sexta-feira, 5 de março de 2010

A arte no seu tempo (e fora dele)


Cada artista ou criador é fruto do seu tempo. A arte é fruto do seu tempo. Estamos em 2010, em pleno século XXI. Os artistas de hoje reflectem, essencialmente, sobre a experiência do presente, podendo trabalhar sobre referências do passado para projectar um futuro mais ou menos coerente. A música, o cinema, a literatura, e outras manifestações artísticas só existem porque são concebidas e contextualizadas nas circunstâncias da era em que os artistas vivem (já dizia Ortega y Gasset).
Vem esta reflexão introdutória a propósito porque, volta e meia, dou comigo a pensar o que fariam artistas que já morreram, e que viveram noutras épocas históricas, se vivessem neste nosso tempo, neste mundo, neste contexto social, político e histórico, neste tempo com as referências tecnológicas e culturais contemporâneas.
Por isso, faço o seguinte exercício mental (mais ou menos aleatório): que tipo de música faria hoje Debussy ou Satie?? Como seria o cinema de realizadores como F.W. Murnau, Buster Keaton ou Eisenstein? Sobre que temas escreveria George Orwell, Fernando Pessoa ou Edgar Allan Poe? Que configuração teria hoje a teoria filosófica de Nietzsche ou Schopenhauer? E Jackson Pollock desenvolveria hoje a mesma “action painting” que fazia nos anos 40 do século passado? Como se expressaria o surrealismo de Salvador Dalí? Stravinsky, John Cage ou Varèse aventurar-se-iam pela música electrónica?
O que diriam Franz Kafka ou Aldous Huxley da sociedade da comunicação globalizada? Qual seria a posição de um Einstein ou de um Freud face à evolução da ciência actual? Como se manifestaria hoje a inigualável genialidade criativa de um Bach ou de um Mozart? Provavelmente, alguns dos artistas citados não sofreriam quaisquer mudanças e seriam fiéis à identidade artística que os tornou famosos. Por outro lado, outros criadores haveria que seriam mais facilmente permeáveis à influência do meio que os rodeassem, alterando o seu rumo artístico e cultural de forma mais severa.
Enfim, questões que não passam de mera retórica mas que fazem sentido à luz da curiosidade do espírito humano.

9 comentários:

Rui Resende disse...

é interessante pensar nisso. Ultimamente ao assistir às experiências que temos vindo a ter com cinema 3D, sempre me pergunto o que poderia o Orson Welles fazer com as possibilidades que hoje temos, ele que sempre foi um mestre da profundidade de campo e do espaço. que possibilidades é que ele imaginaria? em todo o caso parece-me que a resposta, ainda que a pergunta de retórica, é que todos esses criadores que referiste fariam coisas necessariamente diferentes, uns mais do que outros (não me parece que o Pessoa tenha sido tão afectado pelo mundo que o rodeava como por exemplo o Orwell).

Mas em relação à arte em geral gostava de desafiar a tua primeira frase deste post: será que cada criador é mesmo o fruto do seu tempo? não será que cada tempo é moldado (também) pelos seus criadores?

Anónimo disse...

Cara?! O que é melhor? O seu blog ou os comentários?!
Putz! Olha que coisa foda disse o Rui Resende: "...não será que cada tempo é moldado (também) pelos seus criadores?" - e com uma pontuação fantástica.

O teu exercício começa soberbo e termina magistral. Adorei a questão e gostei mais ainda da conclusão. A maioria não seria afetado pelo "tempo". E o que completou o Rui Rezende muito bem, talvez o tempo fosse diferente.

O que eu ía dizer era justamente isto. O que seria o mundo hoje se Thomas Edison fosse nosso conteporâneo? De que fama gozaria o Brasil se Santos Dumont hoje vivesse? Leonardo Da Vinci, Isac Azimov, Van Gogh, Chaplin e tantos outros... o que seria o mundo a partir de hoje nas mãos destas pessoas?

PS.: Um blog excelente com um erro de principiante: LETRAS BRANCAS SOBRE FUNDO NEGRO.

Raquel Setz disse...

Só uma dúvida... o John Cage não chegou a trabalhar com música eletrônica?

Rui Luís Lima disse...

Obrigado pela visita. As questões colocadas são extremamente interessantes e fiquei a pensar como seria o "Em Busca do Tempo Perdido" se fosse escrito por Proust no século xxi ou que música fariam os Mestres do Barroco?
Abraço cinéfilo
Rui Luís Lima

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Rui: gostei da tua frase e concordo com ela.

Anónimo: obrigado pelo comentário ao meu blog. Não me parece que letras brancas em fundo negro seja problema.

Rui Lima: também me passou pela cabeça que "música fariam hoje os compositores do Barroco"

Raquel: sim, John Cage trabalhou com música electrónica, mas de teor experimental e electro-acústica. Não fui suficientemente explícito: referia-me à música electrónica na linha estética de um Aphex Twin ou Autechre.

João Lisboa disse...

A minha resposta a uma dessas perguntas está aqui:

http://lishbuna.blogspot.com/2010/03/se-kafka-realizasse-filmes-este-era.html

PortoMaravilha disse...

Victor : A tua pergunta releva duma "Kolle" : Pergunta a ser preparada em 3 horas , para uma resposta oral de vinte minutos. Exercício quase semanal para quem prepara um concurso ( ou exame selectivo ) que dá entrada nas Grandes Escolas Francesas.

Eu , se fosse candidato, a tal pergunta responderia o seguinte :

Não seria necessário reconhecer a literatura como uma arte à parte ? Esta é a única que tem um suporte que é a sua própria vida. Podemos discursar da imagem etc com palavras. Mas quando discursamos de literatura com palavras já estamos na meta linguagem. Explicar a música com a palavra , a imagem com a palavra talvez não seja a mesma coisa que explicar a palavra com a palavra. Deixo em aberto a interrogação.

Mas com isto não se trata de afirmar como uma área é superior ou inferior a outra. Mas a pergunta fica.

Parece-me, mas talvez esteja errado, que a interrogação de Garcia e Grasset foi ultrapassada , quer pelos estruturalistas ( cf círculo linguistico de Praga anos 30 ) e sobretudo pelo texto de Barthes ( o prazer do texto ) .

Melhor dizendo, tudo é re-criação.

Na literuratura , o Canadiano Northrop Frye tentou mostrar ( com sucesso creio ) que toda a literuratura assenta nos sete pecados capitais. Como a música pode assentar nas sete notas músicais

A dificuldade consiste em seguida em tentar descortinar a forma simples da forma complexa.

André Jolles, esquecido desde há muito, tem um grande lvrinho com o mesmo título.

A arte não é mais que um palimpseste.

Para mim , ela é arte quando sabe re-ligar com esse palimpseste ou inconsciente, quando sabe dar prazer e, sobretudo, quando sabe apagar penubramente ( existe ? ) a realidade para melhor nos mostar a realidade.

Se gostas de música : O que pensas de Bizet ? Como classificar "Carmén " ?

Que nota me dás ? ( Lol !)

E é claro , Muitos Parabéns pelo teu blog que é já para mim uma referência. Só não entendo que não tenhas citado " Les Césars" . Mais bon !

Nuno

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Obrigado Nuno! Continua sempre a participar nos comentários, são bem-vindos.

Anónimo disse...

molto intiresno, grazie