terça-feira, 25 de maio de 2010

Diamanda Galás: Diva Negra


Num mundo conspurcado pelo Mal e polvilhado por interesses demoníacos, cujas manifestações se revelam através da Sida, da morte, do sofrimento ou de genocídios, Diamanda Galás representa uma tentativa de cura libertadora. Uma cura que expurga esses males, uma cura que se materializa numa das vozes mais feéricas e ameaçadoras que alguma vez se ouviu no panorama da música contemporânea.
Numa espécie de reencarnação negra de Maria Callas, num misto de diva vampírica e de profetiza pessimista, Galás faz uso da sua incrível extensão vocal (quatro oitavas) para, simultaneamente, propalar os pecados do homem e denunciar o dogmatismo religioso (assim como a insidiosa moral cristã). Uma voz negra e profundamente pessimista perante a condição do humano.
Nascida em San Diego, sob o sol escaldante da Califórnia, esta descendente de pais gregos ortodoxos revelou-se, nos últimos 20 anos, como a porta-voz de uma mensagem apocalíptica sobre as múltiplas faces da angústia existencial do homem. Com formação musical clássica (é pianista de eleição), fluente em várias línguas, detentora de uma cultura universalista, imbuída da poesia maldita de Baudelaire, fascinada pelo lado espectral da vida humana e recorrendo a textos bíblicos e de outras culturas não ocidentais, Diamanda Galás percorreu nos seus discos, um caminho tortuoso de purificação espiritual, de penitência árdua e sem concessões, rumo à catarse suprema.

Galás é provocadora, insubmissa, controversa, radical, experimentalista, audaz, mordaz, como ficou demonstrado em álbuns demenciais como “Litanies Of Satan” (1982), “Divine Punishment” (1986) ou “Plague Mass” (1991). Bastariam estes três tremendos testamentos sonoros para perpetuar o nome de Galás nos anais da história da música, fruto da sua voz visceral capaz de exorcizar demónios e da sua criatividade pianística que está tão à vontade no blues como nos devaneios libertinos.
Após o seu último registo ao vivo, “Malediction And Prayer”, datado de 1998, Diamanda Galás lançou edições sucessivas: “La Serpenta Canta”, editado no final de 2003, e “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, lançado em Janeiro de 2004, ambos discos duplos, a solo e ao vivo. Dois trabalhos que, apesar de distintos esteticamente, acabam por se complementar. “La Serpenta Canta” é um registo gravado ao vivo em Adelaide, Austrália, em 2001; trata-se, muito prosaicamente, de um recital de canções em que Diamanda Galás interpreta, acompanhada apenas pelo piano, standards de canções blues e soul de autores populares como Hank Williams, Ornette Coleman, Screamin’ Jay Hawkins ou The Supremes. Neste disco, Galás consegue a proeza de reinventar o espírito soul-jazz de temas clássicos como “My World Is Empty Without You”, “I Put a Spell On You” ou “Baby’s Insane”.

A cantora, respeitando as formas musicais dos originais, reorganiza-as harmonicamente, dando-lhes uma outra frescura tímbrica e, em suma, outra realidade sonora. “La Serpenta Canta” resulta, deste modo, como um dos trabalhos mais acessíveis e luminosos da autora de “Vena Cava”, onde até o formato canção é minimamente reverenciado. Com “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, a história é já outra, bem mais complexa, lírica e musicalmente. Este trabalho é remanescente da obra musical de Galás referente aos anos 80, isto é, à sua fase mais experimental e vocacionada para a exploração de uma temática específica. Da mesma forma que “Plague Mass” versava sobre as vítimas da Sida, este disco evoca o genocídio arménio e grego perpetrado pelo exército turco entre 1914 e 1923. Ou seja, novamente a veiculação de uma mensagem política incontestavelmente forte.
Diamanda Galás socorre-se de poemas e textos históricos arménios, gregos, espanhóis e hebraicos sobre o tema, colocando o dedo na ferida aberta que constituem, ainda hoje, estas atrocidades cometidas há um século atrás. A cantora e pianista aborda o assunto sem constrangimentos e pudores, salientando o sofrimento e a morte que tais acontecimentos representaram para todo um povo massacrado. Musicalmente, “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, caracteriza-se por ser o regresso às sonoridades ríspidas e cáusticas do início da carreira de Galás, misturando melodias religiosas com a voz poderosa e extrema, despoletando as emoções mais primárias de quem ouve tais cerimoniais de morte e estertor. Pelo meio da sua carreira Galás teve tempo de encetar uma notável experiência no rock mais convencional, com John Paul Jones, baixista dos Led Zeppelin, no álbum "This Sporting Life" de 1994. 2008 viria ao mundo "Gulity Guilty Guilty", um disco registado ao vivo com alguns momentos musicais de intensidade emocional arrebatadora.
No fundo, a música de Galás é um exigente testamento que serve para agraciar a alma de quem morreu. Como, por exemplo, a alma do irmão da cantora que morreu de Sida e, em última instância, a alma de todos nós que vamos morrer um dia
Diamanda Galás e John Paul Jones:


Diamanda Galás ao piano num clássico do blues:

3 comentários:

Spark disse...

É sem dúvida uma grande diva e um excelente post.

Abraço

Jorge Silva disse...

Fantástico post para uma artista fantástica.

Apenas para dar-vos uma pequena experiência pessoal.

A ultima vez que estive em Nova Iorque entrei numa loja de discos e comprei a cassette original do disco "Plague Mass".

Ao dirigir-me ao balcão para pagar a funcionária perguntou-me se eu teria ido ao espectáculo e eu respondo que não, não tinha.

Responde ela: "Eu estive lá nesse espectáculo e no final ainda falei com a Diamanda". (que inveja)

Surpreendente.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

É uma boa história, Jorge.