Mas não, foi um momento efémero. Logo a seguir voltaram as cançonetas pop triviais e previsíveis das playlists e voltei a sintonizar a estação espanhola.

domingo, 10 de agosto de 2008

A música do cinema na rádio


A Rádio Universidade de Coimbra é um exemplo claro de serviço público de rádio. Como referi já neste post, a RUC é uma estação que, estando ligada a uma Universidade e a uma cidade, consegue suplantar as limitações habituais de programação com uma filosofia radiofónica de autor e de qualidade. Uma filosofia que prima pela diversidade de informação e de programas, priveligiando as correntes musicais alternativas, promovendo debates sobre cultura e artes, concertos, parcerias com outras entidades culturais, etc.
Na rica e dinâmica linha de programação da RUC existem programas temáticos concebidos por animadores não profissionais, mas com sólida preparação ao nível da comunicação e da formação cultural. Na RUC podemos ouvir programas de qualidade que divulgam as músicas do mundo, o jazz, o rock independente, a electrónica mais experimental, o heavy metal, a nova música portuguesa ou a música erudita. Daí que a rádio da cidade dos estudantes seja um caso praticamente único e de grande resistência no panorama português da rádio, mesmo após mais de 20 anos após a sua fundação.
Um dos seus programas mais peculiares é o "Cinemusicorium", de Vasco Otero. Trata-se de um programa que visa, objectivamente, divulgar as músicas (bandas sonoras) do cinema, realizando semanalmente o relato áudio e verbal descritivo de uma obra da sétima arte em cada emissão. Ouvem-se as músicas, assim como de debita informação sobre os compositores de cinema, conversas com convidados especiais, entrevistas, etc. A música para cinema é uma arte muitas vezes negligenciada, pelo que o labor de Vasco Otero é o de lembrar que a música dos filmes é tão importante quanto outras criações musicais de género mais popular. E que, por isso mesmo, faz sentido incluir uma programa deste teor na programação de uma rádio.
O programa vai para o ar semanalmente todas as segundas-feiras, entre as 20h e 21h, e pode ser ouvido através da RUC online. Para mais informação sobre o programa e os conteúdos tratados no mesmo, o melhor mesmo é abrir o blogue do Cinemusicorium.