quarta-feira, 30 de outubro de 2013

1001



As edições livreiras têm inundado o mercado com livros (melhor: manuais quase bíblicos) sobre o que devemos ouvir, ler, ver, comer, beber e conhecer antes de morrer.
E os editores não fazem a coisa por menos - são sempre 1001 títulos para conhecer, nunca 100 essenciais ou 500. São 1001 e pronto (alguma razão psicanalítica haverá para a escolha deste número).
Em comum, estes livros têm duas obsessões: indicar mais de mil títulos para conhecer e abordar, subliminarmente, a morte.
Ou seja, são sugestões para ler, ver, ouvir, tudo antes de morrer (falta citar os livros "1001 Viagens Antes de Morrer", "1001 Vinhos para Beber Antes de Morrer", entre outros títulos).
O que estes livros propõem é um conjunto de experiências culturais e de vida que extravasam o tempo útil médio de existência de qualquer mortal. Há qualquer coisa de exacerbado no princípio destes livros, e o excesso de sugestões pode revelar-se confuso, contraproducente e frustrante numa sociedade onde se vive demasiado depressa e no meio da super-abundância material.
Na realidade, quantas vidas precisaríamos de ter para conhecer todos os livros, todos os filmes, todos os discos, todas as comidas, todas as bebidas e todos os lugares propostos nesta espécie de enciclopédias-temáticas-para-terráqueo-ler?

5 comentários:

Marcelo Castro Moraes disse...

Ainda estou me devendo um livro como esse

Peter Gunn disse...

Nunca tinha pensado na coisa assim tão a fundo... mas se conseguisse ouvir um disco por dia e ver um filme por noite... eram pelo menos 3 anos de vida sem parar... a comida e os livros então é como dizes... eram precisas quantas vidas?

Alice N. disse...

Tenho um livros desses: «1001 paintings you must see before you die», que é quase um dois em um, pois, se aquilo fosse um objectivo de vida, levaria também (ou quase) a mil e uma viagens antes de morrer. A selecção é boa e foi por isso que o comprei. Os textos, embora curtos, são bons para saber o essencial e servirem de ponto de partida para aprofundar o que mais me interessa. Encaro aquele livro como uma espécie de dicionário ou enciclopédia e, tal como um dicionário não serve para ser lido de fio a pavio, também esse ou outro livro daquela colecção não pode ser encarado como um plano de vida a executar. Assim, acho que o que está errado é o título desses livros, que é bastante infeliz e pobre. Até parece que as pessoas terão desperdiçado a sua vida se não tiver visto, ouvido, provado os «mil e um» disto e daquilo. Além disso, transforma o contacto com o mundo, e com a arte em particular, numa mera operação matemática, assim como quem é avisado dos km que tem de percorrer para chegar à meta e, de preferência, em 1.º lugar. A qualidade da experiência é o que conta e não a quantidade, mas até parece que não é assim. Faz-me lembrar aqueles turistas que vão ao Louvre a correr, não vêem nada, estão doidos para chegar até à Mona Lisa e, pronto, já podem descarregar na sua lista mais um museu que têm o privilégio de «conhecer». O Louvre já está no papo, estiveram lá e só isso é que conta. É um bocado como aqueles que discutem o número de «amigos» que têm no facebook... Há tempos, alguém me dizia que, ao abrir a conta, estabeleceu um objectivo muito concreto: o número de amigos a atingir... A essência do título «Mil e um...» reflecte essa postura. É pena. O livro que tenho, tirando o título parvo, é interessante. Mas, pensando neste mundo em que tantas pessoas julgam afirmar-se pela quantidade, se calhar, comercialmente isto tudo muito bem pensado.

Alice N. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Disse muitas verdades, Alice.