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sábado, 21 de junho de 2008

Um crítico musical à margem


A música não é só ouvida. É também lida. E sobretudo em livros tão bons quanto este, que pretende analisar as múltiplas ramificações da chamada música de "vanguarda". Na sua já considerável travessia jornalística por variados jornais de relevo - do "Jornal de Letras" ao "Blitz", d' "O Independente" ao "Expresso" (para já não citar publicações estrangeiras) - Rui Eduardo Paes tem-se dedicado, afanosamente - e não raras vezes enfrentando obstáculos à sua actividade - ao estudo e divulgação das chamadas "novas músicas". Eis o seu último manifesto.
De que fala este livro intitulado «Phonomaton – As Novas Músicas no Início do Séc. XXI» de Rui Eduardo Paes? Fala, na essência, sobre o mesmo que os seus três livros anteriores – todos editados pela Hugin (e com distribuição nas boas livrarias): a problemática das músicas contemporâneas de índole experimental e a significação das estéticas de ruptura face aos valores culturais instituídos. Dito de outro modo, aborda todas as expressões artísticas tidas como de vanguarda, nas suas múltiplas formas e configurações - música electroacústica, improvisada, electrónica, multimédia, erudita contemporânea, computer music, novo jazz e outras derivações estéticas radicais e alternativas face à cultura "mainstream" dominante.
Rui Eduardo Paes tem sido uma voz crítica única no panorma jornalístico nacional e, neste trabalho em particular, recorre a uma argumentação extremamente bem urdida, lúcida e com uma visão histórica dos factos simultaneamente original e pertinente. Analisa eloquentemente os fenómenos artísticos, disseca-os com auxílio de teorias não só musicais como filosóficas e literárias, citando para tal autores tão prementes para a cultura contemporânea como Virilio, Camus, Borges, Sartre, Lyotard, Deleuze, Debord, Heidegger ou Cioran. Além disso, explora a congeminação de relações entre distintas áreas do pensamento ensaístico, tentando estabelecer elos de ligação entre correntes específicas do pensamento artístico (surrealismo, dadaísmo, pós-modernidade, teoria do Caos, minimalismo, nihilismo...) com outras tantas correntes musicais e artísticas (free jazz, música concreta, electrónica, improvisação, instalações multimédia, cinema experimental, pintura conceptual...).
Rui Eduardo Paes contribui assim, com esta obra e com o conjunto dos seus livros (ver no seu site), para a clarificação histórica e evolutiva dos processos criativos mais avançados da cultura contemporânea, dando um especial destaque (com entrevistas) ao panorama nacional e seus principais intérpretes: Rafael Toral, Major Eléctrico, Miso Ensemble, Telectu, Carlos Zíngaro, Emídio Buchinho, Vitriol, René Bertholo, etc.
Não se veja em "Phonomaton" um estudo académico de musicologia; Rui é avesso a redundantes academismos formais. Não é, igualmente, um livro sobre objectos culturais fáceis e imediatos. O livro representa antes uma plataforma de análise e de reflexão múltipla sobre as músicas emergentes do século XXI (e suas correspondentes ramificações noutras artes), num âmbito quiçá distante do senso comum e da superficialidade crítica. De qualquer modo, este sensível manifesto de Rui Eduardo Paes, essencial para quem gosta de música, revela-se também intelectualmente estimulante para qualquer leitor avesso à massificadora sociedade do espectáculo - e todas as suas referências culturais adjacentes -, a mesma sociedade à qual o fulminante pensador Gilles Lipovetsky classificou de "era do vazio".

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Rui Eduardo Paes

Portugal está prestes a perder um dos seus melhores críticos, ensaístas e jornalistas musicais: Rui Eduardo Paes. Isto porque um amigo meu me reencaminhou um mail do próprio jornalista a dizer que, caso não encontre trabalho em Portugal brevemente, a solução poderá passar pela emigração.
Rui Eduardo Paes, com uma carreira de 30 anos, lançou há pouco tempo o seu sexto livro sobre música, "Breviário Ilustríssimo", um notável livro sobre as mais variadas correntes musicais de vanguarda (e não só) contemporâneas, portuguesas e estrangeiras. O livro pode ser encomendado online aqui.
Para quem não conhece o trabalho deste importante jornalista no desemprego, eis o que Nuno Catarino escreveu no jornal Público sobre este autor e o respectivo livro:

"O musicólogo Rui Eduardo Paes tem desenvolvido uma intensa actividade na escrita sobre música(s) ao longo dos últimos 30 anos, entre o jornalismo, a crítica e a reflexão ensaística. Tendo estado, nos últimos tempos, mais ligado ao universo do jazz (na qualidade de editor da revista jazz.pt), Paes não abdica de atravessar géneros, com ênfase no experimental.
Ao longo de uma obra vasta – "Ruínas" (1996), "A Orelha Perdida de Van Gogh" (1998), "Cyber-Parker" (1999), "Phonomaton" (2001), "Stravinsky Morreu" (2003) –, Paes tem desenvolvido ensaios que reflectem sobre as questões que caracterizam as "novas músicas". Estes livros serão actualmente quase impossíveis de encontrar, na sequência da falência da editora Hugin, e este novo "Bestiário Ilustríssimo" vem devolver o seu nome às prateleiras das livrarias, fechando um hiato de nove anos sem publicar. Numa edição que recupera o título de uma série de peças publicadas no jornal Blitz há cerca de 20 anos, Paes reúne textos mais recentes, produzidos para finalidades diversas (folhas de sala de concertos, artigos de revista, guiões de conferências e "liner notes" de discos).
São 50 textos, distribuídos por 260 páginas, que divergem em temas e géneros, sendo embora atravessados por algumas questões comuns que acabam por estar presentes de forma recorrente: as problemáticas da improvisação; o papel da tecnologia na produção musical; as ligações entre o jazz e as outras músicas; ou as intersecções entre música e outras artes.
Demonstrando una rara capacidade de criar paralelos entre temas, Paes estabelece metáforas, propondo analogias, questionando e desafiando. Sendo boa parte dos textos acerca de músicos vindos das áreas do jazz e da música improvisada do nosso tempo (como Elliott Sharp, Sei Miguel, Daniel Levin, Red Trio, Peter Brotzmann, Nobuyasu Furuya, Carlos "Zìngaro", Mostly Other People Do The Killing ou Steve Lehman), vai também a extremos diferentes e menos previsíveis – como Paganini, Aki Onda ou Mão Morta. Independentemente da área de proveniência, cada tema é laboriosamente analisado sob originais pontos de vista.
Cada texto engloba um manancial de referências, numa espécie de aura enciclopédica, mas a escrita de Paes favorece uma leitura e descomplicada, sem esforço, que resulta prazenteira. Refira-se ainda a inclusão das deliciosas ilustrações de Joana Pires, que funcionam como excelente complemento à prosa saborosa do escritor."
 
Nuno Catarino no Público (suplemento Ípsilon).
Classificação do livro: ****

sábado, 15 de junho de 2013

"A" Maiúsculo com Círculo à Volta



Rui Eduardo Paes tem sido um combatente. As suas armas são a sua imensa sabedoria musical/cultural e a sua escrita em livros e imprensa escrita ao longo de quase 30 anos de intensa actividade de crítico e ensaísta. Por isso é o melhor especialista português sobre as novas tendências artísticas contemporâneas no que à música diz respeito e, por inerência, a todo o vasto e complexo pensamento subjacente.
Rui Eduardo Paes, de quem já escrevi várias vezes neste blogue, estuda a problemática das músicas contemporâneas de índole experimental e a significação das estéticas de ruptura face aos valores culturais instituídos. Dito de outro modo, aborda todas as expressões artísticas tidas como de vanguarda, nas suas múltiplas formas e configurações - música electroacústica, free-jazz, improvisada, electrónica, noise, multimédia, erudita contemporânea, computer music, fusões estilísticas bizarras e outras derivações estéticas radicais e alternativas face à cultura "mainstream" dominante. 
Rui Eduardo Paes tem sido uma voz crítica única no panorama jornalístico nacional, revelando sempre uma argumentação extremamente bem urdida, lúcida e uma visão histórica dos factos simultaneamente original e pertinente. Analisa eloquentemente os fenómenos artísticos, disseca-os com auxílio de teorias não só musicais como filosóficas e literárias, citando para tal autores tão prementes para a cultura contemporânea como Virilio, Camus, Borges, Sartre, Lyotard, Deleuze, Debord, Heidegger ou Cioran. 
Além disso, explora a congeminação de relações entre distintas áreas do pensamento ensaístico, tentando estabelecer elos de ligação entre correntes específicas do pensamento artístico (surrealismo, dadaísmo, pós-modernidade, teoria do Caos, minimalismo, nihilismo...) com outras tantas correntes musicais e artísticas (free jazz, música concreta, electrónica, improvisação, instalações multimédia, cinema experimental, pintura conceptual...).
A novidade que o seu novo livro traz é que o ponto de vista essencial é o ponto de vista político associado às manifestações estéticas contemporâneas. O título é, de resto, todo um programa de intenções: "A" Maiúsculo Com Círculo à Volta". O anarquismo histórico e as suas formas libertárias de expressão são intercaladas, pelo autor, com múltiplas abordagens a músicos, escritores, cientistas ou artistas multimédia. Um livro que, uma vez mais, prova que o autor rejeita o conformismo de pensamento e ousa analisar novas abordagens, novas relações, novos pontos de vista sobres os fenómenos artístico-culturais-sociais-filosóficos do mundo contemporâneo.

Com a edição conjunta da Chili Com Carne e Thisco, o novo livro de Rui Eduardo Paes relaciona as músicas de hoje (jazz, improvisação, pop-rock, noise, electrónica experimental, música contemporânea) com as novas tendências do pensamento libertário, descobrindo analogias mas também desmistificando ideias feitas. Entre os temas percorridos ao longo dos 10 capítulos amplamente ilustrados estão o ocultismo, a espiritualidade, a ciência, a ficção científica, a tecnologia, o amor e o sexo, com referência a autores como Robert Anton Wilson, Hakim Bey ou Murray Bookchin (o livro é ilustrado por vários artistas da Associação Chili Com Carne: Joana Pires, Marcos Farrajota, André Coelho, Jucifer, Bráulio Amado (acumulando o cargo de Designer do livro), José Feitor, David Campos, André Lemos ou João Chambel).
Trata-se pois, de uma obra ousada na forma e no conteúdo; não será de fácil leitura para leitores pouco habituados à torrente de informação criteriosamente debitada por Rui Eduardo Paes (numa página pode ter dezenas de referências a músicos, escritores ou filósofos), mas será certamente uma experiência altamente enriquecedora absorver tamanha sapiência nesta forma tão original e "anárquica" de interpretar a cultura paradoxal característica da sociedade em que vivemos.

sábado, 24 de março de 2012

Rui Eduardo Paes - Novo livro


Sobre o crítico musical e ensaísta Rui Eduardo Paes, escrevi este post a propósito do seu livro "Photomaton". Nove anos depois, Rui Eduardo Paes edita um novo livro com textos seus sobre as novas correntes estéticas, entrevistas a músicos, reportagens de festivais, artigos de revistas, etc.
Chama-se "Breviário Ilustríssimo" (edição Chili Com Carne) e vai ser apresentado no próximo dia 17 de Abril. Para quem não conhece, Rui Eduardo Paes é um dos mais importantes ensaístas portugueses dos últimos 25 anos que se tem dedicado ao estudo e divulgação das músicas de vanguarda, sendo um incansável amante e divulgador das novas tendências do jazz contemporâneo, música improvisada, free-rock, erudita experimental, electroacústica, etc.
Altamente aconselhável, portanto.

domingo, 22 de março de 2015

REP de volta

É sempre um regozijo anunciar um novo livro de Rui Eduardo Paes (REP). Aliás, um não, mas sim dois livros num só: "Bestiário Ilustríssimo II" e "Bala". Em 2012 REP lançou o livro "Bestiário Ilustríssimo" de que dei conta neste post. O trabalho desenvolvido ao longo das últimas três décadas deste crítico e teórico da música é insubstituível. Tem sido um trajecto ímpar na divulgação daquelas músicas ditas mais criativas e inovadoras de todos os quadrantes: rock, jazz, improvisação, erudita contemporânea, electro-acústica, electrónica, pós-rock, etc. Aliás, se o caro leitor tiver curiosidade em conhecer que músicas o REP gosta, basta aceder aqui à lista dos 100 discos da sua preferência.

Com esta edição Rui Eduardo Paes conta já oito livros editados nos últimos 15 anos (o nono chegará antes do final do ano), dando sempre destaque às músicas menos convencionais e àquelas que os jornais habitualmente não falam. O seu vastíssimo conhecimento não se limita à história da música (da clássica às múltiplas vanguardas), mas estende-se também à história da arte em geral, ao cinema, e às teorias sociais, culturais e políticas que servem para contextualizar e explicar fenómenos estéticos determinados. REP escreve com fervor emergente de um jovem que retira enorme prazer pela descoberta de um novo disco entusiasmante, de um novo grupo ou músico que merece destaque. O seu enfoque é sempre o de um teórico que disserta sobre a música como expressão artística, seja em que terreno musical for. Daí que possamos ler nos seus livros referências que podem ir da rebuscada cena de música noise japonesa como das últimas tendências da electrónica cut'n'paste ou das jovens promessas do jazz nacional.

Mesmo que não conheçamos um artista que REP aborda (e há fortes probabilidades de tal acontecer), pela forma entusiasta como o ensaísta escreve, somos levados a googlar para ouvir do que se trata. No meu entendimento, há muito poucos jornalistas musicais nacionais que me conseguem provocar este impulso de querer saber, de querer conhecer, de querer ouvir. Mas a qualidade da sua escrita vai para além da mera recensão de um disco ou de um objecto estético. O seu estilo de escrita é por si altamente estimulante, revelando um notável domínio sobre a língua portuguesa que raia as características da boa literatura. Um estilo que Rui Eduardo Paes cultiva como uma arma contra o habitual cinzentismo e comodismo da crítica de arte em Portugal.
  
Por conseguinte, o valor da sua escrita - mais a mais porque é um "cavaleiro solitário" nesta área - é amplamente reconhecido e fruto de um laborioso trabalho de investigação de anos e anos. O livro que agora edita - dedicado à ideia de "tempo" na arte - continua a desafiar categorizações (é uma "anti-enciclopédia") e a reformular a especificidade formal da crítica musical. Destaque para o "Bestiário Ilustríssimo II" com as suas múltiplas, curtas e diversificadas críticas e discos, artistas, instrumentos musicais, bandas e movimentos (como o grande destaque dado ao Stoner Rock). Já o livro siamês "Bala", com as belas ilustrações de David de Campos, serve de complemento ao outro, num formato mais pequeno mas não menos interessante de reflexão sobre as manifestações artísticas mais interessantes do século XX e XXI.

A edição deste livro "dois-em-um" é da Chili Com Carne e pode ser encomendada aqui.




domingo, 8 de junho de 2014

100 discos da vida (pouco conhecidos)

Rui Eduardo Paes é um jornalista, crítico e ensaísta musical já com 30 anos de carreira. O que admiro na sua visão da música é a procura incessante da inovação estética, das correntes musicais mais originais, das manifestações artísticas menos ortodoxas e previsíveis. A sua área de especialização, se assim se pode dizer, é a música de "vanguarda" (devidamente com aspas), categoria onde pode caber Frank Zappa ou John Cage. A sua ânsia de descobrir novos territórios sonoros estimulantes nunca cessou com o passar dos anos.
A dita vanguarda musical percorreu todo o século XX e ainda hoje tem fortes ramificações em várias frentes da música contemporânea, do jazz ao rock, da electrónica às fusões iconoclastas. Ora, o que Rui Eduardo Paes fez agora foi revelar os 100 discos da sua vida, aqueles discos que o marcaram e que moldaram o seu gosto e a sua visão da criação musical. São 100 discos de épocas e géneros totalmente distintos, que vão do free-jazz ao rock progressivo, da electrónica experimental às músicas do mundo, da erudita contemporânea ao art rock. 
Enfim, uma lista extremamente curiosa e interessante para qualquer amantes de música (o Rui define cada disco com uma frase sintomática!). Talvez o leitor não conheça muitos dos discos citados, mas a missão do Rui também passar por este processo: o de mostrar aos outros, menos informados, a incrível variedade de boa música pouco conhecida que existe à face da terra (cada disco revelado tem um vídeo associado para que o leitor possa ouvir). 
Para abrir a página, ir aqui.

domingo, 5 de outubro de 2008

O que é hoje a vanguarda?


A revista Única do semanário Expresso desta semana dedica grande parte das suas páginas ao conceito de "vanguarda". Vanguarda na ciência, na investigação, nas artes, no pensamento. Há igualmente uma secção sobre 10 personalidades portuguesas que se encontram "à frente" em várias matérias: design, arquitectura, ciência, video-arte, cinema, moda, teatro, literatura, artes plásticas, etc. Como complemento explicativo ao tema explorado, o Expresso decide enumerar as várias manifestações artísticas às quais habitualmente conotamos com o conceito de vanguarda, ao qual deu o título "abecedário das vanguardas": futurismo, dadaísmo, expressionismo abstracto, cubismo, etc. Na música são referidos os inevitáveis John Zorn, John Cage, Pierre Boulez, Anton Webern, Schoenberg, Xenakis e Frank Zappa. De facto, todos estes nomes representaram diferentes formas de encarnar a vanguarda estética na música, mas é mais do que óbvio que se trata de uma lista muito reducionista. Haveria muitos outros nomes a referir, mas isso nem é o mais importante. A questão é que o jornalista Luís M. Faria, que assina o texto, refere-se da seguinte forma quando aborda Zappa: "Zappa - Porque o rock também tem vanguardas. Este artista nunca parou de experimentar, tendo mesmo tido uma colaboração muito badalada com Pierre Boulez. Também poderíamos referir Hector Zazou". A minha opinião é esta: a haver vanguardas no rock, estas não se resumem, nem de perto nem de longe, a Frank Zappa. Sempre houve experimentação na história do rock, como houve na electrónica, no jazz ou até na pop. Só não percebi a referência final ao Zazou: também é um artista vanguardista ou é citado porque, alegadamente, teve uma colaboração com Pierre Boulez?
A discussão à volta da vanguarda nas artes é muito complexa e abrangente. O que o Expresso fez foi enumerar e caracterizar, sinteticamente, as correntes mais consensuais das vanguardas artísticas. O que não fez (porque é mais arriscado e difícil) foi problematizar o tema. Dito de outro modo, seria interessante que o Expresso tivesse publicado um artigo sobre o que é hoje a vanguarda, ou que tivesse solicitado a especialistas opiniões sobre este assunto. É que importa saber se na criação artística contemporânea ainda sobrevive o conceito de vanguarda como foi concebido pelos "ismos" da primeira metade do século XX, ou se é já outra coisa mutável e sem definição precisa. Um dia o ensaísta e jornalista musical Rui Eduardo Paes disse que já não fazia sentido falar em vanguarda (no sentido estético da transgressão e inovação) na criação musical actual, mas sim em "manifestações de experimentação". Será que o conceito de vanguarda morreu, como conceito, com Marcel Duchamp, John Cage ou Fluxus? O próprio Expresso apenas dá como exemplos de conceitos de vanguarda, artistas e movimentos já longínquos no tempo, que fazem parte do passado. Se não estou em erro, os únicos artistas vivos que são citados são John Cale e John Zorn. As dezenas de outros artistas, compositores, teóricos, escritores, artistas plásticos referenciados como vanguardistas, estão há muito mortos e enterrados. Não é, porventura, sintomático? E já agora, porque é que não foi citado nem um único realizador ou estética cinematográfica no âmbito das vanguardas? Não houve vanguarda no cinema?
Partilho da ideia do Rui Eduardo Paes. A vanguarda, como conceito teórico para definir a criação artística inovadora e avançada, morreu com com a 2ª Guerra Mundial. A partir dos anos 50 e 60, a História da Arte regista múltiplas manifestações artísticas importantes mas que mais não são do que reinterpretações, apropriações e reciclagens estéticas das vanguardas históricas.
Na imagem: "L.H.O.O.Q." (1919) de Marcel Duchamp

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jazz.pt

Excelente edição de uma das melhores publicações portuguesas sobre música, Jazz.pt. Apesar de ser uma revista especializada em jazz e suas múltiplas vertentes e ramificações estilísticas (e logo confinada, à partida, a um público minoritário), a edição bimestral conta com muitos pontos de interesse - rubricas diversificadas, entrevistas, notícias, crítica a discos, perfis de músicos, divulgação do jazz português, etc. A edição de Janeiro/Fevereiro traz ainda mais dois motivos de particular interesse: entrevista a Maria João e Mário Laginha (capa) e o balanço crítico dos melhores discos de jazz de 2008. Convém dizer, não sem importância, que na Jazz.pt escrevem notáveis jornalistas e críticos de música, com um grande conhecimento histórico das vanguardas do jazz antigo e das linguagens estéticas fragmentárias da música contemporânea. Alguns desses escribas contam com longos anos de experiência jornalística especializada, como é o caso de Rui Eduardo Paes ou António Branco.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LUME - Big Band do século XXI


Há fenómenos que não compreendo: um dos mais originais discos de música portuguesa editados (no final) de 2010 praticamente passou despercebido na imprensa: LUME - Lisbon Underground Music Ensemble, liderado pelo compositor, director de orquestra, pianista e manipulador de electrónica Marco Barroso.
Há pelo menos dois anos que esta singular orquestra de jazz (com 15 músicos oriundos de várias experiências) andava a dar nas vistas com concertos em sítios muito específicos. Agora, com o primeiro disco de estreia, o LUME impõe-se como uma big band de jazz do século XXI. Uma big band que mistura, num caldeirão explosivo, o jazz de Duke Ellington, Albert Ayler, John Zorn, o rock tresmalhado de Frank Zappa, Residents, Mr. Bungle, Tortoise, a electroacústica experimental de Charles Ives e Ligeti, a música para cinema de Ennio Morricone ou Henry Mancini e a música erudita contemporânea de Stravinsky ou Messiaen. A tudo isto há ainda a juntar a electrónica com utilização de samples de filmes e excertos de músicas rock.
O resultado musical é um fervilhar impressionante de ideias por segundo, num ritmo swing trepidante (a fazer lembrar, por vezes, Naked City de Zorn) conduzido por uma excepcional secção de sopros. Lá fora há algumas orquestras de jazz que pisam território estético semelhante ao LUME (como a Viena Art Orchestra ou os Flat Earth Society) mas eu arrisco afirmar, sem pudor, que a música de Marco Barroso é muito mais criativa e desafiadora. Esta orquestra, prova, igualmente, a grande qualidade técnica dos instrumentistas portugueses que em nada ficam a dever às grandes referências internacionais.
O crítico de música e ensaísta Rui Eduardo Paes refere que estamos perante um "disco pós-moderno". Isto porque rompe fronteiras estilísticas, subverte linguagens e mistura, com elevado bom gosto, estéticas aparentemente antagónicas, resultando num todo orgânico. Um projecto de uma riqueza musical rara no nosso país. Desejo ardentemente que o trabalho do LUME seja reconhecido em Portugal e, também, no estrangeiro.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Top 2013 - Livros

Não são certamente os "melhores" livros do ano. São aqueles que eu li (ou estou a ler ainda) e de que gostei mais. Entre romances e ensaios, eis as minhas escolhas:

- "Cidade Aberta" - Teju Cole
- "Hollywood - Estórias de Glamour e Miséria" - Edgar Pêra
- "A Maiúsculo Com Círculo à Volta" - Rui Eduardo Paes
- "Cinemateca" - Pedro Mexia
- "Animalescos" - Gonçalo M. Tavares
- "A Gloriosa Bicicleta" - Laura Alves/Pedro Carvalho
- "Os Níveis da Vida" - Julian Barnes
- "Béla Tarr - O Tempo do Depois" - Jacques Rancière
- "Histórias de Loucura Normal" - Charles Bukowski
- "Tudo Passa" - Vassili Grossman
- "Cansaço. Tédio, Desassossego" - José Gil
- "Juliette Society"- Sasha Grey
- "Mistérios" - Knutt Hamsun

Reedições do ano: 
- "Ulisses" - James Joyce (Ed. Relógio D'Água)
- "Admirável Mundo Novo" - Aldous Huxley (Ed. Antígona)
- "Photomaton & Vox" - Herberto Helder (Ed. Assírio & Alvim)
- "1984" - George Orwell (Ed. Antígona)
- "Livro do Desassossego" - Fernando Pessoa (Ed. Tinta da China)









segunda-feira, 21 de julho de 2008

O jazz em revista


A revsita bimestral Jazz.pt continua em alta. Reportagem especial sobre o excelente programa da edição deste ano do Jazz em Agosto (Gulbenkian), entrevistas a James Carter e Marta Hugon, críticas a discos, notícias, concertos... Com direcção de João Pedro Rocha Santos e edição de Rui Eduardo Paes, a revista Jazz.pt continua a mostrar o melhor e mais diversificado jazz que se faz actualmente, sem preconceitos castradores. Pelo contrário: com uma notável abertura à novidade estética e ao cruzamento de distintas sensibilidades musicais e artísticas. É disso que o jazz de hoje é feito. E é bom que haja uma publicação que reflicta sobre essas derivações estéticas do jazz.