segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Falar dos livros sem os ler?

E que tal falar de livros sem… os ler? Hoje já é tudo possível.
E é também possível fazer figura de intelectual falando à mesa do café sobre livros e autores que estão na berra mas que nunca lemos ou, no limite, lemos duas ou três passagens. Este livro, “Como Falar de Livros Que Não Lemos?”, pretende isso mesmo: partindo de uma análise a diversas obras literárias, o autor elabora uma síntese com os tópicos essenciais, parar que o leitor fique com uma noção básica sobre o conteúdo e a forma dessas obras e assim poder fazer um brilharete junto dos amigos e de intelectuais encartados.
Fogo-fátuo e mundo de aparências, portanto.
O autor do livro, Pierre Bayard, afirma que este manual serve como incentivo à leitura, numa nova modalidade de ler um livro. Apesar de não o ter lido (folheei-o numa livraria), parece-me antes um desincentivo ao exercício da leitura e do culto pelos livros ao potenciar o facilitismo e a superficialidade. É um livro presunçoso e pueril, como que a dizer: “não leia na íntegra ‘Os Maias’, leia o meu resumo e é como se o tivesse lido”.
Este livro é o reflexo da sociedade massificada que vive a grande velocidade e que não privilegia o verdadeiro investimento cultural. Não valerá mais a pena ler somente meia dúzia de páginas de grandes escritores do que ler as respectivas sinopses técnicas de Bayard? Não será mais enriquecedor?
Num mercado editorial mimético como o nosso, é mais do que expectável que vejamos brevemente adaptações deste livro conforme as áreas artísticas: “Como Falar dos Filmes Que Não Vimos?”, “Como Falar dos Discos Que Não Ouvimos?” Ou, por absurdo, "Como Falar de Perfumes Sem os Ter Cheirado?".

7 comentários:

RadWulf disse...

é a nossa sociedade! uma feira de vaidades onde o que interessa é a aparência!
aparência esta que agora chegou ao intelecto... não interessa saber mas sim mostar que se sabe!

Rolando Almeida disse...

Já agora, dou-te o link para retirares um livro pequeno e completo, saído aqui há uns anos numa colecção do Público, escrito com um humor inteligente soberbo, que mostra como se pode ser um pseudo intelectual em filosofia fabricado. É muito divertido, o livro: http://criticanarede.com/html/bluffer.html
Já agora deixo-te também uma brilhante conferência do filósofo , Alain de Boton, onde o tema é, o snobismo:
http://www.ted.com/talks/lang/por_br/alain_de_botton_a_kinder_gentler_philosophy_of_success.html

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Obrigado Rolando: vou ler com atenção.

djamb disse...

Que fazer? Hoje vive-se muito da imagem... De qualquer forma, sabemos que estes livros representam uma triste realidade: as pessoas falam do que não sabem, mas sabem que não sabem do que falam :)

Anónimo disse...

Está enganado. O livro é muito divertido, bem escrito e culto - e o autor de facto leu imensos livros (é até professor de literatura, se não me falha a memória).

Pretende apenas falar de algo que nos acontece a todos: podemos falar de livros que não lemos, mas que fazem parte do nosso imaginário.

Até se pode extender a outas áreas: eu nunca vi o 'titanic' mas seria perfeitamente capaz de falar sobre o filme consigo, sem o Victor perceber que eu nunca o vi (naturalmente o objectivo do livro não é este, é só um exemplo para ver a ideia).

E claro que não escapou ao Vitor a ironia de fazer um post sobre um livro... que não leu!

::Andre:: disse...

Eu também fiquei com a ideia que o autor está a ser algo sarcástico, mas o tema é mesmo cada vez mais uma realidade. É a tal imagem que alguém fala em cima, o importante é ter uma opinião mesmo que seja pré-fabricada. E quanto aos discos Vítor, dos exemplos que deste creio que é o que mais se aproxima da realidade. A malta ouve um tema no myspace e tira conclusões (precipitadas) sobre o disco/ banda.

Anónimo disse...

saudações do brasil! comprei esse livro há dois meses e ainda não li :-( gostei do seu blog! bjs