quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cinema - O momento da revelação

Todos os cinéfilos guardam na memória imagens marcantes de filmes, igualmente, marcantes. Mas raramente retêm aquelas imagens nas quais surgem incrustados os títulos dos filmes.
Tema de importância menor? Talvez. Mas como disse o Rato Cinéfilo num dos seus últimos comentários, a imagem ainda é uma componente fundamental na memória de qualquer cinéfilo.
Eis alguns exemplos de grandes obras de cinema e dos "screenshots" exactos dos respectivos títulos - ou seja, o "momento da revelação":












terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Playtime #46


A solução: "Escape From New York" (1981) - John Carpenter
Quem descobriu: O Provedor

Mais do que um mero filme sobre bruxaria


O site dvdgo.com (que já esteve melhor do que agora) anunciou há tempos uma edição em DVD como um grande destaque editorial no panorama da cinefilia caseira. E, na verdade, não era para menos.
Tratava-se da versão especial remasterizada (som e imagem) de um dos mais míticos e sublimes filmes do período mudo: "Häxan", realizado em 1922 pelo cineasta dinamarquês Benjamim Christensen. "Häxan", um dos primeiros grandes filmes fantásticos de sempre (é do mesmo ano de "Nosferatu" de Murnau), documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras e os actos de bruxaria numa Europa medieval conspurcada pela intolerância religiosa e pela Inquisição.
A prodigiosa fotografia do filme, as encenações de rituais e de possessões demoníacas, e o ambiente visual expressionista recriado viria a influenciar outras obras-primas do cinema, como o clássico de Carl Dreyer, "A Paixão de Joana D'Arc" (1928). Muito do imaginário de terror psicológico e visual dos filmes das décadas posteriores (aliás, até aos nossos dias), foi gerado a partir deste filme escandinavo. Há muito de "Häxan" no filme "O Exorcista" (1973); e os produtores do filme-fenómeno "The Blair Witch Project" (1999), deram o nome de "Häxan Films" à sua produtora. E até inspirou a criação de um grupo homónimo de música... Black Metal.

Também é verdade que o filme de Christensen foi, durante décadas, censurado e banido, quer pelas autoridades religiosas, quer pelas autoridades políticas, tornando-se num filme marginal e num verdadeiro fenómeno de culto internacional. Mas nessa suposta marginalidade existia imensa criatividade e inovação estética.
Esta edição especial em DVD traz além da versão original restaurada, a rara edição americana lançada em 1968 com narração do poeta beat William S. Burroughs (grande admirador do filme) e com o subtítulo "A Bruxaria Através dos Tempos" (no segundo disco do DVD). Imperdível, portanto.

A importância da capa


Numa banal visita à Fnac, deambulando pela secção de filmes em DVD, assisti um dia a um diálogo entre duas raparigas adolescentes sobre as suas preferências cinematográficas. A páginas tantas, mesmo ao meu lado, nao pude deixar de ouvir o seguinte diálogo entre elas:
- Que filme é este?
- Promessas Perigosas - não conheço.
- Ah, mas não deve valer nada!
- Como é que sabes?
- Pela capa. Eu vejo logo a qualidade dos filmes pela capa e esta não presta!
Engoli em seco e dirigi-me ao bar tomar um café para amenizar o impacto da coisa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Kavkazskaya Plennitsa, Ili Novye Priklyucheniya Shurika"


O portal de cinema Imdb.com é um colossal site de informação sobre cinema. Já o sabemos. Por vezes dou-me ao trabalho de averiguar o que referem os tops e as listagens que estão anexadas ao portal - "os melhores filmes por décadas", "o top dos western, comédias", entre outras.
Quando há tempos vi o top de melhores filmes sob o género de "Music" (atenção que não é o mesmo que "Musical") deparei-me com duas surpresas e uma perplexidade: a primeira surpresa é que no primeiro lugar desta listagem encontrei um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, "O Pianista" de Roman Polanski.
É certo que o filme de Polanski tem música tocada por um pianista, mas daí a compará-lo com "Amadeus" ou "Walk the Line", parece-me abusivo. A segunda (boa) surpresa foi ver o filme "Control" de Corbijn na 7ª posição.
A perplexidade tem a ver com o segundo lugar dessa peculiar lista: o famosíssimo e conhecidíssimo filme do realizador russo Leonid Gadai - "Kavkazskaya Plennitsa, Ili Novye Priklyucheniya Shurika", de 1966, do mesmo cineasta que em 1990 realizou o blockbuster mundial "Chastnyy Detektiv, Ili Operatsiya Kooperatsiya".
Deveras desconcertante...

Dia dos Namorados



They say it fades if you let it,
love was made to forget it.
I carved your name across my eyelids,
you pray for rain I pray for blindness.

If you still want me, please forgive me,
the crown of love is fallen from me.
If you still want me, please forgive me,
because the spark is not within me.

I snuffed it out before my mom walked in my bedroom.

The only thing that you keep changin'
is your name, my love keeps growin'
still the same, just like a cancer,
and you won't give me a straight answer!

If you still want me, please forgive me,
the crown of love has fallen from me.
If you still want me please forgive me
because your hands are not upon me.

I shrugged them off before my mom walked in my bedroom.

The pains of love, and they keep growin',
in my heart there's flowers growin'
on the grave of our old love,
since you gave me a straight answer.

If you still want me, please forgive me,
the crown of love is not upon me
If you still want me, please forgive me,
'cause the spark is not within me.
it's not within me, it's not within me.

You gotta be the one,
you gotta be the way,
your name is the only word that I can say

You gotta be the one,
you gotta be the way,
your name is the only word , the only word that I can say!

Only one that I can say!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A velhice e os filmes


Gosto de filmes sobre velhos. É uma forma simplista de o dizer, mas é assim mesmo: filmes sobre velhos, ou sobre a velhice. E não encaro o termo “velho” com conotações pejorativas. Pelo contrário. É o tempo da maturidade, da sabedora e da experiência. Uma etapa de vida que impõe respeito, valorização e atenção. Tempo de reflexão serena sobre o tempo vivido e sobre o sentido da vida.
No cinema, é preciso que um realizador tenha muita sensibilidade artística para não lidar com a velhice de forma sentimentalista ou condescendente, como se se tratasse de uma telenovela pejada de todos os lugares-comuns sobre o tema.
É preciso ter visão, mentalidade aberta, sentido humanista e deitar fora os preconceitos. Assim de repente, lembro-me de uma obra-prima do Neo-Realismo italiano: “Umberto D.” (1952) de Vittorio de Sica: a comovente vida de um pobre pensionista, solitário e desesperado, cuja relação com o seu fiel cão o salva de um fim trágico.
Ou o memorável “Morangos Silvestres” (1957) de Ingmar Bergman, essa esplendorosa meditação sobre o fim da vida de um professor universitário desencantado. Ou a relação de amizade entre o motorista Morgan Freeman e a velha aristocrata Jessica Tandy em "Driving Miss Daisy" (1989). Recordo-me também do último e terno filme do mestre Akira Kurosawa, "Rapsódia em Agosto" (1991), no qual uma idosa sobrevivente de Nagasaki se confronta com a custódia dos seus quatro netos e a relação com um inesperado sobrinho americano.
Também de Bergman, o crepuscular “Saraband” (2003), a sua última obra em forma de testamento sobre as inquietações afectivas e emocionais de um idoso em final de vida.

Nos últimos anos, há dois ou três títulos muito interessantes cujos personagens principais são pessoas idosas, reformados que ainda mantêm sonhos e esperanças (ou talvez não): “As Confissões de Schmidt” (2002) de Alexander Payne, com um extraordinário Jack Nicholson, que antevê um novo futuro após a morte súbita da mulher; e “Vénus” (2006) de Roger Michell, com um não menos extraordinário e veterano Peter O’Toole. Goste-se ou não do filme, "The Curious Case of Benjamim Button" (2008) é uma reflexão sobre os vários estados etários da vida humana, com especial ênfase na velhice. E que dizer do grande filme sobre uma avó e sua relação com o neto soldado, em “Alexandra” (2007) de Sokurov? Ou da maravilhosa viagem de reconciliação de um velho num cortador de relva que é retratada em "The Straight Story" (1999) de David Lynch (lembrança de João Gonçalves)?

É caso para dizer: o cinema (também) é (de e para) velhos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #9

Clicar na imagem para aumentar.

O cinema é o demónio


Agora que o Egipto se livrou de Mubarak, era também hora do Médio Oriente em geral se livrar, igualmente, de preconceitos que minam mentalidades culturais.
O senhor da imagem chama-se Ibrahim al-Ghaith e é o chefe da polícia religiosa da Arábia Saudita. Este país muçulmano, um dos mais fundamentalistas e censores do mundo, baniu durante três décadas o cinema, invocando que se trata de uma "vil forma de violar a lei islâmica".
No entanto, após trinta anos de total censura, em que os cidadãos sauditas nunca puderam ver, sequer, uma película por mais inofensiva que fosse, as autoridades abriram uma rara excepção e autorizaram a exibição de um filme produzido por um rico príncipe saudita. O filme chama-se "Menahi" e, segundo rezam as crónicas, trata-se de uma comédia familiar (adaptada de uma popular série televisiva) sobre as aventuras de um camponês no reino muçulmano. O filme foi um sucesso e levou milhares de pessoas às salas de cinema (nota importante: não se trata de um infame filme ocidental que veio corromper a moral islâmica, foi antes um filme feito na Arábia Saudita e com profundas raízes na história local).
Contudo, apesar de ser o único filme exibido em 30 anos na fundamentalista Arábia Saudita, e apesar de se tratar de um mero filme de entretenimento de Domingo à tarde, "Menahi" acabou por ser criticado pelo chefe da polícia religiosa, que viu nele a tal violação à divina lei islâmica. Mas fez mais do que criticar, claro.
Acabou por proibir a exibição do filme em todo o território saudita. O argumento de Ibrahim é demolidor e sem remissão: "A nossa posição sobre este assunto é clara - proiba-se. Porque o cinema é o demónio e não precisamos dele. Já temos demónios que cheguem".
A minha dúvida é: será que se estava a referir a ele próprio?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Davis, Bette Davis


Vi há tempos, no canal 2 da RTP, um documentário sobre uma das grandes divas do cinema de Hollywood, Bette Davis.
Não sendo uma das minhas actrizes clássicas preferidas (eu é mais Greta Garbo, Marlene Dietrich, Maureen O’Hara, Joan Crawford ou Ingrid Bergman), fiquei deveras impressionado com o seu percurso artístico e de vida. Era conhecido o seu feitio intratável e explosivo (na vida familiar e no mundo do cinema), mas talvez só tenha triunfado em Hollywood à custa desse seu temperamento intempestivo, numa época na qual os homens ditavam as regras, na vida social como na artística.
Como todas as grandes divas do cinema, Bette Davis também sentiu as emoções do estrelato e as agruras do declínio. A estrela do imortal filme “All About Eve” (1950, de Joseph Mankiewicz) soube ajustar o seu perfil pessoal e o seu imenso talento artístico para marcar a história do cinema. Emocionante foi a sua despedida do cinema quando em 1987 fez o seu último filme, "As Baleias de Agosto" do realizador Lindsay Anderson, repartindo o elenco com outra diva do cinema (mudo, neste caso), Lillian Gish.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Cisne Negro": jogo de espelhos


Não é por acaso que Darren Aronofsky intitulou o seu último filme "Cisne Negro" e não "Cisne Branco". É bom de ver que o que interessou ao realizador foi explorar (como já o fizera em filmes seus anteriormente) o lado mais obscuro e negro da mente humana. É essa estranha força negra que tudo absorve, que tudo destrói. Daí o fascínio pelo lado negro e desconhecido da realidade...
A frágil e doce bailarina Nina é arrastada para o abismo, precisamente, quando sabe que tem de encarnar o cisne negro. É é nesta dicotomia entre dois mundos opostos que o filme de Aronofsky ganha pontos: na forma como encena o bailado como plataforma de uma terrível e alucinada luta interior de uma mulher dilacerada e dividida por duas pulsões antagónicas.
Natalie Portman é sublime na forma como encarna as duas facetas da personagem e o jogo de espelhos que a levará à loucura (a própria refere que o facto de ter estudado psicologia a ajudou na construção da mesma).
Darren Aronofsky é prodigioso no modo como constrói uma narrativa progressivamente opressiva, angustiante e devastadora.
Na minha memória ficará guardada, durante muito tempo, a espantosa sequência na qual Nina se transforma em cisne negro - a dançar no palco e a ficar coberta de penas negras, enquanto a câmara a filma em movimentos circulares.
São bem evidentes, em "Cisne Negro", a influência directa de grandes obras do cinema sobre paranóia e alucinação, como os notáveis "O Inquilino" (1976) e "Repulsa" (1965), ambos de Roman Polanski, "Don't Look Now" (1973) de Nicolas Roeg e alguns filmes de David Cronenberg (pelo lado da metamorfose da carne). O filme de Aronofsky espelha, de certo modo, o ambiente de crescente paranóia e desagregação de personalidades que os filmes citados abordam.
E uma certeza é inabalável: o Óscar não irá fugir a Natalie Portman.

Discos que mudam uma vida - 132


Diamanda Galás - "You Must Be Certain of The Devil" (1988)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Playmobil Dance To The Radio

Quem é Christa Päffgen?

Sabe quem é Vincent Damon Furnier? E Eleanora Fagan Gough? E se disser que o primeiro é o nome real de Alice Cooper e o segundo o nome verdadeiro de Billie Holiday?
Já agora, sabia que o nome que consta no bilhete de identidade de Iggy Pop é James Newell Osterberg Jr.? E que Freddie Mercury (Queen) teve como nome de baptismo Faroukh Bulsara? Ou que Nico, a célebre e carismática cantora dos The Velvet Underground, se chamava, na realidade, Christa Päffgen?
Isto e muito mais é revelado na seguinte lista que inclui revelações surpreendentes sobre os verdadeiros nomes de determinadas estrelas da música, do cinema e do espectáculo em geral.
E perante isto chega-se à conclusão que alguns nomes verdadeiros de artistas que constam do bilhete de identidade são bem mais "artísticos" e originais do que os nomes pelos quais são popularmente conhecidos.

Nome artístico / Nome real:
Bela Lugosi (Be'la Ferenc Dezso Blasko)
Billy Idol (William Michael Albert Broad)
Bob Dylan (Robert Zimmerman)
Buddy Holly (Charles Hardin Holley)
Cat Stevens (Stephen Demetre Georgiou, later Yusuf Islam)
Cher (Cherilyn Sarkisian)
Danny Kaye (David Daniel Kaminski)
David Bowie (David Robert Jones)
Donna Summer (LaDonna Andrea Gaines)
Dusty Springfield (Mary Isabel Catherine Bernadette O'Brien)
The Edge (David Evans)
Elton John (Reginald Kenneth Dwight)
Elvis Costello (Declan Patrick Aloysius McManus)
Eric Clapton (Eric Clapp)
Eric Morecambe (John Eric Bartholemew)
Fatboy Slim (Quentin Cook, later Norman Cook)
Flea (Michael Balzary)
Fred Astaire (Frederick Austerlitz)
Freddie Mercury (Faroukh Bulsara)
Garry Moore (Thomas Garrison Morfit)
Gene Simmons (Chaim Witz)
Groucho Marx (Julius Henry Marx)
Howlin' Wolf (Chester Arthur Burnett)
Ice Cube (O'Shea Jackson)
Iggy Pop (James Newell Osterberg Jr.)
Jerry Lewis (Joseph Levitch)
John Denver (Henry John Deutschendorf, Jr.)
Johnny Rotten (John Joseph Lydon)
Jon Stewart (Jonathon Leibowitz)
Joni Mitchell (Roberta Joan Anderson)
Judy Garland (Frances Gumm)
Les Paul (Lester Polfuss)
Marilyn Manson (Brian Warner)
Meat Loaf (Marvin Lee Aday)
Moby (Richard Melville Hall)
Muddy Waters (McKinley Morganfield)
Natalie Portman (Natalie Hershlag)
Nico (Christa Päffgen)
Nina Simone (Eunice Kathleen Waymon)
Pink (Alecia Moore)
Queen Latifah (Dana Owens)
Ringo Starr (Richard Starkey)
Sid Vicious (John Simon Ritche; Later John Beverly)
Simone Signoret (Simone Kaminker)
Slash (Saul Hudson)
Snoop Dogg (Calvin Broadus)
Spike Jonze (Adam Spiegel)
Stevie Wonder (Steveland Morris)
Sting (Gordon Sumner)

Mais aqui.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Playtime #45


A solução: "The Man Who Wasn't There" (2001) - Joel e Ethan Coen
Quem descobriu: Sam

Conduzir a olhar para o lado


"Vou ao cinema de vez em quando, às sextas-feiras. Gosto de observar na escuridão as caras dos outros espectadores. E de notar os pequenos pormenores que mais ninquém vê. Mas odeio nos antigos filmes americanos que os condutores não olhem para a estrada enquanto conduzem!"
Amélie Poulain
Imagem: "To Catch a Thief" (1955) de Alfred Hitchcock

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

James Dean - O Mito


Um dos mais míticos actores de sempre, James Dean, faria 80 anos, hoje, se fosse vivo. Clássico intemporal, "A Leste do Paraíso" (1955) de Elia Kazan, é um daqueles filmes míticos que marcaram várias gerações.
Baseado no romance homónimo do escritor John Steinbeck, "A Leste do Paraíso" é o primeiro dos três grandes filmes (os outros são "Rebel Without a Pause" e "Giant") que formam o legado cinematográfico de James Dean, o malogrado actor precocemente desaparecido num trágico acidente de viação.
James Dean, com apenas 24 anos, tornou-se rapidamente no ídolo de uma geração com a sua magnética personagem Cal, um jovem rebelde de Salinas Valley que disputa o afecto de um pai pouco atencioso (Raymond Massey) com o seu irmão Aron (Richard Davalos), o filho preferido. Ver hoje o filme de Elia Kazan é testemunhar que os conflitos entre pais e filhos e a consequente desintegração familiar não mudaram assim tanto após mais de 50 anos. James Dean, ele próprio dono de uma personalidade errante e emocionalmente instável, transportou para o filme essa ânsia de viver e de afirmação, confundindo a ficção com a realidade.
A esse propósito, veja-se uma das mais espantosas cenas de "A Leste do Paraíso" (a cena é extraordinária porque prova a intensidade interpretativa de um jovem actor no seu primeiro filme): tentando conquistar o amor do pai, Cal trabalhou para juntar dinheiro e presenteá-lo com o montante que este perdera num negócio. O pai, de forma arrogante e altiva, rejeita a dádiva. Conforme a rejeição do pai progride, os olhos de Cal começam nitidamente a brilhar, o seu tom de voz altera-se, gagueja, sente-se a profunda tristeza e revolta daquele momento. No fim, a cena termina de forma inesperada: no argumento estava escrito que o personagem de James Dean deveria resignar-se e sair de casa.
James Dean improvisa e, imbuído totalmente nas emoções do seu personagem, encosta o pai à parede e abraça-o a chorar em total desespero. O actor Raymond Massey (pai) ficou surpreendido com a reacção de James Dean mas continuou a actuar, dizendo o que estava no guião ("Cal! Cal!").
O realizador Elia Kazan viria mais tarde dizer que, apesar de Dean se ter desviado do guião, acabou por incluir esta cena no filme por causa do intenso momento espontaneamente demonstrado pelo talento do jovem actor.
Um momento que prova a genialidade de James Dean, um actor que, caso não tivesse vivido sempre no fio da navalha e desaparecido antes do tempo, poderia ter sido maior que um Marlon Brando ou um James Stewart.

Podia ter sido amor


Megan Fox e Johnny Weissmuller

Johnny Depp e Marlene Dietrich
Ashley Judd e James Stewart
Keira Knightley e Frank Sinatra
Deborah Kerr e Russel Crow
Jude Law e Brigitte Bardot

O olhar

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Peter Greenaway, a pintura, os projectos, a ironia e a eutanásia


"Quando ficas velho é suposto que deves pedir a reforma, mas a verdade é que o volume do meu trabalho não pára de crescer. Vivo na Holanda, país onde a eutanásia é legal e creio que ninguém faz nada de interessante depois dos 80 anos. Agora tenho 68, por isso só me restam 12 anos mais e tenho uma grande quantidade de coisas que devo fazer até que peça voluntariamente a eutanásia."
Foi assim que o realizador Peter Greenaway falou ao jornal espanhol El País.
E disse mais: "Creio que o cinema, tal como o temos conhecido, está morto, mas a actividade de contar histórias através de imagens continua viva. A minha profissão está a desaparecer e reafirmo que o cinema está basicamente morto, mas foi magnificamente substituído por outras formas de recolher e difundir informação."
Greenaway diz que tem inúmeros projectos a decorrer, como um sobre a perda da virgindade do realizador russo Eisenstein no México (!); outro sobre o filme "Morte em Veneza", no qual explora a relação sexual consumada entre os dois amantes; tem ainda duas óperas, uma obra de teatro e um contrato para escrever 100 livros (!) para um editor parisiense. A pintura é uma área que sempre o interessou, estando a finalizar uma série de trabalhos sobre nove pinturas clássicas (desde Rembrandt a Velásquez).
Moral da história: é conhecida a veia irónica e provocadora do realizador de "The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover" (1989), como as recorrentes afirmações sobre a "morte do cinema". Greenaway cultivou sempre um misto de excentricidade barroca com alguma demagogia pelo meio. E a verdade é que, se o cinema morreu, terá morrido para ele próprio, uma vez que desde o seu filme "The Pillow Book" (1996) nunca mais fez uma obra minimamente digna e interessante.
Esperemos que, no amontoado de novos projectos que tem em mãos, surja algo de de verdadeiramente original. Pelo menos até chegar aos 80, visto que assim que chegar a esta idade, segundo vontade expressa do próprio, irá cometer eutanásia!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Turismo à conta dos filmes


Para quem acumula o gosto pelo cinema e o prazer de viajar, nada melhor do que descobrir percursos de locais de rodagem de filmes. Há guias editados dos locais de filmagem do mundo inteiro, com especial destaque para as grandes metrópoles (Londres, Nova Iorque ou Paris - afinal, as cidades mais filmadas).
Mas não é preciso comprar guias quando temos à disposição um óptimo site bastante completo sobre os locais de filmagem de muitos filmes (desde "cult movies" a "blockbusters"): chama-se "Movie Locations", e neste sítio encontramos informação detalhada sobre os locais onde foram filmados filmes como "O Padrinho", "Taxi Driver", "Pulp Fiction", "Laranja Mecânica" e tantos outros. Quer saber os cenários reais (ruas, cafés, restaurantes, casas, jardins...) onde foi filmado o filme "Reservoir Dogs" de Tarantino? Para tal, basta seguir este link. E os locais de "Psycho" de Hitchcock? Aqui.
É possível pesquisar por país (Portugal tem apenas uma entrada, num filme de 1969 da série James Bond, filmado parcialmente em Cascais), cidade, realizador, actor, ou títulos de filmes. As fotografias que encontramos relativas a determinado filme correspondem aos cenários filmados, como o restaurante onde Robert DeNiro e Al Pacino se encontram em "Heat - Cidade Sob Pressão", os locais frequentados nos bairros de Paris por Amélie em "O Fabuloso Destino de Amélie Poulin", etc, etc.
Assim, numa eventual viagem a Bruxelas, Londres, Amesterdão, Los Angeles, Chicago ou Barcelona, poderemos programar um guia de destino turístico para conhecer os cenários reais dos nossos filmes favoritos. Ou seja, descobrir cidades através dos filmes - alia-se o prazer da viagem ao prazer cinéfilo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #8

Clicar na imagem para aumentar.

O canto de Nusrat


O Paquistão é um país muito peculiar. Por boas e más razões. Más em virtude, por exemplo, dos costumes sociais extremamente repressores e violentos para com a condição da mulher; más por questões do reconhecido fundamentalismo religioso e político.
Boas razões, por causa da tradição musical, uma das mais ricas no contexto da música étnica e da “world-music”. Tal como para as sociedades ancestrais, assentes em códigos culturais milenares e profundamente enraizados na população, a música é para os paquistaneses um chamamento ritualista e uma demanda espiritual do homem.
Assim como o fado está para Portugal, o "Cante Jondo" para Espanha ou o Raï para a Argélia, o ancestral canto “Qawwali” (um estilo musical sufi) é, para o Paquistão, uma forma de canto único, uma forma de celebrar intensamente a existência terrena, aliada ao mais profundo sentimento de religiosidade.
Este canto devocional caracteriza-se pela forma como o cantor, após muitos anos de treino, consegue libertar a sua voz em direcção a extremos tímbricos e melódicos que fazem qualquer ocidental não iniciado pasmar de espanto. Neste domínio, Nusrat Fateh Ali Khan (1948 - 1997), constituiu o baluarte maior desta arte impressionante de expor a voz (aos deuses, dizia ele).
Nusrat, com o seu físico imponente, sempre sentado, era dono de uma voz tão portentosa e elástica quanto bela, tão elegante quanto expressiva. Única, em suma. Colaborou com inúmeros músicos ocidentais (até com projectos de música electrónica, numa proveitosa ponte entre Oriente e Ocidente), foi um sucesso de vendas em países como a França ou a Espanha. Por outro lado, ajudou também o Ocidente a conhecer melhor a apaixonante tradição musical do Paquistão.
Dizia-se que, nas suas performances ao vivo, parecia entrar em autêntico transe enquanto cantava, ajudado pela matriz hipnótica dos ritmos das tablas.
Para Nusrat interessava tanto o que se dizia ao cantar como a forma como cantava. Daí que o canto “Qawwali” seja uma forma de expressão vocal extremamente rica, da qual Nusrat era um mestre incontestado.
Um artista maior da música de raiz tradicional do mundo, Nusrat Fateh Ali Khan, veiculou a espiritualidade através da sua intensa música.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As sequelas inúteis

Recentemente, os cinéfilos foram surpreendidos com a sequela inútil e medíocre do filme de culto "Donnie Darko". Isto levou-me a pensar que, apesar da onda de sequelas por tudo e por nada há, potencialmente, filmes que pelas suas características (argumento, estética, realização, peso de culto...) são praticamente impossíveis de fazer sequelas, sob pena de destruirem o imaginário cinéfilo da obra original.
A título de exemplo - seria infame que houvesse sequelas de filmes como:
- "A Noite do Caçador"
- "Blade Runner"
- "Eraserhead"
- "Reservoir Dogs"
- "Aguirre: A Cólera de Deus"
- "The Wild Bunch"
- "A Laranja Mecânica"
- "Blue Velvet"
- "Morte em Veneza"
- "Paris, Texas"
- "O Feitiço do Tempo"
- "O Eclipse"
- "A Sede do Mal"
- "As Virgens Suicidas"
- "Hiroshima, Meu Amor"
- "12 Angry Men"
- "Ed Wood"
Sempre queria ver a "coragem" dos produtores de Hollywood...

Kubik e o carrossel de sons


[Obrigado Marco]

Resistir a ver filmes


O Guinness Book of Records está a tornar-se previsível e sem interesse. Qualquer pessoa com boa resistência (física ou psicológica) ou com alguma habilidade fora do normal, arrisca-se a entrar no livro dos recordes sem grande esforço. Um canadiano e uma alemã inscreveram os seus nomes no livro de recordes do Guinness porque conseguiram ver 57 filmes em 123 horas e 10 minutos. Ou seja, 5 dias sem dormir. Parece um feito extraordinário, mas não é.
O segredo consistiu na selecção criteriosa dos filmes. Que filmes foram esses? Filmes de acção e de aventuras, suficientemente barulhentos e agitados para não provocarem sonolência aos resistentes espectadores.
O primeiro filme que o casal viu foi o do super-herói "Iron Man", seguido da trilogia "Bourne", a aventura "Kill Bill Vol. 1 e 2", "O Paciente Inglês", "Hulk", e por aí fora. Quanto mais "blockbuster" de Verão, melhor.
No meu humilde parecer, a verdadeira prova de força teria sido se estes dois espectadores maratonistas tivessem conseguido visionar, durante 5 dias consecutivos e sem soçobrar um instante, filmes de Manoel de Oliveira, Pedro Costa, Kieslowski, Peter Greenaway, Andy Warhol, Straub, Bergman, Antonioni, Kiarostami, Pasolini, Tarkovski, Angelopoulos, Nuri Bilge Ceylan, e o cinema mudo de D. W. Griffith.
Não que estes realizadores sejam de pouco interesse ou de qualidade (muitíssimo pelo contrário), mas porque, pelas suas características intrínsecas de exigência ao nível da concentração, se fossem visionados sem descanso, poderiam causar danos emocionais e psicológicos irreversíveis.
Aí é que eu os queria ver a resistir...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Playtime #44


A solução: "Lilith" (1964) de Robert Rossen
Quem descobriu: Rui Gonçalves

Woody e Bruni


Fotografia de rodagem do filme "Midninght in Paris", novíssimo filme (está numa fase de pós-produção) de Woody Allen, e que abrirá o próximo Festival de Cannes, dia 11 de Maio.
Sim, Carla Bruni é mesmo uma das actrizes protagonistas desta nova película de Allen. Espero que seja um filme mais inspirado (e inspirador) do que o - ainda recente - "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos".

Huxley e Ridley Scott?


Durante uns meses foi um mero rumor. Agora parece que é oficial: Ridley Scott, o realizador de um dos mais significativos filmes de ficção científica de sempre - "Blade Runner" (1982) com base no livro homónimo de Philip K. Dick, vai adaptar para cinema outro clássico da literatura futurista - "O Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley.
O cineasta revelou que foi Leonardo DiCaprio quem desafiou Scott a avançar com esta arriscada adaptação cinematográfica. O realizador de "Alien" e "O Gladiador" disse que é um projecto ainda embrionário e de difícil adaptação, dada a complexidade da obra de Huxley.
Não admira esta apreensão do realizador, uma vez que "O Admirável Mundo Novo", livro originalmente editado em 1932, antecipou uma série de desenvolvimentos tecnológicos e sociais que são realidade presente, como a inseminação artificial, a neurolinguística, o predomínio da tecnologia sobre o conhecimento, a eutanásia, a prevalência do colectivo em detrimento do individual, o crescimento desumanizado do progresso científico e material, ou o poder do estado de pendor totalitário disfarçado de democracia.
Huxley ficou famoso por essa criação de uma espécie de sociedade distópica, caracterizada por um regime opressivo, controlador e autoritário que elimina a identidade individual em prol de um suposto "bem colectivo". Um mundo altamente perigoso e distorcido, no qual valores como família, arte, ciência, liberdade ou cultura, são suprimidos em nome de um ideal comum propagandeado pelo estado controlador.
Lembro-me que li primeiro "1984" de Goerge Orwell e só depois li a obra de Huxley (que tem o segundo capítulo - "O Regresso ao Admirável Mundo Novo", menos interessante) e senti, em ambos autores, fortes conexões na crítica social e no modo de interpretar o mundo através da sátira política e de um fortíssimo sentido de antecipação histórica. Agora que, pelos vistos, Ridley Scott vai adaptar um dos livros de ficção científica fundamentais da primeira metade do século XX, fica a pergunta: conseguirá o realizador perturbar-nos com esta adaptação cinematográfica com a mesma eloquência formal e estética com que o fez com o clássico incontornável "Blade Runner"?