domingo, 14 de setembro de 2014

Já não há tempo nem paciência


Quando era novo tinha tempo para tudo. Não havia internet nem gadgets electrónicos. Nesse tempo, escrevia e recebia centenas de cartas com pessoas que partilhavam os mesmos interesses que eu: música, cinema e artes. Lia muito e via muitos filmes. E sempre me dediquei aos estudos. Aos 17, 18, 20 anos, ia ao cinema ver tudo: filmes bons, razoáveis e maus (era uma sofreguidão). Só em contacto com experiências artísticas boas e más é que formei o meu gosto cultural. E conversas, muitas conversas de partilha de conhecimento com amigos mais velhos e sabedores. Repito: num tempo sem internet.

Mas agora tenho 45 anos. E sinto que já não tenho tempo, nem paciência, para conhecer objectos culturais e artísticos superficiais que a sociedade de consumo nos impinge diariamente. Só tenho tempo para fruir o que é realmente muito bom. Ou, pelo menos, bom. Estou cada vez mais selectivo no que consumo culturalmente. Isto é, já não perco tempo a ver filmes que sei que, à partida, são fracassos ou medíocres. Nem ler livros que não sejam realmente muito bons. Ou ouvir discos que não me proporcionem prazer, que me surpreendam ou me inquietem o espírito. 

Ou seja, cheguei a uma fase da minha vida que não arrisco perder tempo com coisas fúteis ou até, minimamente, razoáveis. Numa era de avalanche de informação (e não de conhecimento), de uma oferta de livros nunca vista, de semanas de estreias com 10 filmes, de overdose de música na internet, há que saber distinguir a qualidade (cada vez mais escassa) do puro lixo ou do entretenimento disfarçado de cultura.

Tento concentrar-me no que realmente interessa e exijo o melhor: o grande cinema, a grande música, a grande literatura. Perguntam: e qual é o meu entendimento de "grande cinema", "grande música" e "grande literatura"? Bom, se acompanham há algum tempo este blog acho que já terei deixado algumas pistas. Seja como for, serão sempre aquelas manifestações que eu considero verdadeiramente de grande valor artístico e que estimulam o nosso intelecto e mudam a nossa vida (para melhor).

E é só com isto que eu quero concentrar-me para o resto da minha vida. 

5 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro, sinto e faço o mesmo e "ainda" vou nos 38. Alguns chamam-lhe experiência de vida, outros simplesmente velhice. Seja como for, penso que é um comportamento que traz mais vantagens que desvantagens. Só um concelho: por vezes também é bom sair dessa rota que estabelecemos e esquecer um pouco os críticos e autores com quem nos identificamos. Por vezes, encontra-se bom cinema, boa música, bons livros onde menos se espera. Se houver tempo, tudo o que mereça o benefício da duvida, merece atenção, pois pode trazer agradáveis surpresas!

Victor Afonso disse...

É verdade que por vezes há boas surpresas em coisas que menos esperamos.
Obrigado pelo contributo.

Victor Afonso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vasco disse...

Emprego+família+dormir= 22h ?
O gosto educou-se.

José disse...

Pois... talvez por isso é que ainda estou à espera de um post sobre o filme Night Moves de Arthur Penn :-)