domingo, 10 de julho de 2011

Jorge Lima Barreto


(Fotografia da autoria de Nuno Martins)
Em 1994 estava eu a terminar a licenciatura em Educação Musical quando, perante a necessidade de realizar um trabalho académico final, decidi fazê-lo sobre a corrente estética Música Minimal Repetitiva (Philip Glass, Steve Reich, La Monte Young...). Visto que, naquela altura, a Internet como fonte de informação era ainda uma miragem, procurei em bibliotecas livros sobre o assunto que queria desenvolver. Nada feito. O tema era demasiado rebuscado para ter acesso a qualquer tipo de informação. Então resolvi contactar directamente alguém que era a maior sumidade em música contemporânea em geral e na música minimal repetitiva em particular: Jorge Lima Barreto (JLB).

Já conhecia bem o trabalho musical do duo Telectu (com o guitarrista Vítor Rua), um projecto único na história da musica portuguesa, pela longevidade, diversidade e qualidade demontradas ao longo dos anos. Conhecia também um ou outro livro de JLB sobre jazz e música improvisada e tinha várias gravações do seu programa de de rádio Musonautas. Solicitei, então, ajuda ao JLB para a realização do tal trabalho. Com grande simpatia, o musicólogo respondeu-me prontamente enviando-me basta literatura e bibliografia sobre o tema. Tanto mais que, nessa altura, o próprio JLB estava a preparar um livro acerca da corrente minimalista nos EUA. A correspondência entre mim e o JLB continuou durante vários anos, trocando ideias e opiniões sobre as mais variadas áreas musicais. Li-o também, sempre com grande curiosidade, no Expresso e no Jornal de Letras. Mais tarde conheci-o pessoalmente e entrevistei-o para uma publicação do Porto.

Apesar da sua fama de arrogante, sempre admirei a sua vastíssima cultura musical (do rock ao jazz, da improvisação à electrónica), a sua visão intelectual da cultura, da vida e do mundo, tão patente na sua obra ensaística. JLB editou alguns dos livros sobre música mais importantes de sempre: "Revoluções do Jazz", "Jazz Off", "Rock Trip" ou "Musa Lusa", este último título, uma verdadeira enciclopédia sobre as novas correntes da música portuguesa. Após o fim dos Telectu, estranhei o silêncio de JLB: praticamente não voltou a fazer música, a proferir conferências, a escrever livros (ainda que em 2011 tenha concluído a sua tese de doutoramento), a fazer programas de rádio ou a escrever em jornais ou revistas da especialidade.

Um amigo meu, bem informado, confessou-me há apenas 3 dias, que JLB se encontrava gravemente doente num hospital em Lisboa. Ontem confirmou-se a notícia com a morte de JLB, com apenas 61 anos de idade e tanto ainda por dar à cultura e à música nacional. Entretanto, Vítor Rua desabafou na sua página do Facebook que, no dia do falecimento de JLB, recebeu mais telefonemas de jornalistas do que em 30 anos de carreira dos Telectu. É triste este jornalismo com pegada de abutre e é também um sintoma do nível cultural do mesmo.

Jorge Lima Barreto: obrigado por tudo o que me ensinaste e descansa em paz.

4 comentários:

Anónimo disse...

johnny guitar,

Ola Victor, nao venho apenas deitar agua na fervura mas esta penultima frase era escusada "JLB, recebeu mais telefonemas de jornalistas do que em 30 anos de carreira dos Telectu. É triste este jornalismo." O victor deu um tiro no proprio pé: foi necessario o homemzinho com H grande morrer para que escrevesse algo sobre ele ou de certa forma lhe ficasse agradecido pela preciosa ajuda para realizar o trabalho academico.
Continuamos assim, impavidos e serenos, sempre à espera do amanha para dizer o que temos que dizer.

Adoro o seu blogue!

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Não é nenhum tiro no pé, Johnny Guitar.

Este blog tem quase quatro anos e já escrevi sobre o JLB várias vezes. E já o tinha elogiado em muitas ocasiões anteriores. E é perfeitamente normal escrever um texto como este num momento como o falecimento da pessoa em causa. Não vejo onde esteja o problema.

O que o Vítor Rua disse é perfeitamente verdade, visto que o próprio Jorge Lima Barreto mo disse pessoalmente e o disse publicamente em conferências: a carreira dos Telectu, que foi tão rica e passou por tantos países, foi continuamente desprezada e quase ignorada pelo jornalismo dito institucional. E agora que JLB morre, de repente lembram-se que seria interessante pedir um "depoimento ou comentário" ao outro músico que fazia parte do projecto. É uma lógica jornalística um pouco perversa, parece-me a mim...

Carlos L. Figueiredo disse...

Recordo-me que tive oportunidade de ver os Telectu no Teatro Viriato, em 2003 em Viseu. Portugal tem a triste (e merecida) fama de tratar mal os seus protagonistas culturais, o que não deixa de ser normal dado o desinteresse pelo ensino das artes nas nossas escolas. Contudo,isso não iliba os cidadãos do seu dever de, individualmente, interessarem-se pela cultura e esforçarem-se por conhecerem um pouco mais que aquilo que lhes é oferecido pelos media. Cada um segue o rumo que pretende, mas não aceito desculpas como "nunca me ensinaram" ou "a televisão nunca dá concertos ou peças de teatro". Actualmente, com a facilidade de acesso que existe (rede alargada de bibliotecas municipais, internet, vários suportes digitais como o CD e o DVD, etc) quem realmente quiser saber e conhecer mais pode fazê-lo. Basta haver real vontade...

Anónimo disse...

Caro Victor,
Agradecia contacto urgente para ngomart@hotmail.com a propósito da fotografia publicada neste post. Obrigado.