quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Filme - o valor da votação


Todos os cinéfilos conhecem o site The Internet Movie Database, porventura o melhor site sobre cinema de toda o espaço virtual (há o allmovie.com, mas não tem informação tão detalhada e abrangente). Ora, no imdb podemos consultar várias listagens dos melhores filmes - por géneros, por décadas, realizadores, etc. A lista dos 250 melhores filmes de sempre - votada pelo cibernautas - revela algumas curiosidades: em primeiro lugar do top está o filme "O Padrinho" de Francis F. Coppola e logo de seguida, "Os Condenados de Shawshank". O filme de Frank Darabont é um bom filme, mas merecerá o segundo lugar da lista dos melhores filmes de sempre? Isto quando constatamos que existem muitas obras-primas listadas para lá do centésimo lugar. Basta constatar que o magistral "Manhattan" de Woody Allen figura no... penúltimo lugar da tabela (249ª posição)!
Para cada filme existe uma votação que vai de 1 valor (péssimo) a 10 valores (genial). Se virmos com atenção esta votação, não deixa de causar perplexidade alguns dados. Pegando no exemplo do filme que está em primeiro lugar do top, com uma média de valores 9,1 - "O Padrinho" - vemos que há 144 mil cibernautas que votaram na nota máxima (10), mas também houve 15,177 que votaram na nota mínima (1). Para pegarmos num filme mais consensual da história do cinema - "Citizen Kane" de Orson Welles (classificado num modesto 24º lugar): há pelo menos 3,617 cinéfilos que detestaram o filme cilindrando-o com nota 1. Mesmo o "Pulp Fiction" de Tarantino (5ª posição) regista nada menos do que 7,000 detractores. Estas votações não têm, obviamente, validade científica e rigorosa, mas não deixam de ser sinais interessantes sobre a forma como se interpreta um filme.
Conclusão: mesmo perante supostas obras-primas da 7ª arte, há sempre quem as considere obras medíocres. Percebemos que em arte não existem consensos e unanimismos totais e absolutos. O que prevalece é a subjectividade do olhar, a diferenciação de fruir um dado objecto criativo. O que gera estas discrepâncias críticas relativas a um mesmo fenómeno artístico (seja cinema, pintura ou literatura)? A formação cultural do espectador? As suas referências no mundo da arte? A sua capacidade de análise e de discernimento?

Creio que Georges Braque resume esta problemática quando assevera: "Na arte só uma coisa importa: aquilo que não se pode explicar."

6 comentários:

Cataclismo Cerebral disse...

Gosto muito do IMDB, é um espaço actualizado e repleto de informação. Mas quanto à lista dos melhores não lhe dou grande crédito, sinceramente (apesar de ter lá muitos filmes que amo profundamente).

Abraço

Anónimo disse...

O IMDB é de facto o melhor site da net sobre informação cinematográfica. Mas, com todos os seus defeitos e virtudes não deixa de ser norte americano. Recordemo-nos que ainda há pouco tempo as famosas "majors" desaconselhavam a candidatura dos seus filmes ao Festival de Cannes, por isso ser prenúncio de "flop" comercial no país. Peguemos na apresentação de filmes na Amazon, por exemplo. "Rio Bravo" é um filme de John Wayne e não de Howard Hawks;"North by Norwest",de Cary Grant e assim sucessivamente.
Como diria um grande amigo meu, esta é a típica lista feita por "filméfilos" e não por cinéfilos. A diferença é considerável.
abraço
jPinto

Unknown disse...

Mas apesar do IMDB ser americano as votações são feitas por internautas de todo o mundo, da Europa à Àsia, da América do Sul à Austrália. Não quis atribuir grande crédito a essas listagens e respectivas votações, mas acabam por reflectir o gosto cinematográfico generalizado - desde o fanático de cinema avantgarde até àquele que só consome produtos mainstream do Steven Seagal e Jackie Chan.
JPinto: essa distinção entre filméfilos e cinéfilos é muito adequada para descrever a situação!
VA

Unknown disse...

Já agora: numa pesquisa que estava a fazer no site cinema2000.pt, deparei-me com duas críticas ao filme "Censurado" de Brian de Palma: uma do Cataclismo Cerebral e outra de Jorge Pinto (presumo que seja a mesma pessoa que assina estes comentários como jPinto). Estamos todos sintonizados, portanto.
VA

Anónimo disse...

Trata-se de uma curiosa coincidência. O meu J é inicial de João e não de Jorge. Infelizmente, ainda não tive oportunidade de ver o último De Palma, mas vou tentar fazê-lo o mais rapidamente possível.
abraço
jPinto

Anónimo disse...

Apesar denão ligar nada a listas, não me choca esse segundo lugar. Já vi o filme muitas vezes, também porque o costuno passar nas aulas de Filosofia. É um filme que vai muito para além do puro entertenimento, que faz pensr, que emociona e que nos delicia com a interpretação do Tim Robbins e com aquela voz e carisma do Morgan Freeman.