domingo, 12 de dezembro de 2010

Buñuel e o Anjo Exterminador

É uma das grandes edições DVD deste final de ano: "O Anjo Exterminador" (1962) de Luis Buñuel. Com edição remasterizada digitalmente, este surpreendente e esplendoroso filme é um marco essencial da filmografia do realizador espanhol.
Com um humor surrealista corrosivo e demolidor, Buñuel põe a nu a podridão das convenções sociais da pretensa alta sociedade (burguesia e aristocracia) num certo jantar de gala. Jantar esse em que os convidados estão, por uma razão desconhecida, impossibilitados de sair de casa durante semanas. É nesse período de desconcerto e imprevisibilidade que as máscaras sociais caem estrepitosamente, que os instintos humanos mais básicos se revelam, que o conflito, o medo, a angústia e a depravação degeneram em comportamentos... antisociais.
"O Anjo Exterminador" é, no contexto da história do cinema, uma película originalíssima (pelo argumento, pela construção narrativa, pela encenação) que se materializa num crítica feroz de Buñuel à sociedade que cultiva valores vazios: a aparência, a falsidade e a presunção.
Uma obra-prima que deveria ser de visionamento obrigatório em aulas de sociologia e psicologia.

Nota: Só por curiosidade: antes de ter decidido pelo título deste blogue, estive quase na iminência de optar pela designação "O Anjo Exterminador".

6 comentários:

Rato disse...

Numa época em que parece que os "génios" aparecem por aí como cogumelos (basta ler-se os exageros que se escrevem em alguns blogues) é reconfortante saber que finalmente se começou a editar no nosso país a obra de Luis Buñuel, alguém que de facto deixou a marca da genialidade em grande parte da sua obra. Não foi apenas este magnífico anjo que passou a dignificar um pouco mais os escaparates das lojas. Deparei-me também com o Fantasma, o Desejo Obscuro, a Criada de Quarto, a Bela de Dia. Da última fase do aragonês só ainda não vi a Tristana e o Charme. Mas haja fé!

O Rato Cinéfilo

Rato disse...

Concordo que a alternativa para o título deste (excelentissimo) blogue seria bem catita. Até porque o filme foi das obras mais originais, subversivas e acutilantes que se fizeram em toda a história do Cinema.

O Rato Cinéfilo

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Rato cinéfilo:

Obrigado pelo contributo.

Concordo com a tua análise.

Rui Gonçalves disse...

Um filme genialíssimo e uma das obras mais admiráveis de todos os tempos. Um marco na cultura do século XX. Em suma, um filme que devia ser visto também por esses indigentes que perdem o seu tempo a ver e a defender programas idiotas e mal-formados sobre gente que se fecha semanas a fio numa casa e que, nas deploráveis relações que aí vão crescendo, revelam à sociedade o vazio absoluto de quem nada tem para dizer.

Anónimo disse...

Digamos que seria um título totalmente inapropriado para um blog tão certinho como este, que leva a "cultura" tão a sério, onde não se vislumbra um átomo de ironia ...

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Folgo em saber que tenho um anónimo leitor tão preocupado com este blogue (até com o próprio título!).

Também acho piada na utilização que fez da palavra cultura entre aspas. Deduzo que o anónimo seja fruidor de cultura sem aspas e, mais, com c maiúsculo, coisa que este blogue despreza solenemente.

Ena, e já reparou como até consigo fazer ironia? De baixo nível e de apenas um átomo, mas ironia.