sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Resnais: Auschwitz e Marienbad

Lembrei-me do realizador francês Alain Resnais por dois motivos: primeiro, porque é o realizador que filmou, pela primeira vez, o campo de extermínio nazi de Auschwitz no brilhante documentário "Noite e Nevoeiro" (1955) - e hoje comemoram-se 67 anos da libertação desse campo; segundo, porque Alain Resnais é também o cineasta do filme que agora serve de imagem inicial a este (renovado) visual do blogue: "O Último Ano em Marienbad".
E que filme é este? Provavelmente, um filme mais comentado do que realmente visto. Um filme de uma estirpe formal e estética rara no cinema actual. E o que conta este filme? Muito, pouco ou nada, conforme a interpretação: num luxuoso e enorme hotel, um estranho quer convencer uma mulher casada para fugirem juntos. Porém, parece difícil ela lembrar-se que tiveram um caso (ou talvez não tiveram) no último ano em Marienbad. Este é o mote de um dos mais enigmáticos e fascinantes filmes de sempre: "L'Année Dernière à Marienbad" (título original). Uma obra que, mais do que qualquer outra, evoca uma inusitada energia os labirintos da consciência e da memória. O cineasta disse, a propósito deste filme: "Fiz uma tentativa crua e primitiva para captar a complexidade do pensamento e os seus mecanismos."
Tudo é enigmático e barroco nesta obra de Resnais, desde as personagens ao ambiente criado, à voz off que narra acontecimentos em forma de poesia onírica, a realização em longos planos-sequência, a montagem elíptica, os hipnóticos movimentos de câmara, a narrativa cerebral. Visualmente, "O Último Ano em Marienbad" é um filme belo como poucos, feito de uma expressividade plástica depuradíssima. Para o sucesso artístico do filme muito contribuiu o texto e argumento de Alain Robbe-Grillet (um dos expoentes do chamado "Novo Romance" francês"), perfeito para a visão barroca de Alain Resnais.

As personagens são todas anónimas, sem alma, e vítimas de um qualquer encantamento que povoa o palácio internacional (e o seu vasto jardim) onde toda a acção do filme se desenrola - uma espécie de cela dourada e labiríntica, afastada do mundo real, quase num universo paralelo de consciência. A personagem feminina principal, mulher enigmática e sem nome (tal como o homem que a seduz), é encarnada por uma fascinante e bela actriz: Delphine Seyrig (trabalhou também com Truffaut e Buñuel). Os diálogos e pensamentos que o espectador lê são verdadeiros textos poéticos, plenos de luz e de sombras, de evocações e emoções, de enigmas e memórias.

Depois, a câmara de Alain Resnais filma o majestoso palácio e as personagens como raramente se viu no cinema, através de movimentos de câmara que mais parecem movimentos de volúpia e de sedução - planos-sequência de tirar o fôlego de tanta beleza. Quase como se a câmara de filmar não existisse e fosse substituída pelo olhar do próprio espectador, atento aos mais ínfimos pormenores da arquitectura, das estátuas, dos olhares e movimentos, da subtileza das decorações barrocas daquele espaço.

Em suma, um filme mítico, hipnótico, ousado, que se revê sempre com renovado prazer e surpresa e cuja modernidade intrínseca sobreviveu, sem mácula, ao desgaste das décadas.

4 comentários:

Rato disse...

Vi este filme ainda em adolescente (há cerca de 40 anos), numa altura em que andava a descobrir o realizador francês. Adorei o "Hiroshima Mon Amour" (a que tenho voltado várias vezes), mas este "Marienbad" causou-me um certo aborrecimento. É a memória que tenho dele, uma vez que nunca mais o revi. Talvez seja tempo de lhe dar mais uma vista de olhos, até porque Resnais tem sido, ao longo dos anos, uma companhia muito assídua.

O Rato Cinéfilo

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Rato: é normal que um adolescente não adira facilmente ao filme. Talvez seja mesmo a hora de o rever :)

Filipe Silva disse...

Gostei imenso deste post.

Já agora, escreveu alguma vez sobre o filme "Un homme qui dort"? Pergunto isto porque adorava ler a sua opinião e lembrei-me desse filme depois de ler esta crítica ao Marienbad.

Obrigado!

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Ainda não vi, Filipe! Aliás, há dois o três filmes do Resnais que preciso de ver urgentemente.