terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Kubrick de olhos bem abertos

O último filme de Stanley Kubrick dividiu opiniões. É um filme complexo sobre os meandros da obsessão, do desejo sexual, da traição, da confiança. É um filme freudiano, com múltiplas leituras, ao mesmo tempo tenebroso e belo. Que o filme seja interpretado por um casal real, Cruise e Kidman (em 1999) é a prova da suprema ironia do realizador. É quase como que um filme "neo-realista", no sentido em que aquelas personagens são também seres humanos com vínculos emocionais reais, concretos. Esteticamente esplendoroso (como qualquer outro Kubrick), "De Olhos Bem Fechados" é uma obra de arte rigorosíssima e que denuncia a tremenda fragilidade das relações humanas. Fragilidades que podem desembocar no abismo mais penoso. Todo o filme é uma ferida aberta, em ebulição emocional, uma luta entre a pulsão da vida (Eros) e a pulsão da morte (Thanatos). Para a memória cinéfila Kubrick deixou-nos uma das suas melhores sequências filmadas em toda a sua carreira. Uma cena assombrosa em todo o seu formalismo plástico e que resume a genialidade de todo o filme: a sequência quando Bill assiste ao ritual no sumptuoso castelo. A música aterradora mas bela (faz lembrar Dead Can Dance), a câmara em travelling deslizante, os cenários surreais, o enigma das máscaras, os corpos femininos, as roupas insinuantes... Desconcertante e perturbador, como só Kubrick sabia fazer. Apenas "Shining" me deu estas sensações de puro desconforto emocional.

2 comentários:

Tiago Martins Lopes disse...

O que tu queres sei eu!

Shelyak disse...

Grande filme! Grande filme! Grande filme!
Daqueles que fazem história, aliás como grande parte, todos ou quase todos do Kubrick!
Embora nem sempre comente, por cá tenho andado e vou continuando...
Abraço :)