domingo, 13 de fevereiro de 2011

A velhice e os filmes


Gosto de filmes sobre velhos. É uma forma simplista de o dizer, mas é assim mesmo: filmes sobre velhos, ou sobre a velhice. E não encaro o termo “velho” com conotações pejorativas. Pelo contrário. É o tempo da maturidade, da sabedora e da experiência. Uma etapa de vida que impõe respeito, valorização e atenção. Tempo de reflexão serena sobre o tempo vivido e sobre o sentido da vida.
No cinema, é preciso que um realizador tenha muita sensibilidade artística para não lidar com a velhice de forma sentimentalista ou condescendente, como se se tratasse de uma telenovela pejada de todos os lugares-comuns sobre o tema.
É preciso ter visão, mentalidade aberta, sentido humanista e deitar fora os preconceitos. Assim de repente, lembro-me de uma obra-prima do Neo-Realismo italiano: “Umberto D.” (1952) de Vittorio de Sica: a comovente vida de um pobre pensionista, solitário e desesperado, cuja relação com o seu fiel cão o salva de um fim trágico.
Ou o memorável “Morangos Silvestres” (1957) de Ingmar Bergman, essa esplendorosa meditação sobre o fim da vida de um professor universitário desencantado. Ou a relação de amizade entre o motorista Morgan Freeman e a velha aristocrata Jessica Tandy em "Driving Miss Daisy" (1989). Recordo-me também do último e terno filme do mestre Akira Kurosawa, "Rapsódia em Agosto" (1991), no qual uma idosa sobrevivente de Nagasaki se confronta com a custódia dos seus quatro netos e a relação com um inesperado sobrinho americano.
Também de Bergman, o crepuscular “Saraband” (2003), a sua última obra em forma de testamento sobre as inquietações afectivas e emocionais de um idoso em final de vida.

Nos últimos anos, há dois ou três títulos muito interessantes cujos personagens principais são pessoas idosas, reformados que ainda mantêm sonhos e esperanças (ou talvez não): “As Confissões de Schmidt” (2002) de Alexander Payne, com um extraordinário Jack Nicholson, que antevê um novo futuro após a morte súbita da mulher; e “Vénus” (2006) de Roger Michell, com um não menos extraordinário e veterano Peter O’Toole. Goste-se ou não do filme, "The Curious Case of Benjamim Button" (2008) é uma reflexão sobre os vários estados etários da vida humana, com especial ênfase na velhice. E que dizer do grande filme sobre uma avó e sua relação com o neto soldado, em “Alexandra” (2007) de Sokurov? Ou da maravilhosa viagem de reconciliação de um velho num cortador de relva que é retratada em "The Straight Story" (1999) de David Lynch (lembrança de João Gonçalves)?

É caso para dizer: o cinema (também) é (de e para) velhos.

14 comentários:

Álvaro Martins disse...

Só uma pequena correcção Victor, o último filme de Kurosawa foi o Madadayo e não o Rapsódia em Agosto. Curiosamente, o Madadayo é outro exemplo do que falas, da reflexão da velhice no cinema (e é, a par do Dersu Uzala, o meu favorito do japonês).

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Tens razão, Álvaro.

De facto, os últimos dois filmes de Kurosawa acabam por ser reflexões sobre a velhice.

João Gonçalves disse...

Também é um tema que me agrada. Já agora, acrescento o também muito bom, The Straight Story, do David Lynch.

Rato disse...

Tirando o filme da Jessica Tandy, que não me entusiasmou por aí além, os outros são todos excelentes exemplos sobre a temática referida.
E, já agora, uma pequenissima adenda - sendo o cinema essencialmente memória (no meu modo de o ver) e sendo a memória um dos privilégios dos velhos, modificaria para este o parágrafo final:
É caso para dizer: o cinema é sobretudo para velhos.

O Rato Cinéfilo

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Bem lembrado, João.
Rato: tens razão.

Neuroticon disse...

Concordo completamente e eu próprio ja o disse e volto a repetir: Adoro cinema sobre velhos!

Muito bem lembrado este post ;)

Gonga disse...

Bom artigo, gostei bastante. É necessario ter alguma maturidade para conseguir fazer um filme de velhos.

Silly Little Wabbit disse...

Penso que também se poderia enquadrar nesta categoria um dos meus favoritos: Harold and Maude.

Rato disse...

Não estou lá muito de acordo, Wabbit. "Harold and Maude" não é um filme sobre a velhice mas antes sobre a aprendizagem de viver. Por uma vez até que o título em português foi bem atribuído: "Ensina-me a Viver".
Se quiseres ler o meu comentário sobre esse filme magnífico podes ir
AQUI

O Rato Cinéfilo

Silly Little Wabbit disse...

Concordo que é um filme sobre a aprendizagem de viver, mas existe como bem o referes do início ao fim referências à morte (as encenações de suicídio de Harold e o próprio carro que ele conduz) que aceleram o relacionamento entre os dois que não aconteceria da mesma maneira se Maude fosse uma jovem saudável. É a sua perspectiva de vida enquanto "anciã" que muda o seu comportamento e maneira de encarar a morte. É redutor chamar-lhe um filme sobre velhice, mas também o retrata, talvez não de forma tão incisiva como os exemplos referidos no post.

O Provedor disse...

Sr. Victor Afonso, falta adicionar Alexander Payne em baixo, nas categorias do post.

Cumps

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Ao Provedor: sim, talvez falte uma categoria "Alexander Payne", como faltarão outras categorias com outros realizadores.

Ao Alexandre e ao Rato: se há aspecto da blogosfera pelo qual sempre me bati e defendo, é o da pluralidade de opiniões. E nestes quase 4 anos que tenho de blog, já defendi muitas opiniões opostas às dos leitores. Houve algum problema por isso? Pelo contrário, o contraditório só enriquece o debate. Desde que haja elevação argumentativa e respeito mútuo, claro.

PortoMaravilha disse...

Olá,

Eu acho que existe um filme muito questionante e muito angustiante sobre a velhice ( mesmo se esta está em pano de fundo ).

O filme é "Memórias da casa amarela" de Monteiro.

Espero que seja bem este o título em pt. Em fr é "Mémoires de la maison jaune".

Nuno

Armando Santos disse...

O filme chama-se Memórias da Casa Amarela de joão César Monteiro e tem lugar num hospital psiquiátrico muito degradado que existia no centro da cidade de Lisboa .