quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A carta de dez em dez anos

Depois de ter realizado "Este Obscuro Objecto de Desejo" (1977), Luis Buñuel retirou-se do cinema. Estava cada vez mais surdo e a saúde começava a faltar-lhe. Sempre fora um grande bebedor e fumador e, apesar da sua enorme resistência, começou a sofrer de diabetes e de cancro do fígado. Por outro lado, sentia a memória fugir-lhe e por isso ainda foi a tempo de escrever a sua (brilhante) autobiografia três anos antes de morrer (1983): "O Meu Último Suspiro".
Em Novembro de 1982, o também muito combalido Salvador Dalí (a sua mulher e diva Gala morrera em Junho desse ano), tentou convencer Buñuel a regressarem ambos ao trabalho (estiveram zangados décadas sem se falarem). 
Para tal, enviou-lhe a seguinte mensagem: "Querido Buñuel: de dez em dez anos envio-te uma carta com a qual não estás de acordo, mas eu insisto. Esta noite concebi um filme que podemos fazer em dez dias, não a propósito do demónio filosófico, mas do nosso diabozinho. Se te apetecer, vem ver-me ao castelo de Púbol. Um abraço, Dalí".
E a resposta seca de Buñuel foi: "Recebi os teus dois telegramas. Fantástica a ideia do filme, mas retirei-me do cinema há cinco anos e quase não saio de casa. É uma pena. Um abraço, Buñuel".
Oito meses depois, Luis Buñuel morreu...
 

3 comentários:

Rui Gonçalves disse...

Um episódio delicioso que desconhecia. :-)

Vasco disse...

Víctor, para quando um post sobre o "amour" de Haneke?

Saudações cinéfilas

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Vasco: ainda não vi o "Amor"...