quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os genéricos


O João Lameira, a propósito do post abaixo deste, abordou quão importante é o genérico de um filme. E com toda a razão.
Sempre que penso em genéricos, lembro-me de um filme de Woody Allen (creio que "Annie Hall") em que a personagem interpretada pelo próprio realizador desiste de entrar na sala de cinema porque já tinha sido exibido o genérico inicial do filme. Faz sentido: podia ter perdido um genérico extraordinário. E o filme começa verdadeiramente no genérico (quando os há, porque o cinema contemporâneo aboliu muita dessa tradição).
Durante décadas, no período clássico de Hollywood, os genéricos ("opening credits") foram quase sempre iguais, com o mesmo ritmo, a mesma estética visual, a mesma forma de apresentação dos créditos artísticos e técnicos, o mesmo lettering, com poucas variações na própria sequência gráfica dos títulos. Veja-se, por exemplo, os muitos filmes de John Ford que terminam da mesma maneira: "Directed by John Ford". Por isso, muitas das vezes, os genéricos serviam apenas para aborrecer os espectadores, deixando-os indiferentes.

Porém, a partir de um dado momento, os genéricos sofreram alterações profundas, no estilo, na forma, no conteúdo. Outros realizadores optaram até por prescindir dos genéricos iniciais (Francis Ford Coppola), outros há que são fiéis a um mesmo estilo (Woody Allen) durante largos anos.
Por vezes um genérico inicial de um filme (quando é realmente bom e original) é determinante para incutir no espectador o fascínio das imagens, a envolvência emocional da película. Saul Bass criou alguns dos genéricos mais originais para filmes de Alfred Hitchcock, ou para "Anatomy of Murder" de Otto Preminger.
Nos últimos anos, David Fincher tem sido um dos poucos cineastas que atribui valor artístico ao genérico, talvez devido à sua formação inicial como realizador de videoclips.
O genérico é uma arte e imprime identidade artística a um cineasta, e não tem que ter uma função meramente funcional (como a de apresentar a lista de actores e intervenientes do filme, como era quase sempre no cinema clássico). E hoje já não há artistas gráficos com a veia criativa de um Saul Bass...
Eis um site que sugere 10 grandes "opening credits" do cinema recente.

5 comentários:

joao amorim disse...

assim à primeira lembro-me do Eternal Sunshine of the Spotless Mind, porque para além de mostrar todo o desespero da personagem do jim carrey, apresenta a excelente versão do beck da "everybody''s going to learn something" o que me faz pensar na importância da música dos créditos finais. isto porque os filmes que tem argumento assinado pelo Kaufman têm todos músicas fantásticas, e no caso do being john malcovich imagens importantíssimas, nos créditos

penso que só nos créditos finais nos apercebemos o quanto gostamos do filme. normalmente quando o filme é mesmo bom gosto de esperar até ao fim dos créditos... ou melhor, não consigo deixar de os ver. é quase uma necessidade de sentir o fim de algo que foi especial..

cumps

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

E já agora: é verdade o "mito" de que os verdadeiros e acérrimos cinéfilos gostam de ver os créditos finais até mesmo ao final? Ou seja, que se levantam da sala apenas quando acabam de passar os últimos créditos e as luzes da sala se acendem?

João Ruivo disse...

Para além de alguns exemplos mais óbvios e que são citados muitas vezes, acho o genérico de I'm A Cyborg but That's OK de Park Chan-Wook muito original. O filme em si não é brilhante, mas achei a sequência dos créditos iniciais muito bem conseguida.

Rato disse...

Por acaso tenho opiniões diametralmente opostas - e no caso conservadoras (no sentido de fazer inequivocamente a apologia dos clássicos) - sobre o início e o fim de um filme.
Acho frustrante quando determinado filme começa de imediato (a não ser que seja uma sequência pré-genérico, apresentada para ser ela própria uma introdução aos créditos iniciais). Gosto, portanto, de todo aquele "ritual" de apresentação do filme que vamos ver. Ainda me lembro do tempo em que não havia internet, e que portanto não tínhamos acesso a qualquer pré-informação sobre determinada estreia. Nesse tempo o que havia de incentivo à visão de um filme (para lá, obviamente, do nome dos intervenientes) não ia muito mais além do simples poster que aparecia nos jornais diários. Lembro-me que a página dos anúncios era logo a primeira que eu procurava para ver o que de novo se anunciava para as diversas salas de cinema. Daí a atracção que ainda hoje eu tenho pelos posters e pelas imagens dos mesmos.
Quanto ao términus de um filme, e tal como já referi num artigo que escrevi no meu blogue, tenho saudades do tempo em que um filme pura e simplesmente...acabava. THE END!

joao amorim disse...

eu fico quando as circunstâncias o permitem, e quando o filme, para além de me agradar profundamente, me faz pensar... nem que seja pensar nos sentimentos que o filme despertou... ou seja, quando o filme é verdadeiramente bom e deixa em nós algo mais que o entretenimento...

cumps