quarta-feira, 30 de maio de 2012

A ponte dos suicidas

Há dias, a mítica ponte Golden Gate de São Francisco comemorou 75 anos de existência. Houve festa, comemorações oficiais e foguetes pela celebração de uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Mas houve também espaço para recordar a macabra fatalidade que esta ponte transporta: a altíssima taxa de suicídios (até à data, foram 1558 e muitas outras tentativas).












Sobre o fenómeno dos suicidas da ponte Golden Gate existe um notável documentário intitulado "A Ponte" (2006) de Eric Steel. O que leva tanta gente desesperada a cometer suicídio deitando-se abaixo de uma das pontes mais belas do mundo? Que fascínio mórbido é este? E porque é que as autoridades não tomam medidas preventivas que possam diminuir drasticamente esta estatística doentia? O documentário não dá respostas a nenhuma destas questões. Nem pretende fazê-lo. O que faz é mostrar, friamente, o fenómeno suicida na ponte de São Francisco, sem interpretações morais, éticas ou políticas.
Steel filmou durante um ano (2004) a ponte 24 horas por dia, captando os 23 suicídios dos 24 ocorridos naquele ano. Uma média de um suicídio a cada 15 dias (fora as tentativas). O realizador mostra a morte como se fosse em directo, num registo de voyuerismo mórbido que em nada anula a carga de dramatismo da matéria filmada. Complementarmente, Eric Steel entrevista familiares e amigos dos suicidas, tentando compreender as motivações, as personalidades, o porquê. Aí ficamos a saber que a maior parte dos que se suicidam sofrem de depressões e que a taxa de sobrevivência da queda na água é baixíssima (o documentário dá conta de um pungente testemunho de um jovem sobrevivente).
Dos vários casos relatados no filme, o que mais me impressionou é o de Gene Sprague: um jovem, vestido todo de negro, cabelo comprido, óculos escuros, encontra-se encostado à grade da ponte. Olha para um lado e para o outro. O vento forte agita-lhe os longos cabelos. Senta-se na grade durante uns momentos. De um instante para o outro, Gene coloca-se de pé na grade e lança-se hirto de costas para o rio. A sua queda até à morte demorou 4 segundos, a 100km/h:
As autoridades referem que colocar uma vedação mais alta no tabuleiro da ponte iria danificar a estética da obra, para além de significar o investimento de milhões de dólares. Enquanto isso, dezenas de homens e mulheres, vindos de todos os pontos da América, continuam a deslocar-se até à ponte Golden Gate para pôr fim trágico às suas vidas (uma média de 30 suicídios por ano e muitas mais tentativas).
"A Ponte" é um filme forte, sem concessões, que alerta para um drama social de proporções grotescas. É um documentário que apela ao mais íntimo do ser humano, à nossa consciência e ao nosso espírito.

13 comentários:

vanessa disse...

Nao fazia ideia da existência deste documentário e fiquei impressionada só de ler. Vou vê-lo certamente, mas tenho a certeza que vou ficar impressionada!

.Carmen disse...

Auch! Desconhecia... deveras interessante, que 'fascínio mórbido' mesmo.

Anónimo disse...

johnny guitar,

Tomei conhecimento do documentario atraves deste blogue. É um bom retarto deste flagelo que afecta a sociedade daquele Estado e nao só.

Continuação de bom trabalho!

Alexander Sweden disse...

Sem dúvida um documentário muito interessante; julgo tê-lo visto pela indicação dada anteriormente pelo autor deste Blog, mas não posso precisar. Curiosamente a cena do rapaz vestido de negro foi também aquela que mais me impressionou; é um tema macabro mas ao mesmo tempo visceral e que dá de pensar;

Anónimo disse...

Esse documentário é pura obscenidade: nada justifica que se filme alguém a suicidar-se. Repito: nada.

Sra M. da Costa disse...

Concordo com o anónimo: filmar pessoas a suicidarem-se é uma coisa inqualificável, abjecta. Aliás este filme foi justamente repudiado pela generalidade da crítica nos E.UA., como por toda a parte onde passou. Acho verdadeiramente detestável aqui por-se um vídeo de um suicídio. Se é para isto que serve a internet, estamos conversados.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Como é óbvio, não concordo nem com o anónimo nem com a Sra. M. da Costa. O documentário tem sido extremamente útil para fazer uma coisa que tem feito muito falta: a discussão de ideias à volta do tema tabu que é o suicídio. Eu próprio já programei o filme para um debate com psicólogos e psiquiatras para discutir o filme, conversa que foi muito proveitosa e útil. Claro que pode chocar as mentes mais sensíveis, mas é para abanar consciências que filmes destes são feitos (como outros sobre a eutanásia, a pedofilia ou outros temas controversos.
Não o considero abjecto, considero o documentário corajoso na forma como revela um problema tão grave como este. O realizador não faz juízos de moral ou de valor sobre os suicidas, apenas se limita a mostrar, friamente, a realidade chocante dos factos. E por favor: há imagens bem mais chocantes que todos os dias os telejornais (e a internet) mostram à hora do jantar!

Anónimo disse...

Os telejornais à hora de jantar mostram pessoas a suicidar-se? Olhe que acho que nem eles chegaram aí.
Cito o que escreveu Ivan Nunes no seu seu blog, à altura, pois resume tudo o que tem que ser dito (sublinhado meu):

"Em suma, trata-se com toda a certeza do filme mais asqueroso do ano. As imagens dos suicídios (reais) são intervaladas com entrevistas a familiares e amigos dos suicidas; mas entrevistas muito superficiais. Não há dados, não há informação, não há propriamente ideias nem novidades sobre o suicídio: o sumo é poder ver o acto em si.(...)
Confrange encontrar críticos que viram inteligência ou profundidade ou substância no filme."

Sara M.da Costa disse...

Acho que de facto há uma barreira moral que separa quem aceita um filme que vai sorrateiramente 'à cata' de suicidas e quem não aceita.

O 'fascínio mórbido' do Sr.Victor Afonso, que não resite a colocar precisamente o vídeo de um suicidio e inclusive a conometrá-lo(!) é inqualificavel.

E não obstante, lendo este blog simpático e esforçado, vejo V.A. como uma boa pessoa, interessada, tentando acmpanhar os seus tempos.

Penso que é acima de tudo precisamente um produto desta época youtube/facebook, em que tudo é filmavel e partilhavel. Até o suicidio.

Anónimo disse...

Também tomei conhecimento deste documentário através deste blog e finalmente consegui tempo para vê-lo na integra no youtube. Com uma fotografia excelente, um documentário impressionante que nos toca profundamente...

Luís Santos...

Anónimo disse...

Ninguem se importa com nossa doenca e nem como nos sentimos.

Helena Angel disse...

Gene <3 missing you ;(

Anónimo disse...

Shame on you V.Afonso.