
Há uns dias entrei num elevador com um jovem que ouvia música com auscultadores (leitor de mp3, iPod ou equivalente). Pelo silêncio proporcionado pelo hermetismo acústico do elevador, conseguia perceber o que o jovem ouvia. Qualquer coisa de música rock. Na mesma semana, cruzei-me na rua com um jovem que ia a ouvir música tão alta que cantava, também ele (e sem se aperceber) muito alto. Dois casos de decibéis a mais, portanto. Os dois jovens não conseguiriam ouvir um trovão a dois metros, dado o volume exagerado do que estavam ambos a ouvir.
Este episódio empírico levou-me a uma exploração bastante mais séria do assunto: estudos científicos recentes comprovam a relação entre a perda de audição progressiva (até 70%) com a utilização desproporcionada de volumes de som nos auscultadores. Os jovens (e menos jovens) só se apercebem desta perda de audição tarde demais. Cada vez mais os jovens ouvem música em todas as circunstâncias e mais alguma: na rua, a andar de bicicleta, nos consultórios médicos, nas salas de aula, na igreja, em espectáculos de música, em qualquer lugar e em qualquer momento.
Já acontecia nos tempos do "Walkman"? Talvez, mas nunca nesta dimensão massiva e com este carácter generalista. A portabilidade dos equipamentos de som (leitores cada vez mais pequenos e potentes), aliado ao inerente fenómeno de moda representado pela cultura iPod, são factores que ajudam à massificação dos leitores de mp3. Os tempos mudaram drasticamente. Já não existem grupos de jovens que se juntam no isolamento de um quarto para, em conjunto, ouvirem um disco, desfrutando do momento colectivo da descoberta musical. Muito menos existe o culto da iconografia relacionada com os suportes dos CD (capas, contracapas, conteúdo informativo...).
O que existe agora é o consumo musical cada vez mais individualista e solipsista, ao ponto de vários jovens poderem estar na mesma sala ou no mesmo café a ouvir músicas diferentes, sem comunicação ou interacção. É mais democrático e acessível, é mais fashion e mais de acordo com as regras da cultura pop, mas neste fenómeno de fruição perdem-se vivências e perde-se o prazer da partilha em comum. É certo que para cada nova geração, surgem novas fórmulas de fruição musical. Até ao dia em que essas gerações só conheçam o mundo virtual onde a desmaterialização da música impera. Para o bem e para o mal.
4 Sábio(s) comentário(s)::
Atenção às generalizações, pois os jovens continuam a gostar de conviver e de estar em grupo - apenas o fazem de formas diferentes.
E não é apenas os jovens que ouvem música em altos berros - já me tenho cruzado com pessoal de trintas que eu consigo reconhecer a léguas de distância o que eles estão a ouvir.
Creio que só o hip-hop é um excepção ao estado de coisas de que fala. Nesse meio, sim, ainda há muitos jovens que se reúnem em volta de um disco (ou de um clip, no youtube.... - a desmaterialização persiste, portanto) a sorvê-lo, a discuti-lo.
Gostei tanto que me permiti de o transcrever para o meu blog: http://obosforo.blogspot.com/2011/09/cena-toda.html.
Francisco.
Este blog tornou-se numa constante constatação de que o tempo muda...
Zé: e isso é bom ou é mau?
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