domingo, 25 de janeiro de 2015

Sobre "Birdman"



"Birdman" será sempre um filme condenado a dividir opiniões. Haverá quem ache tratar-se de uma obra visionária e ousada, haverá quem julgue que é uma obra pretensiosa e falhada. Eu incluo-me no primeiro grupo. Passo a explicar porquê.

Alejandro González Iñárritu renunciou ao seu registo habitual pessimista-dramático de filmes como "Amores Perros" (2000), "21 Gramas" ou "Babel" (2006). Desta vez enveredou por uma experiência totalmente nova num registo de comédia negra (negríssima) que procura dar a volta às convenções do género. Através de um único admirável (falso, porém) plano-sequência, o realizador mexicano construiu toda uma fascinante arquitectura espácio-temporal e uma composição plástica e visual de uma força esmagadora (da responsabilidade do consagrado director de fotografia Emmanuel Lubezki)

Mas "Birdman" é mais do que este prodígio técnico (já alcançado anteriormente por Sokurov com "Arca Russa"). O filme revela várias camadas de leitura, várias possibilidades de interpretação psicanalítica, fruto do seu argumento bem urdido e de uma interessante abordagem ao universo do teatro como espaço de criação e de conflito. Todas as pulsões básicas do ser humano (amor, ódio, crueldade, inveja, arrogância, ambição, desejo...) estão confinadas e retratadas naquele claustrofóbico espaço de corredores, palco e camarins. Não esquecer que o filme tem um título que suscita uma leitura assaz interessante e múltipla: "A Inesperada Virtude da Ignorância".

Michael Keaton é soberbo neste regresso a um papel que lhe assenta que nem uma luva (reminiscências de"Batman"), com um desempenho memorável como alguém que procura, a todo o custo, provar ser artisticamente reconhecido sem fazer concessões comerciais, numa luta interior quase devastadora. Dentro do seu ego batalham o bem e o mal, numa derivação alucinada e esquizofrénica que o faz ouvir uma voz interior (a do super-herói que outrora encarnou), capaz de lhe arruinar a vida ou de o... salvar).  

Um ponto muito positivo para a inovadora banda sonora do filme feita a partir de solos de bateria do baterista mexicano Antonio Sanchez. Li algures que esta bateria se tornou "irritante". No meu caso, sempre que a ouvi, gostei ainda mais: é como se as batidas, as percussões derivativas, pontilhassem a confusão mental do protagonista, como se fossem o combustível sonoro para a sua vida. Todos os actores secundários estão a um nível superlativo de performance, começando no neurótico e obsessivo Edward Norton e terminando na sempre segura Emma Stone.

Além disso, o filme de Iñárritu é um precioso estudo simbólico sobre o que é o teatro (não só o da Broadway) e como ele vive e sobrevive perante choque de egos e conflitos que traduzem a complexidade e dicotomias da própria vida: Arte vs. entretenimento, realidade vs. imaginação, emoção vs. razão. E também representa um olhar aguerrido ao poder da crítica especializada de teatro capaz de incensar ou destruir carreiras e espectáculos.

Que "Birdman" tenha sido nomeado para os Óscares de Hollywood só me causou espanto: desde quando a conservadora Academia nomeia obras tão formalistas e ousadas como esta?

4 comentários:

Hugo disse...

Ainda não tive oportunidade de assistir, estou curioso.

Abraço

Marcelo Castro Moraes disse...

Esta entre os favoritos para mim

Carlos Natálio disse...

Estou contigo Victor :)

Paulo Matias disse...

Filme bem feito e envolvente. Quanto à banda sonora gostei, mas não me parece tão inovadora quanto isso: ao ouvi-la só me lembrava do Rumble Fish de Coppola e da magnífica música do antigo Police, Stuart Copeland.