quinta-feira, 12 de março de 2009

A paixão segundo Dreyer


Satie e os críticos


Em 1917, Jean Cocteau, propôs a Diaghilev, empresário dos Ballets Russes, colaborar com o compositor Erik Satie num ballet. Desde conjugação artística, saiu o bailado "Parade" (na imagem), com argumento de Cocteau e ainda cenários e figurinos do pintor Pablo Picasso. A partitura musical de Satie, pianista e visionário, continha sons de máquinas de escrever, apitos de sereias, ruídos de hélices de avião, de aparelhos de Morse, e de roletas de lotaria (a ideia era assaz original, mas não totalmente inovadora: o futurista italiano Luigi Russolo tinha construído "máquinas para fazer ruído" três anos antes).
O lugar exigido a todos estes objectos exigiu uma redução de instrumentos musicais convencionais no fosso de orquestra, opção que provocou uma acesa discussão no seio da crítica e dos espectadores. "Parade" foi um ballet inovador e ousado em termos estéticos (nos cenários, no argumento e na música), antecipando uns anos o movimento surrealista. Os críticos arrasaram sobretudo a música. Erik Satie não se ficou e escreveu, satiricamente, um texto com o título "Elogio dos Críticos", que começa assim: "O ano passado fiz várias conferências sobre a inteligência e a musicalidade nos animais. Hoje vou falar-vos da inteligência e da musicalidade nos críticos. O tema é quase o mesmo, portanto."

Díptico - 56


Sean Penn e Harvey Milk

Música (quase) eterna



John Cage (1912-1992), o compositor e teórico que revolucionou a estética musical do século XX com as suas noções de ruído, silêncio, som, tempo e electroacústica, legou muitos conceitos artísticos vanguardistas que têm sido explorados à saciedade, desde músicos a filósofos da arte. Um deles tem a ver com a noção do "tempo dilatado", que tem expressão máxima numa peça musical que tem a duração de... 639 anos! A peça, intitulada "As Slow as Possible", é interpretada num órgão (na imagem) de uma igreja chamada St. Burchardi, em Halberstadt, na região da saxónia alemã. Composta por John Cage em 1987, a interpretação da peça teve início em 2001 e terminará exactamente em 2640 (se o mundo ainda for mundo, claro).
As notas dos acordes estão escritas na partitura e são tocadas de anos em anos, com calendário agendado para as próximas décadas. Na página da Wikipedia sobre o assunto pode até ouvir-se uma das últimas notas já tocadas no dia 5 de Janeiro de 2005. Para os mais interessados, deixo aqui o excelente site do projecto onde se inlcuem detalhes da composição, fotografias da igreja, desenhos, vídeos, etc.

quarta-feira, 11 de março de 2009

"Bad"

Para mim os U2 ficarão para sempre guardados na minha memória por causa da interpretação do tema épico “Bad” no mítico Festival Live Aid 1985, uma das melhores canções jamais escritas pela banda de Bono e The Edge (que é magnífico nas malhas de guitarra). Esta música ressoou durante anos na minha cabeça:

terça-feira, 10 de março de 2009

Zach Johnsen - criatividade explosiva

Cada vez gosto mais de explorar novos domínios da ilustração, do design e da arte gráfica contemporâneas. E dentro deste universo, Zach Johnsen, um jovem artista americano que cresceu a desenhar larvas e animais híbridos, é uma das figuras mais criativas. Com experiência acumulada e a exploração de ambientes figurativos cada vez mais bizarros e negros (mas também divertidos), Zach Johnsen desenvolveu técnicas específicas de criação de novos mundos. São homens vestidos com fato e gravata cujas cabeças explodem em erupções coloridas, ou fusões alucinantes de animais mutantes, gelados medonhos e bebés grotescos. Zach explica que gosta de misturar o lado grotesco das coisas banais com uma certa candura estética, à qual não é alheia uma feroz crítica social (políticos, sociedade de consumo, etc). Ultimamente o artista tem-se dedicado à instalação de obras em galerias de arte, numa espécie de extrapolação tridimensional do seu febril imaginário visual.
Entrevista ao artista, aqui. Mais trabalhos, aqui.






Discos que mudam uma vida - 52


The Residents - "Meet The Residents" (1974)

A música de Almodóvar


O novo filme de Pedro Almodóvar, “Los Abrazos Rotos”, para além da expectativa natural, suscita também muita curiosidade pela respectiva banda sonora. Visto que os filmes do cineasta espanhol têm sempre uma relação especial com a música, é natural que a curiosidade seja redobrada. Desta vez, Almodóvar voltou a chamar os préstimos criativos do mais internacional compositor espanhol para cinema, Alberto Iglesias, com quem já colabora há 12 anos. Mas o cardápio musical desta nova película é deveras heterodoxo e peculiar. As imagens vão ser acompanhadas, igualmente, com músicas da menina bonita do indie-folk-rock Cat Power, do grupo rock experimental dos anos 70 Can, do cantor espanhol de flamenco Miguel Poveda (já colaborou com Mariza) e a americana Uffie (na imagem), uma jovem cantora que funde electrónica e pop na esteira de uma M.I.A. Parece uma salgalhada musical sem grande sentido? Nas mãos de Almodóvar, certamente que estas referências musicais díspares irão encaixar como um puzzle terminado e enriquecer a narrativa almodovariana. Promete, portanto.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Cale, John Cale

Hoje não é apenas o dia dos 50 anos da boneca Barbie. Um pouco mais velho do que o ícone da Mattel, John Cale, ex-Velvet Underground, comemora neste dia o seu 67º aniversário. E nada melhor do que ouvir a sua brilhante versão de "Hallelujah" (original de Leonard Cohen) para comemorar:

Cinema 3D - bóia de salvamento (para o porno também)


O interessante editorial da revista de cinema Premiere, edição de Março, assinado por José Vieira Mendes, aborda uma possível solução para salvar a indústria do cinema, combater a pirataria e potenciar o número de espectadores nas salas: o 3D. O cinema já passou por várias e conturbadas fases que apenas impulsionaram o seu desenvolvimento: o aparecimento do som com o filme "O Cantor de Jazz" em 1927, o advento da cor com o Technicolor, a sobrevivência após o surgimento massivo da televisão (décadas de 50 e 60) e agora, a pirataria da Internet. Vários realizadores e produtores com poder em Hollywood (Steven Spielberg Geroge Lucas, Peter Jackson, Robert Zemeckis, James Cameron) já vieram afirmar que este tecnologia digital está revolucionar a forma de ver cinema e que poderá ser a bóia de salvamento para o negócio dos filmes.
Filmes recentes com 3D atraíram muito público às salas: "Bolt", "Viagem ao Centro da Terra" e "Coraline" são três exemplos paradigmáticos. O próprio Tim Burton pondera estrear o seu aguardado filme "Alice" neste formato. A verdade é que o 3D tem potencialidades para criar novas experiências sensoriais no espectador, ao nível do envolvimento e da ilusória proximidade física com o grande ecrã. Mas também é verdade que é um sistema caro no que diz respeito aos custos de produção, do equipamento de projecção e do próprio bilhete (com o custo associado dos óculos especiais). Mas os prognósticos da indústria garantem que o 3D vai afirmar-se e vulgarizar-se nos próximos anos. Provas? O facto da Disney, Pixar e Dreamworks planearem nada menos que onze estreias em 3D para a temporada 2009-2010 e seis para a temporada 2011.
Mais: a própria indústria do cinema pornográfico (sim, ainda existe) já anunciou o lançamento do primeiro filme porno em 3D! Trata-se do filme chinês "3D Sex and Zen", sequela do filme erótico "Sex and Zen" de 1991. O produtor do filme, um tal de Stephen Shiu Jr., investiu quatro milhões de dólares na produção e garante que a experiência vai ser a mais próxima do real quanto possível: "imagine ver o filme como se estivesse sentado atrás da cama; vai haver muitos 'close-ups' e será como se a actriz estivesse a centímetros do espectador", refere em jeito de provocação. Por esta descrição, é mais que certo que o filme porno ressurja nas salas comerciais!

Robert Mapplethorpe



Robert Mapplethorpe, um dos mais controversos e criativos fotógrafos americanos da década de 80, morreu faz hoje 20 anos. Amigo de Andy Wharol e amante de Patti Smith, bissexual e artista pop, polémico e provocador, adepto do sadomasoquismo, dos circuitos intelectuais mais alternativos mas também das festas sociais mundanas, Robert Mapplethorpe morreu de Sida com apenas 42 anos. Algumas das suas fotografias mais ousadas, com actos sexuais explícitos homossexuais, são ainda hoje proibidas em muitos espaços culturais de vários países. As suas fotografias a preto e branco revelam uma esplêndida sensibilidade plástica, com um rigor quase geométrico na composição e encenação das imagens. Ao saber que estava infectado pelo vírus da Sida (em 1986), criou uma fundação - The Robert Mapplethorpe Foundation, Inc -, a qual se destina a preservar e difundir a sua obra artística, assim como recolher fundos para acções de caridade.
Há precisamente um ano, abordei aqui uma fotografia famosa que Mapplethorpe tirou a Philip Glass e Robert Wilson.

domingo, 8 de março de 2009

Robôs

A ciência informática e a tecnologia robótica desenvolvem-se, cada vez mais, num ritmo alucinante e nas mais diversas áreas de intervenção humana - do entretenimento à segurança, da medicina à exploração espacial. Os especialistas em cibercultura e tecnologia avisam: daqui a 15-20 anos, o homem estará dependente dos robôs humanóides (e não só) para a realização de múltiplas tarefas e funções. Seja na vida doméstica do dia-a-dia, seja em questões complexas como na indústria do armamento ou da segurança internacional. A questão de saber até que ponto os robôs poderão ter uma inteligência artificial similar à dos humanos é um assunto que divide cientistas e investigadores. A verdade é que já existem robôs que nem os escritores de Ficção Científica imaginaram, capazes de tocar peças para piano de Beethoven ou de efectuar cirurgias altamente delicadas e complexas. Será possível que daqui a alguns anos os computadores e robôs possam tomar decisões capazes de prejudicar, intencionalmente, o homem (como em "2001 - Odissea no Espaço" de Kubrick)? A realidade suplantará, algum dia, a ficção mais imaginativa?
À margem destas questões, o site de fotografias "The Big Picture" publicou um conjunto magnífico de fotografias que revela exemplos de alguns dos robôs mais avançados da actualidade. Como este simpático robô que cumprimenta a chanceler alemã Angela Merkel. Fotografias em alta resolução - aqui.

Pedro e Penélope


Magnífica fotografia de Penélope Cruz e Pedro Almodóvar, na promoção ao filme nº 17 do realizador espanhol, "Los Abrazos Rotos" (irá estrear dentro de dias em Espanha). Ambos são as figuras do cinema espanhol com mais projecção e reconhecimento internacional, pelo que este novo filme do autor de "A Má Educação" está a suscitar expectativas inéditas.
O cineasta disse que é um dos seus filmes mais densos e complexos de toda a sua filmografia - "um drama seco", referiu. De tal forma se trata de um drama seco (com referências ao cinema negro) que Almodóvar diz que as personagens não choram durante o filme porque já "choraram antes que o filme ter início". Aguardemos, portanto.

Díptico - 55


"Film Music: A History" - James Wierzbicki e "A History of Film Music" - Mervin Cooke

Afinal, o que é o rock gótico?



Nunca fui seguidor de música gótica. Nem nunca percebi muito bem quais os requisitos precisos para apelidar de gótica uma determinada banda. Mas a verdade é que gosto muito de certos grupos conotados com o gótico dos anos 80: Bauhaus, The Cure, Sisters of Mercy, Siouxsie and the Banshees, The Birthday Party... Já o movimento actual de bandas góticas revivalistas não me diz rigorosamente nada: My Chemical Romance, These New Puritans, Marilyn Manson e quejandos (se bem que considere o tema "The Beautiful People" de Marilyn Manson fenomenal).
Mas a verdade é que nenhum destes grupos alguma vez assumiu fazer música "gótica". As tentativas de catalogações acabam sempre por lançar fumo e confusão. E o que interessa mesmo é a música. Seja como for, o New Musical Express arriscou e seleccionou aqueles que considera os 20 melhores temas do rock gótico. Há aqui excelentes músicas, mas não sei o que fazem nesta lista os Interpol ou os Manic Street Preachers, nem percebo porque é que um tema como "Atmosphere" dos Joy Division é considerado o melhor tema de sempre. Ver aqui.

sábado, 7 de março de 2009

O meu top Kubrick







10º

10 anos sem o Mestre


Stanley Kubrick: 26 de Julho de 1928 - 7 de Março de 1999
"A film is - or should be - more like music than like fiction. It should be a progression of moods and feelings. The theme, what's behind the emotion, the meaning, all that comes later."

Ler demasiado dá volta à cabeça


"Ordet" (1955) - Carl Dreyer

Grandes filmes antes dos 30 anos

Neste post - bastante comentado - abordei os primeiros grandes filmes realizados por jovens cineastas. Aquelas primeiras obras fabulosas que marcaram a restante filmografia do cineasta e até da história do cinema. Mas nem todos esses realizadores eram jovens realizadores. Quantos realizadores se podem orgulhar de terem feito primeiras obras de inexcedível qualidade antes dos 30 anos de idade?
Eis doze filmes da minha preferência pessoal no rol de cineastas que assinaram filmes superlativos antes dos 30 anos de idade (ordenados por ordem crescente de preferência, título do filme, ano, realizador e respectiva idade):

12 - "American Graffiti" (1973) - George Lucas (29)
11 - "Os 400 Golpes" (1959) - François Truffaut (27)
10 - "Sherlock Jr." (1924) - Buster Keaton (29)
9 - "Magnolia" (1999) - Paul Thomas Anderson (29)
8 - "Reservoir Dogs" (1992) - Quentin Tarantino (29)
7 - "Pi" (1998) - Darren Aronofsky (30)
6 - ""Duel" (1971) - Steven Spielberg (25)
5 - "Sexo, Mentiras e Vídeo" (1989) - Steven Soderbergh (26)
4 - "Magnificent Ambersons" (1942) - Orson Welles (27)
3 - "Un Chien Andalou" (1929) - Luís Buñuel (29)
2 - "Citizen Kane" (1941) - Orson Welles (26)
1 - "O Couraçado Potemkine" (1925) - Sergei Eisenstein (27)
Mais contributos?

sexta-feira, 6 de março de 2009

Corte-se a internet!

Espanta-me o grau de ingenuidade de Tó-Zé Brito, músico e empresário experimentado na área da indústria discográfica. Diz ele que para combater a pirataria e os downloads ilegais da Internet, se devem incrementar as penas de prisão e o corte de acesso à Internet dos prevaricadores. E desta forma mágica e radical, segundo Brito, desaparecerá o fenómeno do download ilegal de ficheiros de música em mp3: “Quando as pessoas ou as empresas compreenderem que o fornecedor de Internet lhes veda o uso, por causa de downloads ilegais, o fenómeno desaparecerá”. Será que Tó-Zé Brito julga que esta medida é, minimamente, exequível e lógica? Mais: que iria solucionar o problema? Quer dizer, segundo ele, cortava-se o acesso à Internet de dezenas de milhões de utilizadores que fizessem descargas ilegais e umas quantas prisões para impressionar e estava o assunto resolvido. Com este tipo de raciocínio pueril os defensores da regulação da Internet vão continuar a perder credibilidade.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Voyeurismo à distância de um clique


"Pangeia animal" em prol da paz


À primeira vista vemos que é a representação de um galo. Mas basta um segundo olhar mais atento para perceber que este galo está concebido com os continentes e países do planeta Terra que, juntos, configuram o animal, numa espécide de nova pangeia. É o resultado do projecto "Piece Together for Peace" (belo trocadilho), da japonesa Graflex Directions (o artista é Kentaro Nagai). A ideia deste projecto teve início com base no zodíaco japonês que contém 12 animais (galinha, porco, rato, coelho, etc). A partir dessa ideia, o objectivo era juntar os continentes de forma a dar-lhes forma animal, e neste sentido, apelar à união e paz entre os povos. Vale a pena espreitar os restantes 11 animais feitos a partir dos continentes. Criatividade visual sem espartilhos. Não é propositado, por certo, mas acho piada que, na imagem do porco, Portugal seja... o rabo!

Charlize online


É uma prática jornalística mais ou menos frequente, mas só nos jornais de referência internacional, como o espanhol El Mundo. Falo de uma sessão online na qual determinada personalidade (geralmente oriunda das artes) responde, em tempo real, a perguntas colocadas pelos cibernautas. A sessão a que me refiro aconteceu hoje à tarde com a bela a talentosa actriz Charlize Theron (vencedora de um Óscar por "Monstro", imagem à direita), que vai estrear o seu último filme "The Burning Plain" (que conta com o actor português Joaquim de Almeida e Kim Basinger). De um lado os cidadãos anónimos a lançarem perguntas, do outro lado, a actriz que respondia. Claro que o nível das perguntas é muito irregular e quase nenhuma é verdadeiramente interessante ("tem cócegas nos pés?", "como encara a falta do anonimato?"). As respostas, algo telegráficas, também não são muito profundas, mas uma iniciativa destas não propicia a reflexão.
Eis o link.

Feitiço do tempo no cinema e na vida real


No filme “Feitiço do Tempo” (1993) de Harold Ramis, Bill Murray é um repórter de televisão que fica aprisionado numa estranha espiral repetitiva do tempo: depois de acordar, vive sempre o mesmo dia. Dia após dia, o mesmo ritual, os mesmos acontecimentos, a mesma sequência de acções e diálogos. O tempo aprisionou-o num infernal ciclo de repetição e previsibilidade, condenando-o a viver o mesmo dia até ao fim dos seus… dias. É um delicioso filme que reflecte, num tom de comédia, sobre o significado da passagem do tempo e de como o ser humano lida com ele. E sempre que me lembro do filme, penso se não será uma metáfora perfeita do modo de vida monótono, minimal e repetitivo de muita gente.

A interminável historiografia dos Beatles


Já existem mais de 8000 livros sobre os Beatles. Pensava-se que biógrafos e historiadores musicais de todo o mundo já tinham contribuído, em forma de ensaios, estudos e biografias, para a história definitiva da banda de Liverpool. Mas a imensa informação disponível ainda não é suficientemente esclarecedora. Pelo menos para a Liverpool Hope University, em Inglaterra, que decidiu criar um novo curso de pós-graduação dedicado à banda de Lennon e McCartney. O objectivo é definir quão influentes foram os Beatles para a música, a moda e a sociedade. A minha singela dúvida é: será mesmo preciso criar um curso universitário para explorar este assunto? O que vão adiantar os estudos académicos aos milhares de livros e ensaios já existentes?
Na mesma linha de pensamento, porque é que as Universidades mundiais (sobretudo anglo-saxónicas) ainda não se lembraram de instituir cursos de mestrado para aprofundar a importância cultural dos Velvet Underground, dos Sex Pistols, dos Rolling Stones, de Kraftwek, de David Bowie?...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Tati imortal


"As Férias do Sr. Hulot" (1953) - Jacques Tati

Godard e Lars von Trier



No início da década de 60, aquando da revolução da "Nouvelle Vague" francesa, Jean-Luc Godard exclamava de forma peremptória: "O argumento morreu!". Deste modo, o realizador proclamava a necessidade de filmar filmes livremente, sem as amarras de um guião, sem estarem limitados pela ditadura dos argumentistas. Filmar ao sabor da improvisação, subvertendo as regras instituídas, procurando novas experiências narrativas e soluções de montagem, foram algumas das inovações do cineasta francês, autor de "O Acossado". A ideia original de Godard agradou aos intelectuais e à geração dos "Cahiers du Cinéma", mas alguns anos e largas dezenas de filmes depois, acabou por admitir-se que isso de filmar sem guião era, no mínimo arriscado. E que tais experiências só saíam bem a um cineasta tão genial e inclassificável como Godard.
Mais tarde, mais propriamente em 1995 (coincidindo com o centenário do nascimento do cinema), surgia na Dinamarca um movimento cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto assinado por realizadores como Lars von Trier e Thomas Vinterberg. Este movimento, chamado "Dogma 95", criou as suas dez regras inspirando-se vagamente nos postulados estéticos da "Nouvelle Vague" (começando na ideia de fazer cinema com baixo orçamento). Estes cineastas defendiam a rodagem com câmara na mão, a recusa de iluminação artificial, a utilização de música e de guião pré-estabelecido. Uma renovada roupagem da linguagem do cinema através da assimilação de regras pouco convencionais, mas que rapidamente se esgotaram. A ânsia de inovação formal e de ambição artística de von Trier acarretaram resultados redundantes. De resto, se da irreverência artística da "Nouvelle Vague" sobrou Godard e Rivette (de outra forma), do "Dogma 95" não sobrou ninguém e o pobre Lars von Trier - que até fez óptimos filmes mas fora do contexto do movimento que criou - encontra-se agora no limbo da efémera memória cinéfila.

Música da crise bolsista

O músico alemão Johannes Kreidler é considerado um "enfant terrible" da música electrónica. Há um ano "compôs" um trecho sonoro de 33 segundos com... 70 mil samples! Sinceramente, custa-me a acreditar que se consiga juntar 70 mil samples (por mais ínfimos que sejam) num curto ficheiro de 33 segundos, dado que a massa sonora seria gigantesca e indefinida. E ouvindo o resultado chamado “Product Placement”, não se percebe sequer que exista uma amálgama de 70 mil sons diferentes misturados. Seja como for, esta peça de Kreilder deu que falar e a Sociedade Alemã de Autores exigiu que o músico identificasse cada um desses alegados 70 mil samples, em formulários… individuais. Não sei no que deu, mas também não interessa muito.
A questão é que Johannes Kreidler voltou a ser notícia porque colocou no youtube uma música que, segundo o próprio, é o resultado da análise musical dos mercados financeiros e bolsistas. Isto é, música feita de acordo com as oscilações da crise financeira mundial. A música foi feita num vulgar e muito primário software de edição musical, o “Songsmith” da Microsoft, daí o resultado sonoro soar tão lúdico e quase circense (características sonoras que contrariam a aparente depressão da bolsa mundial). Tem a sua piada a intenção de musicar a crise bolsista, mas quanto a mim não passa de mais um bom golpe publicitário de Johannes Kreidler. Vi a notícia no Jornal da Tarde da RTP1. O que achei mais engraçado da reportagem é que o músico responsável por esta brincadeira foi apelidado de “músico futurista”. O melhor título seria “retro-futurista”

O novo Almodóvar


Cartaz do filme "Los Abrazos Rotos", estreia em Espanha dia 18 de Março.

terça-feira, 3 de março de 2009

O olhar do Stalker


Sophie Scholl - relato de uma resistente


Sophie Scholl foi uma jovem (21 anos) estudante universitária alemã opositora do regime Nazi durante a 2ª Guerra Mundial. O seu nome ficou conhecido por ter pertencido a um corajoso movimento de resistência à ditadura de Hilter, o movimento "Rosa Branca".
Munique, 1943. Hitler está a devastar a Europa. Um grupo de jovens universitários recorre à resistência passiva para combater os nazis, formando o movimento "Rosa Branca". Sophie Scholl é a única mulher do grupo. Sophie e Hans Scholl, irmãos, são detidos pela Gestapo quando distribuíam panfletos contra o regime na Universidade de Munique. Pouco tempo depois são presos os restantes membros do grupo. A 22 de Fevereiro, Sophie e Hans foram acusados de alta traição e condenados à morte. A execução aconteceu ainda no mesmo dia - foram guilhotinados. Os restantes membros foram executados no mesmo ano. Os membros da Rosa Branca, principalmente Sophie Scholl, são ainda hoje respeitados na memória histórica da Alemanha, como símbolo de resistência face à crueldade do regime nacional-socialista.
O filme "Sophie Scholl - Os Último Dias" (2005, edição DVD da Prisvideo), do realizador alemão Marc Rothemund, retrata os últimos quatro dias de vida da jovem opositora, com um notável rigor histórico. Os momentos mais dramáticos do filme ocorrem aquando do cerrado interrogatório a que é sujeito Sophie Scholl pela Gestapo e no momento da julgamento falacioso. A tensão das discussões fazem gelar o sangue do espectador, pela forma determinada como Scholl denuncia os crimes Nazis face à total arrogância e indiferença dos militares, advogados e juízes. A condenação por alta traição de Scholl e dos outros elementos do movimento, deveu-se unicamente pelo distribuição de panfletos apelando à resistência pacífica do povo alemão no auge da guerra.
O movimento surgiu menos de uma ideologia política e mais da indignação com a forma como os alemães aceitavam o nazismo e a guerra feita em seu nome. A coragem dos membros do "Rosa Branca" ficou conhecida em toda a Alemanha ainda no decorrer da Segunda Guerra e até o conhecido escritor Thomas Mann reconheceu os seus méritos publicamente, numa comunicação transmitida pela BBC no dia 27 de Junho de 1943. Uma heroína que defendeu até às últimas consequências as convicções que a sua consciência lhe ditou.

Perry Farrel perdeu a voz

Uma das bandas rock alternativas mais interessantes da segunda metade dos anos 80, os Jane's Addiction, já terminaram e voltaram a reunir-se por diversas ociasiões. A banda do vocalista Perry Farrel e do guitarrista Dave Navarro não só voltaram ao activo em 2008 como se preparam, brevemente, a partilhar uma digressão com outra banda sonante da música alternativa dos EUA: Nine Inch Nails. Na passada segunda-feira, os Jane's Addiction tocaram, sem anúncio prévio, numa sala de concertos em Los Angeles. Interpretaram seis temas, três dos quais, fazem parte do melhor reportório da banda ("Whores", "Ain't No Right" e "Mountain Song"). Esse mini-concerto está disponível no site Pitchfork.tv, sítio de vídeos do portal de música Pitchfork. Acontece que é penoso ver hoje os Jane's Addiction em palco. Perry Farrel, uma das vozes mais singulares do rock, arrasta-se para cantar "Mountain Song", em esforço e sem a energia transbordante de outra. Só Navarro mantém a entrega total nos riffs de guitarra:

Nick Cave de regresso (com discos antigos)


É uma das notícias musicais do dia: vão ser reeditados no próximo dia 30 de Março, os primeiros quatro álbuns de Nick Cave and The Bad Seeds: “From Her to Eternity” (1984), “The Firstborn Is Dead” (1985), “Kicking Against the Pricks” (1986) e “Your Funeral... My Trial” (1986). Ou seja, os quatro principais discos (quanto a mim) da carreira de Nick Cave. O som destes álbuns reeditados é remasterizado e as edições incluem curtas-metragens e lados B. Sou (fui) um grande admirador do Nick Cave, desde a sua anterior banda, os The Birthday Party, até ao álbum “Tender Prey” (1988). Depois deste registo perdi, moderadamente, o interesse pela sua carreira, a qual enveredou quanto mim, por um caminho mais comercial e previsível. No entanto, não deixa de ser uma óptima notícia para os muitos fãs portugueses de Nick Cave.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Educação da imagem


O realizador alemão Wim Wenders passou pelo Festival Fantasporto e concedeu uma interessante entrevista à agência Lusa, na qual afirmou que "a doença do nosso tempo é a falta de tempo". Ora, Wenders não disse nada de novo, mas o que disse não deixa de ser uma afirmação certa e verdadeira (tal como também explanei aqui). A velocidade frenética dos tempos actuais não deixa respirar o indivíduo ao ponto de usufruir, plenamente, da vida.
Outra declaração pertinente que li dessa entrevista de Wim Wenders é a que diz: "Vivemos num mundo regido por imagens, há que ensinar às pessoas a distinguir o trigo do joio". Nem mais. Uma sociedade na qual a "verdade das coisas" parece residir unicamente no poder da imagem (e das suas diversas configurações), massificada e global, torna-se urgente levar a cabo uma séria "educação da imagem". Educação que deveria constar desde a mais tenra idade das crianças, numa área disciplinar que deveria prosseguir ao longo dos anos e lhes desenvolvesse o espírito crítico perante a vasta e contraditória cultura visual contemporânea. Uma educação que educasse o olhar, a interpretação, a capacidade de identificar a imagem de "boa qualidade" da "má qualidade". Encaro esta educação da imagem de forma abrangente (no fundo, trata-se de comunicação visual), a qual passaria pela exploração da história da pintura, do cinema, da fotografia, da televisão e de outros meios tecnológicos modernos de veiculação de imagens (e suas mensagens).

Ler


Milan Kundera disse uma vez que não sabia o que lhe dava mais prazer no acto da leitura: se ler durante o dia, se ler durante a noite ao luar ou de manhã cedo, se ler sentado num sofá ou na cama antes de dormir. Para o escritor, todas as possibilidades eram válidas para poder fruir umas páginas de boa literatura. Um outro escritor (não me recordo qual) confessou que adorava ler na cama e sentir aquela conhecida sensação do leve adormecer que se abate nos olhos após algum tempo de leitura. Eu também gosto disso (não que o livro tenha propriedades soporíferas!).
Gosto de ler na cama até o cansaço pesar nas pálpebras ao ponto de deixar cair o livro e, serenamente, cair nos braços do deus Morpheu. Quando era mais novo e lia muito mais sofregamente do que agora (por questões de tempo e disponibilidade, não por falta de vontade), foi na cama, noites adentro, que li muitos dos livros que me marcaram. Ao invés, tinha amigos que só conseguiam ler de manhã cedo, quase ao amanhecer. Como um amigo que estudava filosofia e começava a ler Heidegger e Wittgenstein às 7 da manhã.
Em suma e para rematar de forma simples: Kundera tinha razão. Não interessa como e quando se lê. A cada um os seus hábitos e gostos de leitura. O que importa, no fundo, é ler...

Ópera-Rock para clubes de futebol

Segundo o Correio da Manhã, os UHF estão neste momento a compor uma ópera-rock em homenagem ao Benfica. Uau. E os outros dois clubes grandes ficam a ver? Sugiro que se faça uma petição para que os Delfins componham uma ópera-rock para o Sporting e os Blind Zero para o FC Porto. E aproveitando a embalagem, os Mão Morta para o Sporting de Braga.

domingo, 1 de março de 2009

Os cineastas mais velhos em actividade

A idade é um posto, diz-se na gíria popular. E é verdade. No cinema, apesar de Manoel de Oliveira liderar, com os seus incontornáveis 100 anos, a lista de realizadores mais velhos no activo, outros há que continuam a fazer filmes com a experiência acumulada de décadas de trabalho: Mario Monicelli (93 anos), Clint Eastwood (78 anos), Alain Resnais (86 anos), Jean-Luc Godard (78 anos), Eric Rohmer (88 anos), Jacques Rivette (80 anos), Agnès Varda (80 anos) e Sidney Lumet (82 anos).
Deste último, Sidney Lumet, vi recentemente em DVD o fabuloso filme "Antes Que o Diabo Saiba que Morreste" (2007), prodigioso thriller com interpretações superlativas de Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney. Uma história de crime e castigo numa experiência visceral de descida à total devastação moral e existencial de uma família. Esperemos que estes cineastas, apesar da idade avançada, mantenham o alto nível de qualidade do seu cinema durante muitos anos, provando às gerações mais novas de realizadores que ainda têm muito para dar (e dizer) ao mundo.


Discos que mudam uma vida - 51


Mr. Bungle (Mike Patton) - "California" (1999)

Maureen O'Hara sobre Che


"I spent a great deal of time with Che Guevara while I was in Havana. I believe he was far less a mercenary than he was a freedom fighter".

Loja dos horrores



Este é um dos muitos artefactos (neste caso, de tortura) que se podem encontrar à venda no site Dapper Cadaver. Uma loja de Hollywood que se especializou na venda dos mais diversos artigos de morte e tortura, maioritariamente, para o mercado de cinema (filmes de terror, como o "SAW"), séries de crimes ("Dexter", "CSI"), e festas de Halloween. Os produtos mais vendidos são todo o tipo de cadáveres em decomposição (em latex), partes de cérebros, litros de sangue, animais mutantes, membros mutilados, objectos de tortura, entre muitos outros artigos. O gerente da loja é um jovem de 30 anos chamado B.J. Winslow, que cresceu entre o ambiente sinistro de uma densa floresta e um cemitério abandonado. Talvez por causa dessa vivência Winslow tenha desenvolvido um gosto especial por história de terror e aberto a loja Dapper Cadaver, tão solicitada em Hollywood como por pessoas de todo o mundo (desde artistas plásticos a jovens realizadores). E claro que uma visita ao site desta "loja dos horrores" fará sempre as delícias dos amantes do mórbido e do macabro.