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domingo, 9 de novembro de 2014

Picasso sob o olhar de Clouzot


"Le Mystère Picasso" (1956) é um dos mais inspirados e belos documentários sobre arte que conheço. Filmado pelo conceituado cineasta francês Henri-Georges Clouzot, este filme mantém, ainda hoje, uma frescura e uma originalidade invulgares.
Clouzot filma, de forma insuperável, o genial Pablo Picasso em continuadas sessões de pintura. O espectador apercebe-se facilmente quão excepcional é a veia criativa do pintor espanhol, quão espontânea e perfeita. O método pictórico de Picasso é captado pela câmara de Clouzot como um olhar distanciado, mas ao mesmo tempo minucioso, na captura da leveza do traço, das cores e dos movimentos.

"O Mistério Picasso" é, basicamente, um filme sobre a imponência perene da criação artística, sendo o objecto do filme a figura ímpar de Picasso. E é, igualmente, uma notável obra de cinema (Clouzot criou técnicas inovadoras para captar as pinceladas do pintor).

Eis um excerto:

terça-feira, 23 de abril de 2013

O que diz Tarkovski #1

"Buñuel é, sobretudo, portador de uma consciência poética. Ele sabe que a estrutura estética não necessita de manifestos, e que a força da arte não se encontra aí, mas sim no poder de persuasão, naquela força vital única a que se referia Gogol. E há que salientar que a obra de Buñuel está profundamente enraizada na cultura clásica espanhola. É impossível pensar nele sem o seu vínculo inspirado com Cervantes e El Greco, Lorca e Picasso, Salvador Dalí e Arrabal."

domingo, 8 de abril de 2012

A nossa pequena escala


Segundo a tradição cristã, hoje é dia de Páscoa, dia da ressurreição de Jesus Cristo.
O escritor Julian Barnes, no livro "Nada a Temer" (Quetzal, 2011), uma esplêndida obra literária (ainda por cima com ironia fina), disserta sobre temas sérios como a inevitabilidade da morte, a fé, a existência de Deus, a memória e identidade humanas.
A páginas tantas, Julian Barnes cita o famoso romancista Somerset Maugham acerca da possibilidade da imortalidade (ou da vida eterna pós-morte). Eis que Maugham diz:
"Os homens, banais e medíocres, não me parecem talhados para enfrentar o feito descomunal da vida eterna. Com as suas pequenas paixões, pequenas virtudes e pequenos vícios, estão bastante bem adaptados ao mundo de todos os dias; mas o conceito de imortalidade é demasiado vasto para seres moldados em escala tão pequena. Antes de ter sido escritor, fui estudante de medicina e vi morrer doentes pacífica ou tragicamente. E nunca vi, no último momento, nada que sugerisse que o seu espírito era eterno. Os homens morrem como morrem os cães."
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É isto que eu penso também.
PS - Na imagem, a pintura "A Morte de Casagemas" (1901) de Pablo Picasso.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Lee Miller - Modelo, fotógrafa e intrépida mulher do século XX


No Dia da Mulher, evoco uma mulher pouco conhecida mas de grande valor: Lee Miller (1907 - 1977). Lee Miller foi uma bela modelo que fascinou Nova Iorque e Paris nos anos 30 e 40. E foi a musa inspiradora dos surrealistas, tendo servido de modelo e de objecto estético de Man Ray, de Jean Cocteau e de Picasso. André Breton, Picasso e Max Ernst têm também trabalhos sobre ela.
Depois desta aventura como modelo, Lee Miller, qual mulher à frente do seu tempo, pegou na máquina fotográfica e começou ela própria a captar o mundo à sua volta. Retratos, paisagens de diversos países e, sobretudo, a reportagem fotográfica sobre a 2ª Guerra Mundial, valeram-lhe grande reconhecimento internacional. Famosa ficou a fotografia que tirou na banheira de Hitler, no dia 30 de Abril de 1945, em Munique, no mesmo dia em que o ditador alemão morreu no bunker de Berlim.
Dizem que era uma mulher desassombrada, corajosa e ousada como poucas. Depois da Guerra investiu o seu talento na revista de moda Vogue e vagueou por países como Marrocos e Egipto à procura de sombras e de despojamento.
A sua fotografia é feita disso mesmo, de sombras, de despojamento, de intrepidez e de grande plasticidade estética.
Na Amazon existe um lista rica e variada de livros e biografias sobre a vida e obra de Lee Miller.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Joyce no "Hugo"

O filme "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen estava recheado de personagens artísticas do início do século XX: Ernest Hemingway. Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Man Ray, Luis Buñuel, etc. Estas figuras desempenhavam um papel relevante na história do filme.
Ora, Martin Scorsese, outros cineasta culto e com sensibilidade artística apurada, também incluiu no ser recente (e oscarizado) filme "A Invenção de Hugo", algumas figuras essenciais da arte da primeira metade do século XX. Só que, ao contrário de lhes atribuir um papel importante no argumento (como fez Woody Allen), apenas as utilizou como meros figurantes. Talvez tenha sido apenas para dar um toque mais erudito ao ambiente parisiense e para contextualizar historicamente a história de Hugo.
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Eis as personagens artísticas que surgem em "A Invenção de Hugo":
O guitarrista de jazz Jean "Django" Reinhardt

O escritor James Joyce e o pintor Salvador Dalí

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um génio esquecido


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
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Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.

George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.

Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar

Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal. Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

sábado, 22 de outubro de 2011

Os artistas no filme de Allen

No brilhante filme de Woody Allen, "Midnight in Paris", surge uma autêntica galeria de figuras históricas que conviveram nos excitantes anos 20 do século XX em Paris. Houve muitos outros escritores, pintores e poetas que viviam na bela capital francesa naquela época (alguns portugueses, como Mário de Sá Carneiro), mas só esta lista de personalidades culturais (que Allen incluiu no seu filme) é suficiente para provar a intensa vida artística e de boémia dos "loucos anos 20":

- Zelda e F. Scott Fitzgerald
- Ernest Hemingway
- Salvador Dalí (na imagem)
- Gertrude Stein
- Cole Poter
- Josephine Baker
- Pablo Picasso
- Man Ray
- Luis Buñuel
- T.S. Eliot
- Henri Matisse
- Henri de Toulouse-Lautrec
- Paul Gauguin
- Edgar Degas
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Afinal de contas, tal como o protagonista do filme, quem não gostaria de ter vivido em Paris nesses anos e poder ter tido a experiência de contactar com algumas destas figuras geniais da história da arte?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Filmar as pinceladas de Picasso


"Le Mystère Picasso" (1956) é um dos mais inspirados e belos documentários sobre arte que conheço. Filmado pelo conceituado cineasta francês Henri-Georges Clouzot, este filme mantém, ainda hoje, uma frescura e uma originalidade invulgares. Clouzot filma, de forma insuperável, o genial Pablo Picasso em continuadas sessões de pintura. O espectador apercebe-se facilmente quão excepcional é a veia criativa do pintor espanhol, quão espontânea e perfeita. O método pictórico de Picasso é captado pela câmara de Clouzot como um olhar distanciado, mas ao mesmo tempo minucioso, na captura da leveza do traço, das cores e dos movimentos.

"O Mistério Picasso" é, basicamente, um filme sobre a imponência perene da criação artística. Mais a mais, sendo o objecto do filme a figura ímpar de Picasso. E é, igualmente, uma notável obra de cinema (Clouzot criou técnicas inovadoras para captar as pinceladas do pintor).

Pode ser visto na íntegra aqui.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A criatividade esquecida de Antheil


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound com George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil.
Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "Bad Boy of Music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos.
Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free-jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à América natal e envereda por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.
Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Man Ray


Man Ray (na imagem à direita, ao lado de Salvador Dalí) fez parte do movimento dadaísta e surrealista dos anos 20 e 30 do século XX. É um dos meus artistas e fotógrafos preferidos.
Um artista iconoclasta e original como poucos que marcou a arte de todo o século. Desenvolveu uma obra artística tão inovadora na pintura como na fotografia. Neste último campo, fez retratos únicos de artistas como Picasso, Dali, Magritte, Buñuel. Artaud, Satie, Cocteau, Stravinski, James Joyce, Ducahmp, Matisse, Picabia (foi amigo de quae todos)… E o nu feminino adquiriu outra elevação estética com as fotografias de Man Ray.
Para além destas intervenções artísticas que influenciaram grande parte da arte produzida nas décadas seguintes, Man Ray experimentou também o cinema como veículo para a sua visão libertária da arte.
No apogeu do movimento surrealista e expressionista, no qual todas as linguagens de vanguardas eram permitidas, Ray fez as curtas-metragens “Emak – Bakia” (1926), “L’Étoile de Mer” (1928) e “Les Mystères du Château de Dé” (1929).
Três absolutos expoentes do cinema como poesia visual, como plataforma de experimentação estética e formal. São filmes abstractos e que recorrem a técnicas inovadoras de filmagem, montagem e efeitos visuais (alguns devedores do mundo da fotografia).

Todos estes filmes (entre outros) estão disponíveis para visionamento no site da UbuWeb

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O bailado de Satie, Cocteau e Picasso


Em 1917, Jean Cocteau, propôs a Serguei Diaguilev, empresário dos famosos Ballets Russes, colaborar com o compositor Erik Satie num ballet muito especial. Desta conjugação artística surgiu o bailado "Parade" (na imagem), com argumento de Cocteau e ainda cenários e figurinos do pintor Pablo Picasso.
A partitura musical de Satie, pianista e compositor visionário, continha sons de máquinas de escrever, apitos de sereias, ruídos de hélices de avião, de aparelhos de Morse, e de roletas de lotaria (a ideia era assaz original, mas não totalmente inovadora: o futurista italiano Luigi Russolo tinha construído "máquinas para fazer ruído" três anos antes). O lugar exigido a todos estes objectos exigiu uma redução de instrumentos musicais convencionais no fosso de orquestra, opção que provocou uma acesa discussão no seio da crítica e dos espectadores.
"Parade" foi um ballet inovador e ousado em termos estéticos (nos cenários, na coreografia e na música, um pouco à semelhança de "A Sagração da Primavera" de Stravinski), antecipando uns anos o movimento surrealista. Os críticos arrasaram sobretudo a música.
Erik Satie, com a sua personalidade irreverente e incontida, não se ficou e escreveu, satiricamente, um texto com o título "Elogio dos Críticos", que começa assim: "O ano passado fiz várias conferências sobre a inteligência e a musicalidade nos animais. Hoje vou falar-vos da inteligência e da musicalidade nos críticos. O tema é quase o mesmo, portanto."

sábado, 10 de abril de 2010

Sonhos e pesadelos de Fellini


Durante exactamente 30 anos (de 1960 a 1990), o realizador italiano Federico Fellini apontou, diariamente num caderno, os seus sonhos, desejos secretos e pesadelos, numa espécie de antologia onírica que muitas vezes serviu de inspiração para os seus próprios filmes. Os apontamentos eram em forma de texto, desenhos e pinturas, com personagens, rostos, figuras, cenários, no fundo, um imaginário excêntrico, bizarro e surreal (como muitos dos seus filmes: o sonho ao serviço da arte.).
Fellini, falecido em 1993, dizia mesmo que "vivia duas vidas", ou seja, a vida real propriamente dita, e a vida dos sonhos. Chegou a sonhar com personalidades da vida artística como Ingmar Bergman, Orson Welles, Salvador Dalí, Pablo Picasso, e protagonistas de alguns dos seus filmes, como Anita Ekberg ou Marcello Mastroianni.
A sua devoção às experiências oníricas e fantasistas era desmesurada, mas essa devoção tinha uma vertente prática bastante útil: ajudava-o a conhecer melhor a psicologia humana, os seus mistérios e enigmas. Fruto desse intenso trabalho de anotações e ilustrações durante três décadas, surgiu em Itália há uns anos, o "Livro dos Sonhos" de Fellini (que eu saiba, ainda sem edição portuguesa). Um livro no qual se podem conhecer as suas fantasias nocturnas eróticas, com bizarras e volumosas mulheres em poses sensuais e provocadoras em cenários idílicos.
Pode-se comprar na Amazon.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Picasso em 3D


Já vi duas vezes ao vivo a obra-prima maior de Picasso - "Guernica". O quadro, patente no Museu Reina Sofia de Madrid, tem uma dimensão de 350 x 782 cm, e esmaga o espectador pela sua grandiosidade física e artística. Uma obra de inesgotável capacidade expressiva.
Por mero acaso descobri um site que analisa a obra de Picasso numa fascinante perspectiva 3D. Um trabalho espantoso que revela e explora novos pormenores praticamente imperceptíveis no quadro original. E por isso ganha outra energia criativa, outra capacidade de fascínio visual.

domingo, 23 de agosto de 2009

Madrid me mata


Cinco dias na capital espanhola dão para muita ou pouca coisa. Depende de vários factores. Seja como for, regressar a Madrid depois de 10 anos é sempre uma experiência revigorante: pelo irresistível ambiente cosmopolita da grande metrópole, pela diversidade e qualidade da oferta cultural, pela riqueza do património histórico, pela simpatia do povo espanhol, e por mais o que se queira. Apesar das altíssimas temperaturas (média de 35 a 45 graus) e do sol impiedoso, passear pelos bairros de Madrid, pela Plaza Mayor, Plaza Cibeles, pela Puerta del Sol ou pela Gran Via, é sempre uma incessante descoberta de sensações. Uma cidade que acolhe turistas de todo o mundo, que fervilha de actividades e propostas para todos os gostos, bolsas e exigências culturais. Um dos motivos que contribuiu para a revitalização cultural da Madrid deveu-se ao movimento cultural na ressaca do franqusimo, ocorrido no início dos anos 80, com a célebre "movida madrileña", da qual fizeram parte inúmeros artistas (músicos, cineastas, artistas plásticos) como o realizador Pedro Almodóvar.
Na capital de "nuestros Hermanos" sente-se que o urbanismo é levado a sério; os transportes públicos funcionam lindamente; não se vê um único prédio degradado (por mais centenas de anos que tenha), os espaços verdes abundam, a arquitectura é límpida e bela como poucas, a limpeza das ruas é imaculada, e os museus oferecem algumas das melhores propostas de arte de toda a Europa. Foi um prazer regressar aos labirintos de salas do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, e redescobrir os eternos Dalí, Picasso, Man Ray, Miró, Duchamp, Max Ernst, Lichtenstein, Picabia, Klein, Magritte, mas também as exposições temporárias do surpreendente Juan Muñoz (já passou por Serralves). Também surpreendente foi a exposição sobre o modernismo e surrealismo, com obras literárias e audiovisuais dos mestres de sempre. Em duas salas diferentes, duas projecções de dois filmes essenciais de Luís Buñuel: "Las Hurdes" (1933) e "La Edad de Oro" (1930) em cópias magníficas cedidas pela Filmoteca de Madrid.
Por seu lado, outro importante museu da cidade, o Thyssen-Bornemisza, expõe uma extraordinária retrospectiva de Matisse, com pinturas nunca expostas em Espanha. Isto já para não falar da notável exposição permanente de Jan Van Eyck. O museu, que se situa quase em frente do incontornável Prado, implementou uma nova política de portas abertas: até às 23h, diariamente. À custa desta iniciativa, já recebeu perto de 150 mil visitantes nocturnos. A exposição de Matisse mantém-se até 22 de Setembro. De realçar, igualmente, a importante exposição de fotografia de Annie Leibovitz, que se pode contemplar, até dia 6 de Setembro, na Sala de Exposições Alcalá de Madrid. “Annie Leibovitz - Vida de uma fotógrafa, 1990-2005”, compõe-se de duas centenas de instantâneos, entre imagens de grande formato, fotografias do lado mais íntimo e familiar da norte-americana, paisagens a preto e branco e retratos de pequeno formato, também a preto e branco.

Outra experiência notável (especialmente para as minhas duas filhas pequenas) ocorreu com o visionamento de um filme no Cine Imax. Trata-se da projecção mais sofisticada e avançada de sempre, visto que utiliza na mesma sala dois ecrãs gigantes (um tem 900m2, o maior da Europa) com a mais alta qualidade de imagem (3D) e de som digital. A esta inovação de alta tecnologia é chamada de Imax Integral. O sentido de imersão do espectador com as imagens é muito mais intenso do que um vulgar filme de sala comercial em 3D (como o recente "Up"). O desenho da sala é em estilo de anfiteatro romano, com uma incrível inclinação de 45º das cadeiras, permitindo uma visão perfeita de todos os pontos da sala. O filme visionado foi "Gigantes do Oceano", um simpático documentário narrado por Johnny Depp e Kate Winslet. Valeu pela experiência sensitiva de ver um tipo de projecção vanguardista. Veremos se o novo filme de James Cameron irá bater esta tecnologia Imax.
Um aspecto menos positivo de Madrid é a considerável quantidade de músicos-pedintes nas ruas mais movimentadas e no metro. Alguns são banais intérpretes instrumentais, mas outros há que parecem ter saído directamente de uma orquestra profissional, dada a destreza técnica revelada. Cheguei a ver, à porta do El Corte Inglés, um quarteto de cordas a tocar, maravilhosamente, as "Quatro Estações" de Vivaldi, em troca de umas singelas moedas dos transeuntes...
Na passagem pelo Teatro Lope de Vega (em plena Gran Via) não deixei de reparar no enorme cartaz que anuncia o musical "Spamalot" dos Monty Python (a partir de 10 de Setembro), numa produção do famoso grupo Tricicle.
Entretanto, a minha maior descoberta de Madrid foi a livraria especializada em cinema "Ocho Y Medio", bem ao lado da Plaza de Espanha, sobre a qual darei mais informações num próximo post.
Imagem 1: pormenor da Puerta del Sol.
Imagem 2: pormenor da entrada do CineImax.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

As canções poeticamente bem ou mal escritas e as obras de arte de Picasso


"Uma canção tem de ter uma história, que pode ser poeticamente bem ou mal escrita. Se calhar, não consegui isso em todas as minhas canções, não é fácil... Picasso não fez só obras de arte."
Tony Carreira, in revista Única (citado pela Ler)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O que disseram antes de morrer


No mítico filme "Citizen Kane" ("O Mundo a Seus Pés", 1941) de Orson Welles, estes lábios de Charles Foster Kane (interpretado pelo próprio Welles), diziam a última palavra antes de morrer: "Rosebud". Palavra enigmática que abre a primeira obra de Orson Welles e que seria a chave para toda a história do filme. Esta última palavra de Charles Foster antes de morrer fez-me lembrar outras frases famosas de personalidades que, momentos antes da morte, proferiram determinadas frases ou palavras que ficaram para a posteridade. Eis alguns exemplos:

"Aplaudam, amigos, a comédia acabou"
Ludwig van Beethoven

"Eu nunca deveria ter trocado de Scotch para Martini"
Humphrey Bogart

"Estou chateado com tudo isso"
Winston Churchill

"Raios! Nem se atreva a rezar a Deus por mim"
Joan Crawford (para a empregada)

"Levem estas freiras idiotas para longe de mim."
Norman Douglas

"Eu vejo uma luz negra!"
Victor Hugo

"Quando a música acabar, apaguem as luzes"
Adolf Hitler

"Bebam a mim!"
Pablo Picasso

"Morrer é facíl, comédia é difícil"
George Bernard Shaw

"Harmonia"
Arnold Schoenberg

quinta-feira, 19 de março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

Satie e os críticos


Em 1917, Jean Cocteau, propôs a Diaghilev, empresário dos Ballets Russes, colaborar com o compositor Erik Satie num ballet. Desde conjugação artística, saiu o bailado "Parade" (na imagem), com argumento de Cocteau e ainda cenários e figurinos do pintor Pablo Picasso. A partitura musical de Satie, pianista e visionário, continha sons de máquinas de escrever, apitos de sereias, ruídos de hélices de avião, de aparelhos de Morse, e de roletas de lotaria (a ideia era assaz original, mas não totalmente inovadora: o futurista italiano Luigi Russolo tinha construído "máquinas para fazer ruído" três anos antes).
O lugar exigido a todos estes objectos exigiu uma redução de instrumentos musicais convencionais no fosso de orquestra, opção que provocou uma acesa discussão no seio da crítica e dos espectadores. "Parade" foi um ballet inovador e ousado em termos estéticos (nos cenários, no argumento e na música), antecipando uns anos o movimento surrealista. Os críticos arrasaram sobretudo a música. Erik Satie não se ficou e escreveu, satiricamente, um texto com o título "Elogio dos Críticos", que começa assim: "O ano passado fiz várias conferências sobre a inteligência e a musicalidade nos animais. Hoje vou falar-vos da inteligência e da musicalidade nos críticos. O tema é quase o mesmo, portanto."