Mostrar mensagens com a etiqueta James Joyce. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta James Joyce. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O "êxtase da mente"




O que têm em comum Raymond Chandler, John Cheever, Tennessee Williams, Dylan Thomas, Dorothy Parker, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Paul Verlaine, Truman Capote, Jack Kerouac, William Faulkner, Charles Bukowski (na imagem), Graham Greene, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Fernando Pessoa, Ernest Hemingway, Hunter S. Thompson e Jack London?
Todos foram grandes escritores e grandes... alcoólicos. E são apenas alguns exemplos.

Dizia Jack Kerouac: "Quanto mais velho eu fico, mais bêbado me torno. Porquê? Porque eu gosto do êxtase da mente." Enquanto que Hunter S. Thompson defendia: "Eu odeio recomendar drogas, álcool, violência, ou insanidade para qualquer um, mas isso tudo sempre funcionou comigo."

O que farão os escritores contemporâneos para estimular o tal "êxtase da mente" de que falava Kerouac?...

sábado, 17 de novembro de 2012

David F. Wallace: a exigência


Há já algum tempo que tenho ouvido falar no escritor David Foster Wallace, considerado um génio literário maldito americano que se suicidou aos 46 anos.
O livro pelo qual recebeu elogios rasgados é o monumental "The Infinite Jest", "A Piada Infinita" na versão portuguesa" (edição Quetzal). Segundo refere a crítica especializada (como na edição desta semana do suplemento cultural Ípsilon do Público), trata-se de uma colossal e complexa obra literária em todos os sentidos: na forma e no conteúdo inovadores, representando, por isso, um dos grandes acontecimentos literários e editoriais do ano. São 1200 impressionantes páginas de uma escrita minuciosa e arrojada.
Sobre o livro, escreveu a jornalista Filipa Melo (Sol): "A Piada Infinita é um romance sobre depressão e várias outras desordens mentais e físicas, sobre família, consumos compulsivos, drogas, indústria do entretenimento, terrorismo e agências de segurança e mil outros subtemas explorados pelo autor com a minúcia de um pesquisador de nanopartículas. Por tudo isto, A Piada Infinita é um desafio ao qual poucos leitores conseguem aceder por completo, mas um feito extraordinário, que ficará na história da literatura."
------
Tento acompanhar, na medida do possível, os fenómenos literários. Mas desta vez não vou aderir a este livro. Até o poderia comprar, mas sei que depois não teria tempo nem disponibilidade (mental e física) para mergulhar, concentrado, em tão intrincada obra literária. Sei-o porque já me aconteceu em anteriores situações, nomeadamente, com o livro "2666" de Roberto Bolaño e com o fantástico "As Benevolentes" de Jonathan Litell (e antes me acontecera com o clássico "Ulisses de James Joyce).
Ambas obras têm à volta de 1000 páginas e, apesar da indiscutível qualidade literária inerentes, não consegui ler mais do que umas 200. Acabei por sucumbir perante a monumentalidade e exigência formal destes livros (talvez um dia volte a eles num futuro próximo...).
Por isso não vou investir esforço e tempo para ler "A Piada Infinita", porque sei que este livro - como diz Filipa Melo - "é um desafio ao qual poucos leitores conseguem aceder por completo". Há escritores que colocam a fasquia demasiado alta para o leitor menos preparado e exigem dele entrega incondicional.
Pode ser que um dia consiga reunir coragem, tempo e devoção totais para "aceder por completo" a Wallace.
 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Joyce no "Hugo"

O filme "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen estava recheado de personagens artísticas do início do século XX: Ernest Hemingway. Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Man Ray, Luis Buñuel, etc. Estas figuras desempenhavam um papel relevante na história do filme.
Ora, Martin Scorsese, outros cineasta culto e com sensibilidade artística apurada, também incluiu no ser recente (e oscarizado) filme "A Invenção de Hugo", algumas figuras essenciais da arte da primeira metade do século XX. Só que, ao contrário de lhes atribuir um papel importante no argumento (como fez Woody Allen), apenas as utilizou como meros figurantes. Talvez tenha sido apenas para dar um toque mais erudito ao ambiente parisiense e para contextualizar historicamente a história de Hugo.
-----
Eis as personagens artísticas que surgem em "A Invenção de Hugo":
O guitarrista de jazz Jean "Django" Reinhardt

O escritor James Joyce e o pintor Salvador Dalí

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Eisenstein: a autobiografia


Gosto de autobiografias de realizadores. Já li umas quantas deveras extraordinárias, como as de Charles Chaplin, Andrei Tarkovski ou Luis Buñuel.
Uma autobiografia que nunca consegui ler - até porque não existe edição portuguesa (brasileira sim) é a do realizador Sergei Eisenstein: "Memórias Imorais".

Eis o que reza a interessante sinopse: "Este é um livro de memórias sui generis. E nem poderia ser diferente. Escrito, dois anos antes de sua morte, por um dos maiores e mais inovadores cineastas de todos os tempos, tem um estilo fragmentário e assistemático que faz lembrar os brilhantes efeitos de montagem obtidos por Eisenstein nos seus filmes.
Nele, o autor de "O Couraçado Potemkin" narra a sua vida na Rússia desde a Revolução - em que serviu no exército bolchevique como voluntário -, as viagens pelo Ocidente, os encontros com celebridades como Jean Cocteau, Paul Éluard e James Joyce, os triunfos e as tribulações. Memórias imorais mostra, além disso, a grande erudição de Eisenstein - que, no entanto, nada tinha de pedantismo. Dois capítulos falam, por exemplo, de sua relação apaixonada com os livros, outro discute a obra de Edgar Allan Poe, etc. Essas memórias mostram também a diversidade de interesses do autor, que, entre outras coisas, foi um excepcional desenhista, como se pode constatar pelos trabalhos reproduzidos no livro."

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um génio esquecido


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
------
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.

George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.

Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar

Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal. Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O radicalismo de Godard


Dos grandes cineastas históricos ainda vivos, Jean-Luc Godard é o que eu tenho menos simpatia. Pelo menos do seu trabalho dos últimos 10 ou 15 anos. Bem sei que é um monstro sagrado da história do cinema, uma referência incontornável, um visionário que revolucionou a sétima arte, um realizador-chave da "nova vaga" francesa, etc.

Um cinéfilo tem as suas preferências, e para mim Godard é daqueles cineastas que, apesar de indubitavelmente talentoso, não me comove. E a emoção é parte essencial da linguagem artística. Gosto dos filmes do Godard dos anos 60 ("A Bout de Soufle", "Band à Part", "Le Mépris", "Pierrot le Fou", "Alphaville", "Wekkend"...), mas já não adiro com o mesmo entusiasmo aos filmes mais radicais do realizador franco-suíço.

E falo, particularmente, da sua mais recente obra, "Film Socialism", uma obra que vi ontem no cinema e que me deixou estupefacto. Godard refuta quaisquer resquícios de narrativa convencional (já o fazia antes, mas nunca com o radicalismo de agora) e explora à saciedade fragmentos de imagens, diálogos e sons que se estilhaçam a cada segundo. Para ver este filme, o espectador é forçado a uma concentração desmedida, tal a incrível avalanche de estímulos audiovisuais a que é submetido.

Sabe-se que "Film Socialisme" é constituído por três movimentos (ou secções); sabe-se que o filme lança farpas à Europa (mais uma vez), ao capitalismo, à falência das ideologias, recorrendo a imagens de arquivo, cortes abruptos e inesperados da montagem, a enquadramentos de câmara improváveis, a um ritmo avassalador de ideias, sons, memórias, informação em demasia. Radicalismo formalista do qual não retiro prazer estético.

É desse mal, quanto a mim, que padece o filme de Godard: à custa de tanto querer ser vanguardista e experimentalista - mesmo nos seus veneráveis 80 anos de idade -, o seu cinema enreda-se num formalismo levado às últimas e redundantes consequências. Cerebral, frio e metódico em excesso.

Não admira que "Film Socialisme" tenha sido recebido com reacções totalmente díspares: houve quem o comparasse à magnitude da obra literária "Ulisses" de James Joyce, e houve quem o cilindrasse pela petulância intelectual, pela linguagem audiovisual exacerbada e pela abstracção excessiva (parece que Godard, tendo filmado pela primeira vez com o sistema HD, se deixou deslumbrar com as potencialidades do mesmo - as brincadeiras visuais são mais do que muitas).

Gosto de propostas cinematográficas que me desafiem e provoquem, mas não a um nível como o cinema de Godard faz. O seu cinema actual é um cinema que me deixa exausto e desorientado, e pior: que não me provoca um pingo de emoção estética, que não me inspira nem me estimula. Saía da sala de cinema cansado pela frieza do que tinha visto e 10 minutos depois deixei de pensar no filme.

Há quem diga que "Film Socialisme" é já a manifestação visionária do "cinema do futuro". Pois que seja. Subjectividade por subjectividade, eu prefiro um plano-sequência de um qualquer filme do Béla Tarr do que este "cinema do futuro". E reconheço que "Film Socialisme" é um objecto essencial para ser discutido e analisado numa aula de cinema, de teoria da arte ou de comunicação visual.

(Nota: agora os defensores acérrimos do Godard podem encher a caixa de comentários com críticas... mas construtivas, se faz favor).

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A criatividade esquecida de Antheil


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound com George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil.
Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "Bad Boy of Music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos.
Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free-jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à América natal e envereda por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.
Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sobre a leitura de "Ulisses"

Há tempos li num jornal que o livro "Ulisses" (1921), de James Joyce, foi considerado o "melhor romance jamais escrito" (figurava em 1º lugar numa lista com cem títulos).
Joyce foi, inegavelmente, um rigoroso estilista da língua, um modernista visionário, um inovador formal sem paralelo (só Marcel Proust se lhe poderá comparar). A sua prosa de extraordinária invenção narrativa quebrou normas instituídas e abriu novas portas na experiência literária. Não admira que o escritor irlandês tenha demorado 7 anos a escrever tão monumental obra, cuja história se desenrola num único dia na vida de Leopold Bloom.
James Joyce construiu uma complexa e densa estrutura narrativa, refutando academismos convencionais. Mas "Ulisses" é, igualmente, um romance de grande exigência para o leitor (como é "A Montanha Mágica" de Thomas Mann ou "O Homem Sem Qualidades" de Robert Musil).
A escrita de escritor irlandês parece emaranhar-se em múltiplas linhas narrativas em simultâneo, numa prosa nem sempre inteligível, desorientando o leitor menos prevenido.
Não admira, por isso, que na edição da "Livros do Brasil" que possuo (na imagem), o tradutor disserte sobre a extrema dificuldade técnica que acarretou a tradução do romance para português. Tal dificuldades deveu-se à complexidade de trocadilhos linguísticos, neologismos, recursos expressivos e trocadilhos imaginados e trabalhados por Joyce. O problema é que este rigor técnico e esta exigência formal podem, a meu ver, anular (ou reduzir) o prazer estético da própria leitura.
Daí que eu nunca tenha conseguido chegar ao fim da leitura de "Ulisses" (li apenas dois ou três dos seus 18 capítulos). O mesmo aconteceu com diversos amigos meus. No entanto, esta obra é quase sempre referenciada como essencial na literatura do século XX, facto que suscita uma interrogação paradoxal no meu espírito: será "Ulisses" de Joyce a obra literária mais citada (seja pelo comum dos leitores, seja por críticos literários encartados) e, porventura, a menos lida?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Man Ray


Man Ray (na imagem à direita, ao lado de Salvador Dalí) fez parte do movimento dadaísta e surrealista dos anos 20 e 30 do século XX. É um dos meus artistas e fotógrafos preferidos.
Um artista iconoclasta e original como poucos que marcou a arte de todo o século. Desenvolveu uma obra artística tão inovadora na pintura como na fotografia. Neste último campo, fez retratos únicos de artistas como Picasso, Dali, Magritte, Buñuel. Artaud, Satie, Cocteau, Stravinski, James Joyce, Ducahmp, Matisse, Picabia (foi amigo de quae todos)… E o nu feminino adquiriu outra elevação estética com as fotografias de Man Ray.
Para além destas intervenções artísticas que influenciaram grande parte da arte produzida nas décadas seguintes, Man Ray experimentou também o cinema como veículo para a sua visão libertária da arte.
No apogeu do movimento surrealista e expressionista, no qual todas as linguagens de vanguardas eram permitidas, Ray fez as curtas-metragens “Emak – Bakia” (1926), “L’Étoile de Mer” (1928) e “Les Mystères du Château de Dé” (1929).
Três absolutos expoentes do cinema como poesia visual, como plataforma de experimentação estética e formal. São filmes abstractos e que recorrem a técnicas inovadoras de filmagem, montagem e efeitos visuais (alguns devedores do mundo da fotografia).

Todos estes filmes (entre outros) estão disponíveis para visionamento no site da UbuWeb

domingo, 29 de agosto de 2010

Livros à distância de um clique


Quase dois mil livros (e outras tantas obras) para descarregar, gratuitamente, em formato PDF: Fernando Pessoa, Shakespeare, Oscar Wilde, Eça de Queiroz, Rimbaud, Thomas Mann, Cervantes, James Joyce, Kafka, Machado de Assis, entre muitos outros escritores de renome nacional e mundial. É só fazer clique.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A exigência chamada "A Montanha Mágica"


Quando entrei na livraria Bertrand foi o primeiro livro que procurei: “A Montanha Mágica” de Thomas Mann. Uma obra literária mítica, grandiosa e influente, um marco para toda a literatura do século XX. Um livro para colocar na estante ao lado de autores como Robert Musil, Marcel Proust ou James Joyce. Nunca li “A Montanha Mágica”, obviamente, mas ressoou sempre no meu espírito a necessidade de ler este romance colossal (na forma e no conteúdo) por influência de amigos mais velhos e conhecedores. Ler este clássico da literatura universal que, pela primeira vez, foi editado no nosso país com uma tradução directa do alemão para o português europeu (e o livro já tem 100 anos!), feita por Gilda Lopes Encarnação, é uma grande responsabilidade. E um exercício exigente que se manifesta no tempo necessário para ler as mais de 800 páginas do livro de Thomas Mann. E o próprio escritor eleva a fasquia da exigência, dizendo que o leitor deve ler o romance duas vezes, para melhor se embrenhar na história de amor, morte e passagem do tempo. É neste aspecto que, confesso, me assusta um pouco aventurar-me na obra: a morosidade para ler um romance de tamanha densidade e complexidade exaspera-me, por mais prazer que possa extrair da sua leitura.
É preciso coragem para começar a ler um livro desta magnitude e importância. A mesma coragem que se deve ter para ler o monumental livro "O Homem Sem Qualidades" de Musil, para ouvir as óperas de Wagner, para ver as sete horas do filme "Sátántangó" do húngaro Béla Tarr. Mas a verdade é esta: só com coragem e determinação é que se pode extrair todo o prazer estético da fruição de uma obra de arte perfeita. Não é pela via do facilitismo intelectual.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hemingway no cinema (entre outros possíveis)


A indústria de Hollywood continua obcecada com remakes e "filmes trigémeos". O que está mesmo a dar é adaptar ao grande ecrã a vida de personalidades famosas, sobretudo oriundas do mundo das artes e do espectáculo. A notícia mais recente tem a ver com a concepção de um filme biográfico sobre a vida do escritor Ernest Hemingway (1899 - 1961). É mais uma figura das artes controversa que teve uma vida pessoal e profissional atribulada, elementos que enriquecem sempre um filme (já para não falar do facto de Hemingway se ter suicidado). Mas este filme sobre o Prémio Nobel da Literatura arrisca-se a entrar no rol dos gémeos ou trigémeos, já que existem outras produções em andamento sobre a vida do autor de "O Velhor e o Mar". Em 1996, o realizador Richard Attenborough já tinha feito uma adaptação ao cinema da vida de Hemingway, mas o filme concentrava-se apenas num período da juventude do escritor.
Se pudesse sugerir vidas de artistas para serem adaptadas ao cinema, eis alguns nomes que escolheria (que poderiam, ou não, resultar em filmes interessantes):
Estrangeiros:
- James Joyce
- Mishima
- Malevitch
- Nietzsche
- George Orwell
- Magritte
- John Cage
- Bokowski
- Marquês de Sade
- Frank Zappa
- Antonin Artaud
- Luís Buñuel
- Man Ray
- Jacques Brel
- William Burroughs
- Boris Vian
- Jack Kerouac

Portugueses:
- Almada Negreiros
- Mário de Sá-Carneiro
- Luiz Pacheco
- Amadeo de Sousa Cardoso
- Fernando Pessoa
- Mário Cesariny
- António Variações
- Adolfo Luxúria Canibal

Agora é só imaginar um realizador adequado para cada levar ao grande ecrã a vida de cada um destes nomes...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Oferta livreira

Quase 2 mil livros para descarregar, gratuitamente, em formato PDF: Fernando Pessoa, Shakespeare, Oscar Wilde, Eça de Queiroz, Rimbaud, Thomas Mann, Cervantes, James Joyce, Kafka, Machado de Assis, entre muitos outros escritores de renome nacional e mundial. Link.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Man Ray e o cinema


Man Ray (na imagem à direita, ao lado de Salvador Dalí) fez parte do movimento dadaísta e surrealista dos anos 20 e 30 do século XX. Um artista iconoclasta e original como poucos que marcou a arte de todo o século. Desenvolveu uma obra artística tão inovadora na pintura como na fotografia. Neste último campo, fez retratos únicos de artistas como Picasso, Dali, Magritte, Buñuel. Artaud, Satie, Cocteau, Stravinski, James Joyce, Ducahmp, Matisse, Picabia (foi amigo de quae todos)… E o nu feminino adquiriu outra elevação estética com as fotografias de Man Ray.
Para além destas intervenções artísticas que influenciaram grande parte da arte produzida nas décadas seguintes, Man Ray experimentou também o cinema como veículo para a sua visão libertária da arte. No apogeu do movimento surrealista e expressionista, no qual todas as linguagens de vanguardas eram permitidas, Ray fez as curtas-metragens “Emak – Bakia” (1926), “L’Étoile de Mer” (1928) e “Les Mystères du Château de Dé” (1929). Três absolutos expoentes do cinema como poesia visual, como plataforma de experimentação estética e formal. São filmes abstractos e que recorrem a técnicas inovadoras de filmagem, montagem e efeitos visuais (alguns devedores do mundo da fotografia). Todos estes filmes (e mais alguns) estão disponíveis para visionamento no site da UbuWeb.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

George Antheil - Bad boy of music


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o poianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.

Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

sábado, 19 de abril de 2008

Os caminhos da tradução literária


O suplemento do Público da última semana, o Ípsilon, trazia uma longa reportagem sobre a edição nacional da monumental obra literária "O Homem Sem Qualidades" de Robert Musil. Sobre esta edição já escrevi aqui qualquer coisa. Para além da habitual análise à obra literária em si e respectivo escritor, o jornal dedica ainda três páginas ao tradutor, o crítico literário e professor João Barrento. Esta abordagem jornalística ao trabalho do tradutor não é muito habitual, dado que o tradutor fica quase sempre na penumbra quando se trata de analisar um livro estrangeiro. E João Barrento merece, e muito, que os holofotes se dirijam a ele. Barrento tem uma longa experiência de tradução - sobretudo autores consagrados de língua alemã - e aventurar-se na tradução exigente de uma das grandes obras romanescas do século passado, "O Homem Sem Qualidades" (três volumes, perto de 2000 páginas), é meritório e digno de registo. Barrento tem uma cultura literária muitíssimo apurada e abrangente, e nesta entrevista explica os aspectos principais da tradução de Musil. Demorou 3 anos a concluir a tradução e organização dos dois primeiros tomos do livro. Admirável.
Sempre admirei o trabalho de tradutor. Trabalha quase sempre na sombra do nome do escritor, mas é um elemento essencial para o sucesso e reconhecimento crítico de uma determinada obra. Mas não é, certamente, um trabalho fácil. Existe aquela célebre máxima de raiz latina - que muito atormenta os intelectuais - que diz "tradutore, traidore". Ou seja, a tradução é uma traição (à língua original da obra). Pode ser e pode não ser. Se já é difícil traduzir ficção tão complexa como a de James Joyce, Kafka ou Musil, como será com a poesia? Portugal tem grandes tradutores de várias línguas: Vasco Graça Moura, Miguel Serras Pereira e Frederico Lourenço (que traduziu "Homero") são apenas alguns nomes cujos trabalhos já mereceram prémios. A tradução é um trabalho que exige um extraordinário conhecimento cultural das línguas com que se trabalha. É um trabalho tecnicamente árduo, de grande rigor intelectual e desgastante fisicamente. Conheci uma vez um tradutor português que traduzia autores alemães para português, e dizia que era um trabalho gratificante, mas apenas até certo ponto. Exige muita disciplina e empenho intelectual e nem sempre é reconhecido pelos leitores e pelas editoras, que geralmente pagam mal. E são poucos os tradutores portugueses que conseguem viver apenas deste trabalho.
Traduções à parte, tenho um amigo formado em filosofia que foi aprender alemão para ler no original as obras de Heidegger. Tinha outro amigo que dizia que só lendo Proust em francês é que se conseguia captar as nuances da língua e o conteúdo literário da obra. Por outro lado, houve muitos estudiosos estrangeiros que aprenderam português para ler Fernando Pessoa ou Camões (o escritor italiano Antonio Tabucchi foi um deles). Persiste a sensação de que nas traduções se perde sempre qualquer coisa do original, mas aí a criatividade do tradutor e o seu domínio das línguas é fundamental para fazer esquecer, no espírito do leitor, essa possibilidade.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Robert Musil


É um dos acontecimentos do ano no que diz respeito ao mercado editorial português: no próximo dia 7 de Abril, vão ser editados os dois volumes da obra literária “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil (1880 – 1942). Traduzido pela primeira vez directamente do alemão pelo competentíssimo João Barrento (tradutor, ensaísta, crítico literário), este romance é tido como o baluarte da pós-modernidade do século XX, ao lado de “À Procura do Tempo Perdido” de Marcel Proust e “Ulisses” de James Joyce (nomes a que se poderá adicionar Franz Kafka). Tal como a obra “Ulisses”, “O Homem Sem Qualidades” é uma obra muito citada e referenciada mas pouco lida. É o meu humilde caso. De Robert Musil li apenas “O Jovem Törless” (o outro livro que Musil escreveu em vida), um possante retrato da juventude através da trajectória existencial de um jovem num internato e das suas perturbações (que vão das dúvidas teológicas até os traumas da diferenciação sexual – obra que influenciou a escrita existencialista de “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira).

domingo, 9 de março de 2008

Ulisses - paradoxos de um livro

Li há dias num jornal que "Ulisses" (1921), de James Joyce, é considerado o melhor romance jamais escrito (figurava em 1º lugar numa lista de cem títulos). Joyce foi, inegavelmente, um rigoroso estilista da língua, um modernista visionário, um inovador formal sem paralelo (só Marcel Proust se lhe poderá comparar). A sua prosa de extraordinária invenção narrativa quebrou normas instituídas e abriu novas portas de percepção literária. Não admira que o escritor irlandês tenha demorado 7 anos a escrever tão monumental obra, cuja história se desenrola num único dia na vida de Harold Bloom. Joyce construiu uma complexa e densa estrutura narrativa, refutando academismos tradicionais e supérfluos. Mas "Ulisses" é, igualmente, um romance de grande exigência para o leitor. A escrita de Joyce parece por vezes emaranhar-se em múltiplas linhas narrativas, numa abordagem literária nem sempre inteligível, desorientando o leitor menos prevenido. Na edição que possuo (na imagem), o tradutor disserta sobre a extrema dificuldade técnica que acarretou a tradução do romance para português, dada a complexidade de trocadilhos linguísticos, neologismos e trocadilhos concebidos por Joyce.
Confesso que nunca consegui chegar ao fim da leitura deste romance ímpar na literatura mundial (li vários dos seus 18 capítulos). O mesmo aconteceu a amigos meus, facto que suscita uma interrogação paradoxal no meu espírito: será "Ulisses" de Joyce a obra literária mais citada (seja por leigos, seja por críticos literários) e, porventura, a menos lida?