domingo, 23 de agosto de 2009

Madrid me mata


Cinco dias na capital espanhola dão para muita ou pouca coisa. Depende de vários factores. Seja como for, regressar a Madrid depois de 10 anos é sempre uma experiência revigorante: pelo irresistível ambiente cosmopolita da grande metrópole, pela diversidade e qualidade da oferta cultural, pela riqueza do património histórico, pela simpatia do povo espanhol, e por mais o que se queira. Apesar das altíssimas temperaturas (média de 35 a 45 graus) e do sol impiedoso, passear pelos bairros de Madrid, pela Plaza Mayor, Plaza Cibeles, pela Puerta del Sol ou pela Gran Via, é sempre uma incessante descoberta de sensações. Uma cidade que acolhe turistas de todo o mundo, que fervilha de actividades e propostas para todos os gostos, bolsas e exigências culturais. Um dos motivos que contribuiu para a revitalização cultural da Madrid deveu-se ao movimento cultural na ressaca do franqusimo, ocorrido no início dos anos 80, com a célebre "movida madrileña", da qual fizeram parte inúmeros artistas (músicos, cineastas, artistas plásticos) como o realizador Pedro Almodóvar.
Na capital de "nuestros Hermanos" sente-se que o urbanismo é levado a sério; os transportes públicos funcionam lindamente; não se vê um único prédio degradado (por mais centenas de anos que tenha), os espaços verdes abundam, a arquitectura é límpida e bela como poucas, a limpeza das ruas é imaculada, e os museus oferecem algumas das melhores propostas de arte de toda a Europa. Foi um prazer regressar aos labirintos de salas do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, e redescobrir os eternos Dalí, Picasso, Man Ray, Miró, Duchamp, Max Ernst, Lichtenstein, Picabia, Klein, Magritte, mas também as exposições temporárias do surpreendente Juan Muñoz (já passou por Serralves). Também surpreendente foi a exposição sobre o modernismo e surrealismo, com obras literárias e audiovisuais dos mestres de sempre. Em duas salas diferentes, duas projecções de dois filmes essenciais de Luís Buñuel: "Las Hurdes" (1933) e "La Edad de Oro" (1930) em cópias magníficas cedidas pela Filmoteca de Madrid.
Por seu lado, outro importante museu da cidade, o Thyssen-Bornemisza, expõe uma extraordinária retrospectiva de Matisse, com pinturas nunca expostas em Espanha. Isto já para não falar da notável exposição permanente de Jan Van Eyck. O museu, que se situa quase em frente do incontornável Prado, implementou uma nova política de portas abertas: até às 23h, diariamente. À custa desta iniciativa, já recebeu perto de 150 mil visitantes nocturnos. A exposição de Matisse mantém-se até 22 de Setembro. De realçar, igualmente, a importante exposição de fotografia de Annie Leibovitz, que se pode contemplar, até dia 6 de Setembro, na Sala de Exposições Alcalá de Madrid. “Annie Leibovitz - Vida de uma fotógrafa, 1990-2005”, compõe-se de duas centenas de instantâneos, entre imagens de grande formato, fotografias do lado mais íntimo e familiar da norte-americana, paisagens a preto e branco e retratos de pequeno formato, também a preto e branco.

Outra experiência notável (especialmente para as minhas duas filhas pequenas) ocorreu com o visionamento de um filme no Cine Imax. Trata-se da projecção mais sofisticada e avançada de sempre, visto que utiliza na mesma sala dois ecrãs gigantes (um tem 900m2, o maior da Europa) com a mais alta qualidade de imagem (3D) e de som digital. A esta inovação de alta tecnologia é chamada de Imax Integral. O sentido de imersão do espectador com as imagens é muito mais intenso do que um vulgar filme de sala comercial em 3D (como o recente "Up"). O desenho da sala é em estilo de anfiteatro romano, com uma incrível inclinação de 45º das cadeiras, permitindo uma visão perfeita de todos os pontos da sala. O filme visionado foi "Gigantes do Oceano", um simpático documentário narrado por Johnny Depp e Kate Winslet. Valeu pela experiência sensitiva de ver um tipo de projecção vanguardista. Veremos se o novo filme de James Cameron irá bater esta tecnologia Imax.
Um aspecto menos positivo de Madrid é a considerável quantidade de músicos-pedintes nas ruas mais movimentadas e no metro. Alguns são banais intérpretes instrumentais, mas outros há que parecem ter saído directamente de uma orquestra profissional, dada a destreza técnica revelada. Cheguei a ver, à porta do El Corte Inglés, um quarteto de cordas a tocar, maravilhosamente, as "Quatro Estações" de Vivaldi, em troca de umas singelas moedas dos transeuntes...
Na passagem pelo Teatro Lope de Vega (em plena Gran Via) não deixei de reparar no enorme cartaz que anuncia o musical "Spamalot" dos Monty Python (a partir de 10 de Setembro), numa produção do famoso grupo Tricicle.
Entretanto, a minha maior descoberta de Madrid foi a livraria especializada em cinema "Ocho Y Medio", bem ao lado da Plaza de Espanha, sobre a qual darei mais informações num próximo post.
Imagem 1: pormenor da Puerta del Sol.
Imagem 2: pormenor da entrada do CineImax.

4 comentários:

Maldonado disse...

Subscrevo a tua opinião acerca de Madrid.
Estive lá há cerca de cinco anos e achei uma cidade fantástica, que encosta a um canto Lisboa em todos os aspectos.
Tem uma oferta cultural maior que a da nossa capital ou de qualquer cidade portuguesa.
Os seis dias não me chegaram para ver tudo. :)
Gostei muito do Prado e do Thyssen.
Quando lá for novamente, tenciono me desforrar...
Da próxima sugiro que visites Toledo, que se situa a cerca de 70 kms de Madrid, e que na Idade Média foi o centro da cristandade ibérica.

Victor Afonso disse...

Maldonado: de facto, não é possível comparar Lisboa com Madrid.

Na viagem de regresso à lusa pátria, ainda visitei Segovia e Ávila. Belas, belas terras...

Conheço Toledo, estive lá há uns anos.

João Lisboa disse...

Oh, a Ocho Y Medio!... tenho de lá voltar depressa.

Victor Afonso disse...

...voltar lá para gastar "uma nota preta", calculo.