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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cinéfilo, eu?

Por vezes discute-se o que é ser cinéfilo. Segundo João Bénard da Costa, ex-Director da Cinemateca Portuguesa, há uma significativa diferença entre "gostar" de cinema e "amar" o cinema.
E é verdade que esta diferença define o que é um verdadeiro cinéfilo e um espectador vulgar de cinema.
Repare-se na seguinte tabela comparativa que elaborei. Não se trata de um estudo científico e académico. É aquilo que a minha intuição e experiência dizem: uma pessoa que goste de cinema e que tenha alguns conhecimentos, fará uma lista de preferências como aquelas que estão na tabela da esquerda. Será, por assim dizer, um Cinéfilo QB (quanto baste). Mas para os mesmo filmes haverá o verdadeiro Cinéfilo, aquele que tem um conhecimento mais profundo da história do cinema e um gosto mais definido, por isso, escolhe outros filmes menos conhecidos dos mesmos cineastas.

Cinéfilo QB                                                                          Cinéfilo
"Citizen Kane"-------------------Orson Welles ------------------"Macbeth" (1948)
"2001 - Odisseia no Espaço"---Stanley Kubrick---------------"The Killing" (1956)
"O Sétimo Selo"-----------------Ingmar Bergman-------------"A Fonte da Donzela" (1959)
"Manhattan"----------------------Woody Allen-------------------"Zelig" (1983)
"Janela Indiscreta"---------------Alfred Hitchcock--------------"The Lodger" (1927)
"A Lista de Schindler"----------Steven Spielberg---------------"Duel" (1971)
"Nosferatu"-----------------------F.W. Murnau-------------------"Tabu" (1933)
"O Padrinho"---------------------Francis Coppola----------------"Rumble Fish" (1983)
"O Touro Enraivecido"---------Martin Scorsese-----------------"Mean Streats" (1973

Depois há outra facção de cinéfilos, que são os hardcore, aqueles "ratos de cinemateca" que acham que até os filmes da coluna da direita são demasiado mainstream para o seu gosto refinado. Estes cinéfilos hardcore gostam é dos clássicos mais obscuros, dos títulos de culto das sessões da meia-noite e de festivais de cinema independentes. São os amantes incondicionais do cinema mais alternativo/vanguardista, formando uma espécie de elite cinéfila.

Uma lista de filmes preferidos dos Cinéfilos Hardcore será por exemplo assim:

"Meshes of the Afternoon" (1943) - Maya Deren 
"Woman in The Dunes" (1964) - Hiroshi Teshigahara
"Pastoral: To Die In The Country" (1974) - Shuji Terayama
"Warning Shadows" (1923) - Arthur Robinson
"Thunderbolt" (1929) - Josef von Sternberg
"The Stranger on The Third Floor" (1940) - Boris Ingster
"Begotten" (1990) - E. Elias Merhige
"O Quadro Negro" (2000) - Samira Makhmalbaf
"Daisies" (1966) - Vera Chytilová
"Flaming Creatures" (1963) - Jack Smith
"O Anjo das Ruas" (1928) - Frank Borzage
"My Degeneration" (1990) - Jon Moritsugu
"Love Making"  (1969) - Stan Brakhage

E o caro leitor, em que categoria de cinéfilo se integra?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Scorsese "lynchiano"

Há um filme pouco amado e reconhecido de Woody Allen“Zelig” – e há um filme pouco amado e reconhecido de outro grande cineasta: Martin Scorsese.
Conheço a filmografia toda de Scorsese, desde os seus primeiros filmes (como “Who’s That Knocking at My Door”, “Boxcar Bertha” ou “Mean Streets”) até ao último “A Invençãod e Hugo”. Mas há dois filmes menos lembrados (e até subvalorizados) de Scorsese pelos quais nutro um carinho muito especial. São eles: “O Rei da Comédia” (1983) e “Nova Iorque Fora de Horas” (1985).
O primeiro é uma notável comédia dramática com Robert De Niro e Jerry Lewis; o segundo, mais rebuscado e excessivo, é uma alucinante viagem 'kafkiana' pela noite de Nova Iorque de meados da década de 1980. Lembro-me de ver esse filme há muitos anos numa sessão da meia-noite. E recordo-me de sair do cinema a pensar, meio estupefacto: “Que filme incrível foi este?”. Revi-o há tempos no canal Hollywood e a mesma sensação persiste no meu espírito.
“Nova Iorque fora de Horas” é, sucintamente, a história louca de um homem que, por mero acaso e sem saber muito bem como ou porquê, empreende uma incursão imprevisível na zona do Soho à procura de uma rapariga. A partir deste simples expediente, o homem começa uma viagem surrealista e repleta de peripécias insondáveis, num registo misto de humor negro e realismo dramático, delirante e caótico, este filme de Scorsese é também um dos seus mais refinados exercícios de realização (obteve o Prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes).
A montagem vertiginosa (espantoso trabalho da montadora Thelma Schoonmaker) dá um toque ainda mais alucinado ao filme, que conta com personagens bizarras, diálogos de puro delírio existencialista e situações improváveis que parecem nascer dos mais negros e distorcidos pesadelos. Aliás, quase era capaz de dizer que este “After Hours” (título original) é o filme mais 'lynchiano' que alguma vez Martin Scorsese fez. E Griffin Dune, o actor que encarna o protagonista do filme, é extraordinário na forma como expressa a confusão mental que o corrói (podia ter tido uma grande carreira depois deste filme, coisa que não aconteceu).
Sem dúvida um dos filmes de maior culto de Scorsese e um clássico instantâneo do cinema dos anos 80.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Talvez o melhor filme de Woody Allen


Revi o filme "Stardust Memories" (1980) de Woody Allen e confirmei uma ideia que já tinha há muitos anos quando o vi pela primeira vez: este é, porventura, o melhor filme do cineasta de Nova Iorque. Já se sabe que será sempre objecto de discussão eterna saber qual o "melhor" filme de Woody, mais a mais, tratando-se de uma filmografia tão rica.
Mas não tenho pejo em afirmar que, pessoalmente, "Stardust Memories" ficará sempre no topo da lista dos meus filmes preferidos de Allen, ao lado de "Manhattan" (1979), "Zelig" (1983), "Annie Hall" (1977) ou "Match Point" (2005).
Esta película de Woody Allen, cujo título português (não totalmente fiel ao original, como é habitual) é "Recordações", acaba por ser uma síntese de todo o seu cinema, quer em termos de conteúdo, quer em termos formais e estéticos: condensa todos os temas centrais da sua obra (a criação artística, as relações humanas, as questões existenciais, a morte, a religião, o amor, o desejo, o cinema, a arte...) e revela-se uma belíssima homenagem e citação ao filme "8 1/2" do mestre Fellini (fotografia a preto e branco, abordagem à fama fugaz das celebridades, a fogueira das vaidades do circo mediático, a solidão do artista, etc). E "Stardust Memories", apesar da sua propensão melodramática, tem algumas das tiradas humorísticas mais inspiradas de toda a carreira do realizador.
Ah, e não esquecer que, na sequência incial do filme, claramente "bergmaniana", surge, pela primeira vez no cinema, a actriz Sharon Stone:

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um Woody Allen menor


Woody Allen não falha: lança nas salas de cinema um novo filme por ano. Esta semana estreia por cá "You Will Meet a Tall Dark Stranger" (com o piroso título português "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos").
Já vi e... desilusão. Ao contrário do excelente anterior filme (comentado aqui), "Whatever Works", esta nova obra de Allen resume-se a um amontoado de auto-citações com um argumento estafado e previsível. Ou seja, "já vi" este filme em filmes anteriores do cineasta de Nova Iorque. É este o principal problema criativo de Woody Allen: a repetição dos mesmos ingredientes nos seus filmes. Regressa à comédia existencial com toques dramáticos, à volta de traições e amores perdidos entre homens e mulheres de distintas gerações. E nem o leque de actores salva o filme: Anthony Hopkins é mais um alter-ego de Woody Allen-enquanto-actor, revelando todos os tiques nervosos e irrequietos que identificam o cineasta.
Eu gosto muito, mesmo muito, da obra de Woody Allen (e percebe-se pela quantidade de posts que já dediquei a este realizador). Só que Allen não pode, nem consegue, fazer um bom (ou muito bom) filme com a exigente regularidade anual.
Na última década, a meu ver, Allen só fez dois ou três grandes, grandes, filmes. "Match Point" (2005), "O Sonho de Cassandra" (2007) e "Tudo Pode Dar Certo" (2009).
Creio que Woody Allen só conseguiria dar um golpe de rins artístico na sua carreira se conseguisse fazer um filme tão original como "Zelig", "Crimes e Escapadelas" ou "A Rosa Púrpura do Cairo", (algumas das) obras-primas da sua carreira.
Porém, tudo indica que vai continuar no seu registo habitual que já provoca cansaço até nos fãs mais empedernidos. Pena...

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço 2010 - Os discos portugueses


Foi um ano muito interessante e dinâmico para a música portuguesa. Para quem julga que se edita pouca música nacional, basta aceder ao site A Trompa (especialista em música nacional) para constatar que se editaram mais de 100 discos de artistas portugueses durante 2010. Do rock ao fado, da electrónica ao jazz, da clássica à experimental.
Eu não ouvi assim tanta música portuguesa quanto gostaria (ando ansioso para ouvir a Orquestra LUME), mas do que ouvi gostei especialmente destes discos:
1 - PAUS - "É Uma Água"
2- Zelig - "Joyce Alive!"
3 - AbztraQt Sir Q - "Extimolotion"
4 - Pop Dell'Arte - "Contra Mundum"
5 - Mão Morta - "Pesadelo em Peluche"
6 - Linda Martini - "Casa Ocupada"
7 - Gala Drop - "Overcoat Heat"
8 - Bypass - "Like Mice and Heroes"
9 - RED Trio - "RED Trio"
10 - Tigrala - "Tigrala"

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

75 anos de Woody Allen


Woody Allen comemora hoje 75 anos de vida, numa altura em que finalizou o seu 40º filme da carreira ("You Will Meet a Tall Dark Stranger") e já deitou mãos à sua próxima película ("Midnight in Paris").
Dos grandes mestres do cinema, Allen é um dos meus cineastas favoritos, juntamente com Tati, Kubrick, Tarkovski, Murnau e uns quantos mais. Basta constatar que a categoria "Woody Allen" deste blogue tem 8o entradas.
Na sua diversificada filmografia contam-se filmes menores (e "menores" significa melhores do que os "melhores" de outros realizadores) e uma série de obras-primas: "Annie Hall" (1977), "Manhattan" (1979), "Crimes e Escapadelas" (1989), "Ana e as Suas Irmãs" (1986), "Match Point" (2005), "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), "Zelig" (1983) ou "Dias da Rádio" (1987).
Um cineasta que explorou, como (quase) ninguém os domínios do desejo, do amor, da morte, da religião, das relações humanas, da psicanálise, da filosofia, dos valores morais, da fidelidade, da traição, da angústia existencial, etc. Um cineasta que deve tanto a Groucho Marx quanto a Ingmar Bergman. Um cineasta que soube tão bem fazer comédia "non sense" sobre temas sérios como filmes dramáticos com uma intensidade psicológica bergmaniana.
Para além disso, como em Martin Scorsese, Woody Allen é um cinéfilo esclarecido, com um gosto estético extremamente aguçado. Basta ver os seus filmes preferidos da História do Cinema.
Em suma: parabéns Woody Allen pelos 75 anos de vida e de muitos filmes. Que continue a fazer bom cinema até à idade do Manoel de Oliveira!

sábado, 24 de julho de 2010

Woody Allen descontente com os seus filmes


Durante uma conversa com o The Times, Woody Allen revelou que não está feliz com o seu trabalho:
“Eu consegui uma oportunidade que as pessoas matariam para ter. Eu tenho liberdade artística plena. Outros realizadores não conseguem isso durante as suas vidas. Eu tenho filmes bem pobres se virmos as oportunidades que eu tive. De 40 filmes eu deveria ter 30 obras-primas, 8 nobres falhas e 2 vergonhas, mas não foi assim que funcionou. Muitos dos meus filmes são interessantes, mas nada que se compare com os filmes de cineastas que fizeram belas coisas - Kurosawa, Bergman, Fellini, Buñuel, Truffaut."
No final, o realizador mencionou os 6 filmes preferidos da sua filmografia: "Purple Rose of Cairo", "Match Point", "Bullets Over Broadway", "Zelig", "Husbands and Wives", e "Vicky Cristina Barcelona".
Agora pergunto eu: E "Annie Hall"? E "Manhattan"? E "Hannah and Her Sisters"?
E "Crimes & Misdemeanors"? E "Broadway Danny Rose"? E...
Ou é modéstia em demasia, ou Woody Allen está a ficar, humm, senil...

sábado, 24 de abril de 2010

A vida real e a ficção


No magistral filme “Annie Hall” (1977) de Woody Allen, há uma cena desconcertante: o personagem interpretado por Woody Allen está numa fila de uma bilheteira de cinema; encontra um casal amigo e começam a falar, naqueles discursos intelectuais sobre arte e cultura, muito ao gosto do realizador.
O homem divaga sobre a teoria de Marshall McLuhan (o mesmo que lançou o conhecido conceito de “Aldeia Global”) e o personagem de Woody Allen, farto de ouvir tantas baboseiras redundantes e pseudo-académicas, replica sarcasticamente: “Desculpe, mas o senhor é um pedante e não percebe nada do verdadeiro pensamento de McLuhan”, ao que o homem responde: “Sim? E como tem essa certeza?”. Woody Allen sai da fila da bilheteira e vai buscar pelo braço o próprio e verdadeiro Marshall McLuhan (que se encontrava escondido atrás de um cartaz!) que diz ao pretenso intelectual: “É verdade, o senhor não percebe nada da minha teoria!”. Então, Woody Allen olha para a câmara (para nós, espectadores) e remata de forma seca e resignada: “Se a vida fosse assim tão fácil!…”.
Um belo exemplo de como a ficção e a realidade se entrelaçam num filme. A verdade é que no maravilhoso mundo do cinema as duas dimensões podem, deliberadamente, confundir-se (aquilo que é a realidade ficcionanda e a "realidade quotidiana"). Atente-se a mais estes dois notáveis filmes sobre esta temática da fusão ou dualidade entre o mundo real e o ficcional: “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), também de Woody Allen (na imagem), em que um actor de um filme que é exibido numa sala de cinema sai, literalmente, do ecrã para se apaixonar por uma rapariga da “vida real”; "Zelig", fascinante exercício de falso documentário de Woody Allen, comentado por mim neste post.
E “The Truman Show” (1998), de Peter Weir, admirável exercício de manipulação da realidade com base num programa demencial de “reality show”, no qual o actor Jim Carrey julga viver a realidade quando, na verdade, esta não passa de uma grotesca encenação televisiva totalmente ficcionada.
Contudo, um dos maiores mestres na manipulação da realidade e da “verdade” do real foi o realizador espanhol Luís Buñuel. Visionário e provocador como poucos, este surrealista amigo de Salvador Dalí serviu-se dos postulados da teoria psicanalítica e da corrente literária do surrealismo com o intuito de subverter os nossos cânones mentais de entendimento da “realidade”. O sonho comanda a vida, e esta pode transformar-se numa ficção real ou numa realidade ficcionada. Muitas das suas obras revelam esse prodigioso poder que o subconsciente pode exercer sobre a vivência humana do real, quotidiana e mundana. E com isso deslumbra pela sua originalidade da visão do mundo, pela recriação da vida segundo a lógica não racionalista, renovando os "mecanismos de imaginação" do espectador.

domingo, 13 de setembro de 2009

Três Óscares bem entregues

A Academia de Hollywood vai atribuir três Óscares Honoríficos a três grandes figuras do cinema(cada um a seu modo): a actriz Lauren Bacall, o realizador e produtor Roger Corman e o director de fotografia Gordon Willis. Parecem-me três justíssimas condecorações. Lauren Bacall, a mulher fatal que seduziu, com um subtil assobio, Humphrey Bogart no filme "Ter ou Não Ter" (1944) de Howard Hawks; Roger Corman, o mestre do cinema série B e de terror que impulsionou as carreira de cineastas como Francis Ford Coppola, Tim Burton, John Landis ou Robert De Niro; e Gordon Willis, o criativo director de fotografia da trilogia "O Padrinho" e de seminais obras de Woody Allen como "Manhattan", "Annie Hall" e "Zelig" (teve duas nomeações ao Óscar).


sexta-feira, 3 de abril de 2009

Sobre filmes biográficos



Não sei se se pode considerar o "biopic" (filme biográfico sobre uma personalidade) um género cinematográfico. Seja como for, assumo que gosto de "biopics", e ao longo da história do cinema existem múltiplos exemplos de bons filmes que focam o percurso da vida (ou um determinado período de tempo dessa vida) de personalidades influentes, essencialmente, ligadas às artes ou à política. Há filmes biográficos que prezam o respeito pela precisão histórica dos factos, enquanto que há outros que misturam esses factos com elementos ficcionais. Das muitas dezenas de "biopics" que já se fizeram, destaco os meus preferidos, que podem não ser os melhores ou mais representativos do "género", mas são os que gosto mais (e só do Martin Scorsese menciono três títulos!):

Kundun (1997) de Martin Scorsese sobre Dalai Lama
Raging Bull (1980) de Martin Scorsese sobre Jack LaMotta
O Aviador (2004) de Martin Scorsese sobre Howard Hughes
Amadeus (1984) de Milos Forman sobre Wolfgang Amadeus Mozart
Ed Wood (1994) de Tim Burton sobre Edward D. Wood
Control (2007) de Anton Corbijn sobre Ian Curtis
Chaplin (1992) de Richard Attenborough sobre Charlie Chaplin
Basquiat (1996) de Julian Schnabel sobre Jean-Michel Basquiat
Malcolm X (1992) de Spike Lee sobre Malcom X
Lenny (1974) de Bob Fosse sobre Lenny Bruce
American Splendour (2003) de Shari Springer sobre Harvey Pekar
A Paixão de Joana D'Arc (1928) de Carl Dreyer sobre Joana D'Arc
I'm Not There (2007) de Todd Haynes sobre Bob Dylan
The Life and Death of Peter Sellers (2004) de Stephen Hopkins sobre Peter Sellers
Bird (1988) de Clint Eastwood sobre Charlie Parker
Pollock (2000) de Ed Harris sobre Jackson Pollock
Shine (1996) de Scott Hicks sobre David Helfgott
JFK (1991) de Oliver Stone sobre John F. Kennedy
Gandhi (1982) de Richard Attenbourgh sobre Mahatma Gandhi
Walk the Line (2005) de James Mangold sobre Johnny Cash
O Homem Elefante (1980) de David Lynch sobre John Merrick
Citizen Kane (1941) de Orson Welles "sobre" William R. Hearst
Young Mr. Lincoln (1939) de John Ford sobre Abraham Lincoln
Tucker: The Man and His Dream (1988) de Francis Coppola sobre Preston Tucker
O Pianista (2002) de Roman Polanski sobre Wladyslaw Szipilman
Ray (2004) de Taylor Hackford sobre Ray Charles
Milk (2008) de Gus Van Sant sobre Harvey Milk
Zelig (1983) de Woody Allen sobre Leonard Zelig
Lawrence da Arábia (1962) de David Lean sobre Thomas Edward Lawrence
Como habitualmente, os contributos e sugestões dos leitores serão bem vindos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Woody Allen camaleão

"Zelig” (1983), um dos menos lembrados filmes de Woody Allen, é também um dos mais estranhos, originais e criativos de toda a sua carreira. Talvez seja pouco (re)conhecido pelo facto de ser um filme conceptual, muito estilizado e de não se encaixar facilmente nas categorias convencionais de cinema, menos ainda, no típico registo de comédia habitual de Woody Allen. "Zelig" é considerado um documentário, mas um documentário criado na cabeça delirante de Woody Allen. Leonard Zelig foi um indivíduo que ficou muito famoso nos anos 1920/30, devido ao facto de possuir uma estranha e invulgar capacidade - a de adquirir as aparência física e mental daqueles com quem convivia. No meio de negros, Leonard Zelig ficava um negro; no meio de pessoas gordas, tornava-se gordo; com índios, ganhava aparência de índio; ao lado de psicólogos, passava-se por psicólogo, no meio de judeus ortodoxos, idem... Só não conseguia transformar-se em mulher devido à "extrema complexidade atribuída ao sexo feminino". Esta capacidade de se transformar tornou Zelig numa espécie de camaleão humano, suscitando o interesse científico de médicos, políticos, jornalistas e psiquiatras.
Neste filme de rara inteligência e humor, Woody Allen assume três funções: argumentista, realizador e actor. O filme é todo ele filmado como se se tratasse de um verdadeiro documentário, recorrendo a imagens e fotografias de arquivo dos anos 20 americanos, com testemunhos de figuras da cultura como Susan Sontag ou Saul Bellow, que contam as peripécias de Zelig. Leonard Zelig consegue conviver com figuras históricas como Hilter, o Papa Pio XXI, Al Capone, Charlie Chaplin, James Cagney, entre muitas outras. Só a doutora Eudora Fletcher (magnífica Mia Farrow) consegue compreender o distúrbio de Zelig, tentando ajudá-lo a superá-lo com uma terapia que vai desencadear uma aproximação amorosa entre ambos. Visualmente, "Zelig" é um trabalho de pura mestria plástica e técnica. Para tal muito contribuiu um dos maiores directores de fotografia de sempre, Gordon Willis (nomeado ao Óscar pela fotografia). Para recriar imagens que pudessem passar por cenas de um verdadeiro documentário, Gordon Willis filmou com câmaras de 8mm e colocou os negativos numa banheira cheia de água. Raspou-os no chão e submeteu-os ao frio, ao calor e à humidade, para os desgastar e, assim, ficarem com a aparência de imagens com 60 ou 70 anos. O resultado é deveras surpreendente.
É claro que esta obra de Woody Allen tem um paralelo histórico: “Citizen Kane” (1941), de Orson Welles, o mais conhecido falso documentário da história do cinema. Mas também deixou descendentes, com o filme "Forrest Gump" (1994), no qual o personagem interpretado por Tom Hanks convive com figuras históricas da América. "Zelig" é, pois, um objecto cinematográfico que desafia regras e convenções, está repleto de humor subtil, coloca questões freudianas sobre a personalidade e lança críticas sociais à sociedade de massas dos EUA (a dissolvência da identidade individual face ao colectivo social). E "Zelig" é, no fundo, uma experiência de cinema de grande expressividade visual e estética (mesmo visionando-o em DVD). Os primeiros 9 minutos de filme.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Woody Allen - o livro definitivo

Justificar completamente
O escritor e jornalista Eric Lax privou com o realizador Woody Allen durante três décadas. Conversaram e discutiram sobre muitos e diversos assuntos. Cinema, arte, vida, desporto, mundanidades... Agora o resultado dessas conversas e entrevistas está reunido num livro editado apenas nos EUA - intitula-se "Conversations With Woody Allen" e congrega mais de 30 anos de entrevistas e conversas entre Woody Allen e Eric Lax. É mesmo considerado o livro mais completo e interessante sobre o realizador americano e tem sido alvo de grande destaque e elogios por parte da crítica literária norte-americana.
O próprio cineasta refere que há poucas pessoas que conhecem tão bem o seu trabalho e a sua visão artística como Lax, pelo que é de prever que o livro possua muita e interessante informação sobre o cineasta de Nova Iorque. A título de exemplo, Woody Allen confessa no livro quais são os seus próprios filmes preferidos. Com espanto ou talvez não, é esta a escolha: "A Rosa Púrpura do Cairo", "Maridos e Mulheres", "Stardust Memories", "Zelig", e "Match Point".
"Conversations With Woody Allen" pode ser adquirido na Amazon.