domingo, 13 de dezembro de 2009

O ofício de tradutor literário


Há uma profissão que muito respeito e admiro: a de tradutor literário. Folheando grandes obras da literatura clássica ou moderna, tento intuir a complexidade de uma tradução literária, as infinitas horas passadas a ler o livro na língua original, as horas ao computador a escrever e a consultar grossos dicionários de línguas.
Um dia conheci um tradutor (de alemão - português) que me dizia que este profissional trabalha quase sempre na sombra do nome do escritor que está a traduzir, mas é um elemento essencial para o sucesso e reconhecimento crítico de uma determinada obra. Mas não é, certamente, um trabalho fácil. Existe aquela célebre máxima de raiz latina - que muito atormenta os intelectuais - que diz "tradutore, traidore". Ou seja, a tradução é uma potencial traição à língua original da obra. Pode ser e pode não ser. Se já é difícil traduzir prosa tão complexa como a de um James Joyce, Kafka, Proust ou um Musil, como será com a poesia?
Portugal tem grandes tradutores de várias línguas: Vasco Graça Moura, Miguel Serras Pereira e Frederico Lourenço (que traduziu "Homero") são apenas alguns nomes cujos trabalhos já mereceram prémios e distinções. A tradução é um trabalho que exige um extraordinário conhecimento cultural das línguas com que se trabalha. É um trabalho tecnicamente árduo, de grande rigor intelectual e fisicamente desgastante.
Um trabalho que exige diversificada formação cultural, muita disciplina e empenho intelectual. Mas este esforço nem sempre é reconhecido pelos leitores e pelas editoras, que geralmente pagam mal. E são poucos os tradutores portugueses que conseguem viver apenas deste trabalho. Traduções à parte, tenho um amigo formado em filosofia que foi aprender alemão para ler no original as obras de Heidegger. Tinha outro amigo que dizia que só lendo Proust em francês é que se conseguia captar as nuances da língua e o conteúdo literário da obra.
Por outro lado, houve muitos estudiosos estrangeiros que aprenderam português para ler Fernando Pessoa ou Camões (o escritor italiano Antonio Tabucchi foi um deles). Persiste a sensação de que nas traduções se perde sempre qualquer coisa do original, mas aí a criatividade do tradutor e o seu domínio das línguas é fundamental para fazer esquecer, no espírito do leitor, essa possibilidade.

8 comentários:

cão sem raiva disse...

Completamente de acordo.
Pedro Támen traduziu Proust, e o resultado é admirável!

Quanto às gravuras: refiro-me a umas gravuras tipo quadro onde era necessário fixar o olhar por algum tempo e conseguir ver outra coisa em 3D. Nem toda a gente conseguia, era preciso apanhar-lhe o jeito. Recordo que nos anos 90 estiveram na moda e até se vendiam por todo o lado em livro. Simplesmente, esqueci-me do nome das ditas cujas, mas tenho a sensação que acabava em «...grama».

Rolando Almeida disse...

Realmente o trabalho de tradução é grandioso quando bem feito. Há um aspecto do nosso mercado editorial que merece reparos: é que raramente numa segunda edição é revista a tradução.
Um aparte: duvido que ler Heidegger no original permita maior compreensão do filósofo do que o ler em português. Trata-se de um filósofo obscuro e indecifrável até para os alemães. Talvez por isso tenha acabado a vida a escrever misticismos sobre Holderlin depois de os ter escrito sobre filosofia. Hoje em dia é muito consensual entre imensos filósofos o desinteresse filosófico de Heidegger. Nas nossas universidades diz-se que é o maior filósofo do seculo XX, mesmo passando a ignorar outros tão importantes como Robert Nozick, Grayling, Singer, Blackburne, etc.
Eu cá vesti umas cuecas à Heidegger e ainda assim nunca o compreendi :-)

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Ah ah Rolando! :)

Também digo como o Groucho Marx: "um filósofo que eu não entendo é porque é um filósofo idiota"

PortoMaravilha disse...

Traduzir é por definição trair.

Eu, mero tradutor amador, vi-me às aranhas para traduzir a entrevista de Spielberg , àcerca do seu próximo filme. Está no cosmeticas ponto org. E é muito interessante.

Houve a um dado momento, por estas terras, a ideia que sem estudos de Alemão não se podia estudar filosofia. Desde então, muitas concepções mudaram.

Não deixa de ter piada o seguinte : Os Portugueses são incapazes de separarem Camões de Pessoa. Será que ainda continuam no orgulhosamente sós.

Já que Tabucchi é citado porque não assinar a petição em seu favor ? Ele que está a ser alvo dum grande ataque. Veja-se a imprensa internacional ( e também tá no cosméticas que tomou a sua defesa ).

Traduzir é algo impossível quanto à prosa-poesia ou à poesia-prosa.

Já aqui citei o livro do desassossego, no que diz respeito a esse aspecto.

No âmbito do campo prosa-poesia , "Grande Sertão Veredas" de Guimarães Rosa, o Joyce de expressão Portuguesa a tradução é quase impossível.

Uma tradução é sempre um palimpseste . Mas na prosa-poesia e na poesia-prosa é uma recriação.

Parece-me que os conceitos filosóficos, pela sua "matematicidade" são mais faceis de traduzir.

Seria um grande debate.

Parabéns pela referência a Musil . Já este respeito gostaria saber quantos Portugueses leram "A Portuguesa " de Musil ?

E Viva o Porto !

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

"A Portuguesa" de Musil?!

Que livro/texto é esse?

PortoMaravilha disse...

Vai então :

Drei Frauen et Vereinigungen

Tá no volume "Prosa, Dramen,spâte Briefe "

Trad fr "Trois femmes suivi de Noces " / collec points ( poche ) nºR116 ( 1ª ed fr Seuil 1962 )

Três novelas + " Noces ": Grigia , La Portugaise e Tonka + Noces.

E Viva o Porto !

Mariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana disse...

Um tradutor literário tem que saber muito não só dos idiomas, senão também da literatura em geral... é algo muito difícil de fazer e não qualquer pessoa tem esse dom.