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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

"O Mentor"

"O Mentor" de Paul Thomas Anderson: grande expectativa, semi-desilusão.
O filme é todo ele carregado às costas por dois soberbos actores, Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix. E, claro, pela não menos soberba realização e mise-en-scène de Paul T. Anderson. Só que fiquei com a notória sensação de que a história e o ritmo com que é narrada são componentes menos conseguidos do filme.
O argumento emaranha-se em episódios arrastados e até inconsequentes e parece que nunca consegue arrancar para a intensidade que se desejava como é habitual num filme de Anderson. Hoffman compõe um notável personagem, fanático e obsessivo. Phoenix é convincente na alma penada à procura de uma salvação terrena (só não ganha o Óscar de Melhor Actor porque existe um senhor chamado Daniel Day-Lewis). 
Porém, tudo gira demasiado à volta da relação destas duas figuras icónicas e pouco mais de substancial sobra para a memória futura do espectador.
Pelo que apetece perguntar directamente: Paul Thomas Anderson, onde está o grande fôlego e criatividade que revelaste quando fizeste "Magnólia" ou "Haverá Sangue"?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Top 2011 - Os filmes

De ano para ano, o número de estreias de filmes nas salas aumenta: em 2009 estrearam 347 filmes; em 2010, 440; e em 2011, passaram pelas salas portuguesas nada menos do que 509 filmes!
Claro que em meio milhar de películas, haverá 10 ou 15 filmes realmente fora de série. Não que eu tenha visto os 500 filmes de todo o ano, muito longe disso. Mas dos que vi, dá para concluir que foi um bom ano cinematográfico.
Convém fazer uma nota prévia dizendo que ainda não vi filmes possíveis candidatos à lista dos melhores do ano, como "Sangue do Meu Sangue", "Restless", "Nos Idos de Março", "O Tio Boonmee Que se Lembra das Suas Vidas Anteriores", "The Artist", "A Autobiografia de Nicolae Ceausescu", "Aurora", "Temos Papa", "Isto Não é Um Filme", "O Miúdo da Bicicleta", "As Serviçais" ou "Um Método Perigoso".
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Assim, do que já vi destacaria 12 títulos.
A saber:
12 - "Super 8" - J.J. Abrams (Uma feliz revisitação pela memória do cinema à mistura com ficção científica: um bom divertimento para miúdos e graúdos).
11 - "50/50" - Jonathan Levine (Porventura um dos melhores e mais honestos filmes sobre a sensível temática do cancro. Joseph Gordon-Levitt arranca uma brilhante interpretação).
10 - "O Cisne Negro" - Darren Aronofsky (Um retrato inquietante sobre a degradação psicológica de uma mulher que apenas almeja a perfeição).

9 - "Meia-Noite em Paris" - Woody Allen (O regresso de Woody Allen ao mais fino humor intelectual numa obra que compete com as suas melhores comédias de sempre).
8 - "Essential Killing" - Jerzy Skolimowski (Vincent Gallo é portentoso no soldado fugitivo que procura salvação sem dizer uma palavra. Realização prodigiosa de Skolimowski).
7 - "Uma Separação" - Asghar Farhadi (É um retrato sem espinhas sobre uma separação que é também uma metáfora dos problemas da sociedade moderna).
6 - "A Árvore da Vida" - Terrence Malick (Filme metafísico sobre as questões da vida e da morte, do homem e do amor, com a natureza elegíaca como pano de fundo).
5 - "48" - Susana Sousa Dias (Um dos mais originais documentários sobre a tortura a que foram sujeitas as vítimas do salazarismo. Inovação estética sem paralelo no cinema português).
4- "Drive" - Nicolas Winding Refn (Sofisticado e visualmente arrojado filme que deve tanto a Michael Mann como a "Taxi Driver". Violento e mordaz, num filme em que o silêncio conta).
3 - "Melancolia" - Lars Von Trier (Obra apocalíptica, negra e completamente nihilista sobre as relações humanas, mais do que sobre o fim do mundo).
2 - "O Deus da Carnificina" - Roman Polanski (É Polanski "vintage", realização segura e interpretações de elevado nível. É sobre a natureza psicológica das relações humanas).
1 - "O Cavalo de Turim" - Béla Tarr (Último filme de um profeta do cinema. Obra austera e difícil, mas de alcance artístico inigualável, Béla Tarr é um visionário raro do cinema actual).

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Top 2008

Balanço

Último dia do ano. Tal como fiz o balanço no final de 2007, estas são as minhas escolhas para o ano de 2008. Não sei se são as melhores. São aquelas que gostei de desfrutar ao longo do ano. Uma selecção pessoal. Nada mais. Mas há uma confissão a fazer: no fim de um ano de imensa produção cultural, a sensação com que fico é de uma certa frustração incómoda. Isto porque, depois das escolhas feitas, fico sempre com a nítida impressão de que ficaram muitas mais referências de fora que não tive oportunidade de conhecer. Muitos filmes que não vi, muitos discos que não ouvi, muitos livros que não li. A produção cultural é cada vez maior e torrencial a cada ano que passa. Milhares e milhares de objectos culturais são despejados para o mercado, quase indistintamente. Descortinar a qualidade no meio da quantidade é cada vez mais difícil e ingrato.

A própria comunicação social sente-se incapaz de dar vazão a tanta informação. E por isso, certos discos e filmes importantes são por vezes relegados para o fundo da prateleira por falta de espaço editorial ou por conflitos de interesses jornalísticos. Conseguir fazer uma selecção criteriosa dos produtos de qualidade dos que não têm interesse nenhum, exige esforço redobrado do cidadão comum para recolher cada vez mais informação (através de revistas, internet, jornais, rádio…) de molde a definir a sua própria opinião. O tempo é escasso para fruir (e usufruir) as propostas mais interessantes (no fundo, resume-se tudo ao que disse neste post). Ainda há filmes, discos e livros que ainda não conheço mas que provavelmente entrariam para a lista de preferências que se seguem... Agora é esperar que 2009 entre em força com boas e novas propostas.

Filmes:

Ainda não vi “Corações” de Alain Resnais, “A Turma” de Laurent Cantet, “Quatro Noites com Anna” de Jerzy Skolimowski, “O Homem de Londres” de Béla Tarr, “Destruir Depois de Ler” de Ethan e Joel Coen, “A Ronda da Noite” de Peter Greenaway, “Antes que o Diabo Saiba que Morreste” de Sidney Lumet, “Fome” de Steve McQueen, “Gomorra” de Matteo Garrone, “Em Bruges” de Martin McDonagh, “Austrália” de Baz Luhrmann…

1 – “Este País Não é Para Velhos” – Ethan e Joel Coen
2 – “Alexandra” – Alexander Sokurov
3 – “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” – Cristian Mungiu
4 – “No Vale de Elah” – Paul Haggis
5 – “Haverá Sangue” – Paul Thomas Anderson
6 – “O Segredo de um Cuzcuz” - Abdellatif Kechiche
7 – “O Lado Selvagem” – Sean Penn
8 – “Sweeney Todd” – Tim Burton
9 – “The Darjeeling Limited” – Wes Anderson
10 – “Os Falsificadores” - Stefan Ruzowitzky
11 – “Wall-E” – Andrew Stanton
12 – “Nós Controlamos a Noite” – James Gray
13 – “O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford” – Andrew Dominik
14 – “O Orfanato” - Juan Antonio Bayona
15 – “Michael Clayton” – Tony Gilroy
16 – “Joy Division” – Grant Gee
17 – “The Mist” – Frank Darabont
18 – “O Acontecimento” - M. Night Shyamalan

Discos:

Apesar do hype da imprensa, ainda não ouvi discos como Fleet Foxes, Beach House, Dirty Projectors, Bon Iver, Evan Parker, Hercules & Love Affair, Silver Jews, The Dodos, Fennesz, Cut Copy, Hot Chip, She and Him…

1 - Secret Chiefs 3 – “Xaphan Book of Angels Volume 9”
2 - Leila – “Blood, Looms and Blooms””
3 - Clutchy Hopkins – “Walking Backwards”
4 - TV On The Radio – “Dear Science”
5 - Man Man – “Rabbit Habits”
6 - Portishead – “Third”
7 - Bombay Dub Orchestra – “3 Cities”
8 - Metaform – “Standing on the Shouders og Giants”
9 - Tricky – “Knowle West Boy”
10 - Stag Hare – “Black Medicine Music”
11 - Amon Tobin – “Foley Room Recorded Live In Brussels”
12 - Camille – “Music Hole”
13 - Nico Muhly – “Mothertongue”
14 - Gang Gang Dance – “Saint Dymphna”
15 - Devotchka – “A Mad And Faithful Telling”
16 - Girl Talk – “Feed the Animals”
17 – DJ Rupture – “Uproot”
18 - Fuck Buttons – “Street Horrrsing”
19 - Original Silence – “The Second Original Silence”
20 - Santogold – “Santogold”
21 - Firewater – “The Golden Hour”
22 - Matmos – “Supreme Baloon”
23 - Boredoms – “Super Roots #9”
25 - Paavoharju – “Laulu Laakson Kukista”
25 - Vampire Weekend – “Vampire Weekend”
26 - Ladytron – “Velocifero”
27 - The Bug – “London Zoo”
28 - Brazillian Girls – “New York City”
29 - Melvins – “Nude With Boots”
30 - Spiritualized – “Songs in A & E”

Discos portugueses:

Confesso que não fui um ouvinte regular de música portuguesa em 2008. Mas do que fui ouvindo ao longo do ano, gostei de: Deolinda, A Naifa, Mandrágora, Rocky Marsiano, peixe : avião, Linda Martini, Mesa, Melech Mechaya, Mikado Lab, Gala Drop, The Vicious Five, Mão Morta, Dead Combo…

Livros

Queria ter lido (espero ainda ler durante 2009): “Os Nus e os Mortos” de Norman Mailer, “Histórias de Amor” de Robert Wasler, “A Derrocada de Baliverna” de Dino Buzzati, “Contos Completos” de Truman Capote, “Correcção” de Thomas Bernhard, “Castelos Perigosos” de Céline, “Musicofilia” de Oliver Sacks, “O Jovem Estaline” de Simon Montefiore…

1 - “Sonderkommando” – Shlomo Venezia
2 – “Lacrimae Rerum” – Slavoj Zizek
3 – “A Monstruosidade de Cristo” – Slavoj Zizek
4 – “A Filosofia Segundo Woody Allen” - Vários autores
5 – “A Filosofia Segundo Alfred Hitchcock” – Vários autores
6 – “Em Busca do Grande Peixe” – David Lynch
7 – “A Febre” – Jean-Marie Le Clézio
8 – “O Jogo do Mundo” – Júlio Cortázar
9 – “O Homem Sem Qualidades Vol.1” – Robert Musil
10 – “Património” - Philip Roth
11 – “Toda a Música que eu Conheço” – António Victorino D’Almeida
12 – “Homem na Escuridão” - Paul Auster

Edições em DVD

Caixa “John Cassavetes”
Caixa “Hal Hartley”
Caixa “Wim Wenders”
Caixa "Mel Brooks"
“O Estranho Mundo de Jack”
– Edição Especial
“Casablanca” – Edição Coleccionador
“The General – Pamplinas Maquinista” – Ed. Especial
“Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes” – Ed. Especial
“Hstória(s) do Cinema” – Jean-Luc Godard
“Holocausto”
“Um Coração Selvagem” – Ed. Limitada
“Eraserhead” – Ed. Especial
"Vem e Vê" - Elem Klimov
“Control” – Ed. Especial
Coleccção Manoel de Oliveira
Coleccção “The Godfather – O Padrinho” – Ed. De Luxo
(...)

Embirrações do ano: Amy Winehouse, Tony Carreira, Tokio Hotel e "Rock in Rio"
Conflito do ano: concertos simultâneos de Leonard Cohen e Lou Reed
Acontecimento do ano: centenário de Manoel de Oliveira e Elliott Carter
Adeus: Luiz Pacheco, Bettie Page, Paul Newman, Sydney Pollack, Heath Ledger, Eartha Kitt, Albert Cossery, Harold Pinter, Humberto Solas, Pedro Bandeira Freire, Arthur C. Clarke
Boa notícia: regresso às bancas da revista de cinema Premiere e experiência 3D no cinema ("Bolt", "Viagem ao Centro da Terra"...). Abertura da Cinemateca do Porto.
Má notícia: encerramento da livraria Byblos. Preço dos livros, DVDs e CDs.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A música de "Haverá Sangue"


Parece que João Lisboa (Expresso) tomou o gosto dos textos sobre bandas sonoras para filmes. E ainda bem. Há algumas semanas atrás foi a recensão sobre as melhores 25 bandas sonoras de sempre. No Expresso desta semana volta com uma crítica à sublime música do filme "Haverá Sangue", composta pelo guitarrista Jonny Greenwwod (na imagem), dos Radiohead. Lisboa inicia o texto dizendo, com toda a propriedade, que os "primeiros vinte minutos do filme são cinema em puríssimo estado de graça: apenas imagem e som/música sorvendo-nos para dentro das mesmas entranhas da terra de que Daniel Plainview tanto aparenta desejar libertar-se (...)."
Na verdade, a música do filme de Paul Thomas Anderson, funciona como uma verdadeira alavanca dramática, empurrando o espectador no mergulho para o abismo das paisagens (físicas e psicológicas) que o filme mostra. Os tais 20 primeiros minutos de filme que fala o crítico do Expresso, são antológicos na forma expedita como revela uma espécie de regresso à matéria essencial do cinema do período mudo. A música de Greenwood acentua a solidão do personagem principal Daniel Day-Lewis, da mesma forma que extravasa a dimensão meramente territorial daquelas paisagens inóspitas e austeras.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Corrida à estatueta dourada


Apesar de não estar totalmente garantida a próxima cerimónia dos Óscares, a academia resolveu arriscar e, tal como acontecera com os Globos de Ouro, houve uma morna cerimónia para anunciar os nomeados às estatuetas douradas. Sem querer fazer uma análise exaustiva (até porque não vi grande parte dos filmes - os preferidos vão estrear em Portugal brevemente), queria realçar dois aspectos invulgares nas nomeações: - o facto dos principais filmes nomeados (com 8 nomeações) serem da autoria não de realizadores tarefeiros e comerciais, mas sim de dois verdadeiros "autores": Paul Thomas Anderson com "Haverá Sangue" e Joel e Ethan Coen com "Este País Não é Para Velhos". É um sinal de que a Academia, finalmente, coloca de parte os blockbusters em favor de cineastas de culto. Coisa inédita. O aspecto a realçar é a fortíssima concorrência para a vitória na categoria de Melhor Interpretação Masculina. São cinco notáveis actores em cinco filmes que, dizem lá fora, são extraordinários: Viggo Mortensen, Tommy Lee Jones, Johnny Depp, Daniel Day-Lewis e George Clooney. Destes actores, ainda só vi a portentosa interpretação de Mortensen no filme de Cronenberg. Certamente que as apostas vão estar ao rubro.