segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um grande filme de 1928



Henri Langlois, famoso director da Cinemateca Francesa, afirmou em 1953 que este filme tinha uma "riqueza técnica extraordinária". E cineastas da grandeza de um Jean Vigo e de um Carl Dreyer manifestaram a sua profunda admiração pela atmosfera poética desta obra do realizador francês Jean Epstein (1897 - 1953).
A obra em causa é uma célebre adaptação de um conto de terror gótico do escritor Edgar Allan Poe: "A Queda da Casa de Usher". Uma história de uma sinistra casa isolada no meio de lagos na qual vivem um lorde (Roderick Usher) obcecado pela sua mulher. O filme foi realizado no período de ouro do cinema mudo (1928) e, apesar da inequívoca originalidade e qualidade da obra, foi mal compreendido na época.


Filme de grande beleza plástica, de efeitos e metáforas visuais de grande impacto (câmara lenta, fotografia de sombras, cenas oníricas...) , "A Queda da Casa de Usher" (que Roger Corman recriaria em 1960 com Vincent Price como protagonista) é ainda considerado um marco do cinema de vanguarda dos anos 20. Jean Epstein, amante de filosofia, de poesia, oriundo de famílias aristocráticas e de grande cultura, foi também claramente influenciado pelo surrealismo e pelas teorias estéticas do russo Dziga Vertov. Esta obra permanece como uma das melhores adaptações cinematográficas do universo de Edgar Allan Poe, seja pela criatividade expressa no estilo abstracto da narração, seja pela prodigiosa utilização da imagem, da iluminação, dos enquadramentos ou dos jogos de montagem, que conferem ao filme uma atmosfera poética admirável, carregada de surrealismo e onirismo psicológico. De referir que o realizador espanhol Luis Buñuel foi assistente de realização neste filme, experiência que o terá levado a fazer a curta-metragem "Un Chien Andalou" (1928).

Um dos mais formidáveis filmes mudos da história do cinema, "A Queda da Casa de Usher" é um belo manifesto da arte poética e visualmente expressiva que é o cinema, numa obra plena de segundos sentidos, de um formalismo fascinante e de uma atmosfera perturbadora. Para comprovar esta teoria, basta apreciar estes escassos minutos de um excerto do filme (com música original de Stephan Micus):

4 comentários:

Álvaro Martins disse...

Fiquei curioso, muito curioso. Aliás, do Epstein vi há uns tempos o Finis Terrae que é também um filmaço e que me deixou com vontade de ver mais filmes dele.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Apesar de não conhecer toda a filmografia de Epstein, arrisco dizer que, se há um único filme para ver dele, este é seguramente o filme. Foi este o filme que levou Buñuel a fazer Un Chien Andalou e influenciou Dreyer no Joana D'Arc.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Caramba, Álvaro. Fui agora ao teu blog - que não visitava há uns bons dias - e fiquei surpreendido com a tua decisão de fechar o "tasco"!

É irreversível? Sabes que eu tenho passado por uma crise semelhante de falta de inspiração e de motivação para escrever e já estive tentado a ter o mesmo gesto que tu. Mas tenho-me aguentado, até por respeito para com os meus leitores (tu incluído).

Álvaro Martins disse...

Sim, em princípio é irreversível. Pois, por causa do respeito, de não ter a tal inspiração para escrever e oferecer isso aos leitores é que decidi fechar o tasco. Tenho tentado escrever sobre alguns filmes (esta falta de motivação e inspiração também se deve a questões pessoais diga-se), nomeadamente sobre os últimos dos Dardenne (que me desiludiu), do Malick (que também me desiludiu eheh) e do Moretti (que gostei muito), mas acho que vou esperar uns tempos porque "não me sai nada de jeito" :)
Depois talvez abra outro blog, quem sabe...