"Na minha infância a minha mãe sugeriu que eu lesse 'Guerra e Paz' e, durante muitos anos, ela citou frequentemente o romance, chamando-me a atenção para a subtileza e as particularidades da prosa de Tolstoi. Desse modo, 'Guerra e Paz' tornou-se para mim uma espécie de escola de arte, um critério de gosto e profundidade artística. Depois desse livro nunca mais consegui ler porcarias literárias que sempre me causaram profundo desagrado."
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segunda-feira, 19 de outubro de 2015
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
O que diz Tarkovski #22
"O cinema é um mistério. É um mistério para o próprio realizador. O resultado, o filme acabado, deve ser sempre um mistério para o realizador, caso contrário não seria interessante."
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Sobre "Solaris"
Eis um interessante ensaio em vídeo de 5 minutos sobre "Solaris" (1972) de Andrei Tarkovski. Para compreender melhor a visão artística e filosófica do realizador russo sobre a ciência, a ficção, e a existência humana na Terra.
sábado, 20 de junho de 2015
O que diz Tarkovski #21
"O factor dominante e todo poderoso da imagem cinematográfica é o ritmo, que expressa o fluxo do tempo no interior do fotograma. É impossível conceber uma obra cinematográfica sem a sensação de tempo fluindo através de cada plano."
domingo, 12 de abril de 2015
O que diz Tarkovski #20
"Creio que tenho o dever de estimular a reflexão sobre o que é fundamentalmente humano e eterno em cada alma individual. A minha função como realizador é fazer com que todos os que vêem os meus filmes tenham consciência da sua necessidade de amar e de oferecer o seu amor, e que tenham consciência de que a beleza é parte integrante da vida".
terça-feira, 7 de abril de 2015
Béla Tarr e a filosofia
Em 1986 tinha acabado de estrear o filme "O Sacrifício" de Andrei Tarkovski. Um amigo meu que o tinha visto em Lisboa chegou ao pé de mim e disse-me: "Vais gostar porque sente-se Nietzsche por todo o lado".
Vem esta estória a propósito do site Taste of Cinema que publicou uma lista com os 15 filmes mais influenciados pela filosofia de Nietzsche (pode ser vista aqui). Por ser uma temática que me interessa (cinema e filosofia), li a publicação e fiquei surpreendido em constatar qual o filme em primeiro lugar: "O Cavalo de Turim" do húngaro Béla Tarr. Segundo o artigo, este filme condensa os princípios fundamentais da filosofia nietzschiana, como o conceito de Eterno Retorno, o nihilismo ideológico e o pessimismo existencial.
Na verdade, o filme de Tarr reflecte e aborda toda esta matéria e ficamos ainda mais convencidos quando pensamos que a grande ambição de vida do realizador era ter sido filósofo. Não foi filósofo no sentido tradicional e académico, mas praticou a filosofia realizando filmes.
Na verdade, o filme de Tarr reflecte e aborda toda esta matéria e ficamos ainda mais convencidos quando pensamos que a grande ambição de vida do realizador era ter sido filósofo. Não foi filósofo no sentido tradicional e académico, mas praticou a filosofia realizando filmes.
sexta-feira, 20 de março de 2015
Os (verdadeiros) primeiros filmes
Toda a gente sabe nomear um bom filme das filmografias de realizadores como Pedro Almodóvar, David Lynch, Sofia Coppola, Lars Von Trier, Martin Scorsese, Godard ou Roman Polanski. Mas poucos saberão dizer quais foram os seus primeiros filmes. E não me refiro às longas-metragens, mas sim às primeiras experiências cinematográficas no formato de curta-metragem. Por exemplo, quando falamos no primeiro filme de David Lynch julgamos que falamos do clássico de culto "Eraserhead" (1977) mas nada mais errado. O seu primeiro filme, no formato de curta é um desconcertante e surrealista filme chamado "The Alphabet" (na imagem em baixo).
É verdade que algumas dessas primeiras obras de cinema até foram bastante marcantes na vida de alguns realizadores. Por exemplo, "Un Chien Andalou" (1929) de Luis Buñuel ou "The Steam Roller and the Violin" de Andrei Tarkovski. No entanto, muitas das curtas-metragens de início de carreira de grandes cineastas ficaram esquecidas no tempo. Graças ao Youtube e ao site Taste of Cinema foi publicada uma preciosa lista com as "25 melhores curta-metragens de realizadores famosos". Realizadores de todas as épocas, nacionalidades e géneros estão aqui representados. Alguns destes pequenos filmes até já foram comentados neste blogue.
Para além de sinopse descritiva do filme, o site disponibiliza a visualização de cada uma das obras no Youtube. Uma boa forma de conhecer o trabalho menos conhecido de grandes mestre do cinema. Link.
quarta-feira, 18 de março de 2015
A educação do meu gosto - 3
A educação do meu gosto - Literatura
Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.
Comecei a ler relativamente tarde. Ao contrário do meu gosto pela música que começou bastante cedo (12 anos), a leitura foi um prazer tardio. Lembro-me de ler durante horas banda desenhada – Hugo Pratt, Michel Vaillant, Quino (Mafalda), Lucky Luke, Asterix e super-heróis da Marvel. A leitura de livros sem imagens foi iniciada volta dos meus 17 anos com policiais: Agatha Cristie, George Simenon e Raymond Chandler. O mesmo amigo que me despertou para Tarkovski era um fã de Franz Kafka e passou-me esse entusiasmo: “A Metamorphose” e “O Processo” foram um choque.
Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.
Comecei a ler relativamente tarde. Ao contrário do meu gosto pela música que começou bastante cedo (12 anos), a leitura foi um prazer tardio. Lembro-me de ler durante horas banda desenhada – Hugo Pratt, Michel Vaillant, Quino (Mafalda), Lucky Luke, Asterix e super-heróis da Marvel. A leitura de livros sem imagens foi iniciada volta dos meus 17 anos com policiais: Agatha Cristie, George Simenon e Raymond Chandler. O mesmo amigo que me despertou para Tarkovski era um fã de Franz Kafka e passou-me esse entusiasmo: “A Metamorphose” e “O Processo” foram um choque.
De Kafka passei para os contos de Edgar Allan Poe e Lovecraft, os surrealistas (André Breton, Apollinaire…) e essas obras negras e fascinantes chamadas “Os Cantos de Maldoror” de Lautréamont e "Filosofia na Alcova" do Marquês de Sade. A leitura de "Siddharta" de Herman Hesse aos 19 anos foi toda uma epifania. O mesmo amigo que me gravava as cassetes “Heterodoxos” introduziu-me nas teorias sociais e culturais revolucionárias do Situacionismo com o livro “A Sociedade do Espectáculo” de Guy Debord e nos movimentos de ruptura artística do Dadaísmo, Futurismo, Beat e Fluxus. Desenvolvi um gosto pelos autores "malditos" e fora do mainstream literário. O meu gosto pela leitura foi-se acentuando até ler autores tão díspares quanto Holderlin, Artaud, Proust, Hemingway, Bukowski, Camus, Genet, Michaux, Burroughs, Schopenhauer, Kierkegaard, Stig Dagerman, James Joyce, Albert Cossery, Italo Calvino, Unamuno, Oscar Wilde, Henry Miller, Philip Roth, Conrad, Mishima, Bataille entre dezenas de outros. Não sei bem porquê mas nunca consegui adentrar-me nos russos (Dostoievski, Tolstoi, Tchekov, Gogol...).
Desenvolvi um fervor especial pela leitura de livros de ensaios de música, arte, cinema e livros históricos sobre a 2ª Guerra Mundial, tendo um fascínio especial pela história do Holocausto. Interessei-me pelas (auto)biografias de artistas e por vastos temas relacionados com a cultura digital/cibernética dos nossos dias.
Não sei exactamente em que medida, mas sei que a leitura (e aquilo que li ao longo da minha vida) foi essencial para definir o que (sei) sou hoje.
Imagem: pormenor da minha biblioteca.
Não sei exactamente em que medida, mas sei que a leitura (e aquilo que li ao longo da minha vida) foi essencial para definir o que (sei) sou hoje.
Imagem: pormenor da minha biblioteca.
domingo, 15 de março de 2015
A educação do meu gosto - 1
A educação do meu gosto - Cinema
Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.
Durante a minha adolescência gostava de filmes do Rambo e filmes de acção em geral. Mas também nessa altura comecei a ver filmes clássicos na televisão (RTP2), épicos históricos, de gangsters e westerns. A televisão espanhola passava aos sábados à tarde grandes filmes clássicos de Hollywood que via com sofreguidão. Um dia, numa noite num bar da minha cidade encontrei-me com um amigo mais velho. Um amigo com uma cultura vasta e de qualidade. Começámos a falar de cinema e fixei para sempre uma frase que me disse: “Tens de conhecer o cinema de Andrei Tarkovski, é um cinema metafísico de grande exigência estética”. Nunca tinha ouvido falar do cineasta russo mas fiquei altamente motivado para tal. Numa época sem internet e poucas enciclopédias disponíveis, lá procurei por esse Tarkovski. Até que um outro amigo, estudante de Comunicação Social, me gravou uma cassete VHS com o filme “Stalker” (na imagem). Vi-o nessa mesma noite e quase não consegui dormir atormentado por tantas interrogações que o filme me suscitou.
A descoberta de Tarkovski foi, certamente, o início da minha formação de gosto pelo bom cinema. A partir daí comecei a ler religiosamente as críticas de cinema nos jornais e revistas, os catálogos da Cinemateca, a procurar todos os livros sobre cinema da biblioteca pública e a conhecer cada vez mais a história do cinema desde as suas origens. Ou seja, o gatilho que me despertou para o cinema de qualidade foi o encontro com esse amigo num bar em finais dos anos 80.
Obrigado, António.
domingo, 8 de março de 2015
O que diz Tarkovski #19
"Em todos os meus filmes o tema das raízes sempre teve uma importância muito grande: laços com a casa paterna, com a infância, com o país, com a Terra. Sempre achei que fosse importante deixar claro que também pertenço a uma tradição particular, a uma cultura, a um círculo de pessoas ou ideias."
domingo, 1 de março de 2015
Mr. Turner: o mestre da luz
"Mr. Turner" de Mike Leigh é um filme magnífico. Se houvesse justiça nos Óscares seria nomeado para várias categorias (realização, fotografia, direcção artística, interpretação...). Para já só ganhou o prémio em Cannes para o esplêndido actor Timothy Spall no papel do pintor inglês.
William Turner, pintor da época do Romantismo inglês (século XIX), elevou a pintura paisagística quando tendeu ao quase abstraccionismo nas suas telas, sendo considerado hoje, além de génio universal da arte, precursor do Impressionismo.
O filme "Mr. Turner" retrata os últimos anos de vida e obra do pintor na Londres de meados do século XIX, um homem controverso e excessivo obcecado com o perfeccionismo da sua arte - ao ponto de ficar amarrado a um mastro de um navio em plena tempestade para reunir todos os dados empíricos dessa experiência que servissem para as suas pinturas.
Das várias sequências memoráveis do filme destaco desde logo a primeira que surge aos olhos do espectador: plano fixo de uma paisagem incrivelmente bela, um campo verdejante, um moinho e o pôr-do-sol resplandecente. Duas mulheres vão-se aproximando e a câmara começa a movimentar-se para a esquerda (a fazer lembrar um plano-sequência de Tarkovski) para acompanhar a deslocação das referidas mulheres. De repente, no exacto momento em que as mulheres deixam de estar em cena vislumbra-se ao fundo o vulto de um homem. A câmara fixa-se e revela o homem bem ao centro do plano, até que um close-up nos mostra que se trata de William Turner a tirar notas para as suas pinturas de paisagem.
Esta sequência, que tem pouco mais de 2 minutos, é um espantoso trabalho ao nível da realização e da composição plástica e visual. É minha convicção que o realizador Mike Leigh quis mostrar, logo a partir do primeiro plano, a beleza da paisagem que tanto inspirou Turner. Mais: estas imagens são como telas da pintura paisagística do pintor inglês, mestre da luz e das cores. Trata-se, em suma, de um pequeno momento de cinema tão superlativo e tão belo esteticamente que nos deixa sem palavras.
Eis a sequência de que falo:
Eis a sequência de que falo:


Nota: esta paisagem foi filmada em Herringfleet Mill, Suffolk, norte de Inglaterra.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
O que diz Tarkovski #18
"O meu filme 'Stalker' parece ser fraco mas, na sua essência, é ele quem é invencível devido à sua fé e ao seu desejo de servir os outros. Em última instância, o artista é aquele que se dedica à sua profissão não com o intuito de contar alguma coisa a alguém, mas como uma afirmação da sua vontade de servir as pessoas."
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
O que diz Tarkovski # 17
"Se tentarmos agradar ao público, aceitando acriticamente as suas preferências, isso significará apenas que não temos respeito algum por ele, que só queremos o seu dinheiro. Em vez de educarmos o espectador através de obras de arte inspiradoras, estaremos apenas a ensinar o artista a garantir o seu lucro.
Da parte do público – satisfeito com aquilo que lhe dá prazer – continuará firme na convicção de estar certo, uma convicção no mais das vezes sem fundamento. Deixar de desenvolver a capacidade crítica do público equivale a tratá-lo com total indiferença."
domingo, 18 de janeiro de 2015
Sobre a colecção de DVD
Um leitor deste blog perguntou-me quanto DVDs tenho. Bom, na realidade não sei ao certo, parei a contagem por volta dos 800 (sempre fui muito organizado e desde muito novo que me habituei a fazer catálogos de tudo: livros, cassetes, discos, CD's, DVDs, recortes de jornais e revistas...). Mas no total serão perto de mil exemplares.
Os anos de maior coleccionismo já passaram. Nos finais dos anos 90 e a primeira década de 2000, investi muito em DVD, não só em edições nacionais mas sobretudo em edições de coleccionador/especiais e de importação. Era de tal forma obcecado em comprar as melhores edições que chegava a adquirir várias edições diferentes do mesmo filme. Edições Director's Cut, com extras, imagem remasterizada, etc. Por exemplo, tenho 4 edições diferentes de "Psycho" de Hitchcock e 3 diferentes de "Stalker" de Tarkovski.
Mas também comprei muitas colecções mais baratas que saiam em jornais e revistas (as do Público eram imperdíveis, sobretudo dos filmes clássicos).
Desde há uns 4 ou 5 anos perdi o hábito de comprar e coleccionar DVD. Não, não os troquei pelo formato Blu-Ray (que tenho muito pouco), mas simplesmente porque a internet tornou-se uma via privilegiada para adquirir e ver filmes.
Eis três imagens diferentes da minha colecção de DVDs do meu escritório (à mistura com livros e CDs):
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
O que diz Tarkovski #16
"O assunto que abordo nos meus filmes é, na minha opinião, o mais crucial: a ausência de espaço para a existência espiritual na nossa cultura. Nós ampliamos a meta das nossas realizações materiais e conduzimos experiências materialistas sem levar em conta a ameaça que é privar o homem da sua dimensão espiritual. O homem está a sofrer, mas não sabe porquê. Ele sente uma ausência de harmonia e procura a sua causa."
sábado, 11 de outubro de 2014
O que diz Tarkovski #15
"Qual a essência do trabalho de um realizador? Poderia defini-la como 'esculpir o tempo'. Assim como o escultor trabalha um bloco de mármore e, guiado pela visão interior da sua futura obra, elimina tudo o que não faz parte dela, do mesmo modo o cineasta, a partir de um 'bloco de tempo', corta e rejeita tudo aquilo que não necessita. Desta forma deixa apenas o que deverá ser um elemento do futuro filme, revelando uma componente essencial da imagem cinematográfica."
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Cinema: imagens visuais
Como muito bem defende (aqui) o crítico de cinema Mark Cousins, o que faz evoluir a história do cinema é, essencialmente, a associação de ideias visuais.
Reparem neste exemplo: três imagens de três filmes e épocas muito diferentes demonstram isso mesmo.
Os filmes são (por ordem):
- "Nymphomaniac" (2013) de Lars Von Trier
- "The Virgin Spring" (1960) de Ingmar Bergman
- "The Sacrifice" (1986) de Andrei Tarkovski
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
O que diz Tarkovski #14
"O cinema é um mistério. É um mistério para o próprio realizador. O resultado de um filme depois de terminado deve continuar a ser um mistério para o realizador, porque de outra forma o processo criativo não seria interessante."
quinta-feira, 26 de junho de 2014
O que diz Tarkovski #13
"O artista existe porque o mundo não é perfeito. A arte seria inútil se houvesse perfeição no mundo e o que o homem tem de fazer é procurar a harmonia neste mundo imperfeito."
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