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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Música para cinema - uma abordagem




O cinema existe desde 28 de Dezembro de 1895, data em que as experiências incipientes dos irmãos Auguste e Louis Lumière, com o “cinematógrafo”, espantaram o público burguês do Grand Café de Paris. Os inventores do cinema lançaram as bases desta emergente linguagem artística com filmagens de um minuto, nas quais mostravam a vida quotidiana de cidadãos comuns.
Apesar do sucesso popular imediato daquelas sessões de projecção cinematográfica (por onde passou o escritor Eça de Queiroz), os irmãos Lumière não auguravam futuro para o cinema. Felizmente que outro francês, George Méliès (realizador do célebre filme “Viagem à Lua”, considerada a primeira ficção do cinema), não pensava da mesma forma e desenvolveu, sobremaneira, a linguagem cinematográfica, ainda que muito ligada à estética teatral. Depois, outros notáveis realizadores se encarregariam de desenvolver a linguagem do cinema de distintas formas.
O que é certo é que durante os primeiros 30 anos da sua história, o cinema foi mudo, mas não totalmente silencioso. Significa isto que o som estava ausente das imagens, apenas havendo um ou outro acompanhamento de piano ou de uma pequena orquestra durante a exibição pública, geralmente tocado por detrás da tela de projecção. Algumas ténues experiências foram feitas na conjugação som-imagem, nomeadamente, na utilização que alguns realizadores fizeram utilizando a música de compositores clássicos, como Saint-Saëns, Pizzetti ou Satie. Curiosamente, outros grandes compositores como Stravinsky, Bartók, Ravel ou Schoenberg, que se aventuraram na criação de música para filmes, manifestaram-se ineptos criadores de bandas sonoras para cinema. Daí que a relação entre o cinema e a música seja uma relação artística complexa e problemática, uma vez que se reveste de múltiplas facetas e visões distintas, levantando determinadas questões pertinentes que praticamente se mantêm vivas até hoje: será a música para cinema meramente ilustrativa? Os compositores para cinema são compositores de primeira ou de segunda? A banda sonora para filme é um género à parte da restante produção musical? Um filme fica mais rico se tiver sempre uma partitura original (como nos filmes Spielberg) ou bandas sonoras adaptadas (como nos filmes de Kubrick)?

Nos primórdios, por impossibilidade técnica, o filme era desprovido de som (banda sonora ou diálogos), e os realizadores e espectadores pouco se importavam com isso. A interpretação dos actores era mais física e expressiva, uma vez que o som dos diálogos era inexistente. Dava-se relevo às imagens e suas múltiplas formas expressivas. Quando o sonoro surgiu, no filme “The Jazz Singer” (1927, com o actor Al Jonhson a imitar um cantor de jazz negro), houve alguma resistência por parte de grandes vultos do cinema à novidade técnica do som. O próprio Charlie Chaplin chegou a dizer que o som iria “matar o cinema”. E Greta Garbo foi das poucas actrizes que se conseguiu afirmar no período sonoro com a mesma veemência com que o tinha feito no mudo. A revolução do sonoro tinha começado. Apesar da ausência de som e de música, este foi um período extremamente criativo no que se refere à consolidação da linguagem artística do cinema, enquanto forma estética (montagem, realização, fotografia, cenários) e objecto semiótico (narrativo, ficcional, documental).

Determinados filmes foram efectivamente silenciosos durante décadas. Chaplin musicou, ele próprio, os filmes “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936) apenas durante a década de 60.
Buñuel fez o mesmo com a obra-prima “Un Chien Andalou” (1929), à qual adicionou a banda sonora (tango argentino) 35 anos depois da estreia. Ou seja, os realizadores de cinema cedo se aperceberam da grande importância que a música detinha como complemento das imagens. Por isso Eisenstein trabalhou logo em 1938 com o compositor Sergei Prokofiev, que compôs a banda sonora épica do filme “Alexander Nevsky”, num exemplo acabado da perfeita sincronia criativa entre imagem e som. Os sons (no sentido da sonorização da narrativa) e a banda sonora (a música propriamente dita com funcionalidade dramática) desempenham um motor emocional próprio no espectador, desencadeando reacções que não seriam possíveis caso não houvesse essa componente sonora.

Durante o período áureo da indústria de Hollywood - dos anos 40 a 60 do Século XX – revelaram-se grandes compositores para cinema: Bernard Herrmann. Elmer Bernstein, Nino Rota, Ennio Morricone, Henri Mancini, Alfred Newman entre muitos outros. Hoje qualquer cinéfilo identifica a ligação estética entre determinados cineastas e músicos: David Cronenberg e a música de Howard Shore, Sergio Leone e a música de Ennio Morricone, Steven Spielberg e a música de John Williams, Hitchcock e a música de Bernard Herrmann, Tim Burton e a música de Danny Elfman, Peter Greenaway e a música de Michael Nyman, etc. Durante os últimos anos, uma das estratégias de reabilitação do cinema mudo tem sido conseguido com o fenómeno dos cine-concertos (ou filmes-concertos).

Isto é, filmes que são acompanhados com música original interpretada ao vivo e em tempo real da projecção. Há inclusive compositores e grupos musicais que se dedicam exclusivamente à criação de bandas sonoras para filmes mudos. Projectos de diversas proveniências estéticas e nacionalidades têm criado música original para filmes imortais do período mudo: Art Zoyd, Pet Shop Boys, Cinematic Orchestra, Alloy Orchestra, Clã, Mário Laginha, Nuno Rebelo, etc.
No fundo, novos campos de experiências estéticas se abriram com a confluência dos filmes com os concertos ao vivo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Um clássico musical de espionagem

É sempre uma questão subjectiva de gosto pessoal, mas este é o meu tema preferido de música que se encaixa no género de "espionagem" (cinema e televisão). Esta música é o tema principal da série policial "The Man From "U.N.K.L.E." (exibida na televisão norte-americana entre 1964 e 1968).
O ambiente musical criado - com os sopros a pontuar o suspense, os riffs de guitarra e a parte rítmica bem vincada - é soberbo. A composição é do americano Hugo Montenegro, figura importante da música para cinema e televisão dos anos 60, mas pouco conhecido face a outros nomes mais sonantes como Lalo Schifrin ou Henry Mancini (ficou também conhecido por ter feito uma remistura de sucesso para o clássico tema "The Good, the Bad and the Ugly" de Ennio Morricone). 

quinta-feira, 17 de março de 2011

Parabéns Bertolucci


O realizador italiano Bernardo Bertolucci completou 70 anos. Um cineasta que viveu durante décadas à sombra de Fellini ou Antonioni, mas que conseguiu afirmar-se, a pouco e pouco, como um realizador com uma sensibilidade, visual e humana, muito particular. Da sua obra ressalta a épica história "1900" (1976) com uns jovens Robert De Niro e Gérard Depardieu como protagonistas e música do grande Ennio Morricone.

Da restante filmografia de Bertolucci, a minha selecção pessoal dos cinco filmes preferidos (daqueles que conheço) posiciona-se da seguinte forma:
1 - "O Último Tango em Paris" (1973)
2 - "A Estratégia da Aranha" (1970)
3 - "O Último Imperador" (1987)
4 - "Beleza Roubada" (1996)
5 - "Os Sonhadores" (2003)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LUME - Big Band do século XXI


Há fenómenos que não compreendo: um dos mais originais discos de música portuguesa editados (no final) de 2010 praticamente passou despercebido na imprensa: LUME - Lisbon Underground Music Ensemble, liderado pelo compositor, director de orquestra, pianista e manipulador de electrónica Marco Barroso.
Há pelo menos dois anos que esta singular orquestra de jazz (com 15 músicos oriundos de várias experiências) andava a dar nas vistas com concertos em sítios muito específicos. Agora, com o primeiro disco de estreia, o LUME impõe-se como uma big band de jazz do século XXI. Uma big band que mistura, num caldeirão explosivo, o jazz de Duke Ellington, Albert Ayler, John Zorn, o rock tresmalhado de Frank Zappa, Residents, Mr. Bungle, Tortoise, a electroacústica experimental de Charles Ives e Ligeti, a música para cinema de Ennio Morricone ou Henry Mancini e a música erudita contemporânea de Stravinsky ou Messiaen. A tudo isto há ainda a juntar a electrónica com utilização de samples de filmes e excertos de músicas rock.
O resultado musical é um fervilhar impressionante de ideias por segundo, num ritmo swing trepidante (a fazer lembrar, por vezes, Naked City de Zorn) conduzido por uma excepcional secção de sopros. Lá fora há algumas orquestras de jazz que pisam território estético semelhante ao LUME (como a Viena Art Orchestra ou os Flat Earth Society) mas eu arrisco afirmar, sem pudor, que a música de Marco Barroso é muito mais criativa e desafiadora. Esta orquestra, prova, igualmente, a grande qualidade técnica dos instrumentistas portugueses que em nada ficam a dever às grandes referências internacionais.
O crítico de música e ensaísta Rui Eduardo Paes refere que estamos perante um "disco pós-moderno". Isto porque rompe fronteiras estilísticas, subverte linguagens e mistura, com elevado bom gosto, estéticas aparentemente antagónicas, resultando num todo orgânico. Um projecto de uma riqueza musical rara no nosso país. Desejo ardentemente que o trabalho do LUME seja reconhecido em Portugal e, também, no estrangeiro.

domingo, 31 de outubro de 2010

Pasolini e o corvo marxista

Vi o filme "Passarinhos e Passarões" (1966) de Pier Paolo Pasolini. Brilhante dissertação fantasista do cineasta italiano sobre a religião, a vida, a morte, a política, o sexo e a memória histórica. Um homem (o comediante Totó - na imagem) e o seu filho caminham por uma estrada deserta. A meio do caminho encontram um corvo que fala. É um intelectual de esquerda, um marxista. O trio faz uma longa viagem e o homem e o filho regressam ao passado onde São Francisco os manda evangelizar os pardais e os falcões. De volta ao presente, o trio continua a caminhada e o falcão reflecte sobre o idealismo. E quando a fome aperta, é o corvo que serve de repasto...
Pasolini filma esta surreal e divertida história com uma grande frescura e competência, num registo estilístico que raia a comédia burlesca mas com um forte cunho de sátira política e social (como quase sempre foi apanágio do realizador).
Em "Passarinhos e Passarões" a música desempenha um papel crucial (do grande Ennio Morricone) e isso constata-se logo nos minutos iniciais do filme: os créditos são apresentados a... cantar! Uma solução brilhante e original de Pasolini.
Ver:

segunda-feira, 22 de março de 2010

Mike Patton de regresso!


Fiquei a saber através da página de fãs do Facebook do Mike Patton, que o músico dos Faith No More - mas também dos Tomahawk, Fantômas ou Mr. Bungle... - vai lançar no dia 4 de Maio o disco "Mondo Cane" (pela habitual Ipecac Recordings), um projecto híbrido rock orquestrado à mistura com canções italianas pop e românticas das décadas de 50 e 60.
Gravado numa série de concertos europeus, incluindo um concerto ao ar livre numa praça no norte da Itália, o álbum auto-intitulado revela as tais músicas pop italianas bem como uma releitura de “Deep Down” de Ennio Morricone (desde sempre uma referência para Patton). Mike Patton trabalhou com uma orquestra de trinta instrumentos e um coro para criar a sonoridade única de Mondo Cane (nome retirado do controverso filme italiano homónimo de 1962 realizador por Paolo Cavara). Um projecto que foge à habitual experimentação rock do músico, mas que nem por isso deixa de ser interessante.
O engraçado é que eu já falei deste projecto há um ano e meio, aqui, desejando que fosse editado o disco do espectáculo, o que vai acabar por acontecer.
Capa do disco:

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mike Patton e a música para filmes


Não sei se o filme vale de alguma coisa ou não (as crónicas são pouco abonatórias): "Crank: High Voltage", realizado por um tal Mark Neveldine (pelo trailer parece-me um filme de acção algo desmiolado). O que sei é que quero vê-lo o quanto antes porque tem a banda sonora de Mike Patton (Fantômas, Mr. Bungle, Faith No More, Tomahawk, Peeping Tom...). Depois de ter feito a música para o filme "A Perfect Place", comentado aqui, Patton regressa à experiência criativa que sempre o fascinou: a música original para cinema. O seu universo estético retorcido (no bom sentido) reflecte-se no trabalho realizado para "Crank: High Voltage": cruzamento de ambientes sonoros antagónicos, abordagem pouco ortodoxa de estilos musicais, influências assumidas de Ennio Morricone e Nino Rota com heavy metal, electrónica e experimentalimos vários.
Os 32 temas da banda sonora podem ouvir-se no Youtube.
Grande e imparável Mike.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Biopics" para todos os gostos

Parece que os produtores de cinema se voltaram, definitivamente, para o mercados dos "biopics" de figuras musicais marcantes da história. Depois das biografias cinematográficas de Johnny Cash, Ian Curtis, Bob Dylan, Edith Piaf, Sid Vicious, Rolling Stones, Elvis Presley (TV), entre outros, agora a banda Ramones vai também ser levada ao cinema (entretanto Martin Scorsese já anunciou o seu biopic sobre Frank Sinatra e Spike Lee sobre James Brown).
Nunca fui um fã de Ramones, mas admito que tenha potencial para um filme interessante.
Eu sugeria mais alguns nomes de músicos e bandas que dariam excelente filmes (tendo como critério a vida pessoal e artística do músico):
- Frank Zappa
- Jimi Hendrix
- Blixa Bargeld (Einsturzende Neubauten)
- Gustav Mahler
- Lou Reed
- Erik Satie
- Tom Waits
- Syd Barrett
- Lydia Lunch
- Iggy Pop
- John Coltrane
- Sun Ra
- Sonic Youth
- Freddy Mercury
- Kraftwerk
- Leonard Cohen
- Public Enemy
- Janis Joplin
- Talking Heads
- Spike Jones
- Billie Holiday
- Captain Beefheart
- John Cage
- John Zorn
- Ennio Morricone
- (...)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Era Uma Vez na América

Talvez não seja mera coincidência que o actor Robert De Niro tenha participado nalguns dos melhores filmes americanos da segunda metade do século XX: "O Padrinho 2" (1974) de Coppola, "Taxi Driver" (1976) de Scorsese, "O Touro Enraivecido" (1980) de Scorsese e "Era Uma Vez na América" (1984) de Sergio Leone. E como eu gosto deste épico de 4 horas de Leone! Monumental e arrebatadora história de amizade e traição que decorre ao longo de várias décadas, numa homenagem sentida sobre a identidade histórica, social e cultural dos EUA. A música de Ennio Morricone é eterna, sublime nas pontuações aos múltiplos episódios narrativos, imagética como só a sua música consegue ser.
Quem quiser visionar ou rever a versão do realizador, pode fazer o download de "Era Uma Vez na América" aqui.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Patton: a colaboração que faltava


Era inevitável. Mike Patton, o talentoso e multifacetado músico/vocalista camaleónico que tem pautado o seu intenso percurso artístico por milhentos projectos musicais paralelos, abarcando diversos espectros estéticos (jazz, rock, pop, experimental, improvisação, metal, hip-hop, electrónica...) e colaborando com dezenas de músicos e grupos à escala planetária, colaborou há quase três meses com uma orquestra. Era um desejo antigo expresso pelo ex-cantor dos Mr. Bungle. Mike Patton deu ao projecto o nome de "Mondo Cane", título de um filme italiano de 1962 realizado por Paolo Cavara, um documentário chocante sobre violência animal, rituais macabros e comportamentos perversos (um imaginário bem ao gosto do cantor, portanto).
E em que consistiu "Mondo Cane"? Basicamente, pegar num rico e variado repertório de canções tradicionais italianas das décadas de 50, 60 e 70, e apresentá-las ao vivo com novos arranjos e interpretados por Mike Patton (voz) e pela holandesa Metropole Orchestra. Os arranjos e orquestrações das canções foram da responsabilidade do compositor italiano do momento - Danielle Luppi, com experiência em música para cinema. O concerto de apresentação deste espectáculo aconteceu no passado dia 12 de Junho no Paradiso - Main Hall de Amesterdão. O resultado desta junção entre a voz de Mike Patton e a orquestra clássica (com instrumentos de banda rock como guitarra eléctrica e bateria) é sublime. Patton assume a postura de um verdadeiro "crooner" à antiga, cantando em italiano, as canções românticas, sentimentais e semi-trovadorescas que marcaram o imaginário musical italiano durante décadas. Ao longo das diversas canções, Mike Patton desfila invejável carisma e total entrega na interpretação vocal. Apenas num tema se revela a veia mais enérgica do cantor, quando dá largas à sua irrepreensível expressividade vocal.
Não admira esta paixão de Patton pela música italiana, visto que é um confesso admirador de compositores como Ennio Morricone (a sua editora, Ipecac Recordings, lançou há dois anos um disco de Morricone), Nino Rota ou o cantor Paolo Conte.
Seria interessante que este espectáculo resultasse em disco.
Todo os temas do espectáculo podem ser visionados (e ouvidos) neste sítio.

domingo, 6 de julho de 2008

Danny Elfman attacks!

Danny Elman passou pelo Porto, há quase 10 anos, por ocasião do Fantasporto e da estreia do filme “Sleepy Hollow” (“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, 1999), desse prodigioso cineasta chamado Tim Burton. Já o disse aqui várias vezes que Danny Elfman é o meu compositor favorito para cinema dos últimos 20 anos. Não sei se é o melhor nem o mais conhecido, nem sequer o mais premiado (o músico diz que os compositores académicos não gostam do seu trabalho), mas Elfman é, seguramente, um dos mais inventivos e eclécticos criadores de bandas sonoras para filmes desde Bernard Herrmann, Nino Rota ou Ennio Morricone.
Nem toda a sua carreira é brilhante - compôs bandas sonoras banais para filmes comerciais como "Hulk", "Missão Impossível" ou "Men in Black". Mas bastava a sua colaboração com Tim Burton para ficar para a história. Aliás, é a Tim Burton que Elfman deve a sua entrada fulgurante no mundo do cinema, quando o cineasta o convidou a fazer a sublime música para o filme "As Aventuras de Pee-Wee" (1985). (Danny Elfman começou por compor para teatro musical, antes de fundar a interessante banda rock Oingo Boingo em 1978). De resto, Danny Elfman só não criou duas bandas sonoras de filmes de Burton: "Ed Wood" (2004) e "Sweeney Todd" (2007). No primeiro filme, Danny Elfman estava chateado com Tim Burton (reconciliaram-se logo a seguir); no segundo, a música original era de Stephen Sondheim. Burton e Elfman encetaram, pois, uma colaboração artística das mais esfuziantes e originais das últimas duas décadas.
São da responsabilidade de Danny Elfman as notáveis bandas sonoras dos filmes “Eduardo Mãos de Tesoura”, “Batman”, “The Big Fish”, "The Corpse Bride", “Marte Ataca!”, "Charlie e a Fábrica de Chocolate" (todos de Tim Burton), ou ainda “Dick Tracy”, e mesmo a música do genérico da série “Os Simpsons” (Elfman refere que na Índia é mais conhecido pela música dos "Simpsons" do que qualquer outra). O trabalho de Elfman é devedor da tradição musical para filmes de insignes compositores clássicos como Nino Rota, Bernard Hermann, Henry Mancini ou Max Steiner, mas acrescentado sempre um toque singular de criatividade (que pode passar por música de cabaret, jazz, ou rock), refutando as convenções da comédia musical (designadamente da Broadway) e revelando uma sensibilidade rara na criação de ambintes negros e góticos. Ver aqui filmografia completa.
Porventura a obra-prima absoluta de Danny Elfman seja o filme de animação (com produção de Burton) “The Nightmare Before Christmas” (“O Estranho Mundo de Jack”). O filme é um maravilhoso conto onde se cruzam as noites das bruxas e de Natal, num registo misto de negritude teatral do Halloween e de imaginário surrealista. O perfeito contraponto musical de Danny Elfman é feito recorrendo a canções que servem de autêntico motor narrativo, socorrendo-se a uma síntese artística que funde Prokofiev, Tchaikovski e Nino Rota. Para além destas referências, a obra alemã de Kurt Weill revela-se como o elemento musical e estilístico catalisador de toda a obra. Mais a mais, ao contrário de muitas bandas sonoras, este trabalho sobrevive perfeitamente sem o recurso das imagens. Eis algumas palavras do próprio Elfman a propósito desta banda sonora: “Foi um enorme desafio compor a banda sonora para “The Nightmare...”; passei dois anos e meio a trabalhar com o Tim Burton. Escrevemos onze canções antes de haver um guião. Desprezei a regra Disney segundo a qual todos os musicais devem ter cinco temas, de 12 em 12 minutos. Queríamos fazer algo que soasse simultaneamente fresco e antiquado, quase intemporal”.
E o que está a fazer actualmente Danny Elfman? Está a preparar a composição para um peça de teatro musical a estrear na Broadway em 2010 sobre a vida do ilusionista Harry Houdini. No que toca ao cinema, compõe neste momento a música para ao filme "Hellboy: The Golden Army" (de Guillermo del Toro). E foi o responsável pelo original soundtrack de um filme que está a dar muito que falar e que estreia em Portugal daqui a dias: "Wanted" (com Angelina Jolie e Morgan Freeman). O motivo do burburinho em relação a este filme diz respeito aos revolucionários efeitos visuais (na senda de "The Matrix") e por uma alegada redefinição do conceito de filme de acção. Já ouvi a banda sonora que Danny Elfman fez para "Wanted" e, mais uma vez, não desilude. Fraqueja apenas no tema "The Little Things", um desinspirado tema hardrock. De resto, as soluções sonoras encontradas por Elfman são plenas de criatividade e ousadia estética. Ouça-se esta tema "Revenge": a mistura explosiva de orquestrações sinfónicas com riffs de guitarra resulta num momento claramente superior da sua carreira. Um estilo que se reconhece à légua, um estilo que muitos imitam (como Tyler Bates) mas poucos igualam.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Big Band tresloucada


Esta é bem capaz de ser uma das mais delirantes big bands que alguma vez pisou a face da terra. Chamam-se Flat Earth Society, são 22 músicos de formações distintas liderados pelo clarinetista Peter Vermeerche. Misturam músicas num caldeirão onde cabe: Frank Zappa, John Zorn, Mike Patton, Duke Ellington, Sun Ra, Henry Mancini, Carl Stalling (compositor de cartoons), Ennio Morricone, jazz, blues, rock, experimental, e o mais que se queira imaginar. O resultado musical é uma orquestra em completa ebulição criativa, em estado de delírio frenético e constante. Diversão e profundidade são duas das muitas nuances da big band, que de big band convencional nada tem. Acabei de ouvir o último registo do grupo - "Psychscout" e ainda tenho os pelos em pé. Diz-se que ver os Flat Earth Society ao vivo é uma experiência irrepetível e surpreendente. Acredito. E eu acreditarei na Virgem Maria quando ler a notícia que esta tresloucada orquestra vem tocar um dia em solo português.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Relação mais fascinante e frutuosa?

Selection
Votes
Federico Fellini/ Nino Rota. 5%6
Ingmar Bergman/ Erik Nordgren. 0%0
Alfred Hitchcock/ Bernard Herrmann. 11%13
Franklin J. Schaffner/ Jerry Goldsmith. 0%0
David Lean/ Maurice Jarre. 0%0
Steven Spielberg/ John Williams. 35%40
Robert Zemeckis/ Alan Silvestri. 0%0
Tim Burton/ Danny Elfman. 38%43
David Lynch/ Angelo Badalamenti. 7%8
David Cronenberg/ Howard Shore. 0%0
M. Night Shyamalan/ James Newton Howard. 4%4
O blog da extinta revista de cinema Premiere, entretanto rebaptizada Deuxieme lançou um informal questionário sobre qual a relação mais frutuosa e fascinante entre um realizador e um compositor. Faltam aqui algumas outras duplas importantes, como as do Sergio Leone com Ennio Morricone ou do cineasta polaco Krzysztof Kieslowski com Zbigniew Preisner, mas o resultado é, talvez sem surpresas, elucidativo: as duplas Spielberg/Williams e Burton/Elfman lideram o ranking de preferências dos leitores. Eu votei nos dois visionários que fascinaram com a obra "Eduardo Mãos de Tesoura". Este tema já foi por mim abordado neste post.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Musicar as imagens


A história da música para cinema é recheda de aspectos interessantes. A introdução do som na linguagem fílmica provocou uma revolução. Técnica e estética. Chaplin resistiu 10 anos ao som, visto que era da opinião que este elemento iria matar a essência do cinema: a imagem. Mas a história comprova que não só não matou como enriqueceu sobremaneira a plasticidade das imagens, auferindo-lhe outra dimensão, outra expressividade. Historicamente, a primeira composição original expressamente feita para um filme foi em 1908, pelo compositor Camille Saint-Saens. Por outro lado, grandes compositores falharam na composição de bandas sonoras para cinema, como foi o caso de Stravinsky, Bartók ou Ravel.

O primeiro filme sonorizado com diálogos é “O Cantor de Jazz” (1927) com Al Jolson (actor branco que interpretava um cantor negro), fruto da introdução do Vitaphone, máquina de projecção com disco acoplado desenvolvido a partir do Fonógrafo de Thomas Edison. No início, a música para cinema era meramente funcional, ilustrativa das imagens. Era uma música programática. Eis que em 1939 se dá uma verdadeira ruptura estética: o génio de Walt Disney realiza “Fantasia”, obra que revolucionou a importância da música no cinema com Schubert, Bach, Tchaikovsky. Com este filme a música passou a ser o veículo narrativo primordial.
É curioso constatar as relações que, ao longo de décadas de história do cinema, se estabeleceram entre realizadores e compositores, estabelecendo assim, afinidades artísticas únicas: Nino Rota com Fellini; Prokofiev com Eisenstein; Bernard Hermann com Hitchcock; John Williams com Spielberg; Michael Nyman com Peter Greenaway; Ennio Morricone com Sergio Leone; Howard Shore com David Cronenberg; Danny Elfman com Tim Burton, etc.

Um das mais espantosas bandas sonoras compostas para cinema, é o filme "Cape Fear" (Cabo do Medo), original de J. Lee Thompson em 1962 e alvo de um brilhante remake de Martin Scorsese em 1991. Veja-se (e ouça-se) este brilhante início de filme na versão adaptada de Scorsese com um genérico do genial Saul Bass (trabalhou com Hitchcock): a cada segundo, a música prenuncia a violência e o mal que perpassa por todo o resto do filme. A música é do grande Bernard Herrmann adaptada por Elmer Bernstein. Aqui.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Danny Elfman


É difícil escolher uma banda sonora das muitas que já compôs Danny Elfman. A sua veia criativa parece nunca terminar. Da música do genérico "The Simpsons" às bandas sonoras de filmes da sua alma gémea - Tim Burton - "Eduardo Mãos de Tesoura", "O Estranho Mundo de Jack", "Batman", "Marte Ataca", ou "Big Fish", Elfman é um compositor com uma versatilidade criativa rara, à semelhança dos grandes mestres clássicos de Hollywood - Henry Mancini, Bernard Herrmann, Elmer Bernstein ou Ennio Morricone.