sexta-feira, 6 de maio de 2011

As marcas de autor de Malick


No final deste mês estreia o muito esperado novo filme de Terrence Malick, "A Árvore da Vida". A revista Total Film compilou, de forma telegráfica mas acertada, as "marcas de autor" do cineasta.

A saber:

- Existe sempre uma voz-off que narra a história e fornece dados sobre a inquietude própria da atormentada alma dos protagonistas.

- A natureza é sempre um dos palcos ou protagonistas das suas obras.

- Todos os seus filmes se passam em tempos distantes e não presentes.

- A sua paixão pelo exterior é notória em quase toda a sua obra, raras vezes filmada entre paredes.

- Alia na perfeição o elemento musical com o trabalho visual que capta em qualquer momento.

- Lida sempre com os temas da corrupção moral do homem face ao seu semelhante ou ao seu habitat natural.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

45 anos de jazz radiofónico


Em 2011, o programa “Cinco Minutos de Jazz” de José Duarte comemora 45 anos de emissões! É o programa diário - de segunda a sexta - mais antigo da rádio portuguesa. A primeira emissão foi em 21 de Fevereiro 1966. A sua abertura e fecho pertencem já à história da rádio portuguesa. De Segunda a Sexta, na Antena 1 às 03:55 e 21:55.,”Cinco Minutos de Jazz” tem como objectivo divulgar música jazz de todos os estilos e de todos os anos - jazz de New Orleans, swing dos anos 30, bebop dos anos 40, big bands, hard bop dos anos 50, estilos que coabitam até com o free jazz ou com as novas tendências modernas.

José Duarte confessou um dia que, em conversa com um músico estrangeiro, referiu que mantinha há várias décadas um programa de apenas 5 minutos de jazz na rádio. O músico não acreditou. Não admira. O programa “5 Minutos de Jazz” deve ser caso único em todo o mundo, não só pela especificidade do próprio programa, como também pela longevidade. Por vezes acusado de conservador no gosto musical, a verdade é que José Duarte se tem revelado um incansável divulgador de jazz em Portugal. Parabéns, portanto.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Nick Cave e o anjo


Se há filmes que podem ser considerados marcantes e pertencentes a toda uma geração, este é um deles. Wim Wenders realizou esse filme de uma geração. E há poucos realizadores, há poucos filmes que podem reclamar esse epíteto. O filme chama-se "As Asas do Desejo" (1987) e marcou toda a geração dos anos 80. Não conheço ninguém da minha geração que, depois de ter visto o filme na altura da estreia, não tivesse ficado marcado para sempre. É um filme sobre anjos. Sobre o amor de um anjo pelas coisas terrenas, por uma bailarina (angelical, diria). É um filme sobre Berlim, uma Berlim lúgubre e decadente, poiso de artistas da vanguarda, cenário imagético. De criatividade febril. Mas é um filme sobre qualquer otura cidade que se queira imaginar.

"As Asas do Desejo" revela também uma Berlim a duas cores, como Wenders conseguiu tão bem retratar: o preto e branco do olhar dos anjos, e a cor da vida terrena (ou seria o contrário?). O filme de Wenders é uma alegoria fantasista sobre os desejos do homem, sobre a natureza da eterna insatisfação humana.

Nesta sequência, antológica, os anjos assistem a um concerto de Nick Cave & The Bad Seeds. Um concerto em que Cave canta uma das suas melhores canções de sempre: "From Her to Eternity" (variação do título de um grande filme: "From Here to Eternity", de Fred Zinnemann, de 1953).
O anjo observa, impávido mas prazenteiro, ao decorrer da acção: a bailarina, de vermelho, frui o espectáculo que Cave dá no palco (animalidade ainda remanescente da época dos Birthday Party). É uma das melhores sequências de concerto ao vivo jamais filmadas para cinema (e estou a considerar o "Control" sobre os Joy Division). É poesia pura, visual e sonora. Em estado visceral e intenso. Inesquecível.

domingo, 1 de maio de 2011

Ozu e X-Men na mesma capa

Num post mais abaixo referia que as revistas de cinema em Portugal são basicamente orientadas por critérios comerciais. No entanto, lá vão publicando reportagens de cineasta de culto e clássicos, para incentivar a compra por parte dos cinéfilos mais "autorais".
É o caso da Total Film: em Abril, dedicou um especial sobre Samuel Fuller; na edição de Maio, o leitor pode encontrar 5 páginas sobre o realizador japonês Yasujiro Ozu. E não menos importante: não se trata de um mero artigo importado com tradução portuguesa.
A análise à obra de Ozu é da autoria do crítico de cinema João Antunes, bem conhecido pela sua actividade de crítico de cinema há muitos anos a esta parte. E não deixa de ser curiosa e interessante a referência simultânea, na mesma capa, do blockbuster X-Men e de Ozu. Gosto desta abordagem jornalística despretensiosa.

Genealogia de Fotogramas #6














"Room in Rome" (2010) - Julio Medem

sábado, 30 de abril de 2011

Kubrick a preço de saldo

Já tinha vários livros sobre Stanley Kubrick mas faltava-me, na minha biblioteca sobre cinema, esta preciosa edição da Taschen: "Stanley Kubrick - A Filmografia Completa" em edição portuguesa.
Encontrei este livro à venda na livraria Bertrand por um preço muito simpático: 9,90€.
Um Kubrick a preço de saldo, portanto.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Vinil e imaginação

O Sleeveface, já por diversas vezes apresentado, é uma técnica que junta pessoas reais com capas de vinil, com resultados sempre surpreendentes. Esta é uma variante do Sleeveface, mas sem a componente humana. Ou seja, a composição é feita unicamente com capas de discos de vinil que se juntam de forma a criar uma imagem totalmente nova. E deve ser bem mais difícil e trabalhosa do que o Sleeveface convencional.










Discos que mudam uma vida - 140


Tosca - "Opera" (1997)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os gostos de Andrea


Confesso que nunca tinha ouvido falar da actriz Andrea Riseborough. Tem entrado em filmes de pouca relevância, mas é tida como um valor seguro para o futuro (o seu papel mais reconhecido foi a interpretação de uma jovem Margaret Thatcher num telefilme inglês).

Mas o que mais me chamou a atenção na leitura da nota biográfica desta actriz é que teve uma formação cultural atípica: actualmente com 29 anos, Andrea tinha nove anos de idade quando começou a ler Shakespeare, Chekov e Graham Greene. Quis ser escritora e na adolescência gostava de filmes a preto e branco antigos e de países do leste europeu. E aos 15 anos apaixonou-se pelos filmes de Andrei Tarkovski.

Ou seja, motivos mais do que suficientes para ter esta Andrea Riseborough em muito boa conta e consideração.

O labirinto de Jack Torrance


Uma vez por semana, João Palhares, autor do blogue "Cine Resort", convida bloggers a escolher um plano especial de um determinado filme e a falar, também, sobre ele. Esta semana o escolhido fui eu. Escolhi o último plano da sequência do labirinto da obra-prima "The Shining", de Stanley Kubrick.
_____

A justificação:

Kubrick sempre foi um esteta das imagens, um observador geométrico dos enquadramentos e dos planos minuciosamente estudados.

Em "The Shining" estas qualidades são particularmente evidentes. Não é tanto pelo virtuosismo da realização e da montagem, é também pela forma como Kubrick encena determinadas cenas, desafiando a toda a hora o olhar do espectador. O plano do labirinto é sintomático: Jack Torrance (Jack Nicholson) aproxima-se de uma maqueta do labirinto em cima de uma mesa situada no grande salão do Overlook Hotel. De repente, no plano seguinte, o espectador "vê" o labirinto pensando que se trata do mesmo que Jack está a olhar. Nada mais errado. O que o espectador vê é um plano fixo aéreo desse labirinto. Paulatinamente, a câmara vai-se aproximando (zoom in) até que damos conta que, bem no meio do labirinto, estão Danny e a mãe em movimento. Já não era o labirinto artifical da maqueta. Era o labirinto "real" onde estavam os dois personagens. Este plano é um prodigioso momento de cinema, de insuperável criatividade na construção da ilusão deste plano e, por inerência, do cinema em si mesmo.
Ver a sequência em vídeo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Entrevista Póstuma (5) - Buster Keaton



O Homem Que Sabia Demasiado - É célebre a sua expressão "Tragedy is a close-up; comedy, a long shot". O que queria dizer com isto?

Buster Keaton - A tragédia e a comédia são dois campos que se tocam, o reverso da mesma moeda. Experimentar ambas só enriquece o ser humano e o torna mais sensível, mais compreensivo para com as contradições da própria vida. O filme "The General" é prova disso: com um tema sério, a guerra, eu construi uma comédia mordaz. Até na violência e na hostilidade se podem criar momentos de humor. O importante é saber equilibrar o lado da tragédia e o da comédia.

O Homem Que Sabia Demasiado - Nos seus filmes sempre houve essa espécie de "sentimento trágico da vida", apesar de toda a enorme carga de humor que era evidente.

Buster Keaton - Sempre foi esse factor que me diferenciou de Charles Chaplin. Ele tinha um lado sentimental da comédia, eu tinha um lado quase negro, quase trágico. Sempre entendi e usei o "gag" cómico como uma ferramenta de interpretação do mundo, das relações entre homens e mulheres, etc.

O Homem Que Sabia Demasiado - Cultivou um semblante sempre impassível, incapaz de expressar emoções, de feições neutras. Porquê?

Buster Keaton - Por um lado, foi uma forma de construir uma personagem icónica, capaz de resistir impávido à cena mais irresistivelmente cómica. Por outro lado, o facto de nunca rir, permitiu que o espectador pudesse projectar em mim as suas próprias emoções segundo o que via.

O Homem Que Sabia Demasiado - O seu humor era muito físico e consta-se que nunca recorreu a duplos nas cenas mais arriscadas.

Buster Keaton - É verdade. Sempre assumi os riscos da profissão que escolhi. Cresci no mundo do "vaudeville", que misturava circo, teatro, com muitos números cómicos arriscados. Aprendi a moldar e a controlar o meu corpo para quedas e saltos mais mirabolantes. Mas houve uma vez que andei com o pescoço partido durante um ano sem quase me dar conta...

O Homem Que Sabia Demasiado - O seu período de ouro foi durante a década de 20, em que realizou e interpretou várias obras-primas do cinema. A partir de 1930, com o contrato que fez com o estúdio Metro, entrou claramente em decadência.

Buster Keaton - É verdade, infelizmente. Nem foi por causa da ascenção do sonoro. Foi porque a partir desse momento perdi totalmente o controlo artístico dos filmes, e fui forçado a fazer filmes com argumentos e montagens impostos pelo estúdio.

O Homem Que Sabia Demasiado - Em 1952 entrou no filme "Luzes da Ribalta" de Chaplin. Como foi esse encontro?

Buster Keaton - Um momento único de dois artistas que fizeram carreira quase em simultâneo. ao contrário do que se dizia, nunca fomos adversários ou concorrentes no cinema. Cada um tinha o seu espaço, a sua arte, o seu espaço. Nesse filme interpretámos dois palhaços decadentes que faziam números em conjunto. Um filme melancólico que serviu quase como uma metáfora para as nossas carreiras naqueles anos.

A série Díptico

Para os leitores mais novos deste blogue: a série Díptico juntou 83 exemplares até Setembro de 2010. Uma série que estabeleceu pontos de contacto entre duas imagens. Aqui.

"Nevermind" - Nirvana

"Nevermind" - Bart Simpson

terça-feira, 26 de abril de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #19

Clicar na imagem para aumentar.

Playtime #54


A solução: "Parade" (1974) - Jacques Tati
Quem descobriu: Álvaro Martins

Três revistas de cinema

Não há fome que não dê em fartura: depois de longos anos sem revistas de cinema, há alguns anos chegou a revista Premiere que tem aguentado até hoje. Pelo meio surgiram outros títulos que acabaram por desaparecerem à mesma velocidade que surgiram. A Premiere perdeu, quanto a mim, muito desde que foi reestruturada há cerca de um ano atrás.

Quando se punha em causa a viabilidade comercial da Premiere, dado o cenário da crise e da falta de leitores, o público português foi agora confrontado - não com mais um título, mas sim mais dois projectos editoriais inteiramente vocacionados para o cinema: Empire e Total Film, ambas revistas com larga implantação no estrangeiro e suportadas por fortes grupos económicos internacionais.

A Premiere conheço-a bem e por diversas vezes já a comentei no blogue. Há dias li a Empire e Total Film e a verdade é que são edições muito semelhantes: têm um "target" específico e assumido (espectadores que frequentam as salas de cinema comercial dos shoppings que querem notícias rápidas sobre a actualidade cinematográfica) e a linha editorial não foge, genericamente, dos pressupostos habituais: análise de estreias mensais, entrevistas a actores e realizadores, curiosidades das filmagens, reportagens de bastidores, radiografias mais ou menos exaustivas a filmografias de artistas famosos, etc. Basicamente, ambas as revistas se dedicam a publicar artigos traduzidos das congéneres estrangeiras, com algumas exepcções adaptadas ao mercado nacional.


Nestes dois produtos não existe crítica no sentido estrito e rigoroso (tirando a Premiere, não há colunistas credenciados que escrevem textos de forma mais aprofundada). O conteúdo editorial é meramente vocacionado para a divulgação e informação relativa ao mundo do cinema. E nem a reportagem (interessante, por acaso) da Empire sobre o Apocalypse Now de Coppola disfarça a prioridade claramente comercial da revista. Estas revistas configuram um formato jornalístico legítimo e necessário, mas o que duvido é que o nosso escasso mercado consiga, a médio prazo, assegurar a sobrevivência dos três títulos em questão.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

27

(A propósito dos recentes posts sobre suicídio e 'entrevista póstuma' a Jimi Hendrix):
É um fenómeno recorrente os ícones da cultura popular serem imortalizados quando morrem. Mesmo que sejam famosos e talentosos em vida, se morrerem jovens e, sobretudo, de causa trágica e misteriosa (suicídio, acidente, homicídio), é certo e sabido que se tornam ícones eternos no imaginário popular.
O fenómeno só podia ter começado com uma arte de massas: o cinema. Rudolfo Valentino, primeiro ídolo do cinema mudo morreu aos 31 anos em 1926 e deixou em total histeria milhões de admiradoras (conta-se que várias mulheres cometeram suicídio devido ao desespero). Depois, foi James Dean que morreu vítima de um acidente de carro com 24 precoces anos, em 1955, imortalizando a sua figura como referência incontornável da cultura do século XX. De resto, foi com Dean que se incutiu no imaginário das estrelas pop a máxima : "live fast, die young and leave a good-looking corpse". Muitos levaram à risca esta filosofia de vida.

Mas seria a partir de 1969 que a morte de artistas famosos - nomeadamente músicos - tomaria um rumo verdadeiramente iconográfico. Começou em 1960 com a morte de Brian Jones (Rolling Stones), seguiu-se a morte de Jimi Hendrix e Janis Joplin em 1970. O líder carismático dos The Doors, Jim Morrison, morreria em circunstâncias misteriosas um ano depois. Este quarteto de mortes foi apelidado de "Clube 27", pelo facto de todas estas figuras da música terem morrido com a idade de 27 anos. Mera coincidência?
Conta-se que foi um desejo mórbido de se juntar a este clube que o líder dos Nirvana, Kurt Cobain, se matou em 1994, também com 27 anos. Que insondável e misterioso desígnio se esconde por detrás deste fenómeno que leva à morte artistas populares como estes aos 27 anos? Apesar deste ser o quinteto mais famoso do fatídico e mórbido clube, muitos outros artista/músicos se podiam incluir no rol dos falecidos com 27 anos (por suicídio ou acidente). A saber:

- Pete de Freitas, guitarrista dos Echo and The Bunnymen

- Robert Johnson, guitarrista de blues

- Dave Alexander, baixista dos The Stooges

- Gary Thain, baixista dos Uriah Heep

- Kristen Pfaff, baixista das Hole

- Jeremy Michael Ward, músico dos The Mars Volta

- Mia Zapata, vocalista do grupo punk The Gits

- Ron McKernan, teclista dos Grateful Dead

- D. Boon, vocalsita do grupo punk Minutemen

- Rupert Brooke, poeta inglês

- Jean-Michel Basquiat, artista plástico

- Jonathan Gregory Brandis, actor americano

- (...)


Só Ian Curtis não quis esperar para entrar no "Clube 27" e, 4 anos antes de chegar a essa idade, cometeu suicídio. Mesmo não havendo nenhum "Clube 23" no qual pudesse estar representado, não é por este facto que o espírito do cantor dos Joy Division não vive no panteão mais alto dos ícones musicais de toda a história.