domingo, 14 de dezembro de 2008

Mais uma onda de proibições

O Vaticano revelou, uma vez mais, não querer acompanhar a evolução da ciência, da medicina e do conhecimento humano. Depois da proibição da utilização de preservativos como método anticoncepcional e anti-Sida, depois de ter “inventado” novos pecados a evitar pelos cristãos, o Vaticano mantém-se, obstinadamente, agrilhoado aos dogmas religiosos que cegam a racionalidade mais primária. Desta vez lançou novas proibições e condenações aos fiéis que defendam ou recorram às seguintes práticas médicas: pílula do dia seguinte; criopreservação de ovócitos e embriões; fertilização “in vitro”; a investigação com células estaminais embrionárias; clonagem reprodutiva com fins terapêuticos; diagnóstico genético pré-implantatório para evitar defeitos genéticos dos embriões; em suma, o Papa Bento XVI condena ao fogo eterno praticamente todas as tecnologias modernas de reprodução e tudo o que cheire a inovação científica. Um dos argumentos invocados pelo Vaticano para este repúdio pela utilização das novas tecnologias reprodutivas tem a ver com as gastas “questões morais inaceitáveis.” Outro motivo assumido reza assim: “Na tentativa de criar um novo tipo de homem, entrevê-se uma dimensão ideológica em que o homem pretende substituir-se ao Criador.” Parece-me que o conflito entre religião e ciência vai continuar a alastrar por décadas ou séculos. É que os últimos anos tem revelado uma proporção directa entre a evolução da sociedade e do conhecimento e as manifestações de conservadorismo e dogmatismo da Igreja Católica. Custa-lhe ao Vaticano perceber que o progresso da ciência substituiu, há muito tempo, os dogmas religiosos seculares. Os cardeais e arcebispos e demais hierarquia do Vaticano continuam agarrados a ideologias que perderam sustentabilidade há muito tempo. E uma Igreja parada no tempo é mais prejudicial do que se possa pensar para uma sociedade evoluída em termos culturais, tecnológicos e científicos. Uma sociedade em constante transformação à qual a Igreja fecha os olhos.
Afinal de contas, será que o Vaticano não percebe que já não prega para um mundo ignorante e alienado como aquele que ajudou a cultivar na idade média? Há algum tempo atrás, D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, disse ao Público: “O ateísmo e a indiferença em relação a Deus constituem o maior drama da Humanidade.” Eu contraponho, dizendo: “A ignorância e o dogmatismo em relação à religião constituem o grande drama da Humanidade.”
Mais aqui.

5 comentários:

João disse...

Engraçado, ainda esta semana tive uma discussão acerca deste assunto Vaticano/Ciência.

Na altura disseram-me que o Vaticano já não condena a utilização do preservativo. Estranho não? Se não me engano ainda à pouco tempo foram contra uma distribuição de preservativos em África...

Eu como nem pesquisei acerca do assunto, podes-me dar a fonte de onde retiraste isto? =)

Quanto à tua última frase, eu subscrevo.

Lúcia disse...

'“A ignorância e o dogmatismo em relação à religião constituem o grande drama da Humanidade.”
Tudo dito!

Victor Afonso disse...

João: não retirei de nenhum lado em especial. Ou melhor, retirei de leituras de jornais e livros, ao longo do tempo. Aliás, neste mesmo post deixei um link no final onde abordo esta questão da religião versus ciência (e cito vários livros).

Anónimo disse...

Boa tarde,
tenho acompanhado este seu blogue com relativa mas interessada regularidade: apreciei sobretudo quando deu a conhecer a obra que "imortalizou" os dois lados daquelas pessoas que, padecendo de doenças terminais, se deixaram registar com um vínculo cru e honesto.
Contudo, deploro de todo este seu artigo, que considero mal sustentado, de "boca-comum", irresponsável um enorme desconhecimento relativamente ao credo Cristão católico. Deixe-me dizer-lhe - e vale o que vale - que a Igreja Católica não é nada estática e retrógada. De facto, independentemente de como vejamos esta questão da manipulação da "carne humana" por métodos científicos, já tem sofrido morosa, assertiva, metodológica e científica análise por parte de vários grupos de trabalho dentro ou em apoio/comissão ao Vaticano. De facto, talvez concorrida pela ONU - dito isto de forma muito muito generalista - a Igreja Católica é o maior intervencionista - i.e. dedicada a trabalhar em prol de... - , do Homem. Os dogmas católicos não estão substituídos pela metodologia científica: criticam-nos, favorecendo-os ou desfavorecendo-os.
De qualquer forma é um debate bem vivo.
Muito haveria para criticar este seu péssimo artigo, mas por ora deixou-lhe um cumprimento e um desejo de que leia mais e melhor, independentemente das conclusões a que chegue. Entretanto, só daqui a muito tempo voltarei a ler este blogue.

Miguel.Y.H.

Victor Afonso disse...

Caro Miguel: obrigado pelo seu contributo. Sempre entendi um blogue como espaço aberto de debate de ideias e opiniões, mesmo que opostas às minhas, como é o caso.
É claro que este tema é muito sensível e complexo, e cada pessoa terá a sua própria opinião sobre o assunto. Ao contrário do que insinua, tenho lido muito, e até pensadores/escritores/cientistas crentes e católicos. E continuo a defender exactamente o que defendo. O livro "Porque Não sou Cristão" de Bertrand Russel continua mais vivo e actual do que nunca, o que é dizer muito num livro que foi editado em 1927. A visão que a Igreja tem do mundo e do homem não se caoduna com os meus ideias de Humanidade. O Budismo, por exemplo, não sendo propriamente uma religião, mas mais uma filosofia de vida, revela muito mais sensibilidade ontológica e metafísica da condição humana. Eu sei que o Vaticano tem comissões que analisam as evoluções médicas e científicas. Mas para que servem essas comissões se depois (quase) todas são repudiadas ou apelidadas de "querem substitur Deus"? Não representa isto retrocesso e parasitismo? Eu aconselhava-o a ler o livro "O Fim da Fé" de Sam Harris ou livros do Richard Dawkins. Dois autores que tiveram a coragem de desmontar os mecanismos da manipulação moral cristã.
Quando diz que nunca mais vai ler este blogue porque não concordou com este texto em particular, denota alguma falta de "fair-play", não lhe parece? Para além de demonstrar que não aceita a opinião contrária à sua. Mas cada um é livre de fazer o que quer. Se não quiser ler mais, tudo bem, está no seu direito.

Cumprimentos,
VA