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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pessoa em edição especial

Edição de luxo (capas em madeira!) de "As Flores do Mal" de Fernando Pessoa com fotografias de Pedro Norton. Um belo objecto cultural numa época digital que dissemina a desmaterialização do livro.
"As Flores do Mal" é o livro dos vícios de Fernando Pessoa: absinto e aguardente, ópio e morfina, tabaco e muitos fumos, tal qual Pessoa e os seus heterónimos os sentiram e os cantaram. No total são 32 textos e poemas de Pessoa e respectivos heterónimos. São textos de inocência e abandono, textos de decadência e confissão - acompanhados por fotografias insubmissas - que nos dão a ler Fernando Pessoa como nunca o lemos.

Pena o preço elevado: 55€

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"Os Maias" no cinema

Depois de uma bem sucedida adaptação ao cinema da difícil obra literária "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, o realizador João Botelho arrisca agora ainda mais ao adaptar - segundo consta, com total respeito pelo texto literário - uma das obras maiores da literatura portuguesa: "Os Maias" de Eça de Queirós. 
Pelo trailer, constata-se uma realização segura e uma boa recriação de época (com cenários assumidamente pintados) da Lisboa de final do século XIX. Mas certamente que não será um filme que irá agradar a todos, mas poderá confirmar-se como um marco do cinema português contemporâneo. 
 Estreia no dia 11 de Setembro. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O "êxtase da mente"




O que têm em comum Raymond Chandler, John Cheever, Tennessee Williams, Dylan Thomas, Dorothy Parker, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Paul Verlaine, Truman Capote, Jack Kerouac, William Faulkner, Charles Bukowski (na imagem), Graham Greene, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Fernando Pessoa, Ernest Hemingway, Hunter S. Thompson e Jack London?
Todos foram grandes escritores e grandes... alcoólicos. E são apenas alguns exemplos.

Dizia Jack Kerouac: "Quanto mais velho eu fico, mais bêbado me torno. Porquê? Porque eu gosto do êxtase da mente." Enquanto que Hunter S. Thompson defendia: "Eu odeio recomendar drogas, álcool, violência, ou insanidade para qualquer um, mas isso tudo sempre funcionou comigo."

O que farão os escritores contemporâneos para estimular o tal "êxtase da mente" de que falava Kerouac?...

sábado, 17 de novembro de 2012

David F. Wallace: a exigência


Há já algum tempo que tenho ouvido falar no escritor David Foster Wallace, considerado um génio literário maldito americano que se suicidou aos 46 anos.
O livro pelo qual recebeu elogios rasgados é o monumental "The Infinite Jest", "A Piada Infinita" na versão portuguesa" (edição Quetzal). Segundo refere a crítica especializada (como na edição desta semana do suplemento cultural Ípsilon do Público), trata-se de uma colossal e complexa obra literária em todos os sentidos: na forma e no conteúdo inovadores, representando, por isso, um dos grandes acontecimentos literários e editoriais do ano. São 1200 impressionantes páginas de uma escrita minuciosa e arrojada.
Sobre o livro, escreveu a jornalista Filipa Melo (Sol): "A Piada Infinita é um romance sobre depressão e várias outras desordens mentais e físicas, sobre família, consumos compulsivos, drogas, indústria do entretenimento, terrorismo e agências de segurança e mil outros subtemas explorados pelo autor com a minúcia de um pesquisador de nanopartículas. Por tudo isto, A Piada Infinita é um desafio ao qual poucos leitores conseguem aceder por completo, mas um feito extraordinário, que ficará na história da literatura."
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Tento acompanhar, na medida do possível, os fenómenos literários. Mas desta vez não vou aderir a este livro. Até o poderia comprar, mas sei que depois não teria tempo nem disponibilidade (mental e física) para mergulhar, concentrado, em tão intrincada obra literária. Sei-o porque já me aconteceu em anteriores situações, nomeadamente, com o livro "2666" de Roberto Bolaño e com o fantástico "As Benevolentes" de Jonathan Litell (e antes me acontecera com o clássico "Ulisses de James Joyce).
Ambas obras têm à volta de 1000 páginas e, apesar da indiscutível qualidade literária inerentes, não consegui ler mais do que umas 200. Acabei por sucumbir perante a monumentalidade e exigência formal destes livros (talvez um dia volte a eles num futuro próximo...).
Por isso não vou investir esforço e tempo para ler "A Piada Infinita", porque sei que este livro - como diz Filipa Melo - "é um desafio ao qual poucos leitores conseguem aceder por completo". Há escritores que colocam a fasquia demasiado alta para o leitor menos preparado e exigem dele entrega incondicional.
Pode ser que um dia consiga reunir coragem, tempo e devoção totais para "aceder por completo" a Wallace.
 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Gostava...

- Gostava de ter vivido os anos de ouro do cinema clássico de Hollywood.
- Gostava de ter presenciado concertos de Charlie Parker, John Coltrane e Miles Davis em clubes nocturnos escuros e cheios de fumo de Nova Iorque de meados do século passado.
- Gostava de ter passeado nas ruas de Paris dos anos 1910 e 1920, no seio da agitação artística e cultural e ter tomado um café na esplanada do mítico Café de Flore.
- Gostava de ter ouvido ao vivo Maria Callas cantar a "Carmen" de Bizet.
- Gostava de ter assistido aos anos de criatividade fervilhante da "Factory" de Andy Warhol nos anos 60 em Nova Iorque.
- Gostava de ter assistido à gravação do primeiro álbum dos The Velvet Underground.
- Gostava de ter visto a estreia apoteótica de "Metropolis" de Fritz Lang, em Berlim (1927).
- Gostava de ter estado presente na entrega do Óscar Honorário a Charlie Chaplin em 1972.
- Gostava de ter assistido ao concerto de Jimi Hendrix no festival de Woodstock (1969).
- Gostava de ter assistido aos primeiros concertos dos Sex Pistols e dos Joy Division.
- Gostava de ter visto pintar, in loco, Salvador Dalí, Jackson Pollock e Magritte.
- Gostava de ter assistido à estreia de "A Sagração da Primavera" de Stravinsky em Paris (1913).
- Gostava de ter sido varredor do estúdio de filmagem do filme "12 Homens em Fúria" (1957) de Sidney Lumet.
- Gostava de ter tomado um copo de absinto na companhia de Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, em Lisboa dos anos 1920.
- Gostava de ter assistido à rodagem de "The Shining" de Stanley Kubrick, "Blade Runner" de Ridley Scott e de "Stalker" de Andrei Tarkovski.
- Gostava de ter feito a viagem costa-a-costa dos EUA com Jack Kerouac que viria a dar no livro "On The Road".
- Gostava de ter visto o filme "Koyaanisqatsi" com orquestra ao vivo conduzida por Philip Glass.
- Gostava de ter acompanhado a gravação de todos os álbuns dos Dead Can Dance. 
- Gostava de ter presenciado a reacção do público aos primeiros filmes de George Méliès nos anos 1910.
- Gostava de ter tomado café em Los Angeles com Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Buster Keaton, Sam Peckinpah, Audrey Hepburn e Maureen O'Hara.
- Gostava de ter sido figurante em todos os filmes de Alfred Hitchcock.
- Gostava... 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Joyce no "Hugo"

O filme "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen estava recheado de personagens artísticas do início do século XX: Ernest Hemingway. Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Man Ray, Luis Buñuel, etc. Estas figuras desempenhavam um papel relevante na história do filme.
Ora, Martin Scorsese, outros cineasta culto e com sensibilidade artística apurada, também incluiu no ser recente (e oscarizado) filme "A Invenção de Hugo", algumas figuras essenciais da arte da primeira metade do século XX. Só que, ao contrário de lhes atribuir um papel importante no argumento (como fez Woody Allen), apenas as utilizou como meros figurantes. Talvez tenha sido apenas para dar um toque mais erudito ao ambiente parisiense e para contextualizar historicamente a história de Hugo.
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Eis as personagens artísticas que surgem em "A Invenção de Hugo":
O guitarrista de jazz Jean "Django" Reinhardt

O escritor James Joyce e o pintor Salvador Dalí

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Eisenstein: a autobiografia


Gosto de autobiografias de realizadores. Já li umas quantas deveras extraordinárias, como as de Charles Chaplin, Andrei Tarkovski ou Luis Buñuel.
Uma autobiografia que nunca consegui ler - até porque não existe edição portuguesa (brasileira sim) é a do realizador Sergei Eisenstein: "Memórias Imorais".

Eis o que reza a interessante sinopse: "Este é um livro de memórias sui generis. E nem poderia ser diferente. Escrito, dois anos antes de sua morte, por um dos maiores e mais inovadores cineastas de todos os tempos, tem um estilo fragmentário e assistemático que faz lembrar os brilhantes efeitos de montagem obtidos por Eisenstein nos seus filmes.
Nele, o autor de "O Couraçado Potemkin" narra a sua vida na Rússia desde a Revolução - em que serviu no exército bolchevique como voluntário -, as viagens pelo Ocidente, os encontros com celebridades como Jean Cocteau, Paul Éluard e James Joyce, os triunfos e as tribulações. Memórias imorais mostra, além disso, a grande erudição de Eisenstein - que, no entanto, nada tinha de pedantismo. Dois capítulos falam, por exemplo, de sua relação apaixonada com os livros, outro discute a obra de Edgar Allan Poe, etc. Essas memórias mostram também a diversidade de interesses do autor, que, entre outras coisas, foi um excepcional desenhista, como se pode constatar pelos trabalhos reproduzidos no livro."

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Os "Doodles" de cinema


Por vezes a Google surpreende com os famosos "Doodles", versões divertidas do logótipo convencional da Google. No início, estas criações serviam sobretudo para comemorar feriados, aniversários, eventos desportivos e personalidades de dimensão mundial.
De há uns anos para cá, a Google também tem assinalado figuras artísticas de reconhecido mérito (Fernando Pessoa e Amália Rodrigues, em Portugal, por exemplo).
Ora, hoje, dia 6 de Fevereiro, a Google resolveu assinalar os 80 anos do nascimento do realizador francês François Truffaut (na imagem em cima). Na verdade, não são muitos os "Doodles" dedicados a cineastas e ao cinema (há muitos mais acerca da temática musical).
Por isso resolvi investigar e averiguar quais as figuras ou eventos de índole cinemetográfico que a Google já criou:

20 anos de Wallace & Gromit

Nino Rota - 100 anos do nascimento

Akira Kurosawa

Jim Henson - 75 aniversário

The Flinstones - 50 anos

1ª Exibição Cinematográfica

Federico Fellini - 92 anos do nascimento

Charles Chaplin - 122 anos do nascimento

"O Feiticeiro de Oz" - 71 anos

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um génio esquecido


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
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Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.

George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.

Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar

Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal. Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O radicalismo de Godard


Dos grandes cineastas históricos ainda vivos, Jean-Luc Godard é o que eu tenho menos simpatia. Pelo menos do seu trabalho dos últimos 10 ou 15 anos. Bem sei que é um monstro sagrado da história do cinema, uma referência incontornável, um visionário que revolucionou a sétima arte, um realizador-chave da "nova vaga" francesa, etc.

Um cinéfilo tem as suas preferências, e para mim Godard é daqueles cineastas que, apesar de indubitavelmente talentoso, não me comove. E a emoção é parte essencial da linguagem artística. Gosto dos filmes do Godard dos anos 60 ("A Bout de Soufle", "Band à Part", "Le Mépris", "Pierrot le Fou", "Alphaville", "Wekkend"...), mas já não adiro com o mesmo entusiasmo aos filmes mais radicais do realizador franco-suíço.

E falo, particularmente, da sua mais recente obra, "Film Socialism", uma obra que vi ontem no cinema e que me deixou estupefacto. Godard refuta quaisquer resquícios de narrativa convencional (já o fazia antes, mas nunca com o radicalismo de agora) e explora à saciedade fragmentos de imagens, diálogos e sons que se estilhaçam a cada segundo. Para ver este filme, o espectador é forçado a uma concentração desmedida, tal a incrível avalanche de estímulos audiovisuais a que é submetido.

Sabe-se que "Film Socialisme" é constituído por três movimentos (ou secções); sabe-se que o filme lança farpas à Europa (mais uma vez), ao capitalismo, à falência das ideologias, recorrendo a imagens de arquivo, cortes abruptos e inesperados da montagem, a enquadramentos de câmara improváveis, a um ritmo avassalador de ideias, sons, memórias, informação em demasia. Radicalismo formalista do qual não retiro prazer estético.

É desse mal, quanto a mim, que padece o filme de Godard: à custa de tanto querer ser vanguardista e experimentalista - mesmo nos seus veneráveis 80 anos de idade -, o seu cinema enreda-se num formalismo levado às últimas e redundantes consequências. Cerebral, frio e metódico em excesso.

Não admira que "Film Socialisme" tenha sido recebido com reacções totalmente díspares: houve quem o comparasse à magnitude da obra literária "Ulisses" de James Joyce, e houve quem o cilindrasse pela petulância intelectual, pela linguagem audiovisual exacerbada e pela abstracção excessiva (parece que Godard, tendo filmado pela primeira vez com o sistema HD, se deixou deslumbrar com as potencialidades do mesmo - as brincadeiras visuais são mais do que muitas).

Gosto de propostas cinematográficas que me desafiem e provoquem, mas não a um nível como o cinema de Godard faz. O seu cinema actual é um cinema que me deixa exausto e desorientado, e pior: que não me provoca um pingo de emoção estética, que não me inspira nem me estimula. Saía da sala de cinema cansado pela frieza do que tinha visto e 10 minutos depois deixei de pensar no filme.

Há quem diga que "Film Socialisme" é já a manifestação visionária do "cinema do futuro". Pois que seja. Subjectividade por subjectividade, eu prefiro um plano-sequência de um qualquer filme do Béla Tarr do que este "cinema do futuro". E reconheço que "Film Socialisme" é um objecto essencial para ser discutido e analisado numa aula de cinema, de teoria da arte ou de comunicação visual.

(Nota: agora os defensores acérrimos do Godard podem encher a caixa de comentários com críticas... mas construtivas, se faz favor).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Obrigado João Botelho


Não é um grande filme apenas por ter uma altíssima definição e qualidade de imagem derivada do formato digital. Não é um grande filme apenas por ter uma extraordinária fotografia, uns movimentos de câmara em estado de graça ou uma interpretação arrasadora de intensidade de Cláudio da Silva (como Bernardo Soares). Não é um grande filme apenas porque vai ao mais fundo da prosa emocional e inquieta de Fernando Pessoa.

É também um grande filme porque congrega a luz e a sombra, mistura a música e a palavra, redefine a narrativa em fragmentos unidos por um riquíssimo universo literário.

É também um grande filme porque João Botelho soube dar ênfase à essência da vida misantropa e sofrida de Bernardo Soares, esse ser errante por uma Lisboa com "ópio na alma". Um filme de uma espantosa mise-en-scène, de um exigente formalismo estético, de tensão e distensão, de visões e fantasmas, de corpos e sons.

"O Filme do Desassossego" é, por isso, um filme desassossegado que intriga e desafia o espectador, que rompe com uma certa linguagem acomodada da montagem, que cria uma nova ideia da composição plástica das imagens, que edifica uma ponte sólida entre a palavra, o sonho, a realidade, o medo, e a catarse do espírito humano.

Uma experiência audiovisual inesquecível.

Obrigado Fernando Pessoa.

Obrigado João Botelho.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Antologia Cinematográfica de Gérard Courant


Gérard Courant, 59 anos (na imagem), é um dos realizadores mais prolíferos da História do Cinema. No entanto, nem este facto o torna particularmente conhecido, mesmo nos meios académicos e cinéfilos.
O cineasta francês realizou e produziu cerca de 300 filmes desde os anos 70 até à actualidade, mas a sua obra mais reconhecida e ambiciosa continua a ser a verdadeira antologia cinematográfica chamada “Cinématon”, iniciada em Fevereiro de 1978. O conceito por detrás do “Cinématon” é simples (mas não simplista): uma câmara filma um único plano fixo de uma dada personalidade durante uns rigorosos 3 minutos e 20 segundos (a duração de uma bobine do formato Super 8). Enquanto Gérard Courant filma as personalidades, estas são livres de fazer o que quiserem em frente da câmara (os filmes são sempre mudos, mesmo que as pessoas falem). Não existe encenação ou artificialismos de imagem.
O projecto inicial de Gérard Courant, no final dos anos 70, resumia-se a filmar uma série de apenas 100 “Cinématons”. Contudo, este limite rapidamente foi ultrapassado com o entusiasmo do realizador, a adesão dos participantes e a originalidade inerente ao projecto. No total, Courant filmou, ao longo dos anos, o impressionante número de 4000 “Cinématons”, cuja duração total ascende a perto de 150 horas de filme. Corresponde a seis dias consecutivos de visionamento - a última exibição integral destes filmes foi apresentada em 2009, em Avignon (França).
Nesta monumental série de “retratos filmados” (uma tradução livre aproximada ao conceito de “Cinématon”) concebida ao longo dos últimos 30 anos (média de 100 por ano), Courant filmou milhares de pessoas: primeiro com amigos, familiares e realizadores em início de carreira; depois com intelectuais e personalidades artísticas (realizadores, músicos, actores) de renome internacional: Jean-Luc Godard, Wim Wenders, Terry Gilliam, Fernando Arrabal, Sandrine Bonnaire, Félix Guattari, Joseph Losey, Nagisa Oshima, Ken Loach, Roberto Benigni, Samuel Fuller, Gaspar Noé, Sergueï Paradjanov, Derek Jarman, entre muitos outros.
O realizador português Manoel de Oliveira também colaborou neste projecto, participando no 102º “Cinématon”, em 1981.
O trabalho de Gérard Courant lembra a pureza realista dos primeiros documentários da história do cinema, nos quais a acção é captada em plano fixo, sem artifícios de montagem e filmando a total espontaneidade natural do momento (ainda que alguma pessoa filmada possa encenar alguma situação). Não admira, por isso, que Raphäel Bassan, realizador e crítico de cinema francês, tenha referido que o autor do conceito “Cinématon” é o “descendente mais puro do cinema dos Irmãos Lumière”. Isto porque “cada retrato filmado” é como uma pintura em movimento que, durante três minutos e meio, regista as nuances da pessoa filmada, abrindo espaço para a sua interpretação ou, simplesmente, para a captação natural da sua presença física. E o realizador, numa minúcia de relojoeiro, aponta o dia, a hora e a profissão de cada "Cinématon" filmado.
Apesar de parecer um conceito ancorado em previsibilidade e monotonia, a verdade é que os “Cinématons” de Gérard Courant se prestam a muitos momentos distintos e surpreendentes, como as caretas feitas por Terry Gilliam, o “discurso mudo” de Roberto Benigni, a descontracção de Godard a fumar, a pintura facial efectuada pelo músico e performer Gérome ou a quase imobilidade física do realizador Robert Kramer. Alguns “Cinematons” são, por isso, mais exuberantes e interessantes do que outros, mas deste facto não decorre de nenhuma responsabilidade directa do realizador, visto que a liberdade de actuação perante a câmara é atribuída, inteiramente, à pessoa filmada. E é esta veracidade do momento filmado, esta autenticidade da imagem filmada que outorga a esta colossal série de “Cinématons” de Gérard Courant, uma originalidade quase neo-realista em formato de documentário de curta duração, num projecto único na História do Cinema: uma verdadeira Antologia Cinematográfica.
"Cinématon" de Terry Gilliam:


Nota: Este texto foi publicado originalmente no jornal do Teatro Municipal da Guarda, a propósito dos "Encontros Cinematográficos".

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A criatividade esquecida de Antheil


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound com George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil.
Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "Bad Boy of Music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos.
Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free-jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à América natal e envereda por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.
Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As opiniões de Botelho


Ouvi quase na íntegra a entrevista do realizador João Botelho no programa "Prova Oral" da Antena 3, a propósito do seu último filme - "O Filme do Desassossego". E gostei do que ouvi. O João Botelho é um cineasta formado na velha e boa cinefilia dos anos 60, no "Cinema Novo", no gosto pelo cinema clássico europeu.
Eis algumas das opiniões e frases soltas que proferiu (desgarradas do contexto, eu sei, mas pronto, não consegui captar tudo...):
- O filme que gostaria de ter feito é "Amor de Perdição" de Manoel de Oliveira.
- O seu realizador preferido é John Ford e o seu filme preferido de sempre é "Young Mr. Lincoln" do mesmo realizador.
- Considera que hoje em dia os adultos já não vão ao cinema como antigamente; os filmes de Hollywood são direccionados para os adolescentes e jovens (faixa 14 - 22 anos). Referiu que certas séries televisivas norte-americanas são de melhor qualidade do que a maior parte do cinema de Hollywood.
- Preferia fazer um filme em Bollywood do quem em Hollywood.
- Conviveu, todos os dias, durante 4 anos, com João César Monteiro.
- Adora o cinema de Buñuel, Ozu, Bresson, Welles, Rossellini, Visconti, Ophuls, Oliveira...
- Aprendeu muito com o mestre Manoel de Oliveira. Uma vez este disse-lhe: "Se não tiveres dinheiro para filmar uma carroça, filma apenas a roda, mas tem é de ser bem filmada!"
- Teve contacto com o conteúdo da Arca de Fernando Pessoa há 30 anos, com os manuscritos, os óculos, e canetas do escritor.
- Considera que o actor que interpreta Bernardo Soares, Cláudio da Silva, é um misto dos actores Gael Garcia Bernal e Johnny Depp. Disse-lhe para nunca pestanejar durante as filmagens. O actor só pestanejou quando acendeu um cigarro.
- Podiam-se fazer dezenas de filmes diferentes a partir do "Livro do Desassossego" de Pessoa.
- Manoel de Oliveira "inventou" a "5ª idade" à qual espera chegar.
- Questionado sobre se gostaria de fazer um filme sobre futebol, Botelho referiu que não, porque o futebol é muito difícil de filmar, de captar as emoções do jogo. Gostou moderadamente do documentário de Kusturica sobre Maradona e do "Zidane - Um Reatrato do Século XXI".
- Do cinema contemporâneo gosta dos irmãos Coen, de Tim Burton e de Wes Anderson.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sobre a leitura de "Ulisses"

Há tempos li num jornal que o livro "Ulisses" (1921), de James Joyce, foi considerado o "melhor romance jamais escrito" (figurava em 1º lugar numa lista com cem títulos).
Joyce foi, inegavelmente, um rigoroso estilista da língua, um modernista visionário, um inovador formal sem paralelo (só Marcel Proust se lhe poderá comparar). A sua prosa de extraordinária invenção narrativa quebrou normas instituídas e abriu novas portas na experiência literária. Não admira que o escritor irlandês tenha demorado 7 anos a escrever tão monumental obra, cuja história se desenrola num único dia na vida de Leopold Bloom.
James Joyce construiu uma complexa e densa estrutura narrativa, refutando academismos convencionais. Mas "Ulisses" é, igualmente, um romance de grande exigência para o leitor (como é "A Montanha Mágica" de Thomas Mann ou "O Homem Sem Qualidades" de Robert Musil).
A escrita de escritor irlandês parece emaranhar-se em múltiplas linhas narrativas em simultâneo, numa prosa nem sempre inteligível, desorientando o leitor menos prevenido.
Não admira, por isso, que na edição da "Livros do Brasil" que possuo (na imagem), o tradutor disserte sobre a extrema dificuldade técnica que acarretou a tradução do romance para português. Tal dificuldades deveu-se à complexidade de trocadilhos linguísticos, neologismos, recursos expressivos e trocadilhos imaginados e trabalhados por Joyce. O problema é que este rigor técnico e esta exigência formal podem, a meu ver, anular (ou reduzir) o prazer estético da própria leitura.
Daí que eu nunca tenha conseguido chegar ao fim da leitura de "Ulisses" (li apenas dois ou três dos seus 18 capítulos). O mesmo aconteceu com diversos amigos meus. No entanto, esta obra é quase sempre referenciada como essencial na literatura do século XX, facto que suscita uma interrogação paradoxal no meu espírito: será "Ulisses" de Joyce a obra literária mais citada (seja pelo comum dos leitores, seja por críticos literários encartados) e, porventura, a menos lida?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Man Ray


Man Ray (na imagem à direita, ao lado de Salvador Dalí) fez parte do movimento dadaísta e surrealista dos anos 20 e 30 do século XX. É um dos meus artistas e fotógrafos preferidos.
Um artista iconoclasta e original como poucos que marcou a arte de todo o século. Desenvolveu uma obra artística tão inovadora na pintura como na fotografia. Neste último campo, fez retratos únicos de artistas como Picasso, Dali, Magritte, Buñuel. Artaud, Satie, Cocteau, Stravinski, James Joyce, Ducahmp, Matisse, Picabia (foi amigo de quae todos)… E o nu feminino adquiriu outra elevação estética com as fotografias de Man Ray.
Para além destas intervenções artísticas que influenciaram grande parte da arte produzida nas décadas seguintes, Man Ray experimentou também o cinema como veículo para a sua visão libertária da arte.
No apogeu do movimento surrealista e expressionista, no qual todas as linguagens de vanguardas eram permitidas, Ray fez as curtas-metragens “Emak – Bakia” (1926), “L’Étoile de Mer” (1928) e “Les Mystères du Château de Dé” (1929).
Três absolutos expoentes do cinema como poesia visual, como plataforma de experimentação estética e formal. São filmes abstractos e que recorrem a técnicas inovadoras de filmagem, montagem e efeitos visuais (alguns devedores do mundo da fotografia).

Todos estes filmes (entre outros) estão disponíveis para visionamento no site da UbuWeb

domingo, 29 de agosto de 2010

Livros à distância de um clique


Quase dois mil livros (e outras tantas obras) para descarregar, gratuitamente, em formato PDF: Fernando Pessoa, Shakespeare, Oscar Wilde, Eça de Queiroz, Rimbaud, Thomas Mann, Cervantes, James Joyce, Kafka, Machado de Assis, entre muitos outros escritores de renome nacional e mundial. É só fazer clique.

terça-feira, 9 de março de 2010

Uma voz (cínica) contra Bigelow


Afinal, quando se julgava que público e crítica estavam, mais ou menos, de acordo quanto à justiça da vitória do filme "The Hurt Locker" nos Óscares, eis que somos surpreendidos pelas declarações, feitas contra a maré, do realizador espanhol Fernando Trueba (na imagem, realizador de "Belle Epoque").
E o que diz Trueba ao jornal espanhol ABC? Simplesmente que acha a película de Katrhyn Bigelow "detestável, sinuosa, suja e de propaganda bélica onde os iraquianos não têm rosto". Reconhece na cineasta qualidades técnicas, mas acha que se deveria confinar a fazer filmes de acção em vez de "usar a dor das pessoas para fazer um filmezito de tiros".
Fiquei perplexo com estas declarações injustas, demagógicas, cínicas e retorcidas. Teremos visto o mesmo filme? Eu sempre considerei "Estado de Guerra" como um filme claramente anti-bélico, ainda que, evidentemente, se passe num cenário de guerra (como eram "Apocalypse Now" ou "Platoon"). Um "fimezito de tiros"? Dito por um analfabeto que só conhecesse filmes de Steven Seagal, ainda passava; agora esta frase proferida por um respeitado e premiado cineasta, só revela uma intencional visão redutora e sentimentos ressabiados.
Fernando Trueba tinha todo o direito de não gostar do filme de Bigelow. Mas, para fundamentar a sua posição crítica, deveria ter invocado argumentos bem mais consistentes, coerentes e lúcidos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A arte no seu tempo (e fora dele)


Cada artista ou criador é fruto do seu tempo. A arte é fruto do seu tempo. Estamos em 2010, em pleno século XXI. Os artistas de hoje reflectem, essencialmente, sobre a experiência do presente, podendo trabalhar sobre referências do passado para projectar um futuro mais ou menos coerente. A música, o cinema, a literatura, e outras manifestações artísticas só existem porque são concebidas e contextualizadas nas circunstâncias da era em que os artistas vivem (já dizia Ortega y Gasset).
Vem esta reflexão introdutória a propósito porque, volta e meia, dou comigo a pensar o que fariam artistas que já morreram, e que viveram noutras épocas históricas, se vivessem neste nosso tempo, neste mundo, neste contexto social, político e histórico, neste tempo com as referências tecnológicas e culturais contemporâneas.
Por isso, faço o seguinte exercício mental (mais ou menos aleatório): que tipo de música faria hoje Debussy ou Satie?? Como seria o cinema de realizadores como F.W. Murnau, Buster Keaton ou Eisenstein? Sobre que temas escreveria George Orwell, Fernando Pessoa ou Edgar Allan Poe? Que configuração teria hoje a teoria filosófica de Nietzsche ou Schopenhauer? E Jackson Pollock desenvolveria hoje a mesma “action painting” que fazia nos anos 40 do século passado? Como se expressaria o surrealismo de Salvador Dalí? Stravinsky, John Cage ou Varèse aventurar-se-iam pela música electrónica?
O que diriam Franz Kafka ou Aldous Huxley da sociedade da comunicação globalizada? Qual seria a posição de um Einstein ou de um Freud face à evolução da ciência actual? Como se manifestaria hoje a inigualável genialidade criativa de um Bach ou de um Mozart? Provavelmente, alguns dos artistas citados não sofreriam quaisquer mudanças e seriam fiéis à identidade artística que os tornou famosos. Por outro lado, outros criadores haveria que seriam mais facilmente permeáveis à influência do meio que os rodeassem, alterando o seu rumo artístico e cultural de forma mais severa.
Enfim, questões que não passam de mera retórica mas que fazem sentido à luz da curiosidade do espírito humano.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O ofício de tradutor literário


Há uma profissão que muito respeito e admiro: a de tradutor literário. Folheando grandes obras da literatura clássica ou moderna, tento intuir a complexidade de uma tradução literária, as infinitas horas passadas a ler o livro na língua original, as horas ao computador a escrever e a consultar grossos dicionários de línguas.
Um dia conheci um tradutor (de alemão - português) que me dizia que este profissional trabalha quase sempre na sombra do nome do escritor que está a traduzir, mas é um elemento essencial para o sucesso e reconhecimento crítico de uma determinada obra. Mas não é, certamente, um trabalho fácil. Existe aquela célebre máxima de raiz latina - que muito atormenta os intelectuais - que diz "tradutore, traidore". Ou seja, a tradução é uma potencial traição à língua original da obra. Pode ser e pode não ser. Se já é difícil traduzir prosa tão complexa como a de um James Joyce, Kafka, Proust ou um Musil, como será com a poesia?
Portugal tem grandes tradutores de várias línguas: Vasco Graça Moura, Miguel Serras Pereira e Frederico Lourenço (que traduziu "Homero") são apenas alguns nomes cujos trabalhos já mereceram prémios e distinções. A tradução é um trabalho que exige um extraordinário conhecimento cultural das línguas com que se trabalha. É um trabalho tecnicamente árduo, de grande rigor intelectual e fisicamente desgastante.
Um trabalho que exige diversificada formação cultural, muita disciplina e empenho intelectual. Mas este esforço nem sempre é reconhecido pelos leitores e pelas editoras, que geralmente pagam mal. E são poucos os tradutores portugueses que conseguem viver apenas deste trabalho. Traduções à parte, tenho um amigo formado em filosofia que foi aprender alemão para ler no original as obras de Heidegger. Tinha outro amigo que dizia que só lendo Proust em francês é que se conseguia captar as nuances da língua e o conteúdo literário da obra.
Por outro lado, houve muitos estudiosos estrangeiros que aprenderam português para ler Fernando Pessoa ou Camões (o escritor italiano Antonio Tabucchi foi um deles). Persiste a sensação de que nas traduções se perde sempre qualquer coisa do original, mas aí a criatividade do tradutor e o seu domínio das línguas é fundamental para fazer esquecer, no espírito do leitor, essa possibilidade.